Fernando Perlatto*

Se a necessidade da convocação de eleições diretas para a presidência da república já se colocava no horizonte político do país, com a divulgação da notícia do áudio do presidente Michel Temer dando aquiescência à entrega de dinheiro para manter o silêncio de Eduardo Cunha na cadeia, esta convocação se tornou imperativa.

Temer, em articulação com um congresso conservador, com setores do empresariado e com apoio da grande imprensa, vinha conduzindo seu governo até o presente momento executando um programa máximo de reformas neoliberais, destruindo direitos e reformando pelo avesso as conquistas da Constituição de 1988, como se eleito fosse para tal ou, pelo menos, como se apoio junto à população desfrutasse para conduzir o rolo compressor reformista.

A publicização das gravações, tanto de Temer, quanto de Aécio Neves, presidente do PSDB, principal partido de sustentação do governo, coloca a conjuntura política do país em outro patamar. Se até então era possível, embora não razoável, concordar com o argumento de que afastar Temer da presidência resultaria em uma eleição indireta, sem legitimidade, conduzida por um Congresso Nacional atravessado por denúncias de toda ordem, sob o risco de se eleger um presidente também ilegítimo, agora, com tudo o que vem à tona, o único cenário possível na atual conjuntura é a convocação imediata de novas eleições para a presidência da república.

As “Diretas Já” se configuram como o único cenário possível para se assegurar que o país tenha um mínimo de estabilidade. Cabe ao Congresso Nacional aprovar com a urgência necessária a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), apresentada pelo deputado Miro Teixeira, que altera a Constituição possibilitando que novas eleições diretas sejam convocadas no país, com a vacância do cargo de presidente em até seis meses do fim do mandato. Não se vislumbra outro caminho capaz de tirar o país da situação em que se encontra.

Eleições diretas trazem, é claro, riscos enormes. Na atual conjuntura, há uma possibilidade real da vitória de pretensos heróis portadores de discursos salvacionistas, seja desejosos de colocarem, via autoritarismo, ordem no caos em que o país se encontra – a exemplo de figuras como Jair Bolsonaro –, seja impelidos pela retórica conservadora da antipolítica – cujos exemplares mais evidentes são João Doria e Luciano Huck. Mas é o risco a se correr. Somente a soberania popular é capaz de resgatar a legitimidade necessária para a democracia brasileira.

Uma nota conclusiva: é de se observar de que maneira os empresários implicados nos escândalos de corrupção divulgados recentemente têm conseguido se livrar da prisão por meio de delações premiadas. Os políticos ganham projeção e holofotes, tornam-se objetos de execração pública, mas muitos dos empresários, com raras exceções, têm saído ilesos, vistos, em muitos casos, quase como que vítimas de um sistema perverso. O risco que vivemos é o de se afastar todos aqueles que representam a política, mas as engrenagens que regem o capitalismo brasileiro continuarem a operar como sempre fizeram.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Escuta. 

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