Jorge Chaloub*

Muito se falou nos últimos dias sobre o mais recente texto de Fernando Haddad, publicado na edição de junho da Revista Piauí.

Os elogios e críticas se centraram, em sua quase totalidade, nos dotes do intelectual Haddad, com um claro embate entre as interpretações que louvavam sua capacidade de leitura da sociedade brasileira contemporânea, habilidade rara entre nossas elites políticas, e as que criticavam a acuidade do seu diagnóstico, problematizando a mobilização de categorias pouco elogiáveis, como o malfadado conceito de patrimonialismo, e sua leitura de Junho de 2013. Alguns, preocupados com as heranças que o político lega ao intelectual, protestaram contra o tom excessivamente autocentrado do artigo, onde as culpas do seu mandato são coletivizadas e os acertos reivindicados.

Creio, entretanto, que a leitura mais profícua do texto caminha em direção distinta de uma análise que tome o intelectual Haddad como eixo central. A razão é simples: ali o professor é completamente secundário, enquanto que o político ocupa a quase totalidade do relato. Não se trata, evidentemente, de uma distinção de conteúdo, mas de um apontamento de estilo. Mais do que uma texto de análise acadêmica, estamos diante de um determinado tipo de construção de memória, não aquela redigida pelo homem público em seu ocaso, mas a que toma o olhar para o passado como impulso para ação política futura.

Não é o caso de recairmos em uma distinção simplista entre o intelectual e o político, onde a uma suposta isenção do primeiro se oporia à militância do segundo. Mesmo em tempos de aberrações como o “Escola sem partido’, não creio serem necessárias muitas linhas para se considerar que toda ação é comprometida, ainda que em graus distintos. Não resta dúvida, entretanto, que até o mais militante intelectual precisa de alguma dose de descompromisso com a disputa pelo poder para exercer com fôlego sua tarefa. Se as consequências políticas das suas ações nunca devem sair de vista, a completa submissão do pensamento às imposições do poder produzem, na melhor das hipóteses, um pensamento de pouco fôlego e com curta data de validade. O intelectual torna-se, nesse cenário, um rebotalho do político, atravessado pela mais comezinha disputa por postos, o que acaba, ironicamente, limitando mesmo as consequências políticas das suas ideias, mais potentes quando distantes dos corredores dos palácios.

Voltando a Haddad e ao seu texto, retomemos nosso ponto: trata-se de um esforço de construção de uma persona política diretamente interessada, mesmo que não somente, nas disputas de curto prazo. A construção dessa imagem, que tem na simbiose entre político e intelectual, ou na ideia de um professor que por força das ideias faz política, um do dos seus marcos, assemelha-se, em sua forma, ao vasto esforço de Fernando Henrique Cardoso no mesmo sentido. Para além das claras dissensões em relação a posição política atual dos dois, há, todavia, a distinção mais evidente de que mesmo que FHC continue como forte ator político após sua passagem pela Presidência, sua idade avançada, bagagem política e vaidade inegável o fazem escrever pensando não apenas nas disputas de curto e médio prazo, nas quais ele continua inegavelmente interessado, mas também na construção de uma imagem para a posteridade histórica. Haddad, ainda relativamente novo na linha de frente da política institucional, parece mais preocupado em moldar uma persona que possa ocupar os vácuos criados pelo profunda crise que sucede ao Golpe de 2016.

Como seria esta persona? Ao já mencionado viés do professor empurrado à política pela força das ideia se soma o político moderado e realista, capaz de conversar, e mesmo caminhar ao lado, de todas as forças políticas para construir as melhores soluções e superar problemas. Nesse sentido, caminham suas menções no artigo a Samuel Pessoa – agora na linha de frente ideológica do processo de desmonte da Constituição capitaneado pelo Governo Temer – Geraldo Alckmin, Jorge Gerdau e, em outros momentos, sua alardeada amizade com Fernando Henrique Cardoso. Frente a esta habilidade, Haddad se opõe aos atores da esquerda que se mostraram incapazes dessa mesma virtude do diálogo, como a ex-presidenta Dilma Rousseff e o Movimento Passe Livre, ambos, sugere Haddad nas entrelinhas, despidos da virtu necessária à ação política e, por isso, em parte responsáveis pelos tumultuados caminhos do país nos últimos anos. O MPL também permite ao ex-prefeito se opor a uma esquerda de suposta feição mais irresponsável – “neoanarquista charmosa”, nas suas palavras -, pouco comprometida, nesta perspectiva, com as consequência do jogo político e os ganhos efetivos, e distinta, portanto, dos mais tradicionais MST, MTST, UNE e CUT. Junho de 2013 torna-se, assim, o encontro da irresponsabilidade de certa esquerda com o oportunismo da direita e ganha a feição de um dos maiores adversários do seu mandato.

Haddad se distinguiria destes atores pelo culto ao diálogo, construído em um política marcada pelas ideias, onde, como aponta o próprio título do artigo – “Vivi na pele o que aprendi nos livros”-, a experiência vem a se confrontar com o acúmulo das bibliotecas. O professor, neste sentido, não quer se apresentar como despido de capacidade prática de realização, já que à ideia ele contrapõe ao longo do texto seus feitos e vivências na prefeitura, mas sim afirmar a imagem de novidade em meio a um cenário político em degenerescência. Este é o papel do conceito de patrimonialismo, tema clássico do nosso pensamento político-social usualmente utilizado para retratar as mazelas da nossa formação e do padrão de interação entre Estado e sociedade.

O patrimonialismo permite a Haddad criticar a colonização do mundo da vida pelo mercado – em homenagem ao seu gosto habermasiano -, atacar os interesses escusos e posturas antirrepublicanas que movem o Judiciário, com direito a estocada no presidenciável Joaquim Barbosa, e contestar a rebaixada qualidade da nossa mídia. Se o conceito, de sabor weberiano, sugere como alternativa a este estado de coisas uma mais clara distinção, mesmo que não absoluta, entre interesses privados e públicos, ele também aponta, naturalmente, para um diagnóstico sobre a incompletude da nossa ordem republicana. Não à toa surge, neste momento, Raymundo Faoro.

A obra do gaúcho permite a Haddad a representação mais perfeita a sua intenção. Surge um cenário onde o político de ideias e valores se defronta com uma ordem estamental e patrimonialista, que impede seus movimentos e sufoca suas aspirações. Até mesmo o PT, do qual o ex-prefeito mantém calculada distância no texto, nascido com vocação contrária e o entusiasmo do próprio Faoro, sucumbiu a este canto das sereias. Não se trata, vale reiterar, de diagnóstico acadêmico, mas de evidente exercício político, no qual a escolha das ideias passa, sobretudo, pelas lentes do ator interessado e por seus desejados efeitos políticos. No roteiro desenhado, Haddad é o ator novo, que pode superar os limites da ordem limitada e inovar, para usar suas próprias categorias no texto, por meio da “grande política” e não do “programa de auditório”. A análise das relações entre São Paulo e o Brasil, que remontam aos piores momentos de Simon Schwartzman, apontam para uma aposta no cenário paulista, mas não seria surpresa, com o grau de incerteza que nos ronda, se Haddad buscasse voos nacionais, tentando ocupar o lugar entre o centro e a centro-esquerda onde Marina algumas vezes malogrou. A ênfase na moderação e a distância das ruas, presentes no texto, apontam neste sentido.

* Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Crédito da imagem: Karime Xavier. Disponível em http://glamurama.uol.com.br/fernando-haddad-para-a-revista-poder-sei-que-tomei-as-decisoes-certas/

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