Fernando Perlatto*

A publicação no final do ano passado do monumento literário de Thomas Mann, A Montanha Mágica, pela Companhia das Letras, merece registro não apenas pela magnitude do que este livro representa para a literatura contemporânea, mas pelo que ele estimula, ainda que não de forma direta, no sentido de pensarmos o Brasil nos dias que correm. Uma vez que nos lançamos na leitura deste romance de mais de oitocentas páginas, que acompanha o processo de formação e amadurecimento do jovem protagonista, o engenheiro Hans Castorp, em sua prolongada temporada em um sanatório para tuberculosos nos Alpes Suíços, podemos muitas vezes nos embrenhar nas reflexões, trajetórias e dilemas dos vários personagens que povoam o romance, e perder de vista o fato de que A Montanha Mágica foi publicada em um contexto muito particular – mais especificamente em 1924, ou seja, apenas seis anos após o fim da Primeira Guerra Mundial – e, o que é mais interessante pensar, de que a narrativa de Mann, ao olhar para aquele mundo que antecede o conflito, traz à tona um ambiente de época, um “estado de espírito”, que soa muito familiar a alguém que vive no Brasil nos dias atuais.

Este “estado de espírito” aparece com mais clareza nos dois últimos capítulos do romance, intitulados, não coincidentemente, “A grande irritação” e “O trovão”, que são primorosos no sentido de demonstrarem de que maneira os conflitos particulares, cotidianos, aparentemente comezinhos, vão recrudescendo em uma intensidade crescente entre os habitantes do Sanatório Berghof e das mediações, impulsionados por uma “irritação aguda”, sem peias e limites, que a todos e a todas domina. Aquele “ódio”, aquela “sanha de discórdia”, que “antes só existira endemicamente ou em surtos espaçados”, começa a tomar conta de tudo e de todos, e o próprio Hans Castorp, pacato, sereno, tranquilo, “com espanto”, nota “que bastava relaxar um pouquinho para que, também ele, na sua fisionomia, nas suas palavras, no seu comportamento, sucumbisse a uma infecção à qual ninguém, nesse ambiente, conseguia subtrair-se”. Uma “impaciência indivisível” produzia em todos os cantos “discussões venenosas”, “acessos de raiva” e, até mesmo, “lutas corporais” (p.789).

O Sanatório Berghof é tomado por “querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte” e mesmo aqueles que, antes, pareciam avessos aos conflitos, servindo de pacificadores em momentos de discórdia, passam a “simpatizar com a explosão de sentimentos e abandonar-se intimamente à mesma vertigem”, com os olhos brilhando com agressividade e as bocas crispando de tanta paixão. Uma “gritaria grosseira” se tornara frequente e “se alguém gritava”, diz Mann, “invejavam lhe o direito de gritar e de estar ativo naquele momento”. Todos, ao fim e ao cabo, acabavam sendo irreversivelmente arrastados pelo “torvelinho”, envolvendo-se em “brigas por motivos fúteis” e “recriminações mútuas”. Naturalmente, naquele ambiente de “grande irritação”, aqueles “que saíam de casa mais ou menos tranquilos eram incapazes de prever em que estado voltariam” (p.790).

O Brasil dos dias atuais parece completamente tomado pelo clima de “grande irritação”, identificado por Mann no Sanatório Berghof, em A Montanha Mágica. Os sintomas são muito parecidos: a “sanha de discórdia”, as gritarias desenfreadas, a agressividade crescente. Pelo menos desde junho de 2013, o país vem sendo tomado por uma radicalização e por uma polarização intensas, exacerbadas pelo impeachment inconstitucional da presidenta Dilma Rousseff: tem-se a impressão de que foi aberta uma espécie de panela de pressão e que forças sociais e discursos antes reprimidos, sobretudo à direita do espectro político, passaram a ganhar cada vez mais espaço, força e legitimidade na esfera pública. [1] Se antes havia certos constrangimentos para a manifestação de determinadas opiniões, estes constrangimentos foram derrubados e, hoje, todos se sentem completamente à vontade para publicizarem seus preconceitos vários e radicalismos de toda espécie, sem se importarem com os impactos e consequências para os ofendidos de seus posicionamentos.

Não restam dúvidas de que a “grande irritação” encontra território propício para sua manifestação na internet, sobretudo nas redes sociais, que se transformaram, como bem demonstrado por Michel Laub, em seu ótimo romance Tribunal de Quinta-Feira, lançado ano passado, em verdadeiros tribunais de exceção, nos quais as pessoas, à direita e à esquerda, se converteram não apenas em especialistas de todos os assuntos, mas, sobretudo, em grandes juízes, que condenam seus adversários e desafetos, sem qualquer possibilidade de contraditório, com assustadora virulência e brutalidade. Não importa se para isso seja muitas vezes necessário distorcer argumentos ou até mesmo se valer de reportagens e notícias falsas oriundas de fontes duvidosas. A necessidade de ter opinião sobre absolutamente tudo, o desejo de se mostrar pertencente a um lado e a busca de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais explodem qualquer possibilidade de mediação, de reflexão, de alteridade ao sentimento e aos posicionamentos do outro, e a “grande irritação” vira motivo para posicionamentos radicalizados que, em diversos momentos, se convertem em verdadeiros linchamentos morais. O comportamento agressivo não é apenas naturalizado, mas desejado: trata-se da total banalização do ódio como mediador do debate público.

O “estado de espírito” da “grande irritação” também conta, é claro, com a colaboração dos meios de comunicação, que se valem deste sentimento difuso para potencializar sua audiência. Basta ver diariamente a capa dos principais jornais e revistas do país ou ligar no noticiário para perceber de que maneira a imprensa alimenta irresponsavelmente esse clima geral de ódio que se abateu sobre o país: delações são divulgadas como verdades absolutas em tons grandiloquentes e os acusados são condenados a priori pela opinião pública, sem que tenham condições de se defenderem das imputações lançadas contra eles. Se, porventura, no futuro aquele hoje exposto nas capas de jornais e revistas for declarado inocente, não haverá nada o que fazer para recuperar o prejuízo à sua imagem e os danos pessoais e emotivos a ele causados. Nesse ambiente sedento de vingança, setores amplos da população vibram com prisões, agressões e xingamentos públicos contra políticos e opositores, bem como com o falecimento de adversários, como se situasse na fúria constante a tábua de salvação para o país.

Nas instituições, o cenário de desolação, contaminado pela “grande fúria”, é o mesmo. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, se ofendem e batem boca publicamente, como se não fossem representantes da mais alta corte constitucional do país. Mendes, que se pronuncia sobre quase todos os assuntos nos jornais, também se bate em tons altissonantes com o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. No Legislativo, deputados e senadores se engalfinham retoricamente, quase chegando às vias de fato. O Executivo, sob a batuta de Temer, desprezando a oposição e as manifestações contrárias, conduz o programa neoliberal máximo, como se a este governo impopular tivesse sido conferido alguma legitimidade para explodir o consenso social mínimo conformado a partir da Constituição de 1988.

Pode-se objetar, é claro, que a explosão da “grande irritação” teve o mérito de expor posicionamentos antes ocultos, camuflados, fazendo com que pessoas que tempos atrás calavam suas ideias, à esquerda e à direita, passassem a se sentir estimuladas a exporem publicamente suas visões de mundo, rompendo, em certo sentido, com certo consenso pasmaceiro que dominava o debate público do país. Este consenso pasmaceiro, para dialogar com tradição política que ecoa Rancière e Laclau, serve muito bem ao conformismo caro à democracia liberal, que compreende qualquer tipo de embate, antagonismo e dissenso sob a chave da negatividade, como uma espécie de ameaça ao status quo. Porém, o que tem se visto é que a radicalização chegou a tais extremos que, em muitos momentos, se torna politicamente estéril, improdutiva, na medida em que impossibilita qualquer movimento de escuta do outro, escuta esta que possa efetivamente levar a uma disputa e a um embate de ideias.

É possível conceber esta visão da defesa da escuta como ingênua, utópica, covarde ou seja lá qual definição que o acusador queira usar. Mas ela se ancora em uma perspectiva radical de democracia que acredita na ideia de que a potência deste sistema se sustenta precisamente na capacidade do diálogo e da convivência com o outro. A linguagem do conflito não apenas deve fazer parte, mas deve ser estrutural na vida democrática, gerando tensões, disputas e embates; porém, ela não pode se tornar a única linguagem da vida democrática, como vem acontecendo no país, retroalimentando permanentemente a “grande irritação”, sob o risco de ser a causa da explosão do próprio sistema que lhe dá guarida. É possível pensar normativamente, nesse sentido, que entre a retórica ingênua a favor da pacificação e do consenso – que esconde e escamoteia conflitos e dissensos fundamentais na vida democrática – e a retórica raivosa a favor da destruição do outro – que impossibilita qualquer movimento no sentido de se escutar e respeitar a posição daquele de quem discordamos –, haja uma posição intermediária que possibilite o dissenso sem que isso necessariamente conduza ao aniquilamento daquele que divergimos.

O último capítulo do livro de Thomas Mann intitulado “O trovão” faz alusão ao conflito mundial iniciado em 1914, que, embora, impulsionado pelas grandes potências europeias, só foi possível ter os desdobramentos que teve por deitar raízes profundas nos embates cotidianos que, movidos pela “grande fúria”, se exacerbaram enormemente às vésperas da Primeira Grande Guerra, e que tanto assustaram o protagonista do romance, Hans Castorp. Se o cenário que se avizinha no horizonte não é necessariamente o de uma guerra nas proporções do conflito do início do século, ao menos pode-se pensar que a “grande fúria” que domina o “estado de espírito” do país cria condições propícias para o retumbar de um trovão. Não se sabe se virá ou não este retumbar, e se vier, que forma ele assumirá. Pelos rumos tomados pela atual conjuntura, pode-se pensar que o trovão se manifestará no aparecimento de uma liderança autoritária salvacionista que, ungida pelo discurso da ordem e da salvação nacional, queira estabelecer via força, o silêncio e o consenso tão caros aos governos autoritários. Que as forças democráticas sejam capazes de, em meio aos embates, dissensos e disputas necessárias, construírem consensos mínimos para defender, fortalecer e ampliar a democracia no país.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: Reprodução/Fotoprotesto. <http://opiniaoenoticia.com.br/brasil/dia-de-furia-convocacao-para-protesto-violento/&gt;. Acesso em: 28 maio 2017.

Notas:

[1] Sobre este tema, ver também artigo de Diogo Tourino de Sousa, publicado na Escuta, intitulado “O ódio”: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/01/18/o-odio/

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