Fernando Perlatto*

Em entrevista publicada no livro Retrato de Grupo (Cosac Naify), dedicado aos quarenta anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o crítico literário Roberto Schwarz afirmava que “a relação dos escritores – ou, mais tecnicamente, dos narradores ou da persona do poeta – com os pobres é uma das chaves secretas da literatura brasileira” (p.241). Foi precisamente instigado por este diagnóstico que Schwarz organizou em 1983 uma coletânea intitulada Os pobres na literatura brasileira (Editora Brasiliense), na qual reuniu pesquisadores pertencentes a diferentes instituições do país, que, tomando como fontes de análise obras e personagens de autores distintos – a exemplo de Martins Pena, Castro Alves, Machado de Assis, Euclides da Cunha, João do Rio, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Carlos Drummond, Mário e Oswald de Andrade, João Cabral de Mello Neto, Guimarães Rosa, João Antonio, entre tantos outros – buscaram refletir, a partir de perspectivas e ângulos variados, sobre a representação da pobreza nas letras brasileiras.

Ainda que já corridos mais de trinta anos desde sua publicação, a leitura de uma coletânea como Os pobres na literatura brasileira provoca e faz pensar sobre a reduzida atenção por parte da ficção brasileira, pensada em uma perspectiva mais ampla, aos “de baixo”, isto é, àqueles pertencentes aos estratos e grupos mais marginalizados da sociedade, como os trabalhadores urbanos e rurais, as domésticas, os moradores de rua, os desvalidos, os habitantes de favelas, cortiços, subúrbios, bairros e regiões periféricas. Embora sejam majoritários em uma sociedade profundamente desigual como a nossa, estes segmentos têm sido, historicamente, pouco representados na literatura, como se houvesse uma espécie de homologia estrutural entre seu lugar marginal na nossa sociedade e sua presença periférica nas páginas da ficção. Importa, é claro, destacar, nesse sentido, que esta marginalidade se deu, ao longo dos anos, não apenas no que concerne à representação dos personagens e às temáticas escolhidas, mas também no que diz respeito à própria escrita da literatura, bem como de sua recepção e consumo no país: seletiva, por excelência, como decorrência, em grande medida, da nossa estrutura desigual e dos altos índices de analfabetismo que ainda grassam pelo país.

Nos últimos anos, contudo, ainda que com dificuldades, este quadro tem se alterado de forma mais significativa. É possível identificar na ficção brasileira contemporânea escritores que vêm buscando representar setores historicamente marginalizados do país, a exemplo do operariado urbano, representado, por exemplo, a partir de prismas diversos, nos cinco volumes da série Inferno provisório, de Luiz Ruffato. Em tempos recentes, a literatura tem se aberto de modo mais substantivo para novas vozes, temas e cores, do que são evidentes os livros de ficção produzidos diretamente por moradores da periferia de grandes cidades, como é o caso de Ferréz – ver, nesse sentido, não apenas seus trabalhos autorais, como Capão Pecado (Planeta), mas a importante coletânea organizada por este autor, Literatura marginal: talentos da escrita periférica (Agir), que reúne textos publicados na revista Caros Amigos –, Paulo Lins (Cidade de Deus, Companhia das Letras), Luiz Paulo Mendes (Memórias de um sobrevivente, Companhia das Letras), e Conceição Evaristo (Ponciá Vivêncio, Editora Mazza; Olhos D’Água, Editora Pallas; e o recentemente lançado Histórias de leves enganos e parecenças, Editora Malê).

Porém, a despeito desses avanços, as críticas à sub-representação de escritores, temas e personagens marginalizados, ainda permanecem em voga, bastando lembrar nesse sentido a polêmica ocorrida na última edição da Feira Literária de Paraty (FLIP), que, embora tenha ampliado a presença de mulheres entre os palestrantes, quando comparado às últimas edições, se destacou pela ausência de convidados negros. Como uma espécie de contraponto a esta seletividade, vêm surgindo no país iniciativas diversas que buscam dar voz e representação a grupos historicamente excluídos, a exemplo da organização de festivais literários como a Festa Literária das Periferias (FLUPP) e a Feira Literária da Zona Oeste (Flizo), da criação de editoras, como a Malê – que, além de priorizar o catálogo com a publicação de autores negros, constituiu o “Prêmio Malê de Literatura. Jovens escrito@s negr@s”, voltado para incentivar a produção literária de jovens negros –, e de iniciativa culturais, como o projeto “Periferias Literárias”, coordenado por Heloisa Buarque de Hollanda, que busca estimular a produção e a circulação de trabalhos de autores pertencentes às periferias.

Quando se fala em periferias, é importante não se pensar apenas em termos de grupos marginalizados ou de habitantes de regiões territorialmente excluídas das grandes cidades, mas também no que concerne à geografia do país. A produção literária que ganha maior visibilidade e que consegue se viabilizar por editoras de maior porte, a exemplo da Companhia das Letras e da Record, tende a se concentrar nos principais centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, fazendo com que vozes de outros cantos não tenham tanto alcance e destaque na divulgação de seus trabalhos. Isso também tem se modificado aos poucos e autores de outras regiões têm contribuído para trazer à tona nas páginas da ficção brasileira um país mais diverso e heterogêneo, do que são exemplares as obras de escritores como Milton Hatoum, com seus retratos de Manaus em livros como Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte (todos pela Companhia das Letras), e Edyr Augusto com seus mundos e submundos brutais das periferias do Belém do Pará em uma obra como Psiica (Boitempo).

Pode-se objetar, e com razão, que, ao contrário do que sugere uma perspectiva multiculturalista radical em torno da ideia de “lugar de fala”, o pertencimento a um determinado grupo, a uma certa condição social, a uma raça ou gênero específico, não deve, a priori, ser tomado como requisito único para que um escritor possa falar de determinada experiência, vetando-se ao outro, ao diferente, a possibilidade de imaginar e criar em torno daquilo que não vivenciou e vivencia de fato. O exercício da alteridade, que a literatura tem uma potência enorme em estimular, pressupõe justamente a possibilidade de transcender a sua própria condição, a sua própria identidade, a sua própria experiência, possibilitando àquele que cria colocar-se, de maneira radical, na perspectiva do outro, imaginando, ainda que a partir de uma perspectiva distinta, seus dilemas, questões e afetos.

Porém, não obstante reconhecendo que o “lugar de fala” não possa se transformar em um muro de interdição da imaginação, funcionando como uma espécie de barreira impeditiva para que um determinado escritor reflita, imagine e construa narrativas em torno de vivências que não lhe são próprias, é importante afirmar que a experiência direta possibilita àquele que a atravessou no corpo e na carne determinadas perspectivas que devem ser valorizadas. Nesse sentido é que se faz necessária uma ampliação cada vez mais significativa da presença direta ou mediada de vozes na literatura daqueles e daquelas pertencentes ou que vivenciaram de perto processos de exclusão e experiências marginais, subalternas e periféricas, de modo a fazer aflorar, trazer à tona e dar vida a vivências mais diversificadas do país e de suas gentes.

Tendo optado desde a juventude pelo contato direto com as margens da sociedade, a escritora Maria Valéria Rezende e seus livros são exemplares desta literatura que lança um olhar sensível, humano e profundo sobre os setores excluídos da sociedade brasileira. Ainda que tenha nascido e permanecido em Santos até os dezoito anos de idade, Rezende se embrenhou inicialmente nas periferias de São Paulo e, posteriormente, nos recantos rurais do país nos anos 1970, quando, vivendo em Pernambuco e depois na Paraíba, se dedicou à educação popular, baseando-se, para tanto, nos métodos de Paulo Freire. Pertencente desde 1965 à Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho, Rezende se engajou na luta contra a ditadura civil-militar ajudando a esconder perseguidos pelo regime, tendo, inclusive, no início dos anos 1970, saído do país carregando consigo os originais daquilo que posteriormente viraria o livro Cartas da Prisão, de Frei Betto. Rezende começou a publicar suas obras tardiamente, lançando seu primeiro livro de ficção, Vasto Mundo, somente em 2001. À guisa de menção biográfica, importa destacar que, para além da experiência nas periferias em seu trabalho de educação popular, Rezende vive há mais de trinta anos em João Pessoa, o que a situa também geograficamente às margens dos centros principais da produção literária.

Essas vivências nas margens, periferias e recantos do país decantaram em experiências que potencializam a literatura de Rezende, tornando-a, dentro de uma aparente simplicidade, repleta de força. Trata-se de uma prosa clara e bem escrita de uma autora, que combina de modo original dureza e ternura, dor e delicadeza, fazendo emergir em seus trabalhos um mosaico de personagens cujas vivências e experiências são atravessadas por afetos, sentimentos e questões várias que emocionam, sensibilizam e provocam o leitor a pensar. Não à toa, seus livros mais recentes publicados pela editora Alfaguara tiveram reconhecimento público merecido, sendo agraciados com o Prêmio Jabuti de 2015 (Quarenta Dias) e o Prêmio Casa de las Américas de 2017 (Outros Cantos).

Os livros de Maria Valéria Rezende são declarações, ainda que não diretamente explícitas, de amor à literatura. Trechos de outros escritores permeiam seus livros e, tanto em Quarenta Dias, quanto em Outros Cantos, servem de epígrafes aos capítulos, em um diálogo poético com a narrativa que se segue nas linhas posteriores. É interessante perceber, nesse sentido, a presença mais reiterada de trechos de determinados escritores, a exemplo da poetisa polonesa Wislawa Szymborska, com quem Rezende compartilha a escrita sofisticada dentro da simplicidade, assim como a sensibilidade e o olhar atento ao cotidiano, aos sons e aos silêncios, ao desapercebido, àquilo que é aparentemente sem muito valor. Fora o fato de que Quarenta Dias se estrutura em um diálogo direto com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que se dá não apenas pela coincidência dos nomes das protagonistas das duas histórias, mas pela utilização, de forma criativa, por parte de Maria Valéria Rezende, de várias referências, menções e associações a determinadas situações, acontecimentos e personagens da história infantil escrita pelo romancista britânico, como a Rainha de Copas, o gato Cheshire, o “coelho branco de olhos vermelhos, colete e relógio” e o Chapeleiro Louco.

Para além de declarações de amor à literatura, seus livros, em especial Quarenta Dias, podem ser compreendidos também como declarações de amor à escrita. A escrita, em grande medida, é a “tábua de salvação”, o espaço da respiração em meio ao turbilhão de mudanças e dificuldades; é o que dá conforto, alívio, o que consola Alice, a personagem principal do romance. A escrita, seja no caderno escolar velho e amarelado com desenhos da Barbie, seja em guardanapos ou no verso de folhetos de publicidade, é também a forma de se reencontrar com o passado, de fazer reviver aquilo que se passou.

Tanto Quarenta Dias, quanto Outros Cantos, são livros que contam em primeira pessoa as histórias de duas mulheres, duas professoras, Alice e Maria, que se distanciam, por razões diversas, de suas vidas cotidianas, aventurando-se por trilhas e territórios desconhecidos. São, nesta perspectiva, obras que se estruturam prioritariamente em torno de histórias de buscas – busca de uma pessoa, no caso de Quarenta Dias, ou de uma utopia, no caso de Outros Cantos –, mas também de encontros, quer seja com o desconhecimento e com desconhecidos, quer seja delas com elas próprias, seus desejos, alegrias, tristezas, frustrações, conquistas e sonhos. Em ambos os livros, suas histórias são articuladas às histórias de outros personagens que encontram em suas caminhadas e vivências, compondo, como bem observa Maria, em Outros Cantos, um “novo xadrez de mundos diferentes”. É o jogo entrelaçado destas histórias que se encontram, que se cruzam, que confere uma proximidade entre estranhos, que desperta a alteridade entre diferentes e que traz um senso de pertencimento às protagonistas, ainda que situadas em territórios, como o sertão e as ruas, que lhes são, a princípio, estrangeiros.

As duas obras de Maria Valéria Rezende se ancoram nas memórias das personagens principais, cujas lembranças são fios soltos que se articulam a outros tantos vários fios soltos, tecendo e reconstruindo o passado em emaranhados de recordações. Os objetos, isso importa perceber, têm aqui um papel primordial como espécies de dinamizadores de memórias, fazendo com que a escrita de Rezende seja atravessada por uma materialidade que dá vida, viço e contorno à narrativa. No caso mais específico de Outros Cantos, são os artefatos e amuletos retirados da caixa que a personagem principal, Maria, carrega consigo para os sertões e guarda em segredo – a exemplo de um emblema da Harley-Davidson, uma estrela metálica de um vaqueiro, um bilhete de metrô, um ojo de Dios, uma mão de Fátima, um disco de metal esmaltado com o distintivo de uma união estadual de estudantes –, que atuam como “objetos mágicos”, que a levam a se recordar de suas experiências em geografias diversas, como Argélia, México, França, aguçando suas memórias e pondo “a desenrolar um rolo de filme ali guardado e empoeirado” (p.126).

Diversos Brasis e suas realidades emergem das narrativas de Quarenta Dias e Outros Cantos. Da João Pessoa de classe média, terra de Alice, a Porto Alegre rica de sua filha e genro, passando pela capital gaúcha pobre, periférica e repleta de negros para a sua surpresa, em que ela se embrenha na busca de Cícero Araújo, até chegar aos cantos do país, ao “sertão profundo” de Olho d’Água, visitado por Maria, o que se vislumbra é um país diferente dos “centros”, com suas gentes, cores, costumes, tradições e sotaques variados. Mas, ao mesmo tempo, se trata de um Brasil parecido em seus preconceitos contra os “brasileirinhos” do Norte e Nordeste – como se vê em Quarenta Dias –, e cada vez mais semelhante, na medida em que atravessado, de cima abaixo, pelas consequências da modernização acelerada, que vem provocando mudanças em todos os cantos do país, tornando-o mais homogêneo nos gostos, nos modos, na arquitetura, na estética.

Em Quarenta Dias, da janela do ônibus em Porto Alegre, Alice observa o “luxo padronizado que se espalha igualmente de Dubai a Xangai passando até pelo ‘edifício mais alto do Brasil’, em João Pessoa, outros em construção ou abandonados, sei lá, com aspecto de ruína, tudo tão misturado que a gente fica sem saber se a cidade está nascendo ou morrendo” (p.99). Maria, a protagonista de Outros Cantos, contrasta, em tom de lamento, aquele velho sertão por ela visitado quarenta anos atrás com sua “beleza despojada”, com suas casas sertanejas, e o sertão de hoje, “semeado de antenas e torres”, com as casas repletas de bens de consumo, e os adolescentes, com seus celulares e fones de ouvido, alcançados pelo mesmo “autismo digital” (p.79), que graça nos meios urbanos.

Nesta perspectiva, as objeções realizadas a este processo pela personagem Maria de Outros Cantos podem ser encaradas em uma chave radicalmente romântica, romantismo aqui compreendido na tradição de William Morris, retomada por Edward Thompson, de resistência às mudanças bruscas provocadas pela modernização e pela industrialização nas sociabilidades e nos afetos, de crítica à pressa sem propósito e à velocidade desmedida dos dias atuais – “não é só o fast-food no estômago”, diz ela, “é o fast-food no cérebro: fast-news, fast-thinking, fast-talking, fast-answering, fast-reading” (p.72) – e de valorização, como contrapartida, da cultura popular, suas tradições e costumes. Embora tivesse ido aos sertões para levar conhecimento, ensinando a ler e escrever aos jovens e adultos, Maria acaba por passar por um processo de aprendizagem de outros saberes em seu contato direto com o povo de Olho D’Água, que, embora vivendo na escassez e penúria, era também portador de outras sabedorias.

Não se trata, é importante perceber, da adesão a um populismo ingênuo, que idealiza e se curva de forma pueril a uma suposta bondade popular: há, pelo contrário, o reconhecimento das limitações, das durezas, das dificuldades estruturais, da aceitação passiva e calada ao poder patriarcal e às práticas de dominação oligárquicas, e dos preconceitos vários presentes na cultura popular, a exemplo do episódio no qual Maria é repreendida por ter se intrometido em uma situação de violência doméstica, sob o argumento de que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. (…) É costume, ninguém morre disso não” (p.125). Este episódio revela a Maria que “tudo era muito mais misturado e complicado” do que ela pensava e que “o caminho da libertação, se houvesse, teria de percorrer inúmeros atalhos e veredas” (p.126).

O ponto aqui a ser destacado, porém, é que, não obstante a percepção da presença e da naturalização de outras formas de opressão, dominação, apatia e preconceito nos setores marginalizados – que, ressalte-se, não é exclusividade deles no estrato social do país –, há também, como ressaltado anteriormente, a valorização dos saberes, ofícios, gestos e manifestações presentes na cultura popular. Destaca-se, nesse sentido, as práticas de solidariedade e a disponibilidade do afeto, da atenção, do cuidado, do alimento, da ternura, que tanto Alice, em Quarenta Dias, quanto Maria, em Outros Cantos, encontram em suas andanças, ofertadas especialmente por outras mulheres pertencentes às margens das cidades e dos sertões, como Fátima, Adelaida, Zelima, Jozélia, Lola, entre tantas outras. São várias as mãos que as acolhem, que as ajudam, que as guiam e as conduzem em seus momentos de dificuldade. Há também, sobretudo em Outros Cantos, um encantamento com os espaços e as práticas de lazer populares, a “liturgia de sociabilidade” do povo, com suas festas, seus cantos, suas danças, seus trajes festivos, suas rezas, suas crenças. A frase que Maria mobiliza para descrever a capela com que ela se defronta em Olho d’Água pode servir de metáfora para pensar, de forma mais ampla, a forma como ela concebe seu encontro com a cultura popular: “O que eu imaginava quase em ruínas resplandecia numa prodigalidade de velas e candeeiros só explicável pela imensa fé daquele povo sempre tão avaro do fogo, custoso de se manter aceso” (p.61).

Outra presença forte nos escritos de Maria Valéria Rezende, que se relaciona diretamente com as experiências vividas pela escritora, é a ditadura civil-militar e as dores, angústias e traumas por ela causadas como decorrência da repressão brutal, dos desaparecimentos, das perdas, dos sofrimentos e dos rompimentos de laços de pessoas queridas. Em Quarenta Dias, este passado autoritário se faz presente tanto nas lembranças de Alice de seu marido, Aldenor, que se envolve na luta armada, quanto no personagem Amaro, morador de rua, que havia sido Montonero na juventude. Já em Outros Cantos, este passado aparece nas recordações de Maria de um homem – que não sabemos se é a mesma pessoa, embora possua sempre o mesmo olhar –, que ela reencontra em diferentes momentos da sua vida, com nomes diferentes, como a indicar aqueles que participaram da luta armada contra regime, escondidos, se valendo de disfarces e fugas, para escapar dos agentes da repressão e construir, em meio a dificuldades várias, caminhos para a resistência “de baixo para cima”, seja no Brasil – embrenhando-se, por exemplo, em sertões, como faz a própria Maria, “nas margens, nas fábricas, no campo, nas palafitas, nas serras”, desaparecendo “como ‘fermento na massa’” –, seja no exterior.

Apesar da derrota da luta armada – que Maria reconhece como sendo resultado não apenas da própria repressão que dizimou milhares de vidas, mas também da incapacidade por parte dos militantes no sentido de estabelecerem um “canal de comunicação” com os pobres e oprimidos, “cuja experiência de um mundo duramente concreto contradizia qualquer ideário abstrato, importado de fora para dentro e de cima para baixo” –, estas experiências acabaram plantando sementes de inconformismo, indignação e resistência, que tiveram papel fundamental, mais à frente, já nos anos 1980, nas lutas pela redemocratização do país. Mais recentemente, passados quarenta anos desde aquela experiência em Olho D’Água, não obstante a dor da ruína e a despeito das “utopias esfarrapadas”, o desejo da mudança, nas reflexões de Maria, permaneceu e ainda permanece, urdindo, a partir de “outros fios rotos”, “novos sonhos, por certo menores e mais humildes, ao rés do chão, mas vivos” (p.145).

Dos rastros e dos emaranhados das experiências periféricas, Maria Valéria Rezende constrói um olhar aparentemente simples, mas profundamente sofisticado, sobre as margens e as desigualdades estruturais do país, ao mesmo tempo em que aponta para a importância de se vislumbrar a ideia de que somente em um diálogo verdadeiro e respeitoso com as vivências, tradições, costumes, práticas, crenças e afetos com os “de baixo” é que é possível pensar em possibilidades e caminhos para a resistência em tempos difíceis e para transformação social do país.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da Imagem: Evandro Teixeira. Fonte: <http://lounge.obviousmag.org/memorias_do_subsolo/2014/01/a-poesia-das-lentes-de-evandro-teixeira.html&gt;. Acesso em: 22 fev. 2017.

 

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