Fernando Perlatto*

O retorno às obras clássicas para extrair delas novas leituras, de sorte a romper com interpretações já consolidadas sobre as mesmas tem sido, felizmente, prática corrente entre a inteligência brasileira. Afinal, como já repetidamente afirmado por autores que se debruçaram sobre a natureza dos trabalhos clássicos – a exemplo do também já clássico livro de Ítalo Calvino, Por que ler os clássicos –, uma das principais características de um texto que recebe esta alcunha advém da sua capacidade de, sempre que relido e reinterpretado em conjunturas diversas, provocar novas questões e inquietações para as gerações que se sucedem. A consolidação no Brasil de um campo de pesquisa comumente chamado de “pensamento social brasileiro” – com suas publicações específicas, congressos e redes de pesquisa –, bem como o lançamento recente de edições contendo fortunas críticas de obras clássicas – como, por exemplo, o lançamento em 2016 de Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, organizado por Lilia Schwarcz e Pedro Meira Monteiro (Companhia das Letras) – são atestados da maturidade de uma área de reflexão que tem precisamente na reinterpretação de textos clássicos seu leitmotiv.

Um livro como Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, é um destes grandes clássicos, que já foi objeto de interpretações diversas, desde o momento de sua publicação em 1956 até os dias atuais. De lá para cá, passadas seis décadas, muitas foram as capas e as sobrecapas de leituras que se construíram sobre esta obra, consolidando determinadas interpretações sobre este que, talvez, seja o romance mais impressionante da literatura brasileira. Neste jogo de leituras e releituras, temos agora uma nova contribuição para a sua compreensão, com a publicação do refinado ensaio de Silviano Santiago, Genealogia da Ferocidade, lançado recentemente pela Cepe Editora. Neste texto de largo fôlego, originalmente escrito como prefácio à tradução do romance em espanhol pela Biblioteca Ayaucho (Venezuela), Silviano dá um novo passo em seus esforços teóricos de revisitar e lançar olhares criativos sobre clássicos da literatura, seja via ensaios, seja via ficção, ou em uma mistura de ambos, a exemplo do belo romance-ensaio Machado, publicado no final de 2016.[1]

O argumento construído por Silviano Santigo em Genealogia da Ferocidade tem dois eixos principais. O primeiro deles se orienta no sentido de contextualizar a novidade representada por Grande sertão: veredas no cenário intelectual do país no momento mesmo de sua publicação. Como destacado pelo autor, o romance de Guimarães Rosa aparece em 1956 como um “monstro”, de forma intempestiva “na discreta, ordeira e suficientemente autocentrada vida cultural brasileira, então, em plena euforia político-desenvolvimentista” (p.11). A “qualidade selvagem” de Grande sertão: veredas se destaca “com nitidez na paisagem modernizadora do Brasil, tal como configurada pelo Plano de Metas da Presidência da República, que maximiza a indispensável e rápida industrialização de país até então reputado subdesenvolvido” (idem). Por conta de sua “beleza selvagem”, o “monstro rosiano”, “objeto estético insólito, uma pedra-lascada, e não uma pilastra em concreto armado, geograficamente perfeita”, causa susto nos leitores, “desorganiza e desnorteia”, não sendo completamente bem recebido, apreciado e compreendido pela crítica, em um ambiente intelectual ainda estreito e refratário à novidade radical que Guimarães Rosa apresentava ao mundo (idem).

Grande sertão: veredas surpreende ainda mais, dirá Silviano, uma vez que escrito por alguém que é uma espécie de outsider do mundo intelectual à época, alguém se colocava fora das rodas e circuitos literários da moda de então: o livro de Rosa sobrevive “sem apoio de grupo geracional, e à espera de estratégia de lançamento eficiente, a ser assumida às pressas pelo autor, figura relativamente desconhecida na cena artística” (p.14). Ainda que obra de vanguarda, como também o era a novidade representada pelo concretismo paulista e neoconcretismo carioca, que abalam da mesma forma a cena cultural brasileira daquela conjuntura, Rosa, ao contrário de poetas como Haroldo e Augusto de Campos, Decio Pignatari e Ferreira Gullar, “não se apresenta ao público por manifesto literário, publicado previamente em suplemento ou em revista” (p.15). Sua apreciação crítica se fará de forma gradativa, abrindo “sorrisos e caretas nos leitores” e recebendo “na cara o silêncio constrangedor dos romancistas e poetas então em destaque na capital federal” (p.18). Sofrerá resistências até mesmo daqueles que também representavam a novidade naquela conjuntura, como o próprio Gullar, autor do inovador A luta corporal (1954), que dirá ter parado de ler Grande sertão: veredas na página 70, pois o livro lhe parecia “uma história de cangaço contada para os linguistas” (p.19).

Cotejando o “monstro rosiano” com outras inovações intelectuais daquela conjuntura, Santiago situa a novidade de Grande sertão: veredas na paisagem cultural brasileira de então: a obra atravanca o fluxo histórico e “interrompe a circulação cronológica e progressista na narrativa ficcional brasileira” (p.25). Para o autor, o livro de Rosa “pouco ou quase nada tem a ver com os modestos, sofridos e lacrimosos vinte e seis anos literários e artísticos que os precedem” (p.21); também não tem a ver com outros dois importantes romances publicados próximos ao de Rosa – O encontro marcado, de Fernando Sabino, e Vila dos Confins, de Mário Palmério – e muito menos tem proximidade com a utopia da moderna Brasília, projetada pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, cuja construção tem início, em 1956, mesmo ano de publicação da obra rosiana. Apesar de Grande sertão: veredas e Brasília, cada qual à sua maneira, obrigarem “o cidadão brasileiro citadino a pisar também e de modo inesperado o áspero interior do país” (idem), Brasília, com seu “desenho de leves, nítidas e belas linhas retas e curvas (…) em concreto branco, vidro e geometria feminina no distante, despovoado e árido planalto goiano” não se assemelha ao livro de Rosa, que é, diferentemente da nova capital federal, “ribeirinho e verde, barrento e encardido, anárquico e selvagem”, além de ser “destemperadamente varonil” (p.22).

Grande sertão: veredas também se distancia do “singelo, doce e nostálgico” balanço cool da bossa-nova que invade as rádios do período, sendo, antes, um livro “ácido, corrosivo e principalmente intempestivo” (p.23). Afasta-se, do mesmo modo, do “econômico construtivismo lógico-matemático e abstrato”, que domina a primeira exposição da Bienal de São Paulo, em 1951 – que tem como vencedoras a escultura Unidade tripartida, do suíço Max Bill, e a tela Formas, do brasileiro Ivan Serpa – e também se aparta dos “poemas precisos e exatos, mãos-de-vaca, de inspiração mallarmaica e valeryana, do contemporâneo e também diplomata João Cabral de Melo Neto” (p.22), que irão, posteriormente, influenciar o concretismo paulista. A despeito de realizar movimento semelhante de experimentação e de inovação da linguagem impulsionada por estes artistas e poetas – compartilhado também em outras geografias por autores como James Joyce e e. e. Cummings –, o romance de Rosa caminha por outras trilhas e vertentes. Em Grande sertão: veredas, dirá Silviano, o menos não é mais como acontece com muitos destes trabalhos. Em sua prosa ficcional, Rosa manuseia “dicionários reais e estapafúrdios, pessoais e imaginários e, em sintaxe travessa e com pontuação anárquica, esparrama perdulariamente palavras, tocos de palavra e interjeições onomatopeicas pela página em branco” (idem). “A qualidade e a beleza selvagem – the wilderness – do Grande sertão: veredas”, dirá Silviano, “é alheia e é autêntica, e originária e é universal, é literária e é filosófica, e domina” (p.29).

Se o primeiro eixo de sustentação de Genealogia da Ferocidade busca marcar a originalidade de Grande sertão: veredas em relação a outras manifestações culturais e intelectuais dos anos 1950, o segundo eixo se ancora na defesa da ideia segundo a qual a crítica realizada ao livro, quer seja no momento mesmo de sua publicação, quer seja nos anos que se seguiram, manteve-se prisioneira de determinadas perspectivas que se tornaram canônicas, que acabaram por “domesticar” a “beleza monstruosa” e “selvagem” desta obra artística. Aqui, o diálogo mais direto é com Antonio Candido, que em ensaio seminal intitulado “O sertão e o mundo” – publicado na revista Diálogo e reproduzido em momento posterior na coletânea Tese e Antítese, sob o título de “O homem dos avessos” – vincula Grande sertão: veredas a outro clássico da imaginação nacional, Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. “As estreitas relações entre os semelhantes e os diferentes habitats”, constata Silviano, “são logo evidenciadas pela sensibilidade crítica do analista” (p.37). A partir da crítica de Candido, Grande sertão: veredas passará a ser “embalado” por Os Sertões, tornando-se, a partir de então, “dócil aos mandos e aos desmandos da crítica” (p.47).

Importa dizer, contudo, que a beleza selvagem do monstro rosiano será objeto de controle e domesticação não apenas por parte de críticos literários – a exemplo de Cavalcanti Proença, que buscará associar Grande sertão: veredas aos romances medievais de cavalaria, contribuindo-o para domesticá-lo “ocidentalmente” –, mas também de artistas portadores de outras linguagens, como Glauber Rocha, que, em filmes como Deus e Diabo na Terra do Sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968), contribuirão no sentido de adestrar politicamente o monstro rosiano para que servisse “de ferramenta de leitura dos acontecimentos históricos, políticos e ideológicos” (p.53). Esse adestramento histórico-político implicará em se secundarizar aspectos centrais que deveriam ser considerados pelo analista, como, por exemplo, o fato de que o sertão mineiro, do Alto São Francisco, pensado por Guimarães Rosa – “fluvial, verde e agreste” – nada tem a ver com o sertão seco, da caatinga, de Canudos de Euclides da Cunha, em Os Sertões.

Silviano, em uma postura desconstrucionista, dialogando com autores como Derrida,  se coloca em sentido contrário à perspectiva de domesticação e adestramento desta fortuna crítica, buscando libertar novamente o monstro selvagem rosiano, a partir de uma perspectiva que lance sobre ele novos olhares. A “desconstrução” é aqui compreendida como um “projeto frontal e circunlunar de convivência conflitiva com o objeto literário”, de modo a encarar Grande sertão: veredas “como monstro que permanece selvagem, até mesmo quando adestrado por competentes e exímios treinadores” (p.96, grifos do autor). Seu movimento se direciona no sentido de promover uma espécie de “deshistoricização” de Grande sertão: veredas, retirando-lhe as marcas temporais que a comparação com Os Sertões fazia pesar sobre a obra. Silviano busca, nessa direção, destacar seu caráter atemporal: a “temporalidade particular do monstro”, dirá o autor, “se define por contrariar a todo-poderosa cronologia; define-se pela atemporalidade da sua inserção no Tempo” (p.103). Uma vez que “desprovido de marcos pré-determinados pelo saber histórico”, este sertão se encontra “configurado pelas balizas que lhe são próprias e legítimas” (p.104). O sertão de Guimarães Rosa, ressalta Silviano, é um “enclave arcaico”, “apenas Espaço-sem-Tempo no planeta Terra”, que “não quer representar nada”: é única e exclusivamente wilderness.

A potência da interpretação desconstrucionista de Silviano está em compreender Grande sertão: veredas como uma grande representação alegórica das consequências contraditórias de processos de desenvolvimento “pelo alto” – como aqueles conduzidos no Brasil nos anos 1950, no próprio governo de Juscelino Kubistchek –, que, se por um lado, levaram algumas áreas do país à modernização e à industrialização, por outro, descuidaram de aspectos humanos e sociais de enorme magnitude, cujas consequências se vincularam, entre outras, à criação de enclaves, como aquele narrado por Guimarães Rosa. No interior desses enclaves, o que temos é a conformação de grupos anárquicos, ferozes, que se movem e se orientam impulsionados pela ferocidade: em espaços como estes, o homem é um animal, ao mesmo tempo em que o animal é um homem, portando-se como uma espécie de “homem-onça”, como sugere o próprio Rosa no conto “Meu tio, o Iauaretê”, também analisado por Silviano no Post-Scriptum, de modo a corroborar, por ângulo diverso, o argumento do ensaio. Como contrapartida à ferocidade do enclave, há o que autor denomina como irascibilidade, que se configuraria como a tentativa, nem sempre bem sucedida, de se colocar ordem, adestrar, domesticar e disciplinar a ferocidade característica do enclave.

O ensaio de Silviano e sua intepretação original de Grande sertão: veredas provoca e faz pensar pelo que ele tem de sofisticado e pelo que ele nos conduz a refletir sobre o processo de configuração de enclaves como resultados de projetos desenvolvimentistas conduzidos “por cima”. A nota a se lamentar em Genealogia da Ferocidade é uma espécie de generalização que o autor faz da fortuna crítica construída sobre o livro de Guimarães Rosa a partir da leitura de Antonio Candido e da tradição que lhe seguiu, secundarizando toda uma produção bibliográfica já vasta nos centros e periferias do país acerca do romance rosiano.[2] Mas, como o objetivo de Silviano neste ensaio não era o de esgotar a bibliografia sobre o tema, mas sim construir uma interpretação renovada do “monstro rosiano” a partir do diálogo crítico com representações mais canônicas que se consolidaram ao longo do tempo, temos com Genealogia da Ferocidade uma contribuição primorosa para uma compreensão provocativa e mais alargada sobre este livro. Para aqueles muitos que ainda virão nos próximos anos e décadas a se debruçar sobre o mistério Grande sertão: veredas será impossível não confrontar e enfrentar o ensaio de Silviano, que já nasce como ensaio clássico fundamental da fortuna crítica da maior obra da literatura brasileira.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Escuta.

** ** Crédito da imagem:  Eugênio Silva/O Cruzeiro/EM/D.A. Retirada do site: <http://roteirosliterarios.com.br/viagem-vaqueiro-rosa/&gt;. Acesso em: 26 abril 2017.

Notas:

[1] Sobre Machado, ver o texto “O Machado de Assis de Silviano Santiago”, publicado nesta revista: https://revistaescuta.wordpress.com/2017/02/03/escuta-resenha-o-machado-de-assis-de-silviano-santiago/

[2] Sobre estas referências amplas e diversificadas vale a pena consultar o Banco de Dados bibliográfico João Guimarães Rosa, administrado pela Universidade de São Paulo: https://www.usp.br/bibliografia/inicial.php?s=grosa.

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