Fernando Perlatto*

É sempre uma experiência notável a leitura de uma obra do escritor norueguês Karl Ove. O quinto volume da sua série autobiográfica Minha Luta, intitulado A descoberta da escrita, publicado mês passado pela Companhia das Letras, corrobora a potência da sua escrita. Se os quatro livros anteriores traduzidos para o Brasil já evidenciavam a força de sua prosa seca e densa, que tem como suas marcas principais, de um lado, a mistura refinada entre memória e ficção, e de outro, o olhar atento aos acontecimentos costumeiros do dia a dia, a partir da narração de ações prosaicas, corriqueiras e cotidianas, neste quinto volume todas estas características ficam ainda mais afiadas. O resultado final é um livro potente naquilo que apresenta de aparentemente banal, atravessado por uma escrita de si constrangedoramente sincera, verdadeira, que traga o leitor para as lutas internas, as batalhas subjetivas e os dilemas vividos pelo jovem Karl Ove em seu processo de formação como escritor.

Em ensaio intitulado “A complexidade do cotidiano”, publicado em 2015 na revista Pittacos, como ocasião do lançamento do terceiro volume da série, A Ilha da Infância, procurei refletir sobre a singularidade do monumento literário erguido por Karl Ove na série autobiográfica Minha Luta. Naquela ocasião, buscava chamar a atenção para de que maneira sua prosa torna o cotidiano repleto de complexidade: nas suas páginas, “do pouco nasce o muito, do rudimentar brota a beleza, da irrelevância germina o requinte”. Nessa perspectiva, destacava que “menos do que o enredo em si, o que chama a atenção dos livros do norueguês é a forma da sua escrita, a maneira livre e solta como apresenta as trivialidades e as banalidades da vida comum, conferindo-lhes graça e cor, ensejando o interesse do leitor pelas minúcias e ações comezinhas. A abordagem refinada das trivialidades, dos acontecimentos miúdos do dia a dia, olhando-os não de uma visão panorâmica, mas a partir de uma lupa que escancara os detalhes microscópicos e as tensas teias e redes de relações sociais, é, sem dúvida, o ponto alto desses volumes. A narrativa da preparação de uma comida, de uma conversa banal com um conhecido ou de um trago de um cigarro pode consumir mais de dez páginas, sem que, como era de se esperar, o leitor se aborreça e desista do livro. Pelo contrário. O leitor pede mais cotidiano, pede mais banalidade, pede mais o simples, pois sabe que lá, remexendo-o, encontrará a complexidade”.

As mais de seiscentas páginas de A descoberta da escrita confirmam a força da prosa de Karl Ove. O livro cobre um período fundamental da vida do escritor, entre 1988 a 2002, nos quais Ove viveu dos seus 19 aos 34 anos, sobretudo em Bergen, Noruega, para onde se deslocou após ter sido aceito na Skrivekunstakademiet, um curso de formação de escritores. Vários dos elementos dos demais livros estão aqui presentes – as relações com os amigos e familiares, em especial a tensão com o pai alcóolatra; a admiração e a proximidade com o irmão, Yngve, que ganha um destaque muito central durante toda a narrativa; a conexão com a música; a relação complicada com o abuso do álcool, as consequências e os arrependimentos de ações absurdas realizadas em decorrência do excesso de bebida –; mas esses elementos são todos abordados a partir de novas cores e contornos, pois são narrados em um momento muito especial da vida de Karl Ove, marcado, por um lado, pelo início de relacionamentos amorosos mais duradouros com algumas mulheres importantes de sua vida, como Ingvild, Gunvor e Tonje; e, por outro, pela decisão obstinada de se tornar um escritor, que é, sem dúvida, o aspecto mais interessante do livro.

Diversos escritores se dedicaram à reflexão sobre seus processos de descoberta da escrita, abordando os caminhos, muitas vezes repletos de obstáculos e dificuldades, que lhes conduziram à ficção. A título de exemplo, é possível mencionar algumas obras recentemente traduzidas para o Brasil, como os livros Sobre a escrita, de Stephen King (Suma de Letras, 2015), Os fatos, de Philip Roth (Companhia das Letras, 2016) e Romancista como vocação, de Haruki Murakami (Alfaguara, 2017). É interessante contrastar, nesse sentido, A descoberta da escrita, de Karl Ove, com o livro de Murakami, também traduzido este ano. Na obra do badalado escritor japonês, a escrita aparece em uma fase mais tardia de sua vida, quando aos trinta anos, dono de um bar de jazz em Tóquio, após um momento de epifania, decide iniciar a escrita de um livro, resultando em seu romance inaugural, Ouça a canção do vento, com o qual ganhou o seu primeiro prêmio literário. Depois desta descoberta da escrita, Murakami se dedica a ela de forma disciplinada – e esta é a palavra central para compreender não só a escrita, mas a vida de Murakami, como se comprova também em outro livro do autor, intitulado Do que eu falo quando eu falo de corrida (Alfaguara, 2010) –, e a impressão que se fica quando se lê Romancista como vocação é a de que, uma vez descoberta a vocação e encontrado este caminho inicial, a escrita de Murakami caminhou de forma mais tranquila, com enormes esforços, mas sem grandes percalços.

Já em Karl Ove, este processo parece ter sido muito mais turbulento, difícil, marcado por empecilhos e obstáculos vários, talvez até pelo fato de que, ao contrário de Murakami, Ove ter embrenhado na escrita mais jovem, com inseguranças que se misturavam muito fortemente à sua própria vida pessoal. A frase dita logo no início do livro dá o tom geral da narrativa: “Eu sabia pouco, queria muito e não conseguia nada” (p.7). É impressionante a recorrência durante todo o livro de frases que evidenciam as dificuldades encontradas para conseguir encontrar sus voz na literatura, a exemplo de: “Eu queria escrever. Mas não havia como, eu estava completamente sozinho e solitário no fundo de minha alma” (p.22). Ao observar os textos dos colegas do curso de escrita, a frustração e a insegurança lhe invadiam permanentemente: “Essas cores não existiam nos meus escritos, não havia uma disposição hipnótica e sugestiva, a bem dizer não havia disposição nenhuma, e imaginei que esse era o problema, essa era a razão para que meus escritos parecessem tão ruins e imaturos” (p.154). Esses sentimentos eram agravados pela recepção sempre crítica e fria de colegas e professores ao que ele escrevia: “A Skrivekunstakademiet já não era motivo de entusiasmo para mim, não se passava um dia sem um comentário desabonador em relação a meus textos. (…). Os textos eram imaturos, eram cheios de clichês, eram superficiais, e eu realmente não estava em condições de penetrar mais fundo na consciência, onde se encontrava o essencial para um escritor” (p.198, grifos do autor).

Mesmo depois que finaliza o curso da escrita, mais tardiamente, Karl Ove tenta continuar escrevendo, mas sem obter qualquer sucesso: “Eu tentava escrever, mas não havia como, tudo desmoronava após umas poucas frases, eu não tinha aquilo em mim” (p.308). A escrita parecia algo fora de seu alcance, “porque a linguagem não era suficiente, ou seja, não havia maneira de me aproximar daquilo, não havia maneira de adentrar aquele espaço” (p.350). A leitura ávida, constante e atenta de outros escritores, como Cortázar, Borges, Proust, Thomas Mann, Thomas Bernhard, VS Naipaul, Paul Auster, além, é claro, dos noruegueses, proporcionava um aprendizado constante, mas, ao mesmo tempo, gerava “inveja” e “desespero”, produzindo ainda mais desânimo em Ove: “Será que eu poderia escrever como Naipaul?”, pergunta o autor em determinado momento, para em seguida responder: “Não, a tranquilidade que ele detinha não existia em mim, e o traço seguro e esclarecido que havia em todos os bons prosadores eu não conseguiria reproduzir nem como um pastiche” (p.350). A inveja, ressalte-se, não vinha apenas dos escritores já consagrados, mas da percepção de que seus amigos próximos, como Espen e Tore, escreviam melhor do que ele e já estavam tendo suas estreias no mundo literário, com livros publicados, enquanto ele tinha sempre seus contos rejeitados em diversas coletâneas. Para o jovem Karl Ove, “escrever era uma derrota, era uma humilhação, era deparar-se com o próprio âmago e perceber que aquilo não era bom o suficiente” (p.396).

Porém, a ideia de luta, que dá título à série e que aparece sob outros registros no livro da coleção, ganha em A descoberta da escrita destaque especial. Ainda na escola de escritores, ele diz: “Mas se eu estava em último [no curso de escritores], era preciso lutar para estar entre os primeiros. Se admitisse que meu lugar era entre os últimos, no extremo da imaturidade e da ausência de talento, eu teria perdido. Eu não podia me permitir uma coisa dessas” (p.156). Depois de muitas tentativas frustradas, finalmente Karl Ove consegue finalizar um conto com páginas suficientes e com a percepção de que ali havia algo bom. Se nos últimos dois anos, ele havia escrito entre “quinze e vinte páginas no total”, em uma noite, ele tinha conseguido escrever dez páginas de qualidade. O conto foi, enfim, aceito por uma antologia e, com a segurança renovada, Ove partiu para a escrita daquele que seria seu primeiro livro, após o convite de um editor. A obra Fora do Mundo (sem tradução para o português) foi publicada em 1998 e venceu um dos principais prêmios de literatura da Noruega.

O livro poderia perfeitamente se encerrar com a estreia de Ove no mundo literário. Porém, não é isso o que ocorre. Outras páginas são dedicadas à descrição sobre os incômodos e constrangimentos que o prêmio provocou em sua vida pessoal, bem como à reflexão sobre as dificuldades que se seguiram para a escrita de seu segundo romance. O temor de ser o escritor de um livro só o apavorava e todas as inseguranças retornavam com força: “Escrever eu não conseguia, já haviam se passado quatro anos desde a minha estreia e eu não tinha nada, e provavelmente nunca mais conseguiria o que quer que fosse. Mas eu continuei a trabalhar, baixei a cabeça e fiz o melhor que eu podia” (p.617). Seu segundo romance seria, finalmente, publicado em 2004, intitulado Tudo tem seu tempo (sem tradução para o português), sendo eleito um dos vinte e cinco melhores romances noruegueses de todos os tempos. Depois da publicação destes livros, Ove passou por mais uma grande crise de criatividade. Após a morte de seu pai, passou a escrever de forma autobiográfica sobre sua vida, resultando nos seis volumes da série Minha Luta.

A leitura de A descoberta da escrita possibilita um mergulho e uma compreensão mais alargada de todos os livros da série e dos combates diários travados por Ove para a conformação de sua poderosa escrita.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

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