Fernando Perlatto*

A tradição do ensaísmo inglês é de uma riqueza ímpar e impõe, com toda sua força, uma profunda admiração e respeito àquele que sobre ela repousa o olhar. Desfilam entre seus representantes nomes como Samuel Johnson, Charles Lamb, William Hazlitt, William Morris, Tony Judt, Christopher Hitchens, Terry Eagleton, entre tantos outros, que, embora distintos em suas abordagens, perspectivas literárias e posições políticas, se aproximam na prosa aguçada e na fineza dos diagnósticos e leituras de autores, obras e contextos vários. Não se trata aqui, por certo, de abordar de forma mais detida o ensaísmo inglês – sobre o tema, deixo a recomendação do belo texto “Sobre ensaístas ingleses”, de Lúcia Miguel Pereira, publicado na revista Serrote (número 22) –, mas de destacar que esta tradição robusta de ensaísmo, sobretudo na vertente que William Hazlitt chamou de “ensaístas de periódicos” – ver texto sobre o assunto deste grande ensaísta também reproduzido na mesma revista Serrote –, teve um fruto importante na prosa de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell.

Embora seja principalmente conhecido pelos seus livros de ficção – Dias na Birmânia (1934), A flor da Inglaterra (1936), e, sobretudo, A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949) –, Orwell foi um ensaísta refinado, cujos textos podem ser encontrados em várias antologias, a exemplo de Critical Essays (2009), organizada por George Packer. No Brasil, vários desses ensaios chegaram ao mercado editorial com as traduções publicadas nas coletâneas Dentro da baleia e outros ensaios (2005) e Como morrem os pobres e outros ensaios (2011), editados pela Companhia das Letras. Este ano foi lançado pela mesma editora um novo conjunto de ensaios e resenhas de Orwell, reunidos sob o título O que é fascismo? e outros ensaios, organizados e prefaciados pelo jornalista Sergio Augusto. Os textos coligidos são de grande valia quer seja para o entendimento de certo “clima de época” de um mundo em compasso de destruição, quer seja para uma compreensão mais ampla da própria interpretação de Orwell sobre aqueles tempos sombrios.

Abrangendo um período de dez anos, que se estende de 1938 a 1948, os vinte e quatro textos reunidos em O que é fascismo? e outros ensaios abarcam objetos diversos, que têm como principal eixo articulador a temática dos autoritarismos nas suas distintas vertentes, em especial o fascismo. A obra é composta por textos mais analíticos – a exemplo dos ensaios “O que é o fascismo?”, que dá título à obra, e “Iugoslávia e expurgo de escritores”, no qual reflete sobre os impactos das políticas culturais estalinistas conduzidas por Andrei Zhdanov – e resenhas de filmes como O Grande Ditador, de Charles Chaplin, e de livros como A alma do homem sob o socialismo, de Oscar Wilde. Como sói acontecer em coletâneas com este escopo, há certa inconstância nas resenhas e ensaios coligidos, com alguns textos com maior fôlego e requinte analítico, e outros menos interessantes; porém, no geral, o que prevalece é a capacidade analítica de Orwell, que se apresenta para o leitor contemporâneo como um intérprete atento e sensível a obras, autores e ao mundo.

O mundo que Orwell escreve seus ensaios é desalentador. Em texto publicado em 1940, o escritor inglês diz viver em uma época “na qual a democracia está em retirada em quase todo lugar, em que super-homens estão no controle de três quartos do mundo, em que a liberdade é descartada na explicação de insidiosos professores, em que o espancamento de judeus é defendido por pacifistas” (p.38-40). Diante desse cenário, Orwell compartilha de um “clima de época” pessimista, que vê, assim como ocorrera em 1914, porém agora em maior proporção, a civilização europeia, com seus sonhos, projetos e utopias, entrar em colapso, envolvendo-se novamente em um conflito de proporções gigantescas, com consequências trágicas. As resenhas e os ensaios de Orwell são contemporâneos de publicações como A Dialética do Esclarecimento, de Horkheimer e Adorno, e ecoam os temores que aquela conjuntura marcada pelo avanço do nazifascismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial impunha a todos que temeram a vitória dos autoritarismos em suas várias vertentes. Daí o clima de desalento perpassar a quase totalidade dos textos, ainda que, importa registrar, o autor não seja tomado por completo pelo pessimismo, vislumbrando frestas de esperanças.

Muitos dos ensaios procuram refletir sobre o que é o fascismo – e aí, incluído, na perspectiva do autor, a experiência nazista – e de que maneira este fenômeno logrou sucesso em espalhar-se pelo mundo com força impressionante. No que concerne à definição do fascismo, no ensaio que dá nome à coletânea, “O que é o fascismo?”, publicado em 1944, Orwell faz uma série de advertências que são muito atuais no sentido de se evitar uma banalização do termo. De acordo com o autor “não existe quase nenhum grupo de pessoas – certamente não um partido político nem um corpo organizado de nenhum tipo – que não tenha sido denunciado como fascista durante os últimos dez anos” (p.86). Diante desta flexibilização do conceito, “vai-se constatar que, do modo como é usada, a palavra ‘fascista’ é quase desprovida de todo significado” (p.88). A imprecisão conceitual não é mero capricho, mas importa substancialmente, na medida em que tem consequências tanto do ponto de vista analítico – dificultando a compreensão das particularidades intrínsecas à experiência fascista –, quanto político, uma vez que a indefinição do conceito impede o entendimento correto das características do fascismo, visando seu enfrentamento mais preciso. Como constata Orwell, em uma frase que serve perfeitamente para o tempo presente: “Tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão” (p.89).

Para além da preocupação com a definição mais precisa da ideia de fascismo, vários dos ensaios refletem sobre as causas da expansão deste fenômeno pelo mundo nos anos 1930 e 1940. Quanto a este aspecto, vale destacar a importância de resenha escrita por Orwell em 1940 sobre o livro de Hitler, Mein Kampf. Embora, naturalmente, se opondo a seus posicionamentos políticos e à “rigidez de sua mente” (p.28), o ensaísta afirma haver nele “algo que é profundamente atraente” (p.29). Esta capacidade de atração, que se manifestava na força “avassaladora quando se ouvem seus discursos” (p.28) decantou em uma Alemanha, cujo cenário “com seus 7 milhões de desempregados, era obviamente favorável aos demagogos” (Idem). Para além dos aspectos da sua personalidade, interessa a Orwell destacar que Hitler teve também sensibilidade no sentido de captar “a falsidade da postura hedonista diante da vida” (p.30). Enquanto parte significativa do pensamento progressista ocidental, desde a última guerra, teria assumido “tacitamente que os seres humanos não desejam nada além de ter facilidade, segurança e evitar o sofrimento”, deixando de lado elementos como “o patriotismo” e as “virtudes militares”, os fascistas perceberam que “seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, no geral, bom senso; eles também, ao menos intermitentemente, querem luta e autosacrifício, e isso sem falar em tambores, bandeiras e desfiles demonstrativos de lealdade” (p.30). Para Orwell, caso não se compreenda esta característica específica do fascismo – qual seja, a perspectiva segundo a qual o oferecimento de uma vida de “luta, perigo e morte” seria superior a uma postura hedonista de “vida boa” prometida pela democracia ocidental (p.30) – perde-se de vista aspectos centrais, sobretudo psicológicos, para a compreensão da expansão do fascismo pelo mundo nos anos 1930 e 1940.

Porém, ressalta Orwell, o fascismo expandiu não apenas por aspectos internos, mas também pela condescendência, para não dizer a irresponsabilidade, de lideranças políticas de países ocidentais que não viram, ou preferiram fingir não ver, o seu crescimento e os perigos nele embutidos. O escritor destaca, especialmente, nesse sentido, a postura da classe governante britânica, que, conforme ressaltado no ensaio “Sem contar os crioulos” (1939), “muito a contragosto (…) tem sido obrigada a tomar uma posição anti-Hitler” (p.21). Em outro ensaio, de 1943, intitulado “Quem são os criminosos de guerra?”, Orwell sublinha o fato de não haver “uma só canalhice cometida por Mussolini entre 1922 e 1940 que não tenha sido louvada e guindada aos céus pelas mesmas pessoas que agora prometem leva-lo a julgamento” (p.54). Para Orwell, ainda que “em 1937, ou por volta disso”, já não fosse possível para a elite política britânica “ter dúvidas quanto à natureza dos regimes fascistas”, muitos daqueles pertencentes a ela, sobretudo os “senhores de propriedade”, apoiaram os fascistas, mostrando-se “dispostos a engolir os mais fedorentos males, contanto que sua propriedade ficasse em segurança” (p.58). Após a consumação da barbárie fascista, principalmente em sua vertente nazista, a hipocrisia daqueles que foram coniventes com o autoritarismo cobrava agora seu preço. Pergunta, então, provocativamente o autor: “como é que algo que era louvável na época em que vocês a praticaram – digamos, dez anos atrás – de repetente se torna repreensível?” (p.55).

Refletindo sobre as contradições entre o discurso antifascista, ancorado em uma retórica da liberdade, e a prática paralela de uma política colonialista desastrosa, marcada por autoritarismos de toda espécie, conduzida pelo império inglês, Orwell questiona no ensaio “Sem contar os criolos” (1939): “como podemos ‘combater o fascismo’ se fortalecemos uma injustiça muito mais ampla? Porque certamente ela é mais ampla. O que sempre esquecemos é que o grosso preponderante do proletariado britânico não vive na Grã-Bretanha e sim na Ásia e na África” (p.24, grifos do autor). Prossegue o autor: “Pode-se ter alguma ideia do verdadeiro relacionamento entre Inglaterra e Índia quando se reflete que a renda anual per capita na Inglaterra é algo como oitenta libras, e na Índia, cerca de sete” (p.24); Daí, Orwell ressaltar que a única alternativa de transformação naquela conjuntura estaria depositada na possibilidade do “surgimento, no decurso dos próximos dois anos, de um partido realmente de massas cujos primeiros pleitos sejam pela recusa da guerra e por uma correta justiça imperial” (p.26). Já em 1943, no ensaio “Quem são os criminosos de guerra?”, o autor afirma de forma ainda mais dura que “se há uma saída moral para a pocilga em que estamos vivendo, o primeiro passo em sua direção é provavelmente perceber que ‘realismo’ não compensa, e que vender seus amigos e ficar sentado esfregando as mãos enquanto eles são destruídos não constitui a última palavra no que concerne à sabedoria política” (p.60, grifos do autor).

Entre os ensaios e resenhas de Orwell selecionados para o livro, é possível identificar uma preocupação especial por parte do autor em refletir sobre textos utópicos e distópicos, publicados em tempos recentes. Especialista na temática, tendo escrito uma das distopias mais clássicas da história literária, 1984, Orwell se debruça sobre autores como H. G. Wells, autor das mais “conhecidas utopias modernas” (p.64), com destaque para Anticipations, A Modern Utopia, The Dream e Men Like Gods; Aldous Huxley, criador da obra Admirável Mundo Novo, que, nas palavras de Orwell, “é uma expressão do verdadeiro medo que o homem moderno sente da sociedade hedonista racionalizada que ele tem o poder de criar” (p.65), e E. I. Zamyatin, autor do livro Nós, que, resenhado por Orwell em 1946, é considerado como uma obra de grande relevância, não apenas por se constituir em “um estudo da Máquina, do gênio que o homem impensadamente deixou sair da lâmpada e não consegue pôr de volta dentro dela” (p.146), mas por ser um livro superior ao de Huxley, se conformando como “uma percepção intuitiva do lado irracional do totalitarismo – sacrifício humano, crueldade como um fim em si mesmo, culto a um líder ao qual se creditam atributos divinos” (p.145). Em relação à imaginação sobre o futuro, Orwell se mostra muito crítico às utopias criadas pela esquerda socialista. Em ensaio intitulado “Socialistas podem ser felizes?”, o autor destaca que “todos os esforços para descrever uma felicidade permanente têm fracassado, desde a história mais primeva” e que as utopias criadas “são invariavelmente insossas e, comumente também carentes de vitalidade” (p.64, grifos do autor): “os habitantes de universos perfeitos”, a exemplo dos imaginados pelos socialistas, diz Orwell, “parecem não usufruir de nenhuma alegria espontânea e costumam ser um tanto repulsivos em suas barganhas” (p.70). Novamente, Orwell está a pensar na incompletude de cenários utópicos hedonistas que não tenham valores como a luta, o autosacrifício e o patriotismo como elementos centrais da experiência vital cotidiana.

Um ensaio particularmente interessante de O que é o fascismo? e outros ensaios se intitula “A literatura e a esquerda”, publicado em 1943. Orwell reflete de forma crítica em relação aos ataques realizados por setores marxistas a escritores como Joyce, Yeats, Lawrence e Eliot, única e exclusivamente pelo fato de eles não partilharem da mesma posição política à esquerda, como se o atestado ideológico fosse condição sine qua non para a definição da qualidade de uma obra literária. Para Orwell, “não gostar da posição política de um escritor é uma coisa. Não gostar dele porque ele obriga você a pensar é outra, não necessariamente incompatível com a primeira” (p.51). Segundo o autor, a crítica literária de esquerda se mostraria equivocada ao buscar “emitir juízos de natureza ostensivamente literária com finalidades políticas” (p.52). Este tipo de postura sectária levou o movimento socialista, segundo Orwell, a se alienar de setores importantes da intelligentsia literária, fazendo com que, de um lado, muitas vezes, panfletos, sem qualquer tipo de qualidade artística, fossem confundidos com literatura, e, de outro, segmentos da esquerda se vissem privados de terem acesso a “uma cultura humanística” mais ampla. No ensaio “Iugoslávia e expurgo de escritores”, publicado em 1947, Orwell vai além e critica qualquer submissão da literatura a critérios ideológicos, ressaltando que “não se pode produzir uma literatura vigorosa aterrorizando todo mundo para forçar sua conformidade” (149). “As faculdades inventivas de um escritor”, ressalta o autor, “não vão funcionar a menos que se lhe permita dizer aproximadamente o que sente” (Idem). Por fim, sentencia: “Pode-se destruir a espontaneidade e produzir uma literatura que seja ortodoxa, mas fraca, ou se pode deixar que as pessoas digam o que optarem por dizer e correr o risco de que algumas delas enunciem heresias” (Idem).

Para além das questões anteriormente destacadas que justificam a importância da leitura dos ensaios de Orwell, convém destacar, à guisa de conclusão, que muitos de seus textos, ainda que datados, podem ser lidos, sem riscos de anacronismos, como diagnósticos sensíveis para a reflexão sobre o tempo presente. Em texto publicado em 1944, intitulado “Sobre panfletos”, Orwell critica aqueles que, ao debaterem determinado assunto, já se fecham a priori ao argumento adversário, encerrando qualquer possibilidade de serem convencidos e, consequentemente, inviabilizando a potência do debate público. Diz o autor em determinada passagem: “Estou dizendo que quase ninguém parece achar que um oponente merece ser ouvido com atenção, ou que a verdade objetiva importa tanto quanto você ser capaz de marcar um ponto num debate” (p.136). “A atmosfera de ódio na qual se conduzem as controvérsias”, prossegue Orwell, “cega as pessoas para considerações desse tipo. Admitir que um oponente possa estar sendo honesto e inteligente é tido como algo intolerável. É mais iminentemente satisfatório gritar que ele é um tolo ou um patife, ou ambos, do que descobrir como de fato ele é” (p.138). Se retirássemos a data da publicação do ensaio de Orwell em meados dos anos 1940, pareceria um texto escrito para os dias atuais.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Escuta.

** Crédito da imagem: disponível em <https://mediaetpotere.wordpress.com/2015/10/17/eric-blairgeorge-orwell/&gt;. Acesso em: 06 jul. 2018

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