Luiz Guilherme Burlamaqui*

Em 1966, o time de futebol da República Popular da Coreia (PKR) disputou a sua primeira Copa do Mundo. Os norte-coreanos chegaram à Inglaterra como azarões e poucos acreditavam que eles pudessem fazer qualquer tipo de algazarra no torneio. Ainda assim, depois de uma derrota para a União Soviética, não sem surpresa a Coreia do Norte empatou com a respeitável equipe do Chile. De toda a sorte, o empate contra a seleção sul-americana seria um aperitivo do que estava por vir. Na partida seguinte, disputada em Middlesbrough, a vitória por 1 a 0 contra a tradicional seleção da Itália entrou definitiva nos livros de registro como uma das maiores “zebras” da história do futebol mundial. Classificados às quartas-de-final do torneio, os norte-coreanos chegaram a abrir três gols de vantagem em relação à Portugal, tendo sofrido a virada por 5 a 3, com atuação exuberante do moçambicano Eusébio, que anotou 4 gols. O sonho de verão da Coreia do Norte na Inglaterra é uma história bastante conhecida pelos aficionados de futebol, tendo produzido uma série de documentários, livros, dentre outras coisas. Fora de campo, entretanto, a saga da seleção coreana exprime uma série de tensões e contradições, que cruzam a história da consolidação dos megaeventos esportivos às transformações e às metamorfoses da Guerra Fria no período. Esse texto tenta examinar sumariamente tais contradições.

No final da II Guerra Mundial, os megaeventos esportivos – nomeadamente, os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo de futebol – se consolidaram como eventos que ocorriam numa escala global. A consolidação da Copa do Mundo guardou um ritmo mais lento do que a dos Jogos Olímpicos: seguramente, pode-se dizer que apenas em 1958 a Copa do Mundo se consolida como um torneio de fato global e inclusivo. Isso pode ser visto ou mensurado tomando por base os países que disputaram as eliminatórias do torneio, mas se recusaram a disputa-lo. Em 1950 no Brasil, por exemplo, diversas seleções desistiram de disputar a competição, que acabou com 13 participantes, quando, na verdade, 16 seleções eram esperadas pelo comitê de organização.  De 1958 em diante, praticamente cessam as desistências das Federações Nacionais afiliadas à FIFA. A Copa do Mundo da Suécia também marca o ingresso da televisão como ator do espetáculo e da transmissão radiofônica em tempo real. O barateamento do transporte aéreo fez com que o fluxo de pessoas que migrava para assistir a Copa do Mundo aumentasse muito nesse contexto. De acordo com fontes oficiais do governo britânico, a Inglaterra recebeu cerca de 100 mil turistas para assistir à Copa do Mundo em 1966, só do Brasil se deslocaram cerca de 10 mil pessoas. Ali, se chegava a um ponto sem volta na construção de um império global.

Neste aspecto, as vagas disponíveis à Copa do Mundo já não eram mais desprezadas, mas sim disputadas a ferro e fogo. Este contexto de consolidação dos megaeventos se soma à transformação radical da estrutura geopolítica da FIFA. Em 1964, no Congresso da FIFA em Tóquio, o bloco afro-asiático organizou um boicote à competição. Esta medida radical visava a uma necessidade urgente. Escandalizado com tamanha audácia, o Comitê Executivo, capitaneado pelo presidente da entidade, o inglês Stanley Rous, estabeleceu uma regra que, dali em diante, todo e qualquer país filiado à FIFA deveria disputar as eliminatórias da Copa do Mundo. Para a Copa de 1966, nada mais se poderia fazer. Ali, ficava destinada apenas uma vaga a todo o bloco asiático, africano e também à região da Oceania. Diante do boicote maciço e com a expulsão definitiva da África do Sul, restava somente uma vaga para ser disputada entre a Coreia do Norte (o único país da região que não aderiu ao boicote) e a Austrália. Em dois jogos disputados na República do Camboja, vista então como “território neutro”, a Coreia do Norte despachou a Austrália por 9 a 2 no placar agregado. No ano seguinte, a República Popular da Coreia embarcaria para a Inglaterra.

Para o ministério das relações exteriores da Inglaterra (FCO — Foreign and Commonwealth Office), a classificação da Coreia do Norte foi um duro golpe. Nos livros de história, a Guerra do Coreia (1950-1953) aparece como apenas mais um dos conflitos provocados pela Guerra Fria. No começo da década de 1950, quando o mundo mal havia saído da II Guerra Mundial, o medo de que o conflito se alastrasse a níveis globais era palpável. As tropas ingleses haviam participado da Guerra em número significativo, com mais de 15 mil soldados. Derrotados, o governo do Reino-Unido se recusou a reconhecer a República Popular da Coreia como um Estado-Nação (algo que só veio a acontecer em 2000). Em 1966, que a bandeira da Coreia do Norte fosse erguida em seu território e que o hino fosse tocado em território nacional era um precedente perigoso. Afora as rusgas e o histórico de conflito com os coreanos, os burocratas do Ministério das Relações estavam particularmente preocupados com a situação da Alemanha Oriental, que, por sua vez, também não tinha relações oficiais com o Reino-Unido. Doravante, os alemães do Leste poderiam exigir tratamento igual.

Neste contexto, os diplomatas ingleses tiveram uma ideia: recusar os vistos aos norte-coreanos. Fazer isso, entretanto, geraria uma grave crise diplomática no terreno esportivo. De imediato, a FIFA pressionou o governo inglês, ameaçando, inclusive, com a possibilidade de retirada da Copa do Mundo da Inglaterra. Estava claro que o FCO precisava recuar. Há uma documentação vasta (mais de duzentas páginas) sobre isso nos Arquivos Nacionais da Inglaterra, no bairro de Kew, em Londres. Na correspondência, é possível ver toda a tensão do corpo diplomático inglês com a participação dos norte-coreanos na competição. Vale a pena citar um trecho curto dessa documentação:

“Assumo que os problemas de se sediar um evento esportivo dessa natureza sejam maiores do que os seus benefícios. Infelizmente, esse tipo de evento tende sempre a gerar mais conflito do que a paz pretendida por seus organizadores. De nossa parte, nós não podemos arriscar a possibilidade desse torneio ser tirado de nosso país, depois de quatro anos gastos na preparação do torneio minuciosa e todo o dinheiro investido pelo governo. Seria um golpe duro para a Footballl Association. (…)”

Ao fim, a decisão de compromisso foi de proibir a execução de todos os hinos dos países que disputaram a Copa do Mundo, com o intuito de evitar que o hino da Coreia do Norte fosse executado. Os hinos só seriam tocados e executados na última partida do campeonato e os diplomatas ingleses não acreditavam que os norte-coreanos fossem capazes de se classificar. Eles tinham razão, mas muito provavelmente sentiram um frio na barriga quando viram os norte-coreanos abrirem uma vantagem de três gols sobre os portugueses. Quanto à Coreia, especificamente, não se poderia chamar o país pelo seu nome oficial – República Popular da Coreia – e sim por Coreia do Norte.

Alheios a toda essa movimentação de bastidores, os torcedores ingleses adotaram sem pestanejar a Coreia do Norte – em especial os da cidade de Middlesbrough, onde a seleção disputou a primeira fase –  como o time predileto. Há imagens de vários torcedores vestindo a camisa e a bandeira da República Popular da Coreia. Numa das raras aparições públicas para o “mundo ocidental”, o capitão do time da Coreia do Norte disse que, por toda a sua vida, permaneceu como uma espécie de enigma a adoção do povo inglês pela equipe da Coreia do Norte. Mais do que o simples gosto por torcer pelo time mais fraco ou azarão, havia ali uma inocente cumplicidade.

*Luiz Guilherme Burlamaqui é flamenguista, faz doutorado em História na USP e colabora com a Escuta.

Crédito de imagem: Imagem disponível em http://www.wscom.com.br/esportes/futebol/coreia+do+norte+se+inspira+em+1966+para+surpreender+favoritos-88727 Acesso em 28/06/2017

 

Anúncios