Fernando Perlatto*

Livros de Trótski e sobre Trótski já há aos montes nas livrarias e bibliotecas. Escrever algo que seja original, diferente, que ainda não tenha sido dito e redito, sobre este personagem tão marcante do século XX, autor de atos e obras que já ficaram no imaginário de gerações e gerações é tarefa difícil, repleta de obstáculos, dificuldades, empecilhos. Se a forma escolhida para narrar a trajetória Liev Davidovitch Bronstein, ou apenas Trótski, o “Velho”, o “renegado”, o “proscrito”, for a ficção – e não um trabalho acadêmico stricto sensu –, esta tarefa se torna ainda mais árdua, sobretudo quando já se tem no mundo editorial algo tão refinado quanto uma obra do porte do romance histórico O Homem que Amava os Cachorros (Boitempo), do escritor cubano Leonardo Padura, que narra com fineza e sofisticação a saga do catalão Ramon Mercader, o assassino stalinista de Trótski, acompanhando diversos momentos de sua vida, que tem como epicentro o crime que o deixaria macabramente marcado na história.

O escritor francês Patrick Deville, porém, enfrenta este desafio de escrever sobre Trótski em seu livro Viva!, lançado na França em 2014 e publicado no Brasil no final de 2016 pela Editora 34 (tradução de Marília Scalzo). Ainda que sua obra não tenha a mesma potência, fôlego e vigor que o livro de Padura, Deville produz com Viva! algo novo e interessante. E o faz misturando ensaio, jornalismo e ficção, ancorado em uma escrita erudita, com forte pegada borgiana, a partir da qual uma referência leva a outra referência que, por consequência, leva a outras referências e, assim, sucessivamente. O autor reúne várias peças, entre livros, documentos, entrevistas, e, é claro, a imaginação, para ir formando um grande quebra-cabeça, que lhe permita narrar uma história já contada e recontada, a partir de um prisma diverso e renovado, que não segue um fluxo cronológico ordenado, sistemático, mas, que, pelo contrário, embaralha diferentes momentos das vidas e das trajetórias dos diversos personagens que passam pelo livro, especialmente Trótski, em variados tempos e lugares.

Se o enredo do livro pode ser resumido à história dos três últimos anos de vida de Trótski no México, desde sua chegada ao porto de Tampico, em 1937, até seu assassinato, em 1940, pela picareta de Mercader, Viva! é muito mais do que isso. Deville parte destes três anos para construir um ensaio amplo e erudito da história intelectual do México nos anos 1920 e 1930. Neste período conturbado da história do mundo, com quase toda a Europa tomada pelo nazifascismo e a União Soviética pelo stalinismo, o México, sob o governo de Lásaro Cárdenas, se tornou um lugar de atração, refúgio e recepção de milhares de refugiados de todos os cantos do mundo. Como destaca Deville, “esses homens escolhem o México, um país em revolução havia muitos anos, um país onde vastos territórios escapam ao controle do Estado, um país de imigrantes e desenraizados, o país da solidão também, segundo Octavio Paz, um país onde até hoje é considerado falta de tato perguntar a alguém quais são suas ocupações, suas origens, seus projetos” (p.28). Entre os refugiados que chegam ao território mexicano, sob o patrocínio do pintor muralista Diego Rivera e de sua companheira, a ainda jovem artista Frida Kahlo, e sob a proteção de Cárdenas, sobressaem as figuras Trótski e sua esposa, Natália Ivánovna, que há pelo menos dez anos, desde a expulsão do “proscrito” do Partido Comunista em 1927, vagavam de país a país – Turquia, França, Noruega – para escapar das perseguições diárias, implacáveis e incansáveis de Stálin e dos homens e mulheres a serviço do Komintern contra ele, seus parentes, amigos e companheiros, que carregarão consigo a mais perigosa e ameaçadora acusação, a de trotskismo, sendo por isso objetos de expurgos, prisões e assassinatos.

O ponto mais alto do livro de Deville é precisamente a reconstrução que ele realiza do cenário cultural e intelectual no México dos anos 1920 e 1930. Pelas páginas de Viva! circulam várias figuras que nasceram, viveram e passaram pelo país ao longo daqueles anos marcados por intensa agitação política e cultural, como Diego Rivera e Frida Kahlo, Tina Modotti, Larissa Reiner, Artaud, Graham Greene, Victor Serge, André Breton, David Alfaro Siqueiros. Ainda que muitos dos personagens que transitam pela obra não tenham convivido diretamente uns com os outros, nem sequer se encontrado ou se conhecido, Deville nos mostra de que maneira suas vidas aconteceram paralelamente a tantas outras vidas em um contexto caracterizado pela intensificação de disputas e conflitos que desaguaram na Guerra Civil Espanhola e, posteriormente, na grande explosão da Segunda Guerra Mundial.

É impressionante perceber de que forma, no decorrer dessas décadas, a política invade a arte, a cultura, o mundo das ideias, em geral, e de que maneira os embates entre stalinistas e trotskistas provocam fissuras, fraturas, rachas e disputas na intelectualidade mexicana, sendo particularmente interessante, nesse sentido, o capítulo “turminha”, no qual Deville explora com requinte as diferentes trajetórias e destinos de artistas vários, que, embora muito próximos em determinado momento dos anos 1920, vêem nos anos 1930 suas relações se estilhaçarem por conta dos embates políticos que tomavam conta da inteligência progressista, ligada ou não aos partidos comunistas nacionais, em todos os cantos do mundo.

Se em O Homem que amava os cachorros, temos, com Padura, o acompanhamento quase que paralelo das vidas de Trotsky e Mercader, entremeado, é claro, por outras vidas e trajetórias, aqui, em Viva!, sobressaem as trajetórias do velho Trotsky e do escritor inglês Malcolm Lowry, autor de À sombra do vulcão (1947), segundo Deville, um “dos maiores romances do século XX” (p.63), também entremeado a outras vidas e trajetórias. Depois de percorrerem várias e várias cidades pelo mundo por razões diversas, Trótski e Lowry chegam ao México no mesmo ano, 1937, e este é o mote do qual parte Deville para construir sua obra. Ainda que com personalidades, subjetividades, sonhos e utopias completamente diversas, o militante russo e o escritor inglês são aproximados pelo autor francês pelo fato de que cada qual à sua maneira explicita, com suas trajetórias e percursos particulares, o clima político e intelectual de toda uma geração marcada pela dedicação de corpo e alma à militância, e ao amor e devoção a absolutos, quer seja o absoluto da Revolução, no caso de Trótski, quer seja o absoluto da Literatura, no caso de Lowry.

Na busca incessante, obstinada e incansável por estes absolutos, os dois personagens – como tantos outros de sua época – não encontrarão paz, sossego, descanso, “a satisfação do dever cumprido”. Trótski peregrinará por diferentes países vendo o sonho de sua revolução se despedaçar, desembocando no horror, aos sons dos gritos dos perseguidos e executados pela força stalinista; Lowry também andará pelo mundo, cambaleante pela bebida e pela tristeza, consumindo sua vida, seu tempo e sua saúde – em um pacto tipicamente faustiano – para produzir seu monumento literário, o Vulcão, em um percurso atravessado por sofrimentos vários. Ainda que alegrias, pequenas felicidades e rasgos de epifania existam, estes são momentos secundários quando comparados com o cenário mais amplo de vidas dilaceradas pela dedicação incondicional e irrestrita a algo considerado muito maior. A doação completa de suas vidas às suas respectivas utopias levam esses personagens a “combates perdidos de antemão”, e os conduzem a abandonarem “a vida que gostariam de ter e os seres amados para buscar cada vez mais longe o fracasso que virá coroar seus esforços” (p.124). Ainda que quase sempre derrotados, ao aproximarem suas vidas daquela vivida pelos santos na renúncia e na dedicação aos seus absolutos, as trajetórias de homens como Trótski e Lowry mostram para o leitor contemporâneo, segundo Deville, que eles “tentaram o impossível e que o impossível pode ser tentado” (idem).

Ler um livro como Viva! é ser levado a refletir sobre a trajetória de uma personalidade como Trótski e se transportar para um período no qual a política e, mais especificamente, a luta pelo comunismo se converteu em um absoluto transcendental, quase místico, religioso, que guiou escolhas, opções de vida, abnegações e sofrimentos de milhares e milhares de militantes que se dedicaram a uma causa. Se por um lado, o leitor contemporâneo pode respirar aliviado com uma espécie de secularização da vida política – pelo menos, quando pensada em termos de massas –, que teve o efeito positivo de tornar o mundo menos orientando por leituras dicotômicas, estreitas e simplistas da realidade social, por outro, não há como negar que a leitura de Viva! deixa no ar certo saudosismo de um período no qual a política ainda mobilizava, gerava paixões, adesões, e dizia coisas para as pessoas que ela não diz mais. Se a devoção aos absolutos pode levar a opressões diversas – como bem percebeu, ainda que em uma chave conservadora, Tocqueville em O Antigo Regime e a Revolução –, seu abandono completo, por adesão aos pragmatismos do mundo cotidiano característico dos dias atuais, pode conduzir, em contrapartida, à renúncia de quaisquer horizontes de transformações mais estruturais da vida social. Viva! faz pensar sobre essas questões ontem e hoje.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

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