Luiz Guilherme Burlamaqui*

Na história das organizações esportivas transnacionais, a eleição de um latino-americano parece ser um ponto fora-da-curva. No Comitê Olímpico Internacional o único não-europeu a presidir a entidade foi Avery Brundage, um americano tradicionalista, eleito por volta de 1952. Na FIFA, a exceção foi João Havelange. Ele costumava dizer que a sua vitória foi uma “vitória do Brasil”. Para marcar o território, gostava de contar a história de que enquanto permaneceu na FIFA a “bandeira do Brasil” era hasteada ao lado da bandeira da FIFA e da Suíça. Quando perguntado sobre os motivos de sua vitória, via de regra Havelange retomava o mito da cordialidade à brasileira: “Nós sempre fomos de coração aberto enquanto eles [os ingleses] sempre foram mais rígidos”. Nessa descrição, a maleabilidade do brasileiro teria fundamental para o seu triunfo. Narrada pelo próprio, a sua eleição é revivida como um conto de fadas à brasileira, em que as características essenciais que marcam a constituição do povo brasileiro teriam suplantado a dos europeus.

No entanto, a trama que tornou possível a eleição de Havelange é complexa, e ainda está por ser narrada. Sinteticamente, pode-se dizer que ela envolve três frentes fundamentais: diversos agentes que se organizaram dentro do espaço nacional brasileiro no contexto do regime civil-militar para tornar viável seu projeto, uma fratura internacional aberta no sistema internacional da década de 1960 e, por fim, uma estrutura jurídico-política peculiar do “sistema FIFA”. Sem examinar esses três pontos, é difícil compreender por qual razão Havelange foi vitorioso em 1974.

Diferentemente do Comitê Olímpico Internacional (COI), a FIFA adotou, desde muito cedo, um modelo liberal de livre-adesão. Enquanto o COI funciona à maneira de um clube aristocrático – cada membro da entidade era selecionado pelos próprios membros – a FIFA dava ao pais afiliado o direito de escolher seus representantes. Esse modelo de representação delega aos países maior poder político, descentralizando da burocracia administrativa da entidade os principais encargos. No modelo da FIFA, cada país só pode ter um representante na entidade enquanto no COI não há paridade geográfica. Cada membro afiliado da FIFA responde pelo mesmo conjunto de direitos e de deveres. No sistema FIFA, o Congresso é soberano e, dentro desse órgão, cada país tem direito de igualdade em voz e voto.

No pós-II Guerra Mundial, os processos de descolonização da Ásia e da África transformaram o desenho institucional da FIFA. Na década de 1960, os europeus, que representavam quase 80% dos membros da entidade, passam a ser menos de 30%. Em 1961, a eleição de Stanley Rous à presidência da FIFA é ela própria um sintoma dessa transformação. Ela se faz com base numa aliança internacional entre os países asiáticos – sobretudo aqueles que haviam sido colônias inglesas – e os países do Reino Unido. Em 1963, a FIFA passa a subsidiar programas de desenvolvimento em vários países do mundo, especialmente a Ásia. Técnicos, árbitros de futebol e dirigentes intensificam a circulação internacional, passando a visitar com frequência os países menores da entidade. Rous, que é comumente descrito como um europeu enraizado na Inglaterra, frequentava os países menores da entidade com relativa frequência. Essas transformações da FIFA produziram como efeito inesperado a ampliação constante da demanda por recursos por parte dos países afro-asiáticos.

Na década de 1960, a questão política se sobrepôs à disputa por recursos econômicos. Em 1958, a retirada da China Popular da FIFA e do COI marca o início dos “longos anos 1960” nas instituições esportivas. Ao longo da década de 1960, capitaneados pela China, os países do Terceiro Mundo tentam criar instituições alternativas à FIFA e ao COI. A crítica é, em primeiro plano, ao eurocentrismo presente nessas instituições, mas também à tão propalada crença (espécie de hipocrisia coletiva) difundida por essas instituições de que esporte e política não se sobrepõem e não se misturam. Em 1963, os chineses patrocinam os primeiros Jogos das Novas Forças Emergentes (GANEFO), que pretendiam ser uma alternativa aos Jogos Olímpicos e, em menor extensão, à Copa do Mundo. A razão pela qual os Jogos das Novas Forcas Emergentes fracassam é complexa (e daria outro artigo), mas eles perdem vitalidade após 1968.

A partir de 1971, com o reingresso da China às Nações Unidas, a postura chinesa se altera. Se antes eles pretendiam criar instituições alternativas às existentes, o que eles pretendem fazer daí em diante é transformar as instituições “de dentro”. As pressões à refiliação da China na FIFA se tornam gigantes sobretudo a partir de 1973. Rous, no entanto, reluta por uma série de razões. Primeiro, porque a saída da China da FIFA foi relativamente traumática. Em 1958 os chineses deixaram a burocracia da FIFA sem resposta, desrespeitando os ritos jurídicos da entidade. Essa era uma memória viva por parte do Comitê Executivo, que tornava qualquer negociação de reingresso muito difícil. Em segundo lugar, boa parte dos aliados de Rous (Israel, Malásia, Tailândia etc.) eram reticentes em relação ao reingresso da China à FIFA. Refiliar a China significaria trair velhos aliados, e a formação de um novo grupo era uma incógnita. Em terceiro plano, os chineses exigiam a saída de Taiwan da FIFA, ponto que os burocratas da entidade manejavam muito mal.

Essa crise internacional interna à FIFA abre espaço para atuação de novos agentes. No entanto, o terceiro nó da eleição de Havelange só pode ser desatado no espaço nacional brasileiro. Vestida numa capa de nacionalismo, essa “vitória do Brasil” nada tem de idílica. Ela é, em certa medida, produto simultaneamente de um ambiente de otimismo e violência, que é o chamado milagre brasileiro. Não à toa, a movimentação mais intensa de sua campanha se dá entre 1968 e 1974. Após se sagrar vitorioso a Copa do Mundo em 1970, Havelange se aproxima de empresários e grupos da burocracia à procura de financiamento para o seu empreendimento. Nos próximos três anos, ele viajaria para mais de 80 países. Seriam mais de 300 horas em viagem de aviões. Não obstante uma aliança velada, suas relações a burocracia foram, não raro, conflituosas. Para citar um rápido exemplo, como mostram os documentos guardados no arquivo do Itamaraty, quando Havelange se manifestou a favor do reingresso da China à FIFA no Congresso de Franfkurt ele foi duramente criticado pela cúpula do governo.

Para muitos jornalistas e acadêmicos, a eleição de Havelange à presidência da FIFA foi um ponto sem volta. Dali em diante, a entidade cresceria a um ritmo nunca antes visto. De uma empresa familiar gestada por uma meia dúzia de funcionários, a FIFA se transformaria numa empresa multibilionária e internacional. Depois de quase quatro décadas, em fevereiro de 2016, o suíço Gianni Infantino derrotou seus concorrentes e se tornou o 11o presidente da FIFA (Federação Internacional de Futebol Associação). Era, ao menos em tese, o fim de um consenso geopolítico estabelecido em 1974 com a vitória de João Havelange, que, de uma forma ou de outra, foi continuado em 1998, quando Joseph “Sepp” Blatter foi eleito e permaneceu no cargo por uma década e meio. Foi preciso que um escândalo de corrupção ameaçasse a ordem institucional da FIFA para que essa rede política gestada e construída por Havelange começasse a ser desfeita.

*Luiz Guilherme Burlamaqui é flamenguista, faz doutorado em História na USP e colabora com a Escuta.

Imagem disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37100616 Acesso em 02/05/2017

 

 

 

 

 

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