Jorge Chaloub*

Jim Jarmusch é um cineasta de grandes personagens, construídos como lentes através das quais ele revela facetas pouco evidentes da sociedade estadunidense. Refratário a narrativas do estilo “Jornada do Herói”, onde uma grande ruptura inicial abre às portas para um final redentor, o autor usualmente retrata tipos algo gauche, responsáveis por expor em seu relativo descompasso com o mundo que os cerca feições desta própria realidade. No lugar de grandes acontecimentos, pequenas tensões, sintomáticas das complexas amarras de um quadro mais amplo.  Patterson não destoa desta linha.

A história versa sobre um motorista de ônibus de uma pequena cidade norte-americana, que, em seu tempo livre, se dedica a escrever poesia de feição realista. Dotado do mesmo nome do lugar que habita, e de um livro do poeta William Carlos Willians, Paterson explicita a indissociabilidade entre a arte e a vida, a revelar tanto o caráter poético subjacente mesmo à mais uniforme rotina quanto as inevitáveis repercussões da experiência no fazer artístico. A escrita é necessária para a própria vida do protagonista, refratário às impostações do meio artístico, mas visceralmente dependente da arte enquanto expressão. Longe do arquétipo de gênio intuitivo, já que também se dedica a ler refletir sobre o fazer poético, Paterson ampara sua poesia na capacidade de observar o mundo, percebendo a beleza em aparentes trivialidades, como um caixa de fósforo ou sua repetida rotina ao despertar com a esposa. Homem de poucas palavras, ele se põe constantemente a observar o que o cerca, seja enquanto dirige o ônibus de número 23 – que carrega no letreiro o nome da cidade, e portanto, seu próprio nome – ou quando bebe toda noite sua cerveja no mesmo bar. Seu impulso não é de intervir no mundo, ou revelar-se por meio dos contatos com os outros, mas antes de apreende-los em sua especificidade e ouvi-los. O entusiasmo do protagonista com o poema da criança aponta para o seu ideal de arte, vista como olhar sensível e algo desdramatizado, logo distante do indivíduo contemporâneo cheio de si, para o mundo. Distante da internet e dos seus padrões de construção de uma personalidade autocentrada, ele busca a curiosidade e surpresa de um olhar quase infantil para a poesia perdida em meio à rotina.

Paterson percebe na típica cidade trabalhadora norte-americana esforços de expressão daqueles usualmente distantes da imagem preconcebida do artista, seja quando se defronta com um rapper compondo em plena lavanderia ou conversa com o dono do bar, este entusiasmado em procurar artistas célebres nascidos em Paterson. Ele nunca fala de si, mas apenas observa e procura conhecer o que o afeta. Emulando o olhar do protagonista, com forte tom subjetivo, a câmara expõe pessoas buscando espaços em uma rotina massacrante, em que incentivos apontam para a anulação e a repetição de padrões. A arte surge como uma forma de resistência, distante, entretanto, de padrões de heroísmo ou da propriedade de “artistas”, mas construída no dia a dia por pessoas comuns. O olhar de Paterson permite vê-la onde por vezes não se percebe, seja no personagem que faz do bar seu palco ou na sua própria companheira, ávida por criar por todos os meios possíveis. Sua própria rotina, marcada pela reiterada interrupção do supervisor eternamente infeliz quando se dedica a escrever mais alguns versos, representa à perfeição esse esforço.

Paterson surge como um contraponto a certos argumentos fáceis, extremamente comuns em tempos de forte debate sobre o devir conservador da classe trabalhadora branca americana, vinculada à eleição de Trump e relacionada a outros movimentos internacionais de intolerância perante minorias, como o Brexit e a votação expressiva de Marine Le Pen, na França. Trata-se de um filme com claro significado político, mesmo que não evidente ao primeiro olhar. No lugar da corriqueira crítica a uma suposta alienação, Jarmusch vê indivíduos ávidos pela possibilidade de pensarem e se exprimirem em uma sociedade que, organizada por um dinâmica capitalista de crescente espoliação do tempo livre, não trabalhado, em tudo contribui para evitá-la.

Se Deleuze bem aponta que a arte, e a contemplação que lhe é necessária, surgem como forma privilegiada de resistência em uma sociedade contemporânea marcada pelo crescente predomínio de uma ação irrefletida, pode-se ver em Paterson – lido como metonímia da cidade com a qual compartilha o nome, que, por sua vez, é também a metonímia de um determinado tipo de cidade – um exemplo bem acabado de subversão da ordem, mesmo quando parece a ela se adequar. Desta percepção surgiria uma outra política, onde se fazem ausentes os intelectuais redentores, assim como as pretensões de esclarecimento de cima pra baixo, e ganham voz as pessoas comuns, não carentes de mazelas e ressentimentos, mas também passíveis de sugerir caminhos para um mundo profundamente carente de ideias, saídas e horizontes.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Imagem disponível em https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/noticias/2016/08/paterson-adam-driver-dirige-onibus-em-novas-fotos-de-filme-cotado-ao-oscar Acesso em 07/05/2017

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