Fernando Perlatto*

Susan Sontag foi uma intelectual pública que soube, ao longo dos anos, articular com notável maestria a produção de reflexões teóricas sofisticadas com uma participação engajada em debates sobre questões candentes na esfera pública. Construiu, neste processo, para si e para os demais uma persona pública, uma determinada personagem, que, ao se posicionar sobre temáticas diversas como a Guerra do Vietnã e o atentado às torres gêmeas do Word Trade Center, despertou sentimentos vários, como paixões, amores, devoções, controvérsias, ira e raiva. Seus escritos continham certo estilo, uma marca muito pessoal, “sontaguiana”, que possibilitam a um leitor mais atento ao seu trabalho e à sua trajetória compreender o que havia da persona privada de Sontag em um determinado texto – alguns ensaios, ressalte-se, a revelaram ainda mais explicitamente, com destaque para a obra Doença como Metáfora, escrito após ter sobrevivido a uma dura batalha contra câncer. Além disso, é possível ver muito da persona privada de Sontag nas diversas entrevistas que ela concedeu ao longo da vida – a exemplo daquelas realizadas pela revista Rolling Stones, em 1979, e traduzida no Brasil pela Editora Autêntica em 2015, e pela The Paris Review, em 1995 – ou no belo documentário Regarding Susan Sontag, dirigido por Nancy Kates e lançado em 2014.

Nada, porém, substitui um diário como fonte de revelação e desvelamento da persona privada de alguém, qualquer que seja este alguém, e pode-se, é claro, se dizer o mesmo no caso de Susan Sontag. A partir de 1947, quando tinha quinze anos de idade, Sontag passou escrever centenas de páginas em seus diários, que foram posteriormente reunidas por seu filho, David Rieff, e, tempos depois, selecionadas, editadas e publicadas em diferentes volumes. O primeiro deles veio à luz no Brasil em 2009, cobrindo o período que se estende de 1947 a 1963, abarcando a juventude de Sontag e sua formação, seu breve casamento, ainda com dezoito anos, e separação de Philip Rieff, o nascimento de seu filho, David, a descoberta da bissexualidade, e suas vivências em Nova York e Paris. O segundo volume, publicado no ano passado pela Companhia das Letras, abarca momentos marcantes da vida privada e da vida pública de Sontag, entre 1964 a 1980, quando ela publicou obras fundamentais, como o romance O Benfeitor (1963) e seus ensaios seminais Contra a Interpretação (1966), A Vontade Radical (1969), Sobre Fotografia (1977), Doença como Metáfora (1978) e Sob o Signo de Saturno (1980).

Não se deve, é claro, ler um diário como se ele revelasse, sem mediações, a verdadeira persona privada daquele que o escreve, sobretudo no caso de uma figura como Sontag, que, desde a mais tenra idade, “sabia que seria reconhecida” (p.195, grifos da autora). A escrita de um diário, no seu caso mais especificamente, não era um exercício fortuito, ingênuo, desprovido de intenções, uma vez que ela tinha consciência de que, no futuro, haveria de encontrar leitores para aquelas páginas e para aquelas reflexões. Há, portanto, intenções deliberadas na construção desta persona privada. Reconhecer isso, porém, não reduz em nada a importância das páginas publicadas nos Diários. Sontag se mostra, desabafa, escancara seus sentimentos, alegrias, tristezas, angústias e frustrações; aqueles são os momentos em que ela busca se encontrar com ela própria, com seus anseios e desejos; no quais ela fala de seus amigos, familiares, de pessoas que admira ou não; em que ela reflete sobre os filmes que viu, sobre as leituras que realizou; momentos em que tem insights, muitos deles primorosos, que serão posteriormente desenvolvidos em forma de literatura ou de ensaios.

O formato dos Diários é disperso, solto, sem muita unidade, com saltos no tempo. O que se encontra nas quase seiscentas páginas do volume organizado por Rieff é uma revoada de ideias e apontamentos sobre temas, pessoas, lugares e questões diversas. Esse conteúdo caótico – repleto de anotações esparsas; aforismos; citações de livros; referências de publicações, peças e exposições; reflexões sobre escritores e artistas; menções a visitas realizadas a amigos, como Robert Rauschenberg, Paul Thek e Jasper Johns; listas e mais listas de filmes vistos ou a serem vistos; leituras realizadas ou por fazer, fluxos torrenciais reflexivos – acaba por criar certas dificuldades para aquele que se debruça sobre as páginas dos Diários, tornando, em determinados momentos, a leitura um tanto quanto cansativa.

A despeito disso, sobretudo para aqueles que já têm uma admiração prévia por Sontag, o exercício de mergulhar nos seus diários acaba sendo muito prazeroso e surpreendente, pois, a partir daquele aparente caos de notas e reflexões, novas facetas da persona Sontag se revelam, e é possível compreender melhor não apenas algumas dimensões vinculadas à sua vida privada – a exemplo da sua tensa e turbulenta relação com a mãe, as memórias que guarda do pai, seus vínculos e distanciamentos com a irmã, suas paixões e amores, como María Irene Fornés, Carlotta e Nicole Stéphane –, mas reforçar e refinar a percepção sobre determinas características da intelectual Susan Sontag e de sua obra.

Nessa perspectiva, um aspecto importante que emerge dos Diários é a possibilidade que se abre para que o leitor tenha acesso ao artesanato intelectual de Sontag; ou seja, é possível acompanhar de que maneira ela pensa, formula suas ideias, desenvolve conceitos, noções e ideias específicas, dialogando, permanentemente, com escritores que admira, a exemplo de Borges, Beckett, Benjamin e Barthes. Sontag reflete permanentemente sobre a sua escrita que ela experimenta como algo que “me é dado – às vezes, quase, como um ditado. Deixo vir, tento não interferir. Eu a respeito, porque sou eu e, no entanto, é mais do que eu. É pessoal e transpessoal, ao mesmo tempo” (p.54). Há uma busca incessante, um inquirir-se permanente sobre como aprimorar a sua própria escrita e o seu estilo, como articular a produção de textos literários e ensaios, bem como sobre os caminhos existentes para a construção de algo novo na própria forma literária.

A leitura dos Diários permite vislumbrar de que maneira Sontag se concebe como intelectual e escritora, a forma como ela se vê em relação aos seus contemporâneos e a figuras literárias do passado, bem como suas pretensões como escritora. Uma determinada passagem é bastante ilustrativa nesse sentido, quando ela diz que existem três grupos de escritores: no primeiro, estariam aqueles que “se tornam conhecidos, ganham ‘estatura’ se tornam pontos de referência para seus contemporâneos que escrevem no mesmo idioma”, a exemplo de Emil Staiger, Edmund Wilson e V. S. Pritchett. O segundo grupo seria constituído por escritores “internacionais”, que se tornam “pontos de referência para seus contemporâneos em toda a Europa, as Américas, o Japão etc.”, como, por exemplo, Benjamin. Por fim, haveria um terceiro grupo, constituído por aqueles escritores que “se tornam pontos de referência para sucessivas gerações em muitos idiomas”, a exemplo de Kafka. De acordo com Sontag, ela estaria “no primeiro grupo, à beira de ser admitida no segundo” embora desejasse “figurar no terceiro” (p.511).

De acordo com a interpretação que constrói de si própria, ela sempre soube que, embora tivesse uma “mente boa, até mesmo poderosa”, sendo “boa para entender as coisas – + pôr as coisas em ordem – + usá-las (Minha mente cartográfica)”, ela não era um “gênio”; “não era inteligente o bastante para ser Schopenhauer ou Nietzsche ou Wittgenstein ou Sartre ou Simone Weil”, a despeito de ter tido sempre o objetivo de “estar na companhia deles, como discípula; trabalhar no mesmo nível que eles”. Ela não seria suficientemente ambiciosa e sua sensibilidade seria “convencional demais, em última instância”, não sendo “louca o bastante, nem obcecada o bastante” para se converter em um gênio como os demais escritores mencionados (p.195). Apesar disso, Sontag tinha consciência plena de que ser “inteligente” para ela não era “como fazer algo ‘melhor’”, mas sua “única forma de existir”.

Nesse sentido, ela busca permanentemente se aprimorar como uma escritora “adversária”, “polêmica”, que se coloca em um diálogo crítico com os temas do seu tempo, construindo para si e para o público externo sua imagem de intelectual pública, figura esta característica do século XX, sobretudo da tradição francesa, de Gide, Camus, Sartre, Beauvoir e Foucault, que tem na polêmica, no embate público de ideias, um dos principais alicerces de sua reflexão. Um determinado trecho dos Diários evidencia esta marca polemista de sua inscrição: “Sou uma escritora adversária, uma escritora polêmica. Escrevo para apoiar o que é atacado, para atacar o que é aclamado. Mas, por isso, me ponho numa posição emocionalmente incômoda. Em segredo, não espero convencer e não posso deixar de ficar desanimada quando meu gosto (ideias) minoritário se torna o gosto (ideias) majoritário: então quero atacar de novo. Não posso fazer outra coisa senão me pôr numa relação de adversária com minha própria obra” (p.444).

A leitura dos Diários abre também possibilidades para se vislumbrar outras facetas características do trabalho intelectual de Sontag, a exemplo de seu cosmopolitismo, evidenciando não apenas em suas viagens pelo mundo, mas em seu radar atento e afinado a artistas e escritores de outras geografias, valendo recordar neste sentido seu encanto por Machado de Assis, destacado no ensaio “Afterlives: the cases of Machado de Assis”, publicado no livro Where the stress falls, e mencionado por Roberto Schwarz, no artigo “Leituras em competição”, da coletânea Martinha versus Lucrécia. Além disso, outro elemento marcante de Sontag que é possível corroborar a partir da leitura dos Diários, consiste no caráter marcadamente interdisciplinar de seu trabalho intelectual. Tendo construído sua trajetória fora dos circuitos acadêmicos, orientados de forma cada vez mais significativa no sentido de uma crescente especialização, Sontag se conformou como uma intelectual sobre a qual não é possível depositar um rótulo disciplinar específico, transitando, com enorme erudição, por diversos campos do conhecimento, como a crítica literária e cinematográfica, a psicanálise, a sociologia, a antropologia, a história e a ciência política. Soma-se a isso, é claro, seu imenso apetite cultural que conformou e moldou sua sensibilidade intelectual. Na entrevista concedida à The Paris Review, mencionada anteriormente, quando perguntada sobre suas influências, Sontag diz que aprendeu e amadureceu como escritora não apenas sob a influência de personalidades literárias, mas também com os filmes de Godard ou com as maneiras como Schnabel toca Beethoven, Glenn Gould toca Bach, e Mitsuko Uchida toca Mozart, o que diz muito do caráter aberto de seu trabalho.

A mistura de todos esses elementos, somada ao diálogo permanente com a agenda pública, é que distingue, dá força e viço à sua reflexão, e faz com que Sontag permaneça sendo reconhecida como uma das mais importantes intelectuais públicas do século XX. Os Diários ajudam a decifrar, a partir de prismas diversos, aspectos importantes desta potente personalidade intelectual.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <https://br.pinterest.com/marielamaldo/susan-sontag/&gt;. Acesso em: 09 mar. 2017.

 

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