Wallace Andriolli Guedes*

Ao contar a história de um jovem negro gay crescendo na periferia de Miami, em meio ao vício em crack de sua mãe, a relação filial com um traficante e a violência sofrida na escola, Moonlight poderia muito facilmente ser um exploitation estilizado da miséria humana, típico, por exemplo, do cinema de Lee Daniels – sobretudo Preciosa (2009) e Obsessão (2012). É por escapar desse caminho que o filme de Barry Jenkins se torna grande. Toda a construção da trajetória de Chiron (interpretado por Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevonte Rhodes) se dá numa perspectiva lacunar, com Jenkins captando, sem explicações didáticas, pequenos momentos da vida de seu protagonista em que ele tenta se descobrir, encontrar um lugar no mundo.

Baseada numa peça nunca encenada de Tarell Alvin McCraney, a narrativa de Moonlight é dividida em três capítulos. O primeiro, intitulado “Little”, traz o personagem ainda pequeno, sofrendo com a ausência da mãe e com o bullying dos colegas e encontrando conforto e carinho inesperados na companhia de Juan (Mahershala Ali), traficante do bairro onde mora. Num determinado momento desse primeiro segmento, Teresa (Janelle Monáe), namorada de Juan, diz ao garoto que só o chamará por seu nome verdadeiro, Chiron, vindo daí o título do capítulo seguinte. Nele, o adolescente Chiron descobre a sexualidade, enquanto continua a ser perseguido, também por conta dessa descoberta, na escola. Há um diálogo do protagonista com Kevin (Jharrel Jerome), seu único amigo, em que o último explica o apelido “Black” dado ao primeiro. “Black” é também o título do capítulo três de Moonlight e a maneira pela qual Chiron, agora um homem adulto bastante transformado, passa a ser conhecido.

Essa estrutura do roteiro, em que cada seção apresenta uma nova faceta do protagonista a partir de como personagens coadjuvantes se referem a ele na seção imediatamente anterior, reforça a construção de Chiron como alguém buscando se encontrar e, extremamente introspectivo, incorporando à imagem que constrói de si mesmo características externas, atribuídas por outras pessoas. Mas, mais do que focar nessa introspecção como razão para o que poderia ser considerado falta de personalidade própria, Moonlight trata Chiron numa perspectiva não essencialista, compreendendo que é do acúmulo de experiências e interações que o ser humano se forma e que esse não é necessariamente um processo finito ou linear. Daí fazer sentido que o protagonista, diante das consequências de uma ação sua na adolescência, recorra ao modelo masculino paternal de Juan não só para sobreviver, mas também para recalcar experiências passadas, ocorridas justamente quando adolescente.

E o reencontro com esse passado, no capítulo final, conduz Moonlight a uma fascinante complexidade, que reside tanto na construção de personagem quanto de narrativa e visual. No primeiro aspecto, por conseguir fazer caber, com absoluta coerência, em Chiron, o traficante ameaçador e o homem delicado e apaixonado; no segundo, por transformar esse filme sobre descobertas e sobrevivência numa encantadora, talvez inusitada, história de amor; e, no terceiro, muito em decorrência do segundo (já que isso se dá pela incorporação do romance ao filme), por citar tão organicamente o cinema de Wong Kar-Wai, especialmente a obra-prima Felizes Juntos (1997), inspiração desavergonhada de Jenkins. O belíssimo epílogo de Moonlight, na cafeteria, é permeado de elementos kar-waianos: a luz amarela, a canção tocada numa jukebox, a maneira como é construída a atmosfera romântica – sem contar que essa sequência é precedida por uma cena em que, como em Felizes Juntos, toca “Cucurrucucu Paloma”, de Caetano Veloso. É admirável que Jenkins consiga fazer uso de Kar-Wai, diretor carregado de um ultrarromantismo melancólico e do interesse por amores irrealizáveis (algo, a princípio, anti-hollywoodiano e muito específico do cinema oriental da década de 1990), para contar uma história tão sua e de McCraney, tão mergulhada na experiência de crescer, sendo jovem negro e gay, na periferia de uma grande cidade norte-americana.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: <https://www.agambiarra.com/moonlight-melhor-filme-2016/&gt;. Acesso em: 03 mar. 2017.

 

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