Eduardo Freitas*

dia vinte e três de maio de 2017 a prefeitura de são paulo ordenava o trabalho de escavadeiras no número 148 da alameda dino bueno. a demolição daquele prédio, que ainda tinha alguns de seus habitantes, era um dos capítulos mais tristes de uma série de tentativas do município de são paulo de “acabar” com a região nacionalmente conhecida como “cracolândia”.

agentes da saúde pública, ministério público, artistas e militantes culturais, prontamente condenaram a ação capitaneada pelo midiático novo prefeito dória. policiais, “cidadãos de bem” e adoradores de uma desenfreada violência policial aplaudiram de pé a força-tarefa realizada por prefeitura e estado. para além das importantes discussões que seguiram após a ação, uma questão parece ser esquecida e pode ser tomada como o cerne da questão: porque a cidade de uma forma geral repele a cracolândia? pesquisa recente realizada pelo datafolha indica que 80% dos entrevistados apoiam a internação compulsória nos moldes defendidos pela prefeitura, prática ultrapassada e combatida de forma veemente por especialistas da área.

até um olhar menos atento é capaz de dizer com tranquilidade que os ditos problemas relacionados à “cracolândia” não são exclusividade daquele território: consumo e tráfico de drogas, corrupção policial, condições sub-humanas de moradia, pequenos furtos, são  práticas e fatos presentes não só por toda extensão territorial de são paulo, mas em todas as grandes cidades do país: logo o problema não reside apenas ali, ou muito menos é inaugurado a partir daquelas relações que perpassam a alameda dino e sua região.

não nos parece portanto que os argumentos mais imediatistas ou pertencentes ao senso-comum, vocalizado pelas grandes mídias, deem conta do esforço empenhado nessa cruzada para a dispersão da “cracolândia”; logo nos perguntamos novamente: porque a cidade de uma forma geral repele a “cracolândia”?

percebe-se a partir daí que o “problema” mais parece ser a sua dispersão e por consequência invisibilização dos ditos problemas do que uma busca efetiva de uma solução duradoura: porque a cidade de uma forma geral repele a “cracolândia”?

observando o nascimento das grandes cidades inglesas na década de 1840, fruto da expansão fabril e consolidação do projeto capitalista industrial, engels aponta que “nos milhares de becos e vielas de uma metrópole populosa haverá sempre necessariamente — assim o tememos — muita miséria que fere a vista, e muita que nunca aparecerá a luz do dia”. cento e setenta anos depois, a “cracolândia” no centro de são paulo anuncia uma miséria que fere a vista, negando o projeto urbano do capital de uma miséria que nunca aparece a luz do dia. asssume a partir daí a concretização de um projeto fracassado de sociedade e de cidade. a “cracolândia” manifesta a negação da cidade em seu próprio epicentro, é o anuncio para quem quiser ver de um desastre dado.

na brilhante “a situação da classe trabalhadora na inglaterra”, engels continua sua descrição e faz uma relação interessante que nos serve para tentar estender nossa compreensão:   “a classe media inglesa e, sobretudo, a classe industrial que se enriquece diretamente com a miséria dos trabalhadores, não quer saber desta miséria. ela, que se sente forte, representativa da nação, tem vergonha de por a nu, aos olhos do mundo, este ponto fraco da inglaterra; ela não quer confessar que se os operários são miseráveis, ela, a classe industrial possuidora, que deveria arcar com a responsabilidade moral dessa miséria.”

a miséria que fere a vista, que coloca desnudada a desigualdade latente da cidade, é o problema colocado pela “cracolândia”. nesse sentido sua dispersão é mais importante que um olhar atento aos problemas geradores daquela situação. a sociedade repele seu insucesso, insiste em não aceitar que ela é quem suscita o “problema” que ela rechaça.

frente a uma extrema fragilidade dada, os atores da cracolândia, para além de encarnarem o fracasso desse modelo de cidade e sociedade, parecem resistir consolidando uma série de relações de potencialidades. frente a uma condição infame de vida estabelecem trocas, convívios, afetos e fundamentalmente a maior densidade da miséria, que é tão cara para o olhar a partir da cidade, mas que seguramente os colocam em uma posição de maiores possibilidades nas relações que desenvolvem. curso natural de toda opressão, simbólicas ou práticas, é a organização (das formas mais distintas) dos oprimidos. pela experiência do uso, pela similaridade das histórias, pelo convício territorial, pelo alijamento das premissas exigidas pelo mundo do trabalho, a negação da cidade parece erguer também sua provocação, na medida em que existe de forma permanente e com tramas legitimadas por seus construtores. a alta densidade como contraposição da dispersão da miséria, escancara a luz do dia.

a alta densidade da miséria não é inaugurada agora, dado os deslocamentos periféricos tão frequentes por mais de um século por aqui (hoje estima-se em mais de onze milhões de pessoas habitando as favelas em todo brasil), o que nos parece ferir tanto a vista é que na velocidade da cidade, na distância da favela, no olhar para os barracos que margeiam os caminhos da cidade, o que capturamos é uma perspectiva mais uniforme e desprovida de rosto, andar, voz e qualquer humanidade. se a invisibilização não é completa (por conta da dimensão concreta do espaço e da necessidade do capital), a desumanização é fundamental. a alta densidade, quando tão distante, não nos confronta diretamente com o rosto da fome, a estética da pobreza extrema, a contemplação do definhamento. dessa forma a “cracolândia” vai muito além do consumo de qualquer coisa que seja e suas consequências, parecendo ser uma ameaçadora maquete em catarse de marés, sertões, heliópolis e ceilândias. traz à superfície e aponta o dedo para quem deveria arcar com a responsabilidade moral dessa miséria.

ainda nos valendo do paralelo inglaterra-são paulo, ignorando propositalmente os intervalos de tempo e espaço para demonstrar que a discussão tange a estrutura e não a conjuntura, engels transcreve a arrebatadora passagem que abaixo citamos, do jornal inglês the times, datada de 12 de outubro de 1843: “numa parte da cidade onde o requinte da arquitetura moderna se absteve prudentemente de construir a mais pequena cabana para a pobreza, num bairro que parece estar exclusivamente consagrado aos prazeres da riqueza, que, precisamente aí, se venham instalar a fome e a miséria, a doença e o vicio com todo o seu cortejo de horrores, consumindo corpo atrás de corpo, alma atrás de alma! é uma situação verdadeiramente monstruosa. o máximo prazer proporcionado pela saúde física, a atividade intelectual, as mais inocentes alegrias dos sentidos lado a lado com miséria mais cruel! a riqueza que, do alto de seus salões luxuosos, gargalha indiferente diante das obscuras feridas da indigência! a alegria que inconsciente, mas cruelmente, zomba do sofrimento que geme ali embaixo! (…) que todos reflitam e compreendam, não para construir teorias, mas para agir”

 

*Eduardo Freitas é alvinegro, técnico de assuntos educacionais da UFF – Campus de Volta Redonda -, mestre em Ciências Sociais (UFJF), e colabora com a Revista Escuta.

Crédito de imagem: Alessio Ortu, é um fotógrafo italiano, de 32 anos, que passou um ano visitando de 15 em 15 dias a região da cidade de São Paulo conhecida como “Cracolândia”.

 

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