Verônica Toste**

Esta segunda-feira, dia 17 de abril de 2017, é aniversário de um ano da instauração do processo de impeachment que tirou do poder a primeira mulher a ocupar a presidência da República no Brasil. Ao longo desse último ano, vieram à tona amplas evidências de que o impeachment interrompeu o mandato de uma presidenta eleita por voto popular, e que isso aconteceu com os objetivos principais de garantir a anistia de políticos implicados em investigações de corrupção, dar prosseguimento a uma agenda de projetos impopulares e promover a intensificação de políticas neoliberais no país.

A fim de compensar a fragilidade jurídica das teses levantadas como justificativa para o impeachment, uma das principais armas políticas utilizadas pelos articuladores do processo foi o apelo a estereótipos e códigos de gênero. Contudo, embora tanto se fale da relação entre o golpe e o machismo, é preciso elucidar as conexões entre os incontáveis registros de ataques misóginos contra Dilma e as formas de estruturação simbólica e institucional no campo da política. Este ensaio faz um balanço crítico da batalha simbólica que se travou durante o processo de impeachment e de instalação do Michel Temer no poder, empregando gênero como categoria para a análise política.

A ascensão de Dilma: a “mãe da nação”

Na política, as mulheres transitam entre estereótipos dúbios e perigosos. Dilma Rousseff adentrou a esfera da competição política na eleição de 2010 apresentada como a “mãe do PAC” e “mãe do Brasil”. Conforme essa representação, Dilma seria supostamente dotada de uma sensibilidade moral especial, atrelada ao cuidado proporcionado na esfera doméstica e na maternidade – e esse seria o seu aporte especial à política. Mais do que afirmar atributos positivos, a imagem de mãe ajudava a produzir um apelo afetivo que colaborava para atenuar o incômodo de se ter uma mulher concorrendo à presidência da República.

Enquanto as representações masculinas na política são associadas à ambição, à força e à capacidade de liderança, os atributos mobilizados ao feminino remetem ao amor, à sensibilidade e à reprodução da vida. Assim, com o apelo à maternidade, Dilma se apresentava como uma candidata que almejava à presidência por amor e afeição ao povo brasileiro.

A dura negociação da relação entre igualdade e diferença e a tentativa de positivação de estereótipos femininos é algo que as mulheres fazem constantemente na tentativa de navegar pelo acidentado – e machista – campo da política. Como veremos, se os estereótipos da maternidade foram inicialmente instrumentalizados com sucesso para tornar palatável uma candidatura feminina, os estigmas associados às mulheres voltariam para assombrar a primeira presidenta eleita quando o jogo político começou a virar.

A batalha simbólica pelo impeachment

Passada a eleição e ainda em sua cerimônia de posse, Dilma foi comparada pela imprensa a outra mulher que viria tempos depois a se tornar uma jogadora influente. Naquela ocasião, segundo jornalistas, Marcela Temer, esposa do então vice-presidente Michel Temer, teria lhe “roubado a cena” e “ofuscado”. O recado estava dado: por sua beleza, juventude e desempenho do papel secundário de esposa, Marcela teria uma imagem mais adequada para representar a República do que Dilma.

Após a apertada reeleição que manteve Dilma e o PT no poder, as manobras do PMDB e PSDB no Congresso Nacional para desestabilizar o governo ganharam o endosso e o auxílio entusiasmado da imprensa e de uma legião de influenciadores na internet. Entraram então em cena uma miríade de ataques da imprensa, das páginas de fake news, bem como das correntes e conteúdos difundidos nas redes sociais por grupos de direita. E aqui o gênero foi mobilizado em uma chave extremamente negativa e desabonadora. E cabe notar, nesse sentido, que a reação visceral que se seguiu à reeleição de Dilma não encontra explicação na efetiva atuação da presidenta no campo dos direitos das mulheres. Tímido, acanhado, o tratamento dado por Dilma a essas pautas ficou muito aquém das expectativas das feministas.

Nas redes sociais, o tom assumido passou a ser cada vez mais violento e explícito: ameaças e representações gráficas da violação sexual de Dilma começaram a circular em plataformas como o Facebook e o Whatsaap. A ameaça física ou simbólica de estupro apareceu mobilizada como arma, forma de intimidação e de afirmação de poder masculino, pregando a recondução de uma mulher ao seu “lugar devido” do espaço privado e a sua redução ao seu sexo biológico. Uma estratégia, enfim, de desumanização e exclusão das mulheres do espaço público.

No que toca à desqualificação intelectual e psicológica de Dilma, é difícil esquecer a matéria “Uma presidente fora de si”, publicada em abril de 2016 pela revista IstoÉ. A peça de fantasia – típica do jornalismo declaratório que se instalou nas redações do país – afirmava que seria inviável a permanência de Dilma no cargo dados os supostos “desvarios, “destemperos” e “explosões nervosas”, de uma presidenta “irascível”, “agressiva” e “desmantelada emocionalmente”.

A fim de contornar a necessidade de discutir com seriedade os fundamentos jurídicos e políticos do processo de impeachment, a imprensa de modo geral se valeu de uma retórica fundada nas formas mais naturalizadas de se pensar em gênero e política. Mais do que uma falácia argumentativa, o ataque pessoal a uma mulher sob a alegação de loucura e agressividade apela para as dicotomias de gênero que vêm organizando a política institucional no Ocidente desde a constituição dos primeiros regimes democráticos e representativos.

Tratam-se assim supostas diferenças sexuais como princípios fundadores de uma ordem “natural” da política na qual as mulheres não têm direito a voz e participação. Nesse contexto, chamar uma mulher de “louca” significa negar que ela possua razão, intelecto e autonomia moral para atuar na política. Implica dizer que ela é guiada pelas emoções e pelo corpo biológico, e que seu lugar natural é o da dependência com relação à racionalidade masculina.

Tanto na campanha pela reeleição como na batalha contra o impeachment, parte da esquerda e do PT, por sua vez, lançou por vezes mão do imaginário machista contra as suas opositoras políticas mulheres. Ao mesmo tempo, a esquerda soube também usar em benefício próprio as imagens oriundas do campo crítico do feminismo. Exemplo disso é que o PT utilizou registros históricos e fotográficos da Dilma jovem e militante comunista para construir a imagem da “Coração Valente” e assim apelar para a sua base e a militância de esquerda. No lugar do recato e senso de dever da “mãe da nação”, a Dilma projetada nessa campanha encarnava a dupla subversão política e de gênero das mulheres que lutaram contra a ditadura militar. A esquerda (e não apenas a direita, portanto) instrumentaliza gênero e o seu imaginário – ora jogando o jogo do machismo, ora acenando para a desconstrução dos estereótipos de gênero.

O governo Temer e a ordem de gênero

Desde o impedimento e a deposição de Dilma, seguidos da posse de Michel Temer, o debate sobre gênero e sua relação com a política e o poder continuam na ordem do dia. O ambiente atual é de polarização e antagonismo crescente entre uma direita religiosa em ascensão e um movimento feminista cada vez mais ativo e vocalizado. O anúncio dos nomes que integrariam o gabinete ministerial de Temer foi recebido com perplexidade pelas mulheres, chegando a constranger até mesmo apoiadoras ativas do impeachment como a jornalista Miriam Leitão. Cercado de homens brancos, ricos e idosos, Temer foi o primeiro presidente desde Geisel a não incluir mulheres na esplanada. E a simbolização de gênero como forma de naturalizar e legitimar a nova ordem política tampouco cessou.

Ao se colocar a primeira-dama Marcela Temer como embaixadora do Criança Feliz, iniciativa federal voltada para a primeira infância, por exemplo, procurou-se gerar uma agenda positiva mais uma vez através de estereótipos de gênero. Descrita como “bela, recatada e do lar” pela revista Veja, Marcela tem sua imagem pública trabalhada como a de uma mulher maternal, emotiva, modesta, cuidadora e ciosa do seu lugar de dependência e passividade. Nada mais adequado, portanto, do que encarrega-la das funções de propaganda e comunicação de um programa voltado para aquilo que se costuma entender como um dom natural das mulheres: o cuidado com as crianças.

Na redistribuição sexual do trabalho político sob o governo Temer, Marcela hoje colabora para a afirmação de uma ordem política tradicional, calcada na moldura da família rica, branca e heterossexual como imagem natural da vida nacional. Ajuda, assim, a sancionar as hierarquias sociais de classe, gênero e raça do país.  A família “bem ordenada” de Temer aparece como fundamento imaginário de um Estado bem ordenado, em que todos ocupam seus lugares devidos. Ao mesmo tempo, políticos conservadores procuram agora aprovar leis sobre a organização e o comportamento da família e controle dos corpos femininos. O recurso simbólico a concepções populares de gênero encontra dessa forma a sua materialização em leis que visam à intervenção e administração das relações sociais de gênero.

Conclusão

O episódio do impeachment e a sucessão de derrotas para mulheres enviam um recado muito poderoso: as mulheres devem se manter longe da política e, preferencialmente, confinadas no interior do lar. No entanto, longe de ser um aspecto marginal à política ou algo que diz respeito apenas às mulheres, é preciso compreender que a desigualdade de gênero coloca as próprias instituições democráticas sob ameaça. O impeachment e as ações do atual governo mostram que a simbolização de gênero proporciona um repertório poderoso de organização política da sociedade, permitindo angariar apoio popular para projetos políticos antidemocráticos. Por isso, repensar a relação entre gênero, política e representação e garantir a presença de mulheres comprometidas com o feminismo em exercício de mandatos públicos devem ser tarefas de todas e todos.

* Este texto foi também publicado no blog da PartidA: https://partidanet.wordpress.com/category/blog-da-partida/

** Verônica Toste é Doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), bolsista de Pós-Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (IFCS-UFRJ) e pesquisadora associada do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade (NIED-IFCS-UFRJ). Colabora com a Revista Escuta.

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