Maro Lara Martins*

Vira e mexe, o debate sobre a sociologia modernista retorna à agenda pública. Especialistas debatem os significados e adjunções teóricas herdadas por esta experiência intelectual periférica, certa sensação de desajuste, ou mesmo certa necessidade de se revisitar o momento crucial no processo de nossa revolução passiva, a modernização conservadora dos anos 1930/1940. Mas pouco se debate teoricamente sobre este vai-e-vem, e sobre as possibilidades criativas das proposições, caindo-se em geral, em um debate sem profundidade analítica, mais opinativo que rigoroso, resvalando às vezes, em certa ingenuidade ou mesmo descambando em confronto entre surdos, um verdadeiro debate pastelão que não acrescenta muito, a não ser animar as rodas de conversa nos botecos da vida. As extrapolações são tamanhas que, muitas das vezes, o critério de cientificidade (ainda não sabemos muito bem o que isso quer dizer) e as artimanhas da sociologia modernista, cujo ensaio é o suporte de escrita preferido, explodem, por si próprios, a candura daquele que se projeta em cima deste objeto de estudo armado por concepções tradicionais de cientificidade e hierarquias de saber.

Em certa medida, as características gerais da historiografia e da teoria social no encadeamento da apresentação das interpretações sobre o mundo se amparam em construções de narrativas específicas sobre o objeto de estudo ao qual se propuseram estudar. Certamente, nos últimos anos, o debate sobre a ficcionalidade, a inventividade e a criatividade do analista sobre tal empreendimento tornaram à tona as difíceis relações entre a perspectiva de objetividade e neutralidade do pensamento científico, chegando em alguns casos, a se estabelecer as possíveis similitudes entre este tipo de conhecimento e a literatura, por exemplo. De todo modo, os impasses advindos deste tipo de reflexão ampliariam o escopo da teoria social e da própria epistemologia científica no campo das humanidades. Mais do que estabelecer a crítica frontal ao pensamento herdeiro de certo positivismo científico, a abertura que esta perspectiva trouxera, levara a uma reformulação das bases pelas quais a teoria social e a historiografia teriam que se mover, ampliando as opções analíticas disponíveis à própria constituição destes campos de conhecimento. O debate sobre a cientificidade das análises ou da correspondência íntima entre teoria, exposição das ideias e empirismo, nos últimos anos, acabara por forçar tais disciplinas a um contato mais íntimo com áreas mais móveis do conhecimento, como a filosofia, a crítica literária e a crítica cultural, aumentando a demanda pela interdisciplinaridade. O ensaio como suporte de escrita e como meio para a interpretação sociológica acabaria por revelar os rendimentos teóricos que a sociologia modernista estimulara no debate público, especialmente nas suas florações ao longo do século XX.

Para se traçar os elementos centrais da teoria social proposta pela sociologia modernista, o primeiro passo é a atribuição e desvendamento dos principais temas aos quais tal sociologia dedicou. O segundo passo, é a possibilidade de admissão de uma interpretação que leve em conta o diálogo com estas obras para a formulação de uma teoria social, que dialogue em seu duplo sentido: contextualista e formal. Contextualista, ao propor uma análise que leve em consideração os aspectos que permearam o debate e as proposições da sociologia modernista em seu tempo de atuação, e formalista, ao intentar retirar de suas proposições iniciais, uma teoria social extemporânea à própria sociologia modernista, mas que com ela dialogue e se fundamente.

Esse exercício interpretativo e construtivo, deve partir de seus elementos sincrônicos, pela floração da sociologia modernista, quanto diacrônico, pela constituição de uma interpretação do país. Essa interpretação, conduziria ao estabelecimento de dois elementos centrais e constitutivos da teoria social: o espaço e o tempo. Elementos que estariam na base da constituição de uma espécie de cronótopo. Inicialmente, reporto-me à definição de Mikail Bakhtin, segundo a qual o cronótopo designaria a interligação fundamental das relações temporais e espaciais, artisticamente assimiladas pela literatura. Expressaria, dessa maneira, a indissolubilidade do espaço e do tempo enquanto índices da imagem-narrativa.

O princípio condutor do cronótopo, segundo o teórico russo, seria a unificação tempo-espaço. Ademais, teria por função literária a organização dos acontecimentos narrativos e a demonstração dos mesmos mediante a condensação e a concretização dos índices do tempo – tempo da vida humana, tempo histórico, tempo social, etc. – em regiões definidas do espaço. Em última instância, configuraria a imagem-narrativa de tudo aquilo que seria estático-espacial, inserindo-o em uma série de mobilidade temporal a propósito dos acontecimentos entrelaçados no enredo. Transposto para uma análise sobre a historiografia e sobre a teoria social a perspectiva do cronótopo abriria dois elementos importantes de debate se decompostos, os índices de tempo e de espaço, que se sintetizariam pela ação dos personagens da trama, sua figuração, e pela constituição do espaço da figuração, a cartografia semântica.

Desta forma, se realizaria um triplo movimento para a montagem da teoria social. Em primeiro lugar, a apreciação dentro das interpretações sobre o pensamento social brasileiro a partir do tema do espaço, associando-o em seguida, à busca de uma definição do sentido da cartografia semântica elaborada na conjunção entre a teoria social e o próprio pensamento social brasileiro. Em segundo lugar, a esquadrinha dentro da teoria social dos sentidos e possibilidades da perspectiva de figuração como eixo interpretativo do pensamento social brasileiro e do país. E por fim, a apreciação geral da conjunção entre cartografia semântica e figuração na recomposição da ideia de cronótopo elaborada por Bakhtin e sua aplicabilidade à interpretação do pensamento social brasileiro em geral, e da sociologia modernista em particular.

Partindo destas considerações e desta perspectiva aberta pelos estudiosos do pensamento social brasileiro, da teoria social e da história das ciências sociais, seria a partir desta dualidade básica, que se construiria a formulação de uma cartografia semântica na teoria social periférica, que levaria em conta essa dupla dimensão: física e simbólica na arquitetura do imaginário constituinte da interpretação. Em sua radicalidade abarcaria o processo pelo qual a apropriação do espaço natural se realizaria pela intervenção humana, resultado e condição da dinamicidade de relações entre esta ação sobre o meio, seja por suas necessidades materiais, imateriais, econômicas, sociais, culturais, afetivas. Teria papel simbólico, mas também funcional.

Dito isso, a perspectiva da construção de uma cartografia semântica não diria respeito apenas ao conteúdo em si do território ou da paisagem, mas ao modo como este conteúdo seria significado e interpretado por diferentes intérpretes, revelando sua tessitura. Esta tessitura se definiria por uma relação de contraste e avaliação entre lugares diferentes, modulando as diferenciações espaciais tanto em formas como conteúdos. Ademais, a concepção sobre o território se caracterizaria por sua remissividade e constrastividade com outro território ou paisagem. Na medida em que a construção desta peculiar imagem sobre o território, possuiria como elemento chave o poder de representar e classificar os lugares de acordo com interesses, aspirações, sentimentos, sempre agenciada pela trama de relações que constituem à interpretação, assim, o modo de representação do território, esboçado pela cartografia semântica, funcionaria como uma rede, uma teia de relações sociais e de poder.

Se o território possuíra tais características na montagem desta cartografia semântica, restaria definir a incidência da figuração neste processo, estruturante da atuação dos grupos sociais, dos diferentes tipos de sociabilidade, de interesses e virtudes, que preencheriam de densidade o fundo básico estabelecido pela cartografia semântica.

Em relação ao conceito de figuração este se refere à teia de relações de indivíduos interdependentes que se encontram ligados entre si a vários níveis e de diversas maneiras, sendo que as ações de um conjunto de pessoas interdependentes interferem de maneira a formar uma estrutura entrelaçada de numerosas propriedades emergentes, tais como relações de força, eixo de tensão, sistemas de classes e de estratificação, formas de solidariedade e autoridade social. Para Norbert Elias, a figuração apresentaria uma forte imbricação entre subjetividade e estruturas sociais e históricas. Para ele, não seria possível pensar em ações individuais fora das estruturas sociais que as tornam possíveis ou que as obstaculizem. As figurações seriam formas de relações historicamente constituídas, sociologicamente vivas, e ao suas alterações e transformações desembocam em concernentes contrafações na organização social e nas subjetividades. Pela sua natureza dinâmica, a figuração não se restringiria a uma descrição, no sentido técnico e narratológico do termo, nem mesmo a uma caracterização, embora esta possa ser entendida como seu efeito elaborado. A rede de interdependência, estruturante e estruturada pela e através da figuração, se movimentaria através do resultado de tensões e conflitos pelo poder entre grupos ou indivíduos com funções diferentes nesta rede. Indo mais além, a concepção de figuração atrelaria a atuação de personagens na montagem da historiografia de modo a protagonizar alguns grupos em detrimento de sua atuação nesta rede de interdependência.

Retomando as teses de Oliveira Vianna sobre nossa formação colonial, podemos afirmar que do meio geográfico e do latifúndio derivariam as principais características sociológicas da colonização, o poder público fragmentado e sua dinâmica propiciando o desamparo jurídico e político do homem comum. O clã rural se apresentaria como a unidade social agregadora, geradora do que ele chamou de “solidariedade clânica patriarcal”.

No fundo, autores como Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Nestor Duarte e Afonso Arinos, apontariam os elementos da vida rural brasileira, com suas características particulares: o isolamento das suas unidades, a ausência de mercado interno entre setores, a relativa fraqueza dos centros urbanos e de seus personagens, a falta de estradas e comunicação, a ausência do Estado como normatividade de direitos públicos internalizados, as vicissitudes da colonização e do colono, a aventura e a rotina com seus

Cada núcleo rural, ou cada complexo entre a casa grande e senzala, para ficarmos na expressão de Gilberto Freyre, seria um microcosmo social, um pequeno organismo coletivo, com aptidões cabais para uma vida isolada e autônoma. Estes fenômenos em questão, com suas matrizes culturais e sócio demográficas, permitiria a sociologia modernista, a partir de suas ferramentas conceituais, interpretar o modus operandi de certas estruturas oligárquicas de dominação, as quais seriam incompatíveis com a constituição de uma democracia liberal e resultariam altamente efetivas para a aquisição, a organização e o exercício do poder. O protagonismo de determinados personagens, e sua figuração, constituiriam a base das inter-relações entre política e sociedade.

Este tipo de solidariedade clânica, ligada a nosso passado histórico não parecia, aos seus olhos, destinada a desaparecer como simples consequência do desenvolvimento ou da modernização no campo político, seria como uma constante cultural, uma espécie de amalgama da psicologia coletiva nacional. A existência desse padrão de dominação envolto na inexistência de uma articulação espontânea de interesses dos grupos sociais com os aparatos do Estado, que por sua vez, obrigar-se-iam a interagir com esses grupos sociais, através de estruturas verticais de poder, em cujo topo se encontraria o chefe do clã rural, o senhor de terras, ou o patriarca, dependendo da nomeação que este personagem teria em cada obra, e demarcaria esse processo civilizatório.

Ficaria latente para o ensaísmo sociológico, que o poder político e o poder social se organizariam piramidalmente, de modo tal que, cada chefe rural se conectaria a outro de forma a montarem uma estrutura de dominação articulada mediante o intercâmbio de reciprocidades, como nas análises sobre os problemas da pupilagem política pela gratidão e amizade, questões relacionadas a uma ética da cordialidade, a especificação dos pontos nodais do patriarcalismo, o fracasso do ideário liberal entre outras questões.  Concluiriam que neste tipo de atividade política, não se teria desenvolvido a ideia de um interesse nacional ou público, transcendente aos interesses imediatos e particulares. Nessa atividade política teríamos ao invés disso, a concepção meramente partidária e excludente, exercida e consumida estritamente dentro do pequeno círculo do grupo, do clã, da facção, do diretório local, da família.

A partir do latifúndio e da vida rural, o tipo de solidariedade que se formava, a estabilidade que giraria em torno dos grupos familiares, os quais permitiriam que se formasse uma trama de relações sociais estáveis, permanentes e tradicionais, tendo na figura do pater famílias a ascendência patriarcal, o patrimonialismo no trato da esfera pública, a subjugação de interesses privados sobre o interesse público, a composição de uma ética social baseada no sentimento. Tudo isso animava a análise da dinâmica de um passado que a sociologia modernista, sua sociedade e seu Estado consideravam como seus.

A grande propriedade rural e consequentemente a noção do exclusivo agrário e da função simplificadora dos latifúndios, tornaram-se fundamentais nesse modelo explicativo sobre as condições nas quais a solidariedade e os interesses foram constituídos no peculiar caso brasileiro. Guardadas as diferenças, esses intérpretes do Brasil perceberam que esta função simplificadora impediria o comércio e a emersão de uma burguesia comercial ou uma classe industrial, que se concentraria no litoral ou nas pequenas cidades do interior, mas sem nenhuma força política. Assim, entre a classe dos trabalhadores livres e a aristocracia senhorial os laços não se constituiriam solidamente, acentuada pela inexistência de uma classe média do tipo europeia.

Em conjunto, mas não como unidade, e para além do contexto intelectual do qual emergiram tais diagnósticos, a nota distintiva da sociologia modernista, ao operacionalizar conceitos como patriarcalismo, familismo, patrimonialismo, personalismo, agnatismo, clientelismo, e a miríade de empecilhos privatistas consignados em seu ideário, é a posição decisiva na constituição da vida pública de sua sociedade. Na tradição do pensamento político-social brasileiro, a aparição deste tema é recorrente, se levarmos ao pé da letra, se encontra posições que vislumbraram essa via de interpretação no século XIX, mas a sociologia modernista lhe daria novos conceitos e novas assertivas. Nestes termos, a aparição recorrente de uma vida pública assim concebida pode ser equacionada quer como manifestação de leituras da realidade datadas e definitivamente superadas, quer como legado de interpretações em maior ou menor grau verossímeis. No entanto, ambas as alternativas se tornam insuficientes para uma análise mais profunda. Em primeiro lugar, porque essa forma de abordagem da vida pública no país continuaria a ser reproduzida, tanto nos meios especialistas como pela sociedade em geral. Depois, porque se tomaria como dado aquilo que deveria ser objeto de maiores indagações, na relação entre teoria e realidade, entre as explicações sobre a incapacidade da separação entre público e privado realizado por esta tradição de interpretação e sua consequente verificação enquanto elemento central do andamento moderno brasileiro.

Ao invés de pressupor uma caracterização da vida pública como assente ou superada no plano histórico ou analítico, parece mais produtivo problematizar seu papel como expediente explicativo da configuração ambígua do espaço público brasileiro, tomando como eixo de análise as categorias do interesse e da virtude. A recorrência deste tema aparece posto pela bibliografia e pelo objeto de estudo em uma dupla vertente. Por um lado, no plano das ideias cabe exame nuançado de modo a reconstruir a especificidade da perspectiva de abordagem e entendimento do espaço público pela sociologia modernista dos anos 30, ou seja, sua emergência, cristalização, reprodução e forma analítica de proceder. Por outro lado, a centralidade deste tema pode ser explorada como um fenômeno em que transparecem dilemas fundamentais da configuração do espaço público brasileiro em sua contraparte privada, realçando algumas dificuldades históricas suscitadas pela irrupção do Estado moderno em ambientes periféricos.

Dito isso, uma reflexão sobre o modo de orientação das condutas, das percepções, dos modos de pensar e agir, cravados nas interpretações da sociologia modernista dos anos 1930, retiraria suas características próprias de certos condicionantes históricos da relação entre o mundo público e o mundo privado fincado na história e na sociologia de sua sociedade, em suas determinações culturais, ora definindo as feições mais pujantes do caráter brasileiro, como uma sociedade amenizadora das diferenças, ora condensando o que deveria ser público ao personalismo, à asfixia diante da hipertrofia do mundo privado, à amoralidade dos costumes, ao patrimonialismo, ao familismo, à insolidariedade social, à indistinção entre o público e o privado, ao clientelismo e à precarização dos direitos ou de qualquer arranjo de normas com pretensões de universalidade.

Neste momento, o passado seria importante para definir os rumos desta sociologia da contemporaneidade. Sociologia essa que exprimiria de fato um caminho alternativo do andamento moderno através de suas dicotomias: campo e cidade; rural e urbano; litoral e sertão; centro e periferia; público e privado; interesse e virtude; iniciativa e inatividade; empreendimento e cometimento; vontade e contingência, em uma difícil síntese. A tese possuiria seu lugar, ao reanimar as tradições, a coloca-las sob a chave da influência na contemporaneidade. A antítese, a conjugar a novidade e as possibilidades abertas pelo desenrolar histórico, inclusive seu futuro. E ao sair de dentro do modernismo, essa sociologia, e em certa medida o pensamento social e político latino-americano, carregaria essa contradição como fundamento da sua modernidade, em especial, na forma como abordou seus territórios e seus personagens postos na ação da história, exacerbando uma cartografia semântica e uma figuração de seus personagens.

Dito de outra forma, ao procurarem explicar essa difícil síntese, conheceriam a modernidade brasileira, e generalizando, a modernidade latino-americana, no sentido de contemporaneidade e historicidade, e isso sob a ótica de uma espécie de modernidade alternativa. O campo possuiria sua sociologia, seus personagens principais, com sua subjetividade, sua atuação no mundo. O latifúndio como fundo para as ações realizadoras de interesses e virtudes para o fazendeiro, o escravo, o capanga, o homem livre comum, o tempo lento no seu desenrolar a incrustar a vida social e a estabelecer certos tipos de solidariedade e interesses. A cidade, local das inter-relações sociais e lócus do tempo célere, da iniciativa, da volúpia do viver moderno, dos seus personagens liberais e de sua sociabilidade muitas vezes subsumida ao mundo rural e incapaz de encontrar terreno fértil para o seu avanço.

A compreensão da cidade e do mundo rural passaria pela análise de todos os elementos que comporiam o seu quadro: terra, água, clima, homens, civilização, cultura, arquitetura, trabalho, ideias, símbolos. O campo e a cidade não seriam apenas materialidade, possuiriam uma dimensão simbólica, subjetiva, que também atuaria na construção de suas formas espaciais. A significação do espaço, urbano ou rural, conferiria aos indivíduos e coletividades, unidade e identidade com o seu entorno, em uma espécie de estruturação sígnica do espaço.

Cada local estruturaria uma espécie de cartografia semântica, que atribuiria a um determinado tempo-espaço, certos modos de viver, pensar e experimentar o mundo, certos tipos sociais, certa solidariedade, certa constituição de interesses e virtudes em sua sociabilidade, marcada no Brasil, através do modernismo e de sua sociologia modernista, por certa inventividade e certo pragmatismo, pensados a dialogicamente desvendar essa alternativa à modernidade central.

Invenção seria uma das bases centrais de articulação dos argumentos expostos, especialmente se levar em conta a experiência intelectual periférica advinda da posição constituinte do sistema-mundo e sua geopolítica do conhecimento. Pragmatismo, outra base sobre a qual repousaria este tipo de interpretação, possibilitaria à sociologia modernista lidar com as questões de sua contemporaneidade ao explicitar sua historiografia e sua imaginação sociológica ancoradas no senso de realismo dominante no contexto.

O ensaio seria o suporte de escrita e o modo de ordenação das ideias propícios a este tipo de reflexão por dois fatores centrais. Em primeiro lugar, por suas características internas, como sua maleabilidade, sua abertura, sua imediatez, sua contiguidade para o espaço público, sua composição entre objetividade e opinião pessoal. Em segundo lugar, na sua relação com a experiência intelectual de regiões periféricas do sistema-mundo, especialmente nas bases centrais aludidas como essenciais na articulação e florescimento da sociologia modernista, a invenção e o pragmatismo, tanto no campo da teoria social como na percepção do desenvolvimento alternativo da modernidade.

As diferentes florações da sociologia modernista confirmariam a alteração na episteme dentro da geopolítica do conhecimento ao explorar os diferentes modernismos que compuseram a modernidade. No caso específico brasileiro, o modernismo enquanto fenômeno cultural deitaria raízes em finais do século XIX, e se nacionalizaria a partir da década de 1930. Seria a confluência entre o campo da cultura e do Estado em relação dialogicamente estabelecida, mas constituidor de uma geopolítica do conhecimento interno, extravasando a heteronomia e originalidade do modernismo em regiões periféricas, que não se constituiriam em semelhança com o modernismo de outros locais. O modernismo brasileiro, neste processo de nacionalização, comporia ao lado do corporativismo, o elemento transformista para a revolução passiva brasileira.

Movimento de intensidade histórica, de longa duração, que conheceria nos anos 1930, sua forma de modernização conservadora, pelo alto, controlada pelo Estado, que estabeleceria certos limites de ruptura. Completando assim, sua relação com o modernismo que lhe serviria, através da técnica, estética e da ética modernista sua funcionalidade naquele contexto. A floração da sociologia modernista deste período, ao contrário da floração anterior, estabeleceria com o processo de modernização brasileira sua íntima conexão. Por vários fatores, entre eles, sua imersão no funcionalismo público e na ampliação do mercado editorial, com as diversas coleções de interpretação do país, bem como na apropriação do Estado pelos seus fundamentos estruturantes.

Dotados destas características, os personagens da historiografia ganhariam inteligibilidade e plausibilidade na armação da teoria social que conduziria essas interpretações que buscariam a história como método compreensivo e analítico de sua sociedade e de seu Estado. O recurso à historiografia e sua consequente direção à filosofia da história, em especial ao tema de seu sentido e direcionamento, em sua busca pela meandros do desenrolar do tempo histórico, abriria para a sociologia modernista a contemporaneidade e a historicidade inerentes à adoção desta estratégia interpretativa.

Estratégia que postularia, enquanto constituição de teoria da interpretação, os fundamentos e conceitos da sociologia como os mais capacitados para se revelar à origem e a originalidade do país e de sua história. Constituiriam uma tradição de interpretação, a partir de suas diversas florações, que possuiria algumas características elementares: a utilização da história como método de análise, a dualidade e constrastividade interna e externa, a utilização do ensaio como forma de reflexão, a postulação da modernidade alternativa, a crítica ao eurocentrismo, e, a construção da própria sociologia brasileira.

Sociologia brasileira que viria a se constituir através destes ensaios, realizada por polígrafos, mas que conteria os germes de sua interpretação sociológica do Brasil conectados aos aspectos básicos de um esforço interpretativo que ganharia repercussões inefáveis no desenrolar da imaginação sociológica do país. Por seu ativismo e sua palavra pública, adentrariam o mundo das elites e do Estado, criticando-os por dentro, ressaltando esse aspecto heteronômico do modernismo central brasileiro. Modernismo que conceberia sua narrativa sobre o país, sobre sua sociedade e seu Estado.

O protagonismo advindo da ruralidade e seu desdobramento em solidariedade, autoridade e composição dos interesses, certamente constituiria tipos sociais específicos, que levariam, ou poderiam estabelecer, o tema da identidade nacional. O nacionalismo reverberava entre as posições interpretativas, dando-lhes estes caracteres de interpretação culturalista do país, mas não se restringiria nas suas conclusões isolado ou autônomo do mundo da política, que traria consigo o tema da atuação destes tipos sociais específicos da história brasileira através das relações entre público e privado.

Dito de outra forma, essa busca pela ontologia social, através da sociologia modernista não ficaria restrita ao mundo da cultura. O tema da identidade nacional, informado pelo nacionalismo, certamente seria constituidor desta interpretação do país, mas extrapolaria sua figuração para outras áreas, não somente à temas da subjetividade ou da psicologia social. Importaria sobretudo, a atuação destes personagens, tipos sociais, na história brasileira, no seu mundo público, na formação de seu Estado. Isolada desta análise mais ampla de atuação, e constituição de sua ação social e política, os diferentes personagens perderiam sua densidade, não comporiam as atuações que poderiam definir os rumos desta história.

Se em torno da cartografia semântica em relação ao mundo do campo e da cidade, seu imbricamento em temas como a solidariedade, a autoridade, a liberdade e a igualdade, a sua figuração, em torno de personagens compósitos e portadores de determinados interesses e virtudes, demonstraria que a preocupação geral da sociologia modernista extrapolava os critérios de uma interpretação estritamente culturalista do país. Os conceitos centrais e mobilizadores, como patriarcalismo, patrimonialismo, agnatismo, familismo, entre outros mobilizados, serviriam para aclarar as configurações das relações entre Estado e sociedade. Relações que poderiam ser imiscuídas no processo de formação da comunidade política, na burocratização do poder público, na formação de solidariedades sociais conectas à tais tipos de autoridade, na constituição de subjetividades.

A adoção desta postura interpretativa conceberia como eixo de análise as relações entre a sociologia política a subsumir certa sociologia cultural. Afinal, por si só, o tema da identidade nacional não revelaria os dilemas da contemporaneidade da sociologia modernista dos anos 1930, em especial na formação de seu Estado pós-1930, por outro lado, as análises perderiam sua densidade analítica e sociológica se perdesse de vista o âmbito da caracterização cultural constituída pela historicidade, em especial pelo seu modernismo, plástico a adentrar nestas comparações entre distintas temporalidades. Ainda que se aceite certa polêmica em torno da constituição de matrizes imutáveis ou lineares de se conceber a história e a sociologia deste país, parece forçoso não reconhecer a dinâmica e o movimento elaborado pela sociologia modernista, mais sob o ponto de vista de florações, com suas múltiplas raízes, do que propriamente em linha reta. Menos na perspectiva de uma análise ortodoxa de verificação de certa cientificidade, a escrutinar relações (ainda que suspeitas) entre teoria e empiria,  do que constituidora de um momento crucial para se entender o Brasil contemporâneo, em sua dimensão de historicidade, e na proposição construtiva da atual teoria social.

*Maro Lara Martins é doutor em Sociologia (IESP/Uerj), professor da Universidade Federal do Espírito Santo, e colaborador da Revista Escuta.

 

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