Fernando Perlatto*

Dizem que o vídeo é forte. Não quis assistir. Me dá asco, ódio, nojo, assistir um vídeo como este. Me dá asco, ódio, nojo pensar que eu vivo em uma sociedade na qual é possível que uma travesti seja agredida a madeirada nas ruas, carregada em um carrinho de mão e depois assassinada, e que este acontecimento, tão perverso em tudo o que ele contém e naquilo que nos diz da sociedade em que vivemos, não vire manchete dos grandes jornais, não cause indignação, choro, raiva, revolta.

Quem vela por Dandara? Quem vela pelas Dandaras?

Não sei quem é Dandara. Não sei o que Dandara era antes de virar Dandara. A reportagem que li, pelo menos, teve a dignidade de manter o nome com que ela se reconhecia: Dandara é um nome de mulher e ela assim deve ser chamada, pois era como mulher que se reconhecia. E se ela se reconhecia como mulher, isto basta: Dandara era uma mulher. Não preciso conhecer Dandara para saber que ela era uma mulher. Mas, há muitos, muitas, milhares de pessoas, que não reconhecem Dandara como mulher, a enxergam simplesmente como um homem ridículo travestido de mulher, como se a identidade de Dandara fosse patrimônio deles, destes tantos e tantas detentores e detentoras da moral e do poder de fiscalizar e padronizar a sexualidade alheia, dizendo o que as pessoas devem ou não devem fazer com seus corpos, com suas subjetividades; como se a identificação do que Dandara era dependesse do olhar dos outros, e não dela própria.

Não sei o que Dandara fez, se é que ela fez alguma coisa. Sei apenas que o simples fato de existir, talvez, tenha sido seu gesto maior. Sem ser Dandara, imagino que viver como Dandara era um sofrimento imenso: um tapa na cara da sociedade a cada passo, a cada olhar, a cada gesto; um tapa levado na cara pela sociedade a cada passo, a cada olhar, a cada gesto. No mundo da padronização, Dandara era o erro, o desacerto, era a falha, aquilo que não se encaixava.

Espero que Dandara tenha uma família que a tenha apoiado em todos os momentos, em suas escolhas na vida e que, neste momento, esta família vele por ela. Mas, na maior parte das vezes, as Dandaras, as tantas Dandaras, não têm famílias, são abandonadas por vergonha, deixadas à sua própria sorte. Os familiares que acolhem suas Dandaras, imagino eu, pressionados pela sociedade da padronização, do preconceito, da brutalidade, ficam envergonhados, constrangidos, sem graça, de andar com suas Dandaras, como se estas tantas Dandaras fossem falhas, erros, desvios.

Espero que Dandara tenha um namorado, uma namorada, alguém que a amasse muito, que a respeitasse bastante, e que, neste momento, vele por ela. Mas, na maior parte das vezes, as Dandaras, as tantas Dandaras, não têm quem as ame, quem as respeite. Aqueles, aquelas que se apaixonam pelas Dandaras, imagino eu, pressionados pela sociedade da padronização, do preconceito, da brutalidade, ficam envergonhados, constrangidos, sem graça, de andar com suas Dandaras, como se estas  tantas Dandaras fossem falhas, erros, desvios.

Espero que Dandara tenha tido um emprego decente, que a tenha assegurado meios para ter uma vida digna e que, neste momento, seu patrão e seus colegas de trabalho, velem por ela. Mas, na maior parte das vezes, as Dandaras, as tantas Dandaras, não têm quem dê a elas oportunidade, uma chance de trabalho, sendo, a maior parte delas, empurradas para a prostituição, ainda que haja aquelas tantas Dandaras, que tenham de forma legítima e a partir de suas próprias escolhas, optado por este caminho. Dandara não deve ter tido, com toda certeza, uma professora travesti, uma médica travesti; nunca deve ter visto uma advogada travesti, ou atendentes de lojas, de farmácias, travestis. Aqueles que empregam as Dandaras, imagino eu, pressionados pela sociedade da padronização, do preconceito, da brutalidade, ficam envergonhados, constrangidos, sem graça, de empregarem as Dandaras em suas empresas, em seus estabelecimentos comerciais, como se estas tantas Dandaras fossem falhas, erros, desvios.

Não sei o que Dandara fez, mas sei, e isso eu tenho a mais absoluta certeza, de que Dandara não merecia o que recebeu. Ninguém merece passar pelo que Dandara passou. Se é que tenha cometido algum delito, algum crime, algum erro, para além da sua própria existência que chocou os covardes que a agrediram, ninguém merece ser condenado antes de ser julgado, de ser massacrado antes de ser ouvido, seja no mundo virtual, seja no mundo concreto, da carne e do sangue de Dandara, que se espalharam em um bairro de uma rua periférica de Fortaleza.

Transfobia mata, e mata muito. O Brasil é o país no mundo que mais assassina travestis e transexuais.

Dandara pode virar mais um número nesta máquina imensa de moer gente, máquina que com toda certeza é ainda mais imensa, mais terrível, se levarmos em conta a subnotificação da violência contra setores tão marginalizados na sociedade, como travestis e transexuais.

Dandara tinha o mesmo nome daquela que dizem ter sido a esposa de Zumbi dos Palmares, personagem importante na luta contra a escravidão. O simbolismo desta coincidência, fortuita ou não, pode ser um sinal, um chamamento, um grito, de que somente quando as Dandaras, as tantas Dandaras conseguirem seu espaço, sua voz, sua vez, e sejam respeitadas pelo que são e pelo que querem ser, será possível que nós falemos, efetivamente, em igualdade e em democracia no país.

Mas, para isso, é preciso chorar e velar por Dandara e pelas tantas Dandaras; se imaginar Dandaras, chorar e se indignar com os preconceitos vários contras as tantas e tantas anônimas Dandaras.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.ims.com.br/ims/visite/programacao/nostalgia-da-luz-ims-rj&gt;. Acesso em: 06 mar. 2017.

 

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