Diogo Tourino de Sousa*

A leitura da obra de Gabriel García Márquez é inescapável na formação de qualquer espírito humanista. O escritor colombiano, falecido há pouco mais de três anos, destacou-se ao longo do século XX num gênero que a muitos apraz: o realismo fantástico. Confesso que sua leitura marcou decisivamente minha imaginação desde a juventude. Lembro com saudade da remoção das criptas funerárias do convento de Santa Clara, em Cartagena, quando uma ossada com cabelos que alcançavam vinte e dois metros de comprimento é o mote para a construção da narrativa de uma jovem mordida por um cão raivoso e posteriormente abandonada pelos pais em Do amor e outros demônios (1994); ou da tristeza quase irreal de tão amargurada que brota do conto “Só vim dar um telefonema”, compilado em Doze contos peregrinos (1992), no qual a protagonista perde a sanidade por acidente, sendo consumida pelo inacreditável abandono.

Isso sem falar, é claro, do grande Cem anos de solidão (1967), sem dúvida uma das mais importantes obras da literatura. Nela vivemos a saga dos Buendía, na fictícia cidade de Macondo, onde o desenrolar dos acontecimentos vai magicamente nos ensinando que tudo é possível. Seja uma chuva interminável que faz com que progressivamente as pessoas desaprendam o nome das coisas, seja a realização da profecia de Melquíades, que confere um arrebatador desfecho ao enredo.

Longe de esgotar a magnitude da obra de García Márquez, penso, intrigado, como o elemento mágico de sua literatura vem, no presente, surgindo na minha memória, por um motivo que dista da beleza dos seus livros. Trata-se do modo como a conjuntura brasileira recente pode, com alguma incorreção, ser descrita como uma espécie de realismo fantástico de consequências impróprias. Isso porque, o desenrolar dos fatos no país, desde o contexto que antecede imediatamente o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, até o presente, quando seu sucessor, Michel Temer, vem sendo emparedado por uma trama jurídica que cobra didatismo diário dos meios de comunicação, a sensação comum passa tristemente a ser: tudo pode acontecer.

Decerto, na analogia proposta, nada resta de magia dos livros. Diferentemente da literatura fantástica de García Márquez, onde o alargamento do possível estava a serviço da criatividade e da imaginação, seu simulacro nas páginas dos jornais sobre política no Brasil atesta o efeito contrário: o embotamento diante do inacreditável.

Não falo apenas do recente processo de impedimento, com sentido ainda em disputa, mas de alguma forma límpido ao público comum desde o vazamento dos áudios entre o senador Romero Jucá (PMDB-PE), e Sergio Machado (ex-executivo da Transpetro, uma subsidiária da Petrobras). Aliás, sobre este episódio em particular, sustento a hipótese de que o conteúdo das gravações ainda comporá a síntese de honestos manuais de história produzidos num futuro menos insano, surgindo ao final do capítulo que verse sobre esse sobressalto interminável com frases como “tem que colocar o Michel”, fazer um “grande acordo… com o STF com tudo”, promover uma “mudança” no governo federal para “estancar a sangria”.

Igualmente, o inacreditável não se encerra na demissão do ex-ministro da Secretaria de Governo de Temer, Geddel Vieira Lima, num escândalo no qual teria, com a anuência da Presidência da República, pressionado Marcelo Calero, então ministro da Cultura, para a liberação de obras no centro histórico de Salvador. No episódio, Geddel seria abertamente beneficiado por meio de um empreendimento imobiliário.

Nosso “inacreditável”, uma “jabuticaba brasileira” quando pensado em comparação com a literatura há pouco aludida, que, de fato, não cessa de nos surpreender, talvez tenha encontrado seu ponto alto, ainda que dê sinais de continuidade, na delação dos irmãos Batista, por meio da qual ouvimos o próprio Temer, gravado com autorização da Polícia Federal numa operação controlada, consentir a compra de operadores do direito ou o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

A operação em questão subsidiou a Procuradoria Geral da República na construção de uma denúncia contra o presidente Temer, apresentada na semana passada. Este episódio, creio eu, figura como o cume da impensável realidade vivida, ainda que algo similar possa invadir os noticiários nos próximos dias.

Digo isso menos pela plausibilidade de que representantes eleitos se envolvam em processos de corrupção, e mais pela reação do acusado, o presidente Temer, aos documentos apresentados pela PGR. No mesmo dia em que Rodrigo Janot entregou ao Supremo Tribunal Federal a peça acusatória, Temer chamou de “ficção” a denúncia e disse, ao negar que existam provas contra ele, tratar-se uma “novela” criada pelo procurador.

Recorrendo ao habitual argumento de autoridade – sem falar no apelo emotivo ao caráter e à dignidade próprios de um “homem de bem” –, Temer afirmou que a PGR teria reinventado o “Código Penal”, criando uma “nova categoria: a denúncia por ilação”. Em suas palavras: “se alguém que eu conheço cometeu um crime, logo, por ilação, eu também sou criminoso”.

A patetice poderia, caso inacreditável não fosse, parar por aí. Mas o absurdo gosta de se superar. Foi então que o presidente Temer insinuou, como suposta estratégia de defesa, que o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, teria recebido propina depois que o ex-procurador, Marcelo Miller, deixou o cargo e passou a atuar como advogado do grupo J&F, que controla a JBS dos irmãos Batista. Miller era braço direito de Janot até recentemente, dando a Temer a chance de dizer: “quem deixa a procuradoria, tem uma quarentena”, e no caso dele “não houve quarentena nenhuma”; “o cidadão foi trabalhar para esta empresa e ganhou milhões”, e “talvez os milhões recebidos não fossem unicamente para o assessor de confiança”; “mas eu tenho responsabilidade, não farei ilações”; “eu tenho orgulho de ser presidente, não sei como Deus me colocou aqui, me dando uma tarefa difícil, mas eu tenho orgulho”.

A estratégia do jurista de bem é simples, e mesmo por isso ridícula. Conhecida no mundo jurídico como argumento ad hominem, o presidente Temer se furta da discussão acerca da peça acusatória em si, e opta pela desqualificação do acusador. Longe de apresentar argumentos razoável para o fato de ter recebido um empresário tarde da noite em casa, em compromisso fora da agenda, ouvindo a confissão de crimes e anuindo com um senhorial “tem que continuar com isso aí”, Temer prefere sugerir, por “ilação”, que poderia dizer, mas não vai dizer.

A cereja do bolo, ou a jabuticaba, no caso mais típico, está dada, coroando a série de absurdos que a política brasileira tem testemunhado: o presidente da República, flagrado em ato de obstrução de justiça, tendo os “seus” diariamente acossados pelo Judiciário, emparedado mesmo politicamente ao ponto em que dia a dia menos parecem dispostos a “sangrar por ele”, é denunciado pela PGR e reage com um absurdo “eu poderia dizer, mas não vou dizer”.

O substantivo, penso, está no pano de fundo que acompanha estes e outros acontecimentos que, no cômputo geral, vêm tornando a realidade progressivamente “fantástica”. Trata-se do modo inautêntico por meio do qual o governo de Michel Temer, questionado em sua legitimidade desde a origem, avança uma agenda que jamais seria referendada pelas urnas, sobretudo após a última década, quando insurgiu na malha dos direitos parcela até então negligenciada da população do país.

A sensação de quem se ocupa detidamente da política pode oscilar. Talvez a indignação da militância derrotada, dos setores de esquerda que testemunham com atenção e sem passividade o inacreditável vivido. Talvez a tristeza do saudosismo democrático, alimentada pela esperança de que jamais retornaríamos para os anos 1980, num contexto pré-Constituição em que a inflação galopante, a estreiteza dos direitos e a legitimidade do social para qualquer tipo de atrocidade parecia ter saído de cena. Ou talvez o embotamento, seja pelo “legítimo” direito da alienação cotidiana – “tenho mais o que fazer” ou “vou cuidar da minha vida” –, seja pela incapacidade diante de um cenário no qual tudo pode acontecer.

Em casa, no trabalho, nas escolas, nos bares ou nos encontros fortuitos, cada vez menos as pessoas parecem se importar. Mesmo em meio ao cume do absurdo, o embotamento invade o brasileiro numa sucessão de inacreditáveis, amarrados pelo pano de fundo há pouco sugerido, que vão redirecionando nosso olhar para coisas que parecem importar mais. Eu mesmo confesso que, ao chegar em casa na última terça-feira, ouvindo as declarações de Temer sobre a acusação da PGR, afundei no embotamento do sofá.

Sorte ter sido salvo pela leitura do pequeno volume de Timothy Snyder, Sobre a tirania, recentemente traduzido para o português (Companhia das Letras, 2017). O livro, fruto da reação imediata do historiador norte-americano à eleição de Donald Trump para a Casa Branca, traz vinte lições direcionadas ao tempo presente, com o propósito de evitar a derrocada da democracia que já se alinhava no horizonte. Portando uma humildade confessa, Snyder parte da história europeia do século XX para apreender o que deveria ser evitado num regime democrático. Seu texto, leve e incisivo, ainda que excessivamente normativo, cumpre, no meu entendimento, um importante papel: difundir hábitos de convívio coletivo cada vez mais escassos.

No cenário de embotamento que o cotidiano absurdo da política brasileira vem se desenrolando, algumas das lições de Snyder são caras. Retenho, em particular, a décima lição: “acredite na verdade”. Ao enunciá-la, o historiador, consternado pelo que havia sido a campanha de Trump nas eleições norte-americanas – um realismo fantástico em chave próxima ao sentido aqui sustentado –, entende que “renunciar à diferença entre o que se quer ouvir e o que de fato é verdadeiro é uma maneira de se submeter à tirania. Essa recusa à realidade pode parecer natural e agradável, mas o resultado é o seu fim como indivíduo”.

Na sequência, Snyder recupera o escritor Victor Klemperer, judeu alemão e filólogo que se ocupou detidamente do totalitarismo vivido por seu continente no século XX, notadamente em sua reflexão sobre os modos por meio dos quais a verdade morre. Estes seriam quatro: em primeiro, a hostilidade aberta à realidade verificável, apresentando invenções como se fossem fatos; em segundo, o encantamento xamanista no assassínio da verdade, mediante a repetição embotadora de estereótipos; em terceiro, o pensamento mágico e a adoção aberta da contradição, sugerindo o abandono da racionalidade como forma de proceder; e, em quarto, a exploração indevida da fé por meio de afirmações autodivinizantes como “eu sou a voz de vocês” (ou, porque não, “Deus me escolheu para ser presidente”).

O espanto de Kemplerer à época era constatar que quando “o sentimento de fé se desloca dessa maneira do céu à terra, não sobra espaço para as pequenas verdades de nosso discernimento e experiências individuais”. A reação fácil, ainda que de consequências terríveis, é o cinismo do “não tenho nada com isso”. Ou, sendo mais justo com a crueldade embotadora do presente, o distanciamento do “não tenho nada o que fazer”.

Ainda que eu reconheça o perigo da crença numa verdade única, bem como a polifonia possível na leitura dos fatos, a provocação de Snyder bem serve ao momento: mostrar como formas triânicas primam pela difusão do absurdo. Conforme propus aqui, num contexto em que tudo parece ser possível, o cinismo avança sem restrições.

Contra tal comportamento, as lições elencadas por Snyder se impõem como necessárias, não só no contexto norte-americano, mas também no Brasil da era Temer, onde a “verdade”, ou o publicamente razoável, lançando mão de uma expressão mais acertada em política, parece morrer pelos quatro motivos descritos por Klemperer, dando lugar ao flagrante absurdo.

Logo, ainda que o “fantástico” do momento anuncie mais a tristeza e a consternação do que a imaginação e a criatividade, a história impõe a resistência como forma de evitar o terrível.

Ao presidente Temer e seus argumentos ad hominem, fecho com a lembrança inevitável da anedota do bêbado, que numa discussão acalorada com um amigo sóbrio, argumenta e ouve como reação ao que diz: “você está bêbado”. Em resposta, ele diz: “mas amanhã estarei sóbrio”. Acrescento: e o argumento persistirá.

*Diogo Tourino de Sousa é um dos editores da Escuta.

Crédito de imagem: FotosWik.org; Disponível em: http://www.fotoswiki.org; Acesso em: 03 jul. 2017.

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