Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro*

Em seu artigo “O que é o fascismo?”, publicado em 1944 no periódico socialista inglês Tribune, George Orwell constata que a definição do que seja o “fascismo” é um dos maiores desafios de seu tempo. “Uma das organizações americanas de pesquisa social fez recentemente essa pergunta a cem pessoas diferentes e obteve respostas que foram desde ‘democracia pura’ até ‘demonismo puro’” [1]. Como distinguir a natureza de regimes autoritários como o de Portugal, o da Alemanha, o do Japão ou da Itália? Como compreender que nem toda forma de autoritarismo é fascista; ou que o fascismo como forma de organização e mobilização social exista independente da forma autoritária do Estado? O problema se agrava quando constatamos ainda hoje – como Orwell havia identificado naquele momento marcado pelo sentimento de derrota dos valores democráticos ocidentais diante da barbárie organizada pelo esforço de guerra – que o uso adjetivo da palavra fascista no debate político ultrapassa qualquer esforço de compreensão e distinção do fenômeno histórico do fascismo: como nos lembra o autor de 1984, os conservadores eram acusados pelos socialistas de reproduzir o fascismo em seu patriotismo, os socialistas eram acusados pelos liberais e conservadores de alimentar uma forma de Estado análoga à do fascismo, os trotskistas acusam os stalinistas de organizar o partido de forma fascista, da mesma maneira que aqueles são acusados por estes de inimigos da revolução e agentes ocultos do fascismo.

A polissemia do fascismo tem servido nos últimos 80 anos para dar forma à ideia do mal na política; a palavra designa o inimigo total, aquele que deve estar alijado dos modos aceitáveis de organização ideológica. Porém, se reconhecermos que compreender é acima de tudo distinguir, é preciso dar um passo para além do uso combativo da palavra para entendermos a natureza fascista de fenômenos políticos contemporâneos, como o ocorrido no último dia 12 de agosto na cidadezinha de Charlottesville, nos Estados Unidos. Para tanto, proporemos aqui uma rápida e nem de longe esgotada reflexão sobre três características distintivas do fascismo: o chauvinismo, a mobilização pelo ódio e a paranoia.

Hannah Arendt nos mostra em sua obra essencial sobre o antissemitismo[2] que a escalada do ódio organizado contra os judeus acompanhou o período de ascensão dos nacionalismos no século XIX: a paulatina dissolução das leis e éditos contra os judeus, acompanhando o movimento geral de reconhecimento e inclusão dos homens nas categorias universais e formais do direito e do constitucionalismo liberal, é contemporânea à formação de ideologias que identificarão as formas políticas com a especificidade histórica dos povos. Nesse sentido, para alguns dos vários e distintos nacionalismos nascentes no século XIX, o elemento judaico deveria ser tratado como um corpo estranho à formação orgânica da identidade entre povo e nação: associados ao nomadismo, à riqueza dissociada da terra e, o que é essencial, à língua – base da organização simbólica de qualquer povo – não compartilhada pelo conjunto daquela identidade nacional, o judeu era identificado a partir da ideia do segredo; o ser judeu implicaria, assim, no compartilhamento de arcanos e valores ocultos que apartariam-no, por conseguinte, de uma comunidade nacional identificada por valores comuns. O exemplo mais célebre dessa lógica, que está nas origens do chauvinismo nacionalista, encontramos no célebre “caso Dreyfus”: em um determinado momento do debate que ocupou toda a Europa a partir de 1894 o que estava em jogo não era mais a culpa ou inocência do oficial de artilharia Alfred Dreyfus, mas sim em que medida o prestígio das instituições nacionais – e neste caso em específico do exército – poderia ou não ser manchado para fazer justiça a um judeu. Charles Maurras, o grande líder anti-dreyfusard, afirmava 30 anos após o caso: “Não vou entrar no velho debate, inocente ou culpado. Meus primeiros pensamentos sobre isso eram que, caso Dreyfus fosse inocente, seria preciso nomeá-lo marechal da França, mas ao mesmo tempo fuzilar uma dúzia de seus principais defensores pelos danos triplos que fizeram à França, à paz e à razão”[3]. O antissemitismo do século XIX servirá como modelo para a identidade fascista construída contra um elemento alienígena à autenticidade nacional.

O chauvinismo também é caracterizado por uma baixa compreensão, ou por uma simplificação, da natureza dos problemas econômicos e dos conflitos sociais. Ciclos de crises econômicas levam a percepções semelhantes sobre problemas como o desemprego e a queda na capacidade de investimento e de garantias oferecidas pelo Estado: tanto no caso americano quando na Europa dos últimos 10 anos a lenta recuperação da crise econômica levou ao aumento da demanda da população de classe média por empregos anteriormente ocupados por imigrantes (não só negros, indianos ou islâmicos, mas mesmo, em casos como a Itália, imigrantes internos de regiões mais pobres do país). Nesse sentido, o nacionalismo chauvinista resulta em uma inversão lógica do problema: a heterogeneidade social resultante da migração é vista não como parte de uma situação inicial de expansão do emprego e do consumo doravante exaurida pela crise, mas como causa desse processo. Muitas vezes a mesma lógica aponta o processo de globalização como causa da crise. É o caso, por exemplo, do nacionalismo emergente na Hungria. A recuperação econômica promovida pelo governo do nacionalista Viktor Orbán tem sido intensamente acompanhada de campanhas contra a presença de elementos estrangeiros no país. Aqui não pretendemos colocar em questão em que medida maior protecionismo econômico e menos abertura para o capital internacional pode ou não promover recuperação econômica, mas apenas apontar para o fato de que, em casos como a Hungria, o protecionismo tem sido acompanhado por uma retórica e por uma ação política francamente nacionalistas, desde o fechamento de jornais liberais após misteriosos processos de compra por empresários ligados ao governo até a campanha ostensiva dos partidários de Orbán contra a presença no país do milionário húngaro-americano George Soros, que mantém em Budapeste uma universidade internacional composta por professores de todo o mundo[4].

A identificação do “inimigo” leva a uma segunda característica do fascismo: a mobilização pelo ódio. Identificar o responsável pelo mal e pela desordem, normalmente encarnado em um grupo social minoritário, é o fundamento da mobilização política fascista. Contudo, se essa mobilização, do ponto de vista “negativo”, parte da identificação do objeto de ódio, do ponto de vista “positivo” ela é direcionada pelo mito: contra o inimigo é preciso organizar a ação das massas a partir de signos que representem a natureza verdadeira, orgânica e historicamente autêntica daquela formação social. Segundo a leitura de Claudio Magris, os mitos modernos são “formas e modos com os quais uma civilização se esforça em reduzir a pluralidade do real a uma unidade, o caos do mundo a uma ordem, a acidentalidade fragmentária da existência em uma essência, as contradições histórico-políticas em uma harmonia capaz de resolvê-las”[5].

O nascimento do fascismo italiano nos partidos socialistas não marxistas e no movimento proletário de tipo soreliano mostra-nos as origens dessa relação estreita entre a mobilização política fascista e o problema do mito como organizador de identidades coletivas. Em verdade, o conteúdo “nacional” da primeira experiência fascista, a italiana, será dado pelo encontro entre Mussolini e o poeta Gabrielle D’Annunzio: essa associação geraria toda a iconografia fascista, fundada na ideia da recuperação da grandeza imperial romana, como nos mostra o quarto volume da monumental biografia de Mussolini escrita pelo historiador italiano Renzo de Felice[6]. Nos casos fascistas, o mito mobiliza no presente e em direção a um futuro de reorganização original da desordem, mas está necessariamente enraizado em um passado que lhe serve de referência: ele busca seu signo mobilizador em um momento histórico que representaria o encontro entre ordem social e autenticidade cultural, ou então, como no caso do racismo fascista americano, em um momento em que a autêntica versão da história americana, aquela dos confederados, fora derrotada.

A relação entre a paranoia e a ação política encontra no livro Massa e Poder de Elias Canetti uma de suas mais instigantes expressões. Obra indefinível – mistura de ensaio histórico, fenomenologia, sociologia das massas e psicologia social – o trabalho de Canetti toma o célebre caso do juiz Daniel Schreber – que, em seus momentos de lucidez, registrava os sintomas da doença em seu diário, mais tarde publicado e estudado por Freud – como exemplo para a compreensão da paranoia, buscando entender como seus sintomas aparecem também em determinadas mobilizações políticas de massas. A primeira etapa da paranoia é aquela que podemos chamar de isolamento: diante da compreensão de que no mundo reina uma grande confusão, “quem pode, cerca-se de soldados e tranca-se numa fortaleza”[7]. Essa desordem do mundo é explicada quase sempre pela evocação dos complôs ou conspirações; a imagem de cartazes em Charlottesville associando mídia liberal e judeus ilustra bem uma forma de compreensão da política em que o adversário precisa ser relegado à dimensão do segredo: a ele deve ser atribuída uma ação política oculta, executada por fora dos espaços legalmente aceitos de disputa, de forma a legitimar o uso da violência. Canetti aponta semelhanças incríveis entre a paranoia conspiratória de Schreber e o que algumas décadas depois seria a forma mentis do nazismo; nas memórias de Schreber diversos perigos que se organizam contra o povo alemão são arrolados: sacerdotes católicos com nomes italianos, jesuítas, médicos judeus, nacionalistas eslavos, etc. Os delírios persecutórios de Schreber culminam com a ideia de que o próprio Deus estaria executando um plano cósmico para destruí-lo. A paranoia política é estruturada por uma ideia central: “a humanidade inteira desaparecera. Schreber via a si próprio como o único ser humano real que restara. As poucas figuras humanas que seguia vendo considerava-as mera aparência. Eram ‘homens feito às pressas’, apresentados a ele apenas para confundi-lo”[8]. A desumanização do outro promovida pela paranoia tem consequências políticas evidentes: quando expandida para grupos sociais capazes de organização e mobilização ela torna-se a negação do direito de existência do outro na comunidade política, doravante convertido em inimigo.

Diante das três características que propusemos e expusemos muito rapidamente aqui como não exclusivas, mas distintivas do fascismo, na medida em que operam em conjunto, caberia então perguntarmo-nos em que medida movimentos como o de Charlottesville tem uma natureza política fascista. A resposta, para além de toda a argumentação possível, nos é dada pela força das imagens dos acontecimentos: uma rápida busca no Google nos mostra uma dezena de fotos da bandeira dos confederados ao lado daquela do nazismo; cartazes relacionando liberals, grande mídia e conspiração judaica; defesa da pureza racial e a presença de símbolos nazistas cravados na própria pele dos vários homens e mulheres ali presentes. Evidentemente, nem todo racismo é fascista, como bem atesta a longa história de perseguições e conflitos raciais nos Estados Unidos ou no Brasil – tão distintos, mas que apontam para uma origem histórica comum -, da mesma forma que no fundo de muitas manifestações nacionalistas pode haver uma preocupação legítima de pessoas comuns com a fragilidade de suas comunidades diante dos movimentos globais da política e do capitalismo. Contudo, a articulação entre nacionalismo chauvinista, mobilização do ódio e paranoia conspiratória compõem um cenário que aponta claramente para novas articulações de movimentos e mobilizações políticas fascistas. Assim, caberia a quem se propõe compreender o mundo contemporâneo com objetividade encarar o desafio de acreditar que a história não possui um sentido determinado e que velhas formas podem se apresentar como novas alternativas. Serve-nos como um exemplo notável o testemunho de Stefan Zweig em suas memórias[9], ao contar que, ao deixar de trem, no começo dos anos 30, sua Viena liberal e cosmopolita para uma longa turnê mundial que levaria mais de um ano, o escritor de língua alemã então mais vendido no mundo refletia, ao atravessar a Bavária, que naquela terra de nobres e aristocratas orgulhosos um movimento tão vulgar como o de Adolf Hitler jamais poderia sair vitorioso…

 

*Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro é bacharel em Ciências Sociais pela UFF e doutor em Ciências Política pelo IESP-UERJ, além de colaborador da Escuta.

**Imagem disponível em http://geekness.com.br/20-fotos-racismo-era-legalizado-nos-eua/

Notas

[1] George Orwell. O que é o fascismo? E outros ensaios. São Paulo: Cia. Das letras, 2017.

[2] Hannah Arendt. As Origens do Totalitarismo. Anti-semitismo. Colonialismo. Totalitarismo. São Paulo: Cia. Das letras, 1989.

[3] Zeev Sternhell. La droite révolutionnaire. Les origines françaises du fascisme. 1885-1914.  Paris: Seuil, 1978.

[4] Rafael Cariello. “A Fronteira”. Revista Piauí, n. 127.

[5] Claudio Magris. Il Mito Absburgico nella letteratura austríaca moderna. Torino: Einaudi, 1963.

[6] Renzo de Felice. Mussolini il Fascista. La conquista del potere. 1920-1925. Torino: Einaudi, 1966.

[7] Elias Canetti. Massa e Poder. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

[8] Elias Canetti. Op. Cit.

[9] Stefen Sweig. Autobiografia. O mundo de ontem. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

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