Wallace Andrioli Guedes*

Apesar de 2018 estar cronologicamente próximo, a dinâmica própria da política brasileira recente torna qualquer tentativa de previsão do que acontecerá nas próximas eleições para a presidência da República um arriscado exercício de futurologia. Ainda assim, alguns cenários começam a se configurar nos diferentes espectros políticos e vale a pena analisá-los, mantendo, claro, a ciência de que eles podem se desintegrar diante de novas listas, ações da famigerada Operação Lava-Jato (que em breve tomará até as salas de cinema do país) e denúncias de corrupção cobertas ostensivamente pela grande imprensa.

As pesquisas eleitorais já realizadas colocam, como é sabido, Lula na dianteira. O ex-presidente voltou a ser protagonista absoluto da vida política brasileira, alvo diário da imprensa, do Judiciário e das redes sociais, mobilizando forças favoráveis e contrárias tanto ao legado de seus dois governos quanto a sua candidatura a um terceiro mandato. Para o campo progressista, Lula se coloca, hoje, como esperança aparentemente mais certa de retorno ao poder, após o golpe que derrubou a ex-presidenta Dilma. No entanto, além do risco cada vez mais real de impedimento da candidatura do petista (especula-se, já há muito tempo, até mesmo sua prisão), há a certeza de que, uma vez na disputa, Lula tenderá a polarizá-la de forma ainda mais virulenta que a de 2014, o que, num contexto de ódio disseminado ao PT, pode significar uma derrota provavelmente devastadora para o partido.

O outro possível candidato desse campo é o ex-ministro governador e prefeito Ciro Gomes, atualmente no PDT. Ciro vem construindo sua candidatura já há mais de um ano, participando repetidamente de debates e entrevistas tanto em espaços midiáticos quanto em universidades pelo país. Muitos defensores dessa candidatura torcem para que Lula desista de concorrer e abençoe Ciro como seu contender, o que, se acontecer, pode representar uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que o pedetista, ungido pelo ex-presidente, teria maior chance de herdar o eleitorado desse último, possivelmente herdaria também o ônus do ódio a Lula. Sem o apoio do PT, no entanto, resta a Ciro o desafio de desenvolver estratégia que o permita entrar na casa dos dois dígitos nas intenções de voto – algo que ele ainda não conseguiu, mesmo se consolidando cada vez mais como um fenômeno na internet.

Entre os partidos mais à direita, o PSDB, contumaz adversário do PT, sofre com o desgaste de suas principais lideranças (Aécio Neves, José Serra e, em menor medida, Geraldo Alckmin), enquanto vê emergir a figura do recém-eleito prefeito de São Paulo João Doria Jr., que, apadrinhado por Alckmin, pode roubar dele a condição de presidenciável. Num contexto de desagregação do sistema político brasileiro e intensificação da crise de confiança do eleitor na política, Doria vem conseguindo grudar em si a imagem de outsider, de não político, que representaria a introdução na administração pública de uma lógica supostamente ultramoderna advinda do setor privado. Aliado a isso, o prefeito da capital paulista busca, sempre que pode, repetir motes do mais agressivo antipetismo, flertando com movimentos da extrema-direita, como o Movimento Brasil Livre (MBL), que emergiram na política nacional a partir das manifestações de 2013. Alckmin, Aécio e Serra não conseguem agregar em si tais valores, tanto por serem figuras já carimbadas quanto por se encontrarem num contexto em que seus nomes aparecem repetidamente em delações premiadas referentes a casos de corrupção. É importante ressaltar que, com Doria na dianteira, possivelmente de mãos dadas com o MBL, o PSDB romperia de vez com suas origens socialdemocratas, consolidando-se como um partido de direita – residiria aí a principal razão para a resistência de Fernando Henrique Cardoso a essa candidatura?

E há, claro, Jair Bolsonaro. O deputado carioca, também fenômeno nas redes sociais, representa uma extrema-direita ainda mais agressiva que Doria, defensor que é de posições racistas, misóginas, homofóbicas e autoritárias. Talvez seja de se espantar, por isso, que, nas pesquisas realizadas até aqui, Bolsonaro já apareça com algo em torno de 10% das intenções de votos, mas seu caso guarda certa semelhança com o de Ciro Gomes: ele conseguirá extrapolar esses números e se tornar realmente competitivo? É possível que, num contexto de campanha, suas bandeiras soem ofensivas demais aos ouvidos do eleitor, mesmo que alguns dos valores que propaga sejam compartilhados, lamentavelmente, por parcelas consideráveis da população. Bolsonaro tem a favor de si, por outro lado, uma estranha capacidade de também se vender como outsider, mesmo sendo deputado federal há quase 30 anos. A ausência de citações a seu nome nas repetidas delações contribui nesse sentido, possibilitando que ele alimente a imagem de político incorruptível – Ciro é outro que vem passando incólume no denuncismo midiático-judiciário cotidiano, ainda que ele, diferentemente de Bolsonaro e Doria, não busque negar a política, pelo contrário.

Somando-se a presença quase certa e já recorrente de Marina Silva, dessa vez enfim concorrendo por seu próprio partido, a Rede Sustentabilidade, esse parece ser o cenário das eleições presidenciais de 2018. Abrindo espaço para a geralmente reprovável, mas de certa forma irresistível, futurologia, seria possível arriscar hoje, abril de 2017, uma disputa com a presença dos seguintes candidatos: Ciro Gomes, apoiado pelo PT, João Doria, Marina Silva e Jair Bolsonaro – além, claro, de algum candidato do PSOL (novamente Luciana Genro?). Todos nomes, portanto, que, ao menos até agora, conseguiram permanecer relativamente distantes dos noticiários escandalosos envolvendo casos de corrupção na Petrobrás e no financiamento de campanhas. Se for mesmo esse o cenário posto daqui a um ano e meio, são grandes as chances de o atual prefeito de São Paulo ser o próximo presidente do Brasil.

 * Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.eleicao2018.com/&gt;

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