Gabriela Theophilo*

Na última semana, dois episódios de grande repercussão chocaram muitos de nós nessas terras brasílicas. Trata-se da interrupção antecipada da exposição Queermuseu em Porto Alegre, organizada pelo Santander Cultural, e da agressão a representantes de terreiros de umbanda e candomblé no Rio de Janeiro. Sabemos que estes eventos não são isolados. O grupo MBL (Movimento Brasil Livre), protagonista da mobilização que resultou no encerramento da exposição, vem, há tempos, praticando ações de coação e intimidação nos âmbitos tanto da política institucional, quanto da educação e da cultura. No Rio, a perseguição à religiões de matriz africana é recorrente. Pelo mundo afora, temos a impressão de que fenômenos de intolerância, xenofobia e racismo têm aparecido com mais força. Formam-se movimentos para defender o que há até pouco tempo, no mundo emergido da Segunda Guerra Mundial com a derrota do fascismo, era indefensável. Defende-se o direito de ser racista, defende-se o direito de falar sobre a destruição do Outro a partir do argumento da liberdade de expressão. Esses movimentos ou grupos costumam mobilizar uma grande quantidade de pessoas a partir da internet e de recursos como “memes”, vídeos do youtube e mensagens de whatsapp, com conteúdos frequentemente distorcidos, superficiais ou simplesmente mentirosos. Assim foi com a mobilização dos supremacistas brancos nos Estados Unidos, assim é com as ações do MBL no Brasil.

Me referi ao momento “pós-Segunda Guerra” porque este período é o ponto de partida dessa reflexão. Como se sabe, foi nesta época, com mais vigor a partir de 1949, que a UNESCO engajou-se amplamente em um projeto político-científico-intelectual, que visava à refutação do racismo e à defesa da constituição de uma “civilização mundial”, que pressupunha a compreensão e a harmonia entre todos os povos. Este projeto, estudado por Chloé Maurel, apresentava um caráter prioritariamente pedagógico que previa, entre outras coisas: 1) a re-escrita da História mundial em manuais escolares unificados, em que fossem priorizadas as descrições de relações pacíficas entre as diversas sociedades do globo e a importância das trocas culturais para o progresso da humanidade; 2) a disseminação da ideia de que o homem seria naturalmente propenso ao diálogo e à troca, e não à hostilidade em relação ao diferente, e de que, finalmente, os comportamentos racistas ou preconceituosos seriam aprendidos e não inatos – assim como diferenças de comportamentos entre os grupos humanos seriam predominantemente produtos de cultura, e não de natureza. Esse projeto recebeu a colaboração de inúmeros intelectuais de diversas partes do mundo (inclusive brasileiros, como foi o caso do historiador Sérgio Buarque de Holanda e do antropólogo Arthur Ramos) e foi colocado em prática, principalmente, por meio da publicação de estudos coletivos ou individuais.[i]

Como parte destes esforços, foi elaborado, no ano de 1951, o programa “La question raciale devant la science moderne”, dirigido por Alfred Métraux, que resultou numa publicação feita para o grande público com textos de estudiosos de diversos domínios, e que tinha como objetivo principal promover um esclarecimento em torno da ideia de raça e das diferenças entre raça e racismo. Para esta publicação escreveram, por exemplo, Michel Leiris e Claude Lévi-Strauss, com textos denominados, respectivamente, “Race et civilisation” e “Race et Histoire”.[ii]

Os dois textos, de Leiris e Lévi-Strauss, embora com estilos de escrita diversos, abordavam a questão de modo similar. Nos dois tratou-se, na primeira parte, de descontruir a ideia de que os diferentes grupos de seres humanos possuiriam características genéticas que, além de promover a diferenciação de tipos físicos, determinariam também comportamentos e habilidades específicos, de modo que umas raças poderiam ser consideradas, assim, superiores em relação a outras. Eles argumentavam que já tinha sido comprovado por pesquisas que o equipamento de comportamentos não aprendidos era semelhante em todos os seres humanos. Ou seja, as diferenças entre os grupos humanos residiriam sempre, muito mais, no âmbito da cultura do que da natureza. As culturas, por sua vez, definidas por diversos tipos de comportamentos aprendidos, estariam relacionadas à história de cada sociedade e às suas escolhas, respostas e invenções diante dos acontecimentos ao longo do tempo. Não se poderia falar, portanto, em “raça pura”, nem mesmo em “cultura pura”. Todas as raças e todas as culturas seriam resultado de misturas, trocas e empréstimos.

No que concernia às diferenças de progresso técnico entre os povos, Lévi-Strauss chamava a atenção para o fato de que o desenvolvimento de estudos históricos e arqueológicos havia atestado que estaria “disposto no espaço” o que, antes, se acreditava estar “escalonado no tempo”. Isto é, o progresso, tal como concebido nos moldes ocidentais, e a capacidade cumulativa de conhecimentos e técnicas de cada sociedade variava no tempo, funcionava em saltos e de modo relativamente aleatório.  Ambos, Lévi-Strauss e Leiris, afirmavam que o dito sucesso técnico da sociedade ocidental teria sido consequência, então, de sua incrível multiplicidade de contatos e de trocas culturais. Lévi-Strauss mobiliza, assim, a ideia de optimum de diversidade, “para além do qual elas [as culturas] não poderiam ir, mas abaixo do qual também não podem descer sem perigo”. Em seu texto, Leiris fez uma longa lista das origens extremamente diversificadas dos saberes e conhecimentos técnicos de que o Ocidente tanto se orgulhava.

Para não mencionarmos apenas os esforços na área da antropologia, podemos citar outro estudo, escrito por Lucien Frebvre e François Crouzet e denominado, à época, “Origines internacionales d’une civilisation, éléments d’une histoire française”. Também encomendado pela UNESCO nos anos de 1950, visava ao cumprimento do objetivo de reformulação de manuais escolares. Publicado apenas em uma revista alemã, em 1953, por não ter tido aprovação unânime da instituição, acabou caindo no esquecimento, sendo reeditado recentemente por Denis e Élisabeth Crouzet sob o título “Nous sommes des sang-mêlés”.[iii]

Como fica claro pelo nome da obra, Crouzet e Febvre, persuadidos da finalidade ética da história, pretendiam, segundo as palavras de Denis e Élisabeth Crouzet em prefácio, “erradicar do ensino de história os fermentos conscientes e, sobretudo, inconscientes, do racismo, do nacionalismo, da recusa ou do pavor da alteridade”, por meio de um discurso pacifista que teorizava o “caráter positivo da mestiçagem e da interdependência entre homens e culturas”.[iv] A história da França era narrada, assim, a partir de todas as suas trocas e empréstimos culturais: “la France, un carrefour”. Ao fim e ao cabo, o argumento dos historiadores é correlato ao dos antropólogos acima citados: o que se chamou, durante muito tempo, de “progresso do ocidente”, fora produto de uma série de contribuições de variadas tradições e culturas.  O projeto da UNESCO, desse modo, vinha ao encontro do programa intelectual e ético que orientou a Revista dos Annales desde seu princípio, ou seja, a busca de cooperação internacional, de uma história global e humanista.

Ao longo do século XX, esse modelo de combate ao racismo, encaminhado por uma instituição concebida sobre paradigmas ocidentais e fundamentada em valores universais herdados do Iluminismo, foi questionado, em algumas de suas práticas, tanto por intelectuais originários das antigas colônias, quanto por intelectuais ocidentais, como o próprio Claude Lévi-Strauss.

A crítica de Lévi-Strauss aparece, por exemplo, em “Race et culture”, conferência proferida na UNESCO no ano de 1971.[v] Enquanto “Race et Histoire” foi bem recebida e seu texto é considerado, ainda hoje e por motivos incontestáveis, um dos principais manifestos antirracistas do mundo, o segundo texto, de acordo com o próprio autor, foi considerado um “belo escândalo”. A primeira razão do escândalo, segundo ele, era a afirmação da necessidade de uma retomada do diálogo com a biologia. Esse debate, ainda em seus termos, apenas enriqueceria os estudos etnográficos e vinha mostrando, cada vez mais, que diferenciações genéticas eram, elas mesmas, condicionadas por modos de vida, por questões de cultura. A segunda razão residia na afirmação de que apenas uma proposta educativa não serviria para eliminar o racismo do mundo, e que, na verdade, a hostilidade entre culturas teria sido historicamente mais presente do que a tendência à troca amigável.

Por fim, o terceiro motor do escândalo foi a alegação de que um certo resguardo poderia ser, às vezes, importante, no sentido de uma resistência à uniformização cultural. Lévi-Strauss mostrava-se, com efeito, profundamente melancólico com a progressiva homogeneização das formas de vida, propiciada pela consolidação da sociedade de massas e pela introdução das relações capitalistas por toda a parte. Com essa conferência, Lévi-Strauss concluía que o sucesso e a sobrevivência de uma cultura qualquer dependeria não apenas de sua capacidade de realizar empréstimos, mas, sobretudo, de sua capacidade de diferenciar-se sempre, inventivamente. Essa seria a única solução para a crescente padronização das formas de viver e conhecer. A capacidade de diferenciação seria, portanto, uma condição para a sobrevivência da humanidade, em função da importância da diversidade de soluções e respostas para novas situações ou acontecimentos.

Com essas assertivas do antropólogo, vou chegando no argumento principal que motiva essa reflexão: as diferenças de perspectivas, de cosmologias, de modos de saber e de estar no mundo são fundamentais para a nossa sobrevivência. Isso inclui não apenas alteridades mais radicais, cosmovisões que não são fundadas na tradição ocidental, mas, também, diferentes formas de se lidar com o corpo, de formar famílias, de se reportar ao sagrado. Precisamos, mais do que nunca, nesse momento em que vivenciamos uma redução violenta do horizonte de expectativas e uma sensação de “fim de mundo” já atestada por inúmeros estudiosos, aprender a nos diferenciarmos de nós mesmos, a tornarmo-nos outro, tornarmos “o familiar, estranho”.

Poderia citar, ainda, uma infinidade de exemplos de escritores, artistas plásticos e intelectuais que nos ajudam a pensar o ser humano a partir de uma perspectiva não essencialista, como corpos híbridos, abertos, dessemelhantes a si mesmos. Exemplo forte nesse sentido são as reflexões do escritor Georges Bataille, que, desde os anos de 1930, na revista Documents, trabalhando sobre um corpus aberto de imagens e recusando qualquer representação idealizada do homem sobre si mesmo, elaborou, com seus textos, um regime de contágio, “criando passagens e relações entre objetos e formas de diferentes estatutos”: uma dialética sem síntese.[vi]

Atualmente, com os estudos decoloniais, reflete-se sobre a formação de identidades híbridas, móveis e sempre negociadas – identidades de fronteira. Não por acaso esses estudos são, a meu ver, alguns dos mais potentes não somente em termos de análise e crítica social, mas, principalmente, na capacidade de imaginação e proposição de novos mundos. Nesse sentido, além de Gloria Anzaldúa[vii], lembro de Silvia Rivera Cusicanqui, que recorre à sua ancestralidade Aymara para pensar a condição da subjetividade mestiça, “portadora de contradições que não buscam uma síntese”. Ela afirma, ainda, a importância da confrontação criativa de grandes epistemes (no caso, especialmente o legado ocidental e a multiplicidade de legados ancestrais do povos da América). Não se trata, assim, de “interculturalidade”, diálogo de culturas, mas, sim, de fusão sem destruição, de contágio fecundo de contraditórios dando origem a centelhas de esperança (trata-se para ela, efetivamente, de luta e esperança).[viii]

No Brasil, temos as proposições de Eduardo Viveiros de Castro que, a partir de seus estudos do perspectivismo indígena, da filosofia de Gilles Deleuze e da antropologia de Claude Lévi-Strauss, vem insistindo na necessidade de descolonização permanente pensamento, de troca ou circulação infinita de perspectivas, capazes de nos colocar no limiar constante de “devenir-autre”.[ix]

Com esse texto, sem pretender esvaziar ou simplificar excessivamente propostas e obras tão complexas e diversas como as dos autores acima relacionados, quis trazer ideias que nos ajudam a refletir sobre a tarefa urgente de combate ao impulso de destruição e silenciamento do outro. Não há mais tempo para a inocência ou indiferença. Quis, também, falar de esperança. Georges Didi-Huberman, em estudo motivado por textos de autores que experimentaram o fascismo, nos fala de uma “sobrevivência de vagalumes”: comunidades clandestinas, danças frenéticas, rápidos contatos, força diagonal. É a resistência das brechas, dos pontos de luz. Precisamos, mais do nunca, nos inspirar nessa imagem, prestar atenção nos “sinais enviados por intermitências”, nos unir em comunidades de desejo, de “danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir”.[x] 

Notas:

[i] MAUREL, Chloé. La question des races: le programme de l’Unesco. In: Gradhiva, n. 5, 2007, pp. 2-19. http://gradhiva.revues.org/815  Acesso em 16/09/2017.

[ii] LEIRIS, Michel. Race et civilisation. In: La question raciale devant la science moderne. Paris: Unesco, 1951. Reprisado em LEIRIS, Michel. Cinq études d’ethnologie. Paris: Denoel / Gonthier, 1969, pp. 9-80; LÉVI-STRAUSS, Claude. Race et histoire. Unesco, 1952. Paris: Gallimard, 2007.

[iii] CROUZET, François; FEBVRE, Lucien. Nous sommes des sang-mêlés: manuel d’histoire de la civilisation française. Présentation de Denis et Élisabeth Crouzet. Paris: Albin-Michel, 2012.

[iv] CROUZET, Denis; CROUZET, Élisabeth. Avant-propos. In: Ibidem. p. 15.

[v] LÉVI-STRAUSS, CLAUDE. Raça et cultura. In: O olhar distanciado. Lisboa: Edições 70, 1986, pp. 21-50.

[vi] Ver: DIDI-HUBERMAN, Georges. La ressemblance informe ou Le gai savoir visuel selon Georges Bataille. Paris: Macula, 1995.

[vii] ANZALDÚA, Gloria. Borderlands /La frontera. The new mestiza. San Francisco: Aunt lute books, 1987.

[viii] CUSICANQUI, Silvia Rivera; SANTOS, Boaventura de Souza. Conversas del mundo. In: Revueltas de indignación y otras conversas. Bolivia: Proyeto ALICE, 2015.

[ix] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Métaphysiques cannibales. Paris: Presses Universitaires de France, 2009.

[x] DIDI-HUBERMAN. Georges. A sobrevivência dos vagalumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, pp. 154-155.

** Gabriela Theophilo Doutora em História social pelo PPGHIS-UFRJ e colabora com a Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <https://aliancasmonstruosas.wordpress.com/&gt;. Acesso em: 17 set. 2017.

 

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