Jorge Chaloub*

 Biografias muitas vezes revelam mais do que as trajetórias individuais relatadas. O olhar para um personagem não raro o toma como filtro para apreender cenários mais amplos, que encontram no indivíduo expressões palpáveis ou exemplares. Não sem razão, questões sobre o lugar do indivíduo na história ocupam algumas das contribuições mais relevantes do pensamento moderno, com respostas diversas que vão da elogio extremado das grandes personalidades, à moda de Carlyle, a sua ferrenha crítica empreendida por autores como Tolstoi.

O.J. – made in America, documentário vencedor do Oscar, segue, nesse sentido, o caminho de grandes biografias ao traçar um vasto painel da sociedade yankee por meio dos relatos sobre a ascensão e queda do ídolo do futebol americano. O subtítulo – “made in America” – denota os profundos vínculos entre a trajetória do atleta e o contexto em que sua glória e ocaso se desenrolaram. Apenas neste cenário é possível compreender, nos sugere a frase, o personagem. Por outro lado, as evidentes relações entre O. J. e a sociedade norte-americana fazem da sua biografia uma condensação de tensões e impasses desta mesma realidade, de modo que o olhar para O.J. é também um olhar para os Estados Unidos da América.

O centro está na questão racial, tema, aliás, de grande número de produções do último Oscar. O assunto ganha corpo a partir da análise sobre o profundo racismo da polícia de Los Angeles, retomando uma série de assassinatos tolerados pelo establishment, mas responsáveis por justas e violentas revoltas da comunidade negra. O cenário é fundamental para compreender o desenrolar do julgamento de O.J., que mobilizou profundamente o país e assumiu a feição de um acerto de contas entre brancos e negros na sociedade norte-americana. Como bem aponta uma das juradas, parte de um júri majoritariamente negro, em momento central do documentário, a decisão que inocenta o atleta de um homicídio duplo de sua ex-esposa e de um amigo, contra uma série de provas robustas, é em grande parte uma vingança contra o descaso do Poder Judiciário e da elite majoritariamente branca ante a sequência de assassinatos de negros com punições brandas ou mesmo sem qualquer pena. O.J. representa a possibilidade de expor à parte do país não acostumada às injustiças flagrantes a dor de lidar com experiências de perda. Pela primeira vez os brancos chorariam as mortes e a violência institucional usualmente destinada aos outros. Os depoimentos de militantes do movimento negro reforçam claramente o fato de que mais do que o julgamento de um homem estava em questão a violência racial norte-americana.

O documentário rejeita, entretanto, os maniqueísmos fáceis. Através de uma impressionante pesquisa documental de imagens do próprio O. J., fica patente como sua trajetória de lenda do esporte – seja como estrela da Universidade, recordista da NFL, personalidade do mundo do cinema, onde estreou “Corra que a polícia vem aí”, ou da publicidade – sempre passou por uma radical recusa em se reconhecer como negro. O.J. acreditava superar através das suas habilidades e do seu impressionante carisma as fortes clivagens raciais da sociedade norte-americana. Ironicamente, seu julgamento se tornou um marco na moderna questão racial no país. Por outro lado, o diretor demonstra o forte histórico de violência contra a mulher do atleta, assim como uma sequência de condutas eticamente condenáveis, evitando, de todo modo, transformá-lo em apenas uma vítima da ordem social do país. Por mais que a impressionante fama do ex-jogador fosse fundamental para o cenário, toda a questão ultrapassava em muito o indivíduo.

O documentário não restringe, todavia, seu olhar à questão racial. Outros temas, centrais para compreensão da sociedade norte-americana, também merecem atenção das lentes do diretor, como o papel da mídia, as feições do Judiciário e o lugar do júri popular no imaginário democrático do país. Não faltam relatos, por exemplo, de como a cobertura jornalística foi fundamental para o desenrolar dos acontecimentos. Advogados, promotores, o juiz e até mesmo os jurados se tornaram celebridades instantâneas de um julgamento que encontrava no noticiário uma extensão da sala física do tribunal. Em parte pela fama de O. J., mas sobretudo pela cobertura ostensiva, o caso tornou-se um grande tema nacional, com seu resultado divulgado no sistema sonoro de escolas ao longo do país. O filme enseja debates contemporâneos, com repercussões bem evidentes no cenário brasileiro contemporâneo, sobre determinados modelos de mídia, suas práticas e responsabilidades.

A contraposição entre o primeiro e o segundo julgamentos traz, como é comum no filme, a outra face da moeda. Contra a superexposição, a discrição e o fechamento, num cenário onde o O.J. celebridade e ator não encontrava mais espaço. O resultado, entretanto, causa semelhante estranhamento, com a revelação do poder completamente discricionário de uma juíza que, à revelia dos eventos, resolve fazer em caso diverso justiça por suas próprias convicções. O desfecho distinto parece ressaltar outros problemas em meio a um semelhante desconforto e problematiza os descaminhos de uma corporação de feições aristocráticas – como já vaticinava Tocqueville na “Democracia da América” –  quando afastada da luz do dia, ou das câmaras.

Outra possível contraposição entre os julgamentos passa pela oposição entre o júri popular do primeiro caso e a decisão monocrática do juiz no segundo caso. Fundamento do espírito democrático norte-americano, o júri, em que pese seus problemas, revela as desigualdades da sociedade não apenas em suas decisões, mas mesmo em sua composição. Em momento que pode passar desapercebido ao longo das mais de sete horas do filme, dividido em cinco episódios, destaca-se que parte do perfil negro do júri decorria da dificuldade em encontrar pessoas dispostas a dedicar mais de seis meses somente ao julgamento, o que praticamente excluía quem trabalhava, e da ampla maioria de negros dentre os desempregados. O resultado do primeiro julgamento ganha, assim, feições de um grito contra as longevas opressões na sociedade norte-americana, vocalizado diretamente por aqueles que delas padeciam no cotidiano. Para além do caso concreto, onde a decisão que chancela a violência contra mulher merece todas as críticas, o instituto do julgamento pelos próprios pares mostra suas virtudes, como canal através do qual é possível expor as mazelas, antigas e recentes, dos E.U.A, tarefa à qual também se dedica o excelente documentário.
*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Crédito da imagem: disponível em http://www.vulture.com/2016/06/oj-simpson-made-in-america-espn-yes-its-that-good.html. Acesso em 08/03/2017.

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