Álvaro Okura de Almeida*

Meus melhores textos são aqueles que não escrevi. Vez ou outra me ocorre uma ideia que parece, modestamente, genial. Imagino então o título, o tema, as frases de abertura e fechamento. Idealizo o formato, a linguagem, a plataforma, a disciplina em que tal tema seria de interesse, os interlocutores e até antecipo os debates entre tal e qual. Em geral esqueço ou me perco antes de chegar no papel, a ideia se mostra menos valiosa que de início, a preguiça me impede ou o texto simplesmente não flui, não rola.

Há poucos dias tive outra destas “grandes ideias”, envolvia a polêmica em torno do texto de Antonio Engelke, “Pureza e Poder”, publicado na Revista Piauí[1]. Texto grande para os padrões editoriais atuais, muitas laudas para leitores de manchetes e muito denso para polêmicas de Facebook. Sintomático da preguiça, da impaciência ou simplesmente da falta de tempo da maioria dos comentadores, quase tudo girou em torno da questão da interpretação da gíria da “lacração”, que apenas introduzia o texto e indicava, como que por metonímia, aquilo que deveria ser discutido: o fechamento do debate, a ideia de argumentos últimos e definitivos sobre qualquer questão.

O autor foi acusado de desconhecer o universo em que a gíria circula e ganha seu significado específico. Ignorância versada de erudição, deslegitimação injustificável de um termo que ganhava sentidos emancipatórios para grupos em situação de dominação, central – diriam os críticos – para o seu “empoderamento”. A discordância sobre o “lacre” que abria o texto parece que servia de justificativa para nem continuar a ler, para não levar a sério os argumentos do macho-hétero-branco-doutor de uma universidade do centro. “Só podia vir da ciência política”, mais um “mansplanning”, ouvi por aí.

O texto é corajoso porque não era difícil prever a reação. Colocar-se criticamente frente as estratégias e termos de movimentos sociais com pautas inquestionavelmente urgentes e necessárias sempre tem seus riscos. Por um lado, pode-se facilmente acusar o autor de fornecer munição a uma direita reacionária e ignorante, de alimentar com argumentos fortes a estupidez que insiste (ou pelo menos fecha os olhos) na violência, na discriminação e na desigualdade. O ponto, neste caso, é que reflexões “excessivamente teóricas” não deveriam servir para atravancar a luta política – sempre mais urgente, importante e necessária.

Se entendi bem, o autor tenta argumentar em torno do potencial violento de uma retórica e de uma política da identidade de tipo purista, das posições que pretendem fundamentar suas justificações a partir da exclusividade do lugar de fala. Dos riscos envolvidos na postura de legitimar seus próprios posicionamentos a partir do critério exclusivo do pertencimento a um certo grupo oprimido, subalterno, excluído. Se o critério é o pertencimento e a experiência, poderíamos nos ver encurralados num debate em que se é impossível chegar a um entendimento. Experiências podem ser irredutíveis umas às outras, os pontos de vistas não produziriam nada além de falas reivindicatórias a partir de seu próprio lugar de fala. Não quero, não lembro e não sou capaz de reproduzir com acuidade toda a argumentação do texto, mas é possível encontrar várias influências do chamado “pós-estruturalismo”. Seria possível reconhecer os espectros de Butler, Ranciere, Derrida, Laclau e Mouffe no conjunto de questões levantadas. Seria até mesmo interessante discutir como o argumento se aproxima de Vladimir Safatle – nosso filósofo – e sua proposta de uma noção “antipredicativa de reconhecimento”[2]. Autores curiosamente muito caros a toda discussão sobre os feminismos mais recentes e, em especial, às questões postas pela teoria queer. Mas o texto não invoca a autoridade e a forma do saber acadêmico em todas as passagens e talvez, por isso, não tenha sido reconhecido (lido) em seus próprios termos.

Para além da orelhada, não me parece que o autor tenha requerido um abandono da noção de lugar de fala, das políticas de redução da violência, da desigualdade ou do sofrimento baseado em identidades. Parece-me que qualquer pessoa de boa-fé reconhecerá que as “políticas para mulheres” são fundamentais num país em que se mata, estupra e violenta essa parcela da população em números astronômicos. O mesmo valendo para negros, LGBTs e outras identidades. Eu, por exemplo, não concordaria com a suspensão destas políticas, ainda que consiga concordar com o potencial de exclusão – e portanto, de violência – provocada pelo fechamento (enclausuramento) das identidades. Mas tratam-se de planos (ou camadas), temporalidades e discussões distintas: a política e a teórica. Que um movimento social possa colocar objeções fortes a esta distinção é compreensível, não compreendo que o façam aqueles que estão na filosofia, na teoria e nas universidades. Não vejo sentido em suprimir a lógica em nome da política. Assim como não há sentido em querer subordinar a ação política à reflexão filosófica. São esferas distintas, com demandas distintas. O precedente que se abre com tais concessões pode ser perigoso, um estímulo à violência, à exclusão e à ignorância. Sou capaz de concordar com “Problemas de Gênero”[3] e caminhar lado-a-lado com a “União de Mulheres”[4], sem ver nisso uma contradição, hipocrisia ou cinismo.

Creio também que o texto não faz apelo a um tipo de razão universal, situada na estratosfera da filosofia desencarnada, descolada nos vários pontos de vista e lugares de fala. Penso que há o reconhecimento da importância destes para nos colocarmos no lugar dos outros, compreender seus pontos de vista, a partir de experiências, sensações e impressões e que a nós seriam impossíveis. Impressões e compreensões que dependem das condições sociais e experiências subjetivas e que, por isso, variam muito entre grupos e de sujeitos para sujeitos. Cada self é constituído num conjunto de contingências únicas. No entanto, a multiplicidade de percepções, impressões e compreensões sobre um mesmo “fato” derivadas dos diversos pontos de vista não deveriam nos levar a abrir mão da pretensão em chegarmos a um entendimento. Entendimento e não consenso. Uma espécie, pensando em Habermas, de razão dialógica, capaz de dar voz aos diversos pontos de vista. Não é possível ceder à tentação de querer ter razão sem praticar nenhum exercício de convencimento.

O problema de um certo radicalismo baseado na tese do “lugar de fala”[5] é que pretende ter razão exclusivamente por sua posição subalterna, de quem conhece melhor do que ninguém as experiências da dominação e da exploração, da desigualdade e do estigma. O lugar desfavorável socialmente torna-se o super-trunfo teórico, o privilégio ao qual nós não seríamos capazes de acessar e que caberia unicamente respeitar, ainda que a estrutura da argumentação seja simplesmente absurda ou incoerente. Não consigo ver razão para dar razão a quem simplesmente não se interessa por razões, apenas por lugares. Não me parece razoável.

Como disse, os melhores textos são aqueles que não escrevi. A primeira ideia era construir um texto na forma de testemunho, uma confissão. Estaria disposto, neste texto que nunca veio, a me colocar no meu lugar. Homem, paulistano, branco, classe média, estudante de escola particular e universidades públicas durante toda a vida, doutorando, heterossexual e relativamente jovem. Pensei em oferecer a perspectiva de quem foi posto a pensar estas questões já muito tarde na vida pessoal e acadêmica. Gostaria de dizer como foi a criação na casa, a ausência dos trabalhos domésticos, a diferença na educação dos meninos e da menina da casa, o modelo de família e de casamento. Queria também falar de minha adolescência – de como era comum – tratar com desprezo as prostitutas, “os” travestis. Como, em determinado momento, parecia engraçado humilhar e jogar ovos na Avenida Indianápolis. Como foi dolorido perceber, aos poucos, muito pouco, que o machismo, a misoginia, os padrões do patriarcado, as regras do sexo e gênero haviam composto a minha personalidade, meus valores, minhas escolhas e minha trajetória. Como era óbvio, porém nada trivial, perceber que a (minha) violência machista incidia sobre aquelas a quem mais amava: mãe, irmã, amigas, companheiras. Como ainda me pego reproduzindo pequenos ou grandes atos de “machismo” ou “misoginia” ainda que pense nestes termos há algum tempo.

Sobre o meu melhor texto: não fiz, não farei, não teria coragem, morreria de vergonha, ocultaria certamente os fatos mais graves ou perturbadores. Mas tenho convicção – e posso estar bastante enganado – que serviria para mostrar a importância do aprendizado e da persuasão, do convencimento, do debate aberto e desarmado, da busca por boas razões para deixar de instrumentalizar conscientemente a posição de privilégio que ocupo.

Por isso, minhas amigues companheirxs de luta, espero que nunca mais me digam que não me ensinarão aquilo que eu já deveria saber. Eu preciso saber, eu quero saber e não vejo outra forma de lhes dar razão quando me acusam de qualquer tipo de violência. Sei que é uma tarefa chata, pede que tenham paciência, muita paciência.

Os tempos que se avizinham são nebulosos: é golpe, “ideologia de gênero”, “escola sem partido”… Estamos certamente do mesmo lado, ou melhor, no mesmo barco. Quem sabe mudar a bússola dos afetos que nos movem no pensamento e na ação política: da caça ao inimigo à amizade na diferença. Busco os elos que possam, solidariamente, costurar os diversos pontos de vista e lugares de fala num entendimento mais amplo da esquerda democrática. Por isso coloco-me no “meu lugar” mas, por favor, não façam disso o motivo para me negar a voz e qualquer possibilidade de razão nestas questões.

*Álvaro Okura de Almeida é doutorando em Ciência Política no IFCH-UNICAMP, além de colaborador da Escuta.

Imagem disponível em http://kultme.com.br/kt/2016/06/06/curso-de-criacao-literaria-para-jovens-escritores-de-14-a-18-anos-tem-inscricoes-abertas/. Acesso em 05/11/2017

Notas

[1]     http://piaui.folha.uol.com.br/materia/pureza-e-poder/

[2]     SAFATLE, V. Por um conceito antipredicativo de reconhecimento. Lua Nova, São Paulo, 94: 79-116, 2015. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ln/n94/0102-6445-ln-94-00079.pdf

[3]     Livro de Judith Butler.

[4]     http://www.uniaodemulheres.org.br/

[5]     Não quero com isso dizer que não existem argumentos substantivos para a defesa do “lugar de fala”. O ponto é apenas chamar a atenção para os problemas da radicalização quando não há acordo quanto ao princípio do diálogo. A legitimidade das decisões democráticas depende – pelo menos idealmente – de que todos os concernidos pelas decisões possam ser ouvidos. Para que os sujeitos sejam autônomos, devem ser capazes de viver de acordo com suas identidades e convicções. Também é ilegítima a ordem política em que certos sujeitos ou identidades não possam se manifestar ou se fazer entender, em que não há o seu reconhecimento.

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