Fernando Perlatto*

A homenagem a ser recebida este ano na 15ª edição da Feira Literária de Paraty (FLIP) vem consolidar um percurso gradativo de um reconhecimento cada vez mais significativo à obra de Lima Barreto. Como contraposição à discreta celebração que recebeu em vida, tendo em vista a importância de seus livros, tem se testemunhado, ao longo dos últimos anos, um crescente prestígio do escritor carioca, quer seja com a reedição ou publicação de alguns de seus textos, crônicas e contos mais famosos ou ainda pouco conhecidos – a exemplo de As melhores crônicas de Lima Barreto, organizado por Beatriz Resende (Global Editora, 2005), Contos completos de Lima Barreto, editados por Lilia Schwarcz (Companhia das Letras, 2010) e Sátiras e outras subversões, organizado por Felipe Botelho Corrêa (Companhia das Letras, 2016) –, quer seja com a produção de trabalhos importantes dedicados a ele, entre os quais se destacam obras como Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República, de Nicolau Sevcenko (Brasiliense, 1985), Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos, de Beatriz Rezende (Editora Unicamp; Editora UFRJ, 1993), Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura, de Luciana Hidalgo (Annablume, 2008), Lima Barreto e o destino da literatura, de R. J. Oakley (Editora Unesp, 2011) e Lima Barreto: uma autobiografia literária, de Antonio Arnoni Prado (Editora 34, 2012).

Neste ano de 2017, até mesmo pela homenagem recebida na FLIP, antigos livros sobre Lima Barreto têm sido reeditados – como Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, de João Antônio e A vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, a serem, respectivamente, relançados pela Editora 34 e pela Autêntica – e novos trabalhos têm vindo à tona, com destaque para a coletânea de Beatriz Resende intitulada Sobre Lima Barreto: três ensaios, editada pela e-Galáxia, que contém o primoroso texto “O Lima Barreto que nos olha”, publicado originalmente no número 21 da revista Serrote em 2016, que analisa três fotografias do escritor em diferentes momentos de sua vida. Porém, um dos livros que vem ganhando maior destaque nesta celebração à obra do romancista é Lima Barreto: triste visionário, de Lilia Schwarcz, publicado este ano pela Companhia das Letras. O que temos aqui é um calhamaço com mais de 500 páginas de texto, 66 páginas de notas, 25 páginas de referências bibliográficas, seguidas de uma cronologia detalhada da vida do autor, de uma relação dos acervos pesquisados e de um índice remissivo. Como cereja do bolo desta, que parece ser a biografia definitiva de Lima Barreto, há ainda uma bela capa criada pelo artista Dalton Paula especialmente para o livro aqui analisado.

Seria praticamente impossível algo dar errado em uma biografia como Lima Barreto: triste visionário. O livro é escrito por alguém como Lilia Schwarcz que, além do texto fácil, fluente e sedutor, tem profundo conhecimento não apenas do biografado – como se atesta em vários artigos publicados recentemente em revistas da área, a exemplo de “O homem da ficha antropométrica e do uniforme pandemônio: Lima Barreto e a internação de 1914” (Sociologia & Antropologia, 2011) e “Lima Barreto leitor de Machado de Assis: leitor de si próprio” (Machado de Assis em Linha, 2014), bem como na organização e na escrita do prefácio dos Contos completos de Lima Barreto (2010) –, mas que também vem transitando, pelo menos desde o Mestrado em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 1980, com enorme desenvoltura por várias das temáticas abordadas na biografia, com destaque para a questão racial – do que são provas evidentes obras como Retrato em branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no final do século XIX (1987) e O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e pensamento racial no Brasil: 1870-1930 (1993). Soma-se às qualidades notáveis da autora, o aparato de seis pesquisadores que deram suporte ao trabalho, devidamente mencionados nos agradecimentos, e o diálogo permanente durante a elaboração do livro com especialistas como Alberto da Costa e Silva, André Botelho, Heloisa Starling, Heloisa Machado, João José Reis, Flávio dos Santos Gomes, Jorge Schwartz e Pedro Meira Monteiro, que possibilitaram à autora a interlocução acerca de temáticas diversas abordadas na biografia. A soma de todos esses fatores explica a força de Lima Barreto: triste visionário: ressalvados alguns problemas, que serão posteriormente destacados, olhe-se por qual prisma for, é possível afirmar que a obra cumpre as expectativas sobre elas depositadas e que Lilia Schwarcz entrega ao leitor um belíssimo trabalho.

Muitas poderiam ter sido as formas de se contar a história dos 41 anos de Lima Barreto (1881-1922). Sob a inspiração da biografia de Joseph Frank, Dostoievski: As sementes da revolta – 1821-1849 (Edusp, 2008), Lilia Schwarcz opta por um caminho bastante interessante, que lhe permite articular de maneira refinada texto e contexto, análise interna e externa, organizando o andamento dos capítulos a partir da investigação dos escritos do próprio Lima Barreto. São precisamente eles, seus romances – Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), Numa e a ninfa (1915), Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Os Bruzundangas (1922) e Clara dos Anjos (1922) –, seus contos e suas crônicas, seu diários – Diário íntimo, organizado postumamente por seu primeiro biógrafo, Francisco de Assis Barbosa, e por sua irmã, Evangelina Barreto, e os livros Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos – os personagens principais, que vão abrindo caminhos para acessar a conjuntura mais ampla na qual circulava o escritor.

Se o acesso a esta conjuntura mais ampla já não seria trivial em qualquer exercício de história intelectual – a despeito de haver aqueles que pensam que uma análise internalista tout court seja suficiente para a compreensão de um determinado autor –, ela se torna ainda mais central para a compreensão de uma personalidade como Lima Barreto, cujos escritos sempre se mostraram intrinsecamente autobiográficos, engajados socialmente e responsivos ao contexto político e social em que foram produzidos. Lima vive e escreve em uma conjuntura demasiadamente tormentosa, atravessada não apenas pelo legado da escravidão há pouco abolida e pelas contradições do regime republicano recém-instaurado, mas por conflitos como Canudos (1896-1897) e Contestado (1912-1916), e revoltas várias, como a da Armada (1893-1894) e da Vacina (1904), por transformações substanciais na estrutura urbana da cidade do Rio de Janeiro impulsionadas por Pereira Passos (1902-1906), por mudanças estruturais na esfera pública do país com a dinamização da vida cultural e a expansão dos meios de comunicação através da publicação de revistas modernas como a Fon-Fon, a Careta e a Klaxon, e de jornais como o Correio da Manhã, pela eclosão de movimentos políticos como a Campanha Civilista (1909-1910) liderada por Rui Barbosa e de greves operárias, como aquelas que sacudiram o país entre 1906 e 1908, e em 1917. Muitas dessas mudanças invadem seus romances e se tornam matéria prima dos contos e crônicas do autor, voltados, em sua grande maioria, para a denúncia da desigualdade racial e das contradições da república inaugurada em 1889, além do combate irascível, irônico e debochado ao mundo das letras.

O ponto alto de Lima Barreto: triste visionário situa-se precisamente na capacidade de Lilia Schwarz em combinar a leitura sistemática e a interpretação cuidadosa dos escritos produzidos por Lima Barreto – identificando neles, nos seus enredos e personagens, muitos dos aspectos concernentes à própria personalidade do autor, bem como elementos da sua experiência biográfica – com a análise de questões relacionadas ao contexto em que os textos eram produzidos. A escrita de obras como Recordações do escrivão Isaías Caminha é, por exemplo, acompanhada da reconstrução cuidadosa dos debates em torno das teorias deterministas e raciais, ancoradas em pressupostos darwinistas de diferenças biológicas e hereditárias, que ganhavam cada vez mais espaço e legitimidade na sociedade brasileira, contribuindo para ampliar os estigmas e preconceitos contra os negros e mestiços, identificados, a priori, às noções de degeneração, patologia e violência. A reflexão sobre livros como Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, por sua vez, é seguida por uma análise refinada dos espaços de sociabilidade cultural do Rio de Janeiro da belle époque, como cafés, confeitarias e livrarias, assim como da hierarquia existente no mundo das letras.

A análise de Clara dos Anjos serve de mote para Lilia Schwarcz situar o leitor nas transformações urbanas que ocorriam no Rio de Janeiro, refletindo particularmente sobre as características da região central da capital e seus bairros, em especial os subúrbios, como aquele de Todos os Santos em que Lima Barreto vivia, trazendo para o centro de sua “literatura suburbana” personagens que antes permaneciam às margens da literatura canônica. A reflexão sobre seus contos mais conhecidos “O homem que sabia javanês” e “A nova Califórnia” possibilita à autora adentrar de forma mais pormenorizada no tema do “bovarismo” – o costume de adotar acriticamente tudo o que vinha do exterior sem maiores preocupações com o contexto – que atravessa praticamente todas as obras do autor.  A análise de Numa e a ninfa atua como pretexto para a autora refletir sobre o anarquismo e a aproximação de Lima com as novas correntes políticas libertárias que chegavam com força ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, aspecto este mais bem investigado em capítulo específico destinado a explorar a ideia do escritor como um “libertário anarquista”. A reflexão sobre o Diário Íntimo, o Diário do Hospício e o Cemitério dos Vivos abre caminhos para a autora não apenas analisar as internações de Lima Barreto em 1914 no Hospital Nacional dos Alienados e em 1919 no Hospício Nacional, como decorrência do alcoolismo, mas refletir de forma mais pormenorizada sobre a situação dos manicômios no início do século XX. Todos esses aspectos acabam por se misturar ao longo da biografia, uma vez que os escritos de Lima Barreto são atravessados por várias questões que retornam em textos posteriores.

Lilia Schwarcz logra sucesso em situar a trajetória de Lima Barreto e de seus familiares, em especial sua mãe, a professora Amália Augusta, e seu pai, o tipógrafo e, posteriormente, administrador da Colônia de Alienados, João Henriques, frente às contradições, constrangimentos e desafios que se apresentavam para os negros e mestiços nas últimas décadas do XIX e no início do XX, em um país que, mesmo passando pela abolição, permaneceria, em grande medida, “escravocrata, não apenas nos números como no sentimento das elites” (p.26). A ascensão social e os preconceitos de diferentes ordens só podiam ser superados, como demonstra Lilia Schwarcz, mediante “esforço e mérito pessoal” – e aí, a educação desempenhava um papel fundamental, o que explica a socialização escolar de Lima Barreto em escolas de elite e sua busca, ainda que não concluída, pela formação como engenheiro na Escola Politécnica – e a conformação de “redes de favores e protecionismos” – como aquelas asseguradas pelo visconde de Ouro Preto à família Barreto –, que possibilitavam, dentro dos limites impostos pela ordem social, “escapar da fronteira da cor e da origem social” (p.41).

Na biografia Lima Barreto: triste visionário são articuladas com destreza, de um lado, as contradições da sociedade brasileira do final do XIX e das duas primeiras décadas do século XX, que se queria moderna e civilizada, mas que conservava elementos do atraso e marcas materiais e simbólicas da escravidão, e, de outro, as contradições de uma figura como Lima Barreto, que buscava construir a sua persona literária na chave da denúncia e do combate ao mainstream, mas que, ao mesmo tempo, fazia todos os esforços no sentido de ser aceito e incorporado pelas instituições contra as quais tanto pelejava. Lilia Schwarcz explora em minúcias essas contradições ao analisar, por exemplo, o esforço para ser lido e reconhecido pelos principais jornais e revistas do período, ao mesmo tempo em que criara, com seus amigos, uma publicação “do contra” como a Floral, voltada para denunciar a República das Letras mais consolidada, e que escrevia romances que ridicularizavam aquele mundo jornalístico para o qual ele se ressentia em não ser aceito e incluído. Criticava o funcionalismo público, mas ganhava o seu sustento e o da família como amanuense na Secretaria da Guerra. Essas contradições também ficam evidentes em sua birra com a Academia Brasileira de Letras (ABL) e, por consequência, contra aquele que melhor a simbolizava, o escritor Machado de Assis – registre-se aqui, para não se perder a oportunidade, as onze excelentes páginas nas quais a autora compara as trajetórias, características e obras de Lima e Machado (p.325-336) –, assim como outros de seus representantes, com destaque para Coelho Neto e João do Rio, ao mesmo tempo em que apresentou por três vezes sua candidatura para ser aceito pela mesma ABL que tanto criticava. Em outros episódios estas contradições do autor são exploradas – como, por exemplo, sua crítica à importação do feminismo pelas brasileiras ao mesmo tempo em que denunciava a violência contra as mulheres, e sua objeção a práticas populares como o futebol e o carnaval, quando foi inovador ao trazer personagens populares para a ficção –, consolidando-se no seu enterro no Cemitério São João Batista, em Botafogo, bairro que tanto ridicularizara por ser uma “espécie de quartel-general das ‘elites bovaristas’” (p.181).

Um aspecto importante explorado em Lima Barreto: triste visionário e que merece registro é a análise que Lilia Schwarcz realiza em diversas passagens da biografia – e mais especificamente no Capítulo 16, “Lima entre os modernos” – acerca da relação do escritor com o que se convencionou chamar de modernismo brasileiro, associado especialmente à Semana de Arte Moderna de 1922. De uma parte, a autora, em consonância com uma bibliografia que vem sendo produzida ao longo dos últimos anos voltada no sentido de descentralizar o modernismo, mostrando suas manifestações anteriores a 1922 e em outras geografias para além de São Paulo, enfatiza a importância do Rio de Janeiro na conformação de vertentes importantes do modernismo, a exemplo daquela esposada pela literatura de Lima Barreto. De outra parte, em diálogo com este primeiro movimento, Lilia Schwarcz destaca o quanto a “nova agenda modernista tinha pontos comuns com aquela de Lima”, uma vez que ambos os projetos intelectuais estavam preocupados em “contestar o parnasianismo, as linguagens estetizantes e pautadas apenas na forma”, além de serem contrários “à adoção, sem a adaptação necessária, de linguagens estrangeiras que dominava a literatura nacional” (p.447).

Há ainda que se ressaltar que algumas manifestações importantes do modernismo – a exemplo dos trabalhos de Mário de Andrade, com obras como Macunaíma e seu esforço de valorização dos cantos, danças, festas e rituais religiosos populares através da “Missão de Pesquisas Folclóricas” realizada no final dos anos 1930 à frente ao Departamento de Cultura de São Paulo, bem como algumas das pinturas de artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Portinari – se encontravam com o movimento empreendido pela literatura de Lima Barreto no sentido de buscarem uma representação do povo brasileiro que rompesse com a visão negativa e pejorativa hegemônica no imaginário social do país no final do XIX e início do XX. Diante dessas convergências, como, então, explicar a pouca atenção conferida pelos modernistas a Lima Barreto? Lilia Schwarcz encontra uma possível resposta em artigo publicado pelo escritor carioca sobre a revista Klaxson – publicação paulista que “contava com a contribuição da nata da Semana de 22” (p.449) –, a ele entregue pelo então jovem crítico literário Sergio Buarque de Holanda, que também participava do movimento modernista, no qual Lima Barreto faz troça daquela publicação modernista, criticando “o nome, que lembrava importação americana; o futurismo, que para ele nascia velho; a novidade dos paulistas que todos conheciam”, encarando seus difusores como “meros difusões de Marinetti e adaptadores baratos das vogas vindas do estrangeiro (p.451). Soma-se a essa explicação a relação que Lima Barreto buscou cultivar com Monteiro Lobato – conforme analisado em outras passagens da biografia e também explorado por Lilia Schwarcz em artigo publicado na última edição da revista Quatro, Cinco, Um –, que havia sido crítico ao modernismo paulista, destacando-se, nesse sentido, o famoso artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1917, censurando Anita Malfati e a pintura modernista. Aceite-se ou não estas explicações, fato é que, não obstante proximidades, houve um desencontro entre Lima Barreto e os modernistas, desencontro este que Lilia Schwarcz busca explorar com bastante interesse na biografia aqui analisada.

Ressaltados os vários aspectos positivos de Lima Barreto: triste visionário, vale, à guisa de conclusão, destacar alguns elementos que prejudicam ou, pelo menos, tornam menos potente a biografia de Lilia Schwarcz. Um primeiro aspecto que chama a atenção é uma indefinição entre a exposição de um texto mais claramente acadêmico e um texto voltado para o grande público. Essa oscilação acaba por prejudicar o andamento e o ritmo da narrativa. A autora parece buscar compensar o tom mais solto de sua prosa com o excesso de notas, que, por sua vez, são também demasiadamente excessivas em relação às referências bibliográficas, muitas delas secundárias às discussões realizadas no decorrer do texto. Isso faz com que a leitura da obra fique, em alguns trechos, pesada em demasia. Soma-se a esse excesso de notas e referências, o número também exagerado de repetições: determinadas citações e passagens são reproduzidas várias e várias vezes, cansando o leitor. Exemplar nesse sentido é a referência a Francisco de Assis Barbosa, cuja obra e importância para a difusão dos livros de Lima Barreto é reiterada durante toda a biografia, além de haver um capítulo, o último, específico para falar de sua obra. Talvez pelo fato de textos que compõem a biografia já terem sido anteriormente publicados em formatos de artigos em revistas acadêmicas, quando reunidos, eles acabam muitas vezes se sobrepondo e repetindo trechos e informações. Nesse sentido, pode-se dizer que, se porventura, Lima Barreto: triste visionário, tivesse sido mais condensado, limpando-o do excesso de repetições e do número exagerado de referências bibliográficas secundárias, o livro teria uma qualidade ainda maior do que aquela que já apresenta, evitando-se, inclusive, a letra demasiadamente pequena, que acaba por cansar a leitura, a despeito do belo exemplar que o leitor tem em mãos.

Além disso, apesar da tentativa de se distanciar do biografado, Lilia Schwarcz acaba por se identificar demasiadamente ao personagem narrado, corroborando a frase por ela mesmo mencionada logo na introdução da biografia: “Mais que um personagem Lima virou um amigo da minha intimidade” (p.9). Essa ausência de distanciamento traz consigo alguns problemas para a biografia. Em primeiro lugar, ela faz com que a autora aceite quase acriticamente muitas das afirmações de Lima Barreto sobre si mesmo e sobre sua literatura, sem matizá-las ou aprofundá-las, a exemplo da própria definição de “literatura militante” que o escritor assumia para caracterizar sua obra, e que Schwarcz aceita sem quaisquer ressalvas. Não que ela não faça sentido e que não contribua para o entendimento da obra de Lima Barreto; porém, assumi-la quase como que uma categoria explicativa tira muito da força analítica que um livro com este escopo e fôlego poderia ter no sentido de complexificar a própria obra do autor analisado. Pode-se, provocativamente, perguntar: se era para simplesmente afirmar o que o autor já sabia sobre si mesmo, qual o sentido de analisar a sua literatura?

Em segundo lugar, a ausência de um maior distanciamento faz com que Lilia Schwarcz se veja em muitas ocasiões, ainda que, aparentemente, sem querer, quase a responder aos críticos de Lima Barreto, justificando-o e aceitando a explicação do escritor carioca de que o seu não reconhecimento se devia exclusivamente ao fato de ser negro, alcoolatra e à sua condição social. Isso fica mais evidente no ótimo capítulo final, “Quase conclusão: Lima Barreto colecionador”, no qual a autora passeia por várias das recepções da obra do escritor carioca por autores como Caio Prado Jr., Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Alceu Amoroso Lima e Antonio Houaiss. Lilia Schwarcz acaba por se mostrar demasiadamente conivente com os autores que elogiam a obra de Lima Barreto e, em contrapartida, exageradamente dura com aqueles que, porventura, tenham objeções literárias ao escritor carioca. É interessante perceber nesse sentido que, apesar de reconhecer, por exemplo, as limitações propriamente literárias de Clara dos Anjos, no qual “há personagens bastante caricatos, bem como furos na continuidade da trama” (p.463), Lilia Schwarcz, mais à frente, em outro trecho, afirma que “como de costume, era a sua biografia e seus hábitos boêmios que contaminavam a recepção da obra, e Lima perdia o ânimo diante da possibilidade, sempre adiada, de ver sua arte finalmente reconhecida” (p.465). Ou seja, eventuais censuras a elementos propriamente literários da obra de Lima Barreto – mesmo quando vindas de críticos literários do porte de Sergio Buarque de Holanda – são tomadas pela autora – como seriam também pelo escritor carioca – como secundárias, meros detalhes, quando o problema principal para a sua não consagração residira somente em aspectos externos à sua obra. É claro que esses elementos importaram e, não sejamos ingênuos, continuam importando nos processos de validação e reconhecimento que organizam, legitimam e operam no campo literário; porém, não se pode secundarizar as limitações e problemas internos à própria obra, que contribuíram para que, apesar de toda sua genialidade, riqueza e potência, a obra de Lima Barreto não fosse alçada ao mesmo patamar daquela produzida, por exemplo, por um Machado de Assis, ponto este explorado por Sergio Buarque de Holanda no artigo “Em torno de Lima Barreto” (Diário de Notícias, 1949), várias vezes citado pela autora na biografia.

Outro aspecto a ser objetado é que falta ao livro de Lilia Schwarcz um pouco do espírito combativo e belicoso de Lima Barreto. Finaliza-se a leitura das mais de 500 páginas da obra sem se saber quais são as discordâncias – se é que elas existem – entre a interpretação da autora sobre Lima Barreto e sua obra e a bibliografia mais recente produzida sobre o autor. Lilia Schwarcz prefere não entrar em bola divida. Tem-se a impressão de que há um grande consenso interpretativo em torno do escritor carioca, ancorado em rótulos como “literatura militante” e “literatura autobiográfica”. É estranho que se trafegue em meio a sorrisos e a consensos quando se está a falar de um autor tarimbado no embate e no conflito. A própria homenagem – merecida, diga-se de passagem – a Francisco de Assis Barbosa, tantas vezes repisada ao longo do livro, é simbólica no sentido de explicitar a ausência de maiores tensões. Pode-se, novamente, de forma provocativa perguntar: se a biografia de Francisco de Assis Barbosa já era tão completa assim, o que Lima Barreto: triste visionário traz de novo? Trata-se, é claro, de uma pergunta retórica que não tem a pretensão de reduzir a importância da obra, mas que chama a atenção para a ausência, em meio a tantas páginas, de uma discussão mais cuidadosa e sistematizada sobre a fortuna crítica já produzida e em que sentido a biografia publicada avança em relação àquilo que já foi escrito sobre Lima Barreto, sobretudo em períodos mais recentes.

Por fim, é de se lamentar que Lilia Schwarcz não tenha explorado de forma mais refinada a ideia por ela mencionada na introdução em torno da concepção de “literatura de matriz afrodescendente” para analisar a obra de Lima Barreto. Em determinada passagem, em diálogo com o crítico literário Alfredo Bosi, a autora diz que “escritores como Luís Gama, Cruz e Souza e Lima Barreto, apesar de adotarem estilos e gêneros diferentes”, guardariam “um ‘fio existencial’ a uni-los e um ‘parentesco próximo’”, que possibilitaria, resguardando suas particularidades, compreendê-los como praticantes de “uma literatura de matriz afrodescendente”, na medida em que compartilhariam “de temas e de experiências subjetivas comuns no campo da criação literária, e reivindicam um sujeito autoral distinto da norma silenciosamente partilhada” (p.16-7). Em alguns outros momentos da obra a autora retoma esta discussão, quando, por exemplo, aborda a possível influência do movimento chamado “negrismo” sobre a literatura de Lima Barreto. Porém, o que temos ao longo da biografia são fios um tanto quanto soltos, que poderiam ter sido mais bem costurados, articulados e trabalhados, sobretudo quando, em diálogo com obras como a coletânea organizada por Sidney Chalhoub e Ana Flávia Magalhães Pinto, Pensadores negros, pensadoras negras: Brasil, séculos XIX e XX (Fino Traço, 2016) e o artigo de Maria Alice Rezende de Carvalho, “Três negros tristes: André Rebouças, Cruz e Souza e Lima Barreto” (Topoi, 2017), se pensa em toda uma produção literária sofisticada produzida por intelectuais negros na passagem do XIX para o XX, que, a despeito de suas heterogeneidades, pode ser pensada em uma chave explicativa que permita buscar aproximações e similitudes tendo em vista o compartilhamento de experiências atravessadas pela descriminação racial e social.

As objeções acima levantadas, contudo, não devem servir como qualquer desestímulo para a leitura de Lima Barreto: triste visionário. O leitor que se debruçar sobre esta biografia terá a oportunidade não apenas de conhecer melhor a obra de Lima Barreto e seu contexto, mas também se aprofundar em torno de diversas temáticas como a questão racial na passagem do XIX para o XX, que, reitera-se, a autora maneja com maestria. Poderá ainda se deleitar com a leitura de capítulos interessantíssimos, que já valeriam a publicação da obra, como aquele que se debruça sobre a “Limana”, a biblioteca de Lima Barreto. A leitura compensa e reitera para aquele que chega ao final da obra a constatação quanto ao absurdo da demora para a mais que merecida homenagem a Lima Barreto na Flip deste ano.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14336. Acesso em: 24 jul. 2017.

Anúncios