Jorge Chaloub*

A crise ganha contornos cada vez mais longevos. O passar do tempo não desenha saídas no horizonte e parece consolidar um cenário de parcas expectativas. Pela primeira vez desde a redemocratização a esquerda se vê sem perspectivas, ausente o otimismo inaugurado pela Constituição rica em direitos e perdido o vigor do seu maior partido, o PT, que nos mais duros momentos da década de 1990 desempenhara o papel de trincheira contra os ataques à Constituição. Em tal cenário desolador, alguns retomam lugares comuns do empreendedorismo, destacando as possibilidades inerentes a todo crise com menções ao idioma chinês. Nem só por meio de renascimentos, todavia, terminam as grandes depressões. Por vezes, a reiteração de um cenário catastrófico pode levar a sua normalização, no que parece ser a aposta de boa parte das forças à frente do golpe de 2016.

Amparados na crescente força e organização de um discurso de direita, alguns atores constroem uma narrativa que atribui o mal-estar atual às supostas “irresponsabilidades” do passado, em discurso que ultrapassa em muito o campo da economia e ganha caráter de princípio, a retratar de forma negativa todo e qualquer esforço de reduzir desigualdades ou ampliar direitos. Os tímidos avanços dos governos petistas surgem como violações de leis naturais, que cobram seu preço atualmente. O objetivo é rebaixar o horizonte de expectativas da política e tornar alguns efeitos da conjuntura partes da “vida como ela é”. Melhoraremos aqui e ali, momento no qual se falará não em crise, mas em retomada, e continuaremos com grande parte das mazelas presentes e iminentes. Relevantes atores políticos não apostam na plena superação da crise, mas na sua continuidade em novos parâmetros de normalidade, o que resultaria na pacífica persistência dos remédios, supostamente imprescindíveis, por eles prescritos. Com as instabilidades no horizonte, limitações de direitos e investimentos sociais permaneceriam necessários, sem previsão de alta.

O cenário evidentemente não decorre apenas de vontades e intenções individuais. A crise não é apenas uma narrativa ou percepção, mas tem relações que ultrapassam os atores, como os sinais do mundo da economia bem apontam. Por outro lado, e distintamente do que o discurso de alguns economistas sugere, as engrenagens econômicas não apenas não prescindem das crenças individuais e coletivas, como são incompreensíveis sem um olhar atentos às suas feições. Para além dos relevantes debates acerca de políticas fiscais ou gastos públicos, o atual cenário está profundamente vinculado à força de certas ideias, que organizam os interesses e apontaram para as escolhas de relevantes atores ao longo dos conturbados anos pregressos.

A crise é sobretudo uma desorganização de rotinas, momento no qual os parâmetros mais usuais de compreensão da realidade social não se mostram capazes de explicar de forma minimamente satisfatória o presente ou sugerir desdobramentos futuros. Tal processo não possui um marco unitário. Junho de 2013 surge, por certo, como momento de questionamento das instituições vigentes, busca por novas propostas e chaves interpretativas, mas o próprio evento já é atravessado por processos anteriores. Antes e depois das Jornadas, contribui para o cenário o crescente fortalecimento de um discurso de direita que tem por característica a retórica de “terra arrasada”, ou seja, a ideia de que não há qualquer traço positivo no passado ou presente nacionais, sendo necessário recomeçarmos do zero. A colonização da política pelas lógicas inquisitorial e judicial – de instituições como a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário – também desempenha papel relevante nesse sentido, dada a imprevisibilidade da sua intervenção na esfera pública. Por fim, o próprio Golpe, assim como o processo que o precedeu, com forte contestação do processo eleitoral, produz uma profunda incerteza no funcionamento de instituições democráticas. Uma vez contestados elementos centrais da democracia de 1988, com forte papel de acordos de cúpula e sem a construção de alternativas democráticas no horizonte, a política ganha forma cada vez mais inconstante, em cenário onde é difícil prever o dia de amanhã.

A ideia de uma crise sem fim é não apenas útil para a continuidade dos “pacotes de maldades” de corte neoliberal ou para as defesas públicas de restrições de direitos, mas também coloca em risco outros essenciais procedimentos democráticos contemporâneos. Por um lado, há uma clara antecipação e esperança em torno da eleição de 2018, vista como possibilidade de sanar os males de um governo ilegítimo e oferecer caminhos para o fim das atuais tormentas. O pleito por vezes surge, sobretudo à esquerda, como panaceia redentora, capaz de superar o contexto de escassa imaginação política. Preocupam, entretanto, algumas manifestações de figuras relevantes da República, a cogitarem a possibilidade de não realização de eleições.

Penso, nesse sentido, não apenas na mais recente entrevista do Ministro Gilmar Ferreira Mendes ao Globo[i] – “Gilmar Mendes diz que caixa 2 ameaça eleição de 2018” – , mas, sobretudo, em artigo pouco comentado de José Arthur Gianotti[ii], intelectual relevante do PSDB, no qual o filósofo defende que “operadores da Lava Jato se transformam, assim, em representantes do povo, unificando os adversários da corrupção” e, a partir de tal assertiva, arremata: “Este não seria um exemplo de que uma nova democracia representativa poderá nascer pelos poros de uma tecnologia social mais avançada sem passar diretamente por eleições?”. Se transformações ao longo do tempo são inerente à prática democrática, soam, no mínimo, inoportunos questionamentos sobre a centralidade das eleições logo depois da destituição de uma presidente eleita. A solução proposta, ademais, não passa pela participação do povo, protagonista por excelência da democracia, mas pela protagonismo de corporações selecionadas por meio de concursos públicos e munidas de uma linguagem inacessível à maior parte da população.

A normalização da crise é, antes de tudo, o esforço de reforçar determinadas formas de organização do Estado e da sociedade no Brasil, que passam não tanto por uma radical ruptura com o presente, mas pelo seu prolongamento mitigado. Os caminhos e consequências estão delineados, como as propostas de reformas do atual governo apontam, mas, como é natural na política, ainda há muita margem para incerteza,
inclusive para os principais protagonistas deste projeto.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Crédito da imagem: disponível em http://www.megacurioso.com.br/politica/98743-30-fatos-para-conhecer-a-historia-politica-do-vice-presidente-michel-temer.htm. Acesso em 12/03/2017.

Notas

[i][i] http://oglobo.globo.com/brasil/gilmar-mendes-diz-que-caixa-dois-ameaca-eleicoes-de-2018-21020108

[ii] http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-instante-politico,10000096362

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