André Rodrigues*

Sonhei que conversava com dois sujeitos, brancos, meia idade, habitués de algum círculo profissional que não chegou a ser dito e do restaurante no qual a conversa ocorria, um restaurante de comida ruim e cara, comida servida para homens brancos que nunca puseram os pés numa cozinha, comida pesada e gordurosa feita por homens subalternos que nunca entraram na cozinha enquanto suas mães cozinhavam, uma comida que era um arremedo de comida de verdade. Diziam ser flamenguistas os dois, e falavam disso. (Digo que falavam eles, porque eu era aquele partícipe à margem da conversa, e a conversa deles era um ritual mal-ajambrado no qual eu era o iniciático, em situação liminar, testado para ser sugado pelo círculo do qual faziam parte).

Eram daqueles que transformam o futebol em uma coisa cerebral. Daqueles que citam de cor a escalação do time de 1952, quando nem mesmo eram nascidos. Pela relação que tinham com o Flamengo, eu supunha que eram eruditos em alguma área das ciências humanas. Aquele tipo de gente que estoca conhecimento e não faz nada com ele, como quem come demais não por prazer ou desejo, mas por algum cálculo financeiro acerca do valor da comida. Como quem se entope em rodízio de churrascaria cara, daquelas que cobram um quinto de salário mínimo por pessoa e servem carne marinada na cerveja como se fossem cortes uruguaios nobres. Se bem que, por vezes, a pompa dos dois se traduzia em um fastio imenso, um fastio absoluto. Não fossem as papadas apertadas pelos colarinhos e as barrigas que pressionavam os botões das camisas  – considerando, portanto, só o fosco das suas vistas –, poderiam parecer aqueles que passam fome de bolsos cheios só para ostentar uma frugalidade cênica que em nada corresponde à gula com que acumulam (ou desejam acumular) o que não lhes terá proveito. Aquela gente bem lavada, de mãos de seda, que pretende saber de tudo. Aqueles homens que têm uma agressividade sádica, covarde, baseada em rituais civilizados, de quem nunca levou um soco no meio dos cornos, de quem não grita, manda gritar, de quem não mata, manda matar. Eram aqueles eruditos da República Velha, eruditos de verniz, como um Dr. Barrado ou um Julião Tavares.

Um fazia as vezes de dono do restaurante, expressando certa hierarquia no que se refere ao tempo em que cada um costumava frequentar o local. Os dois falavam num tom de camaradagem que pretendia me constranger. Até que o suposto dono do pedaço sugere que o outro peça o especial de sempre e não me pergunta o que eu iria pedir. Esse foi o momento em que os dois me ignoravam de modo mais ostensivo.

Aquilo me lembrava de uma vez em que meus pais foram a uma festa na casa do patrão da minha mãe. Os adultos estão acostumados a pensar que as crianças não reproduzem certas hierarquias sociais, mas se enganam completamente a esse respeito. As crianças eram levadas, assim, a brincar todas juntas, enquanto os adultos seguravam as pontas de suas poses. Quanto mais abaixo na torre humana na qual escalam os ombros uns dos outros, mais sofrível é o figurino, mais custoso é o sorriso do subalterno diante das gargalhadas aliviadas dos chefes, coordenadores, supervisores, gerentes e todas as subclasses que estratificam as relações e suavizam a violência das dominações em jogo. Enquanto meus pais suavam a camisa, eu me espremia sob o olhar maldoso do filho do patrão. O menino rosado e gorducho me parecia um porco perfumado e fantasiado para o carnaval. Ele era, entretanto, o centro das atenções e esse lugar era recorrentemente reforçado pelos adultos que, nas bordas das dinâmicas infantis, vez por outra, afagavam o leitãozinho com gargalhadas elogiosas: Como era engraçado! Como era inteligente! Como era espirituoso! Como era (isso que mais me irritava) lindo! O leitãozinho não devia ter um pentelho ainda, mas já tinha uma namoradinha, uma ruivinha coberta de sardas. Ao contrário do que se passava com ele, minha percepção sobre ela não era de revolta, mas de submissão: Achei-a linda! A mais linda que já tinha visto! Passamos o dia na casa do patrão, que era um sítio grande, com piscina, muita área verde, de modo que as crianças, sob a batuta do leitãozinho, corriam de cima para baixo. Ao cair da tarde, fiquei sozinho com a ruivinha, no carro do patrão, onde tínhamos entrado para ouvir música. Ela me fez pensar que gostava de mim. Chegou a dizer isso com todas as palavras. Eu perguntava a ela pelo leitãozinho e ela dizia que eles não eram namorados. Eu tremia. Nada aconteceu, além de eu ter ficado mudo e escutarmos música por mais um tempo. O sítio era distante e dormimos na casa do patrão. Meus pais à salvo em algum canto distante da casa grande e eu na cova dos leões: no chão do quarto do leitãozinho. Porque os adultos, já tão desiludidos da igualdade, pensavam que ela era coisa de criança. De madrugada, enquanto pensavam que eu estava dormindo, ouvi o casal de leitões falando de mim. Ela contava como havia me iludido e eles riam. Eu fingia dormir para poder ouvir a conversa até o fim. Fingi com tanta convicção que o leitãozinho chegou a me cutucar com um pedaço de pau para verificar se eu estava mesmo dormindo. Como eu não reagia, ele ria mais e mais. Esse momento foi assombroso porque eu não sabia se o riso se ampliava pela certeza de que meu sono era pesado e, então, podiam falar à vontade ou se porque ele havia percebido que eu fingia dormir e se dava conta, portanto, de que eu escutava tudo, mas era incapaz de qualquer reação. Quando se calaram e dormiram, eu chorei em silêncio, um bicho ferido de morte. Não pude dormir. Pela manhã, esvaziei no vazo sanitário um vidro inteiro de um perfume caro que estava na pia do banheiro da suíte do leitãozinho. Contei as horas para que fôssemos logo para casa, antes que descobrissem minha pequena vingança.

A comida chega e o anfitrião começa a servir com pompas. Tudo salpicado de comentários ocos sobre o Flamengo. Na altura em que o outro começa a ser servido, eu meto o meu cardápio na beira de seu prato indicando o que eu queria pedir.

Era a quebra de quadro que eles esperavam. O dono do pedaço me olha diretamente pela primeira vez (antes só passava os olhos sobre mim com um riso cínico no canto da boca).

– Vou terminar de servir meu camarada aqui e já vejo o que você vai querer – disse ele.

Em seguida pergunta, como quem assopra depois de morder:

– E você afinal é Flamenguista? É um nacionalista?

Eu respondo em quase comício, acho que me levantando:

– Flamenguista! Nacionalista, nunca! Eu amo a língua e não a pátria (e lamento que o Caetano tenha copiado isso de algum lugar antes de mim). Amo a pátria imaginária, viva, mística, não oficial, ilegal, marginal. A pátria que é mistério vivo e não labirinto cerebral. Essa pátria que nos atravessa, que faz de nós cavalos de nossos irmãos, cavalos de iguais e não cavalos que carregam os poderosos no lombo. Com o Flamengo é o mesmo. Tenho interesse pela paixão e não por essa punheta intelectualista do vocês. Sou tragado pelo nacionalismo que é um jogo, um nacionalismo ficcional, uma nação que é legião de nações. Amo com as prerrogativas do amor: cego e lúcido. Como a comida das cozinhas nas quais se atualiza uma coisa qualquer ancestral e feminina. E não  essa porra gordurosa que vocês compram aqui.

Acordei por recusa de ouvir a réplica e o veredito dos babacas. Acordei porque não queria passar no teste. Eu queria acabar com o teste. Estão os dois mortos agora. Não fosse um sonho, talvez eu corresse para o banheiro, no lugar de ter feito esse discurso, para procurar um vidro de perfume caro para entornar no vaso sanitário.

* André Rodrigues é Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP/UERJ e Professor adjunto de pensamento político da Universidade Federal Fluminense (IEAR/UFF).

** Crédito imagem: <https://br.pinterest.com/pin/513269688765682668/&gt;. Acesso em: 08 set. 2017.

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