Antonio Engelke*

Parto da hipótese de que, no universo em que habito, a Zona Sul do Rio de Janeiro, a astrologia está se transformando no principal vocabulário a partir do qual uma boa parcela da sociedade pensa em si própria e em sua relação com a vida de modo geral. Ao lado da vulgata freudiana e das categorias da psiquiatria, o saber astrológico conformaria, em larga medida e cada vez mais, a moldura cognitiva existencial das camadas mais ricas da população carioca. Não disponho de dados ou estatísticas para apresentar, tampouco saberia dizer se o mesmo ocorre em outras capitais. Isso não significa, entretanto, que o fenômeno não possa ter alguma relevância sociológica.

No que se segue, pretendo argumentar que a astrologia[1] é uma forma secularizada de religião, perfeitamente ajustada ao ethos individualista pós-moderno. Mais especificamente, penso que 1) ela cumpre a mesma função das religiões tradicionais, mas sem as exigências que poderiam torná-la não atraente à sensibilidade atual; 2) que assim como diversos sistemas religiosos, a astrologia é um modelo totalizante de explicação do real; e 3) que seus entusiastas se comportam de forma bastante semelhante a fiéis religiosos. Vale dizer desde já que meu objetivo não é difamar ou rebaixar de algum modo a astrologia; sou partidário de um certo pragmatismo humanista liberal que diz que, se uma dada crença funciona para você, se aumenta as suas capacidades de lidar com as dificuldades da vida, então aí está toda a justificativa necessária (excluídos, é claro, os fundamentalismos) [2]. Esclareço também que não estou sugerindo que a astrologia seja um sistema de crenças inferior apenas porque baseada em pressupostos indemonstráveis em termos científicos. Ao contrário, se entendo a astrologia como doutrina religiosa, o problema de sua adequação à realidade é afastado de antemão[3]. Ciência e religião são operações distintas, que servem a propósitos distintos, razão pela qual não faz sentido hierarquizá-las. Isto posto, vamos ao que interessa.

Religiões cumprem a função de permitir às sociedades se gerarem a partir de uma exterioridade que elas mesmas construíram[4]. Dito de outro modo, grupos sociais inventam seus deuses, que no entanto aparecem não como criações, mas como instâncias supra-humanas cuja anterioridade existencial (sua “eternidade”, que não admite a possibilidade de um ponto de origem) em relação aos indivíduos asseguraria o poder de lhes regular a vida. Obviamente, não há deuses na astrologia. Mas há uma exterioridade construída – não os astros e constelações em si, que existem a bilhões ou centenas de milhões de anos, mas as relações entre eles e nós, habitantes dessa pedra que vaga por aí, atraída pela curvatura que a massa do Sol esculpe no tecido do espaço-tempo (isto não é um devaneio poético; leiam Einstein). O elemento transcendente da astrologia é, como nas demais religiões, uma força. Nas religiões tradicionais, o papel dessa força é governar diretamente a sociedade; na astrologia, é lhe fornecer um espelho. E o que esse espelho devolve não é o rosto da sociedade ela mesma, mas sua imagem idealizada.

Argumentar que a astrologia é uma manifestação religiosa, ainda que secularizada, implica necessariamente em afirmar que ela possui algum tipo de relação com o sagrado. “O que define o sagrado”, dizia o bom e velho Durkheim, “é que ele é acrescentado ao real”[5]. Não importa o conteúdo específico dessa adição ao real; importa é que ela seja percebida como uma intervenção extra-ordinária, que teria a capacidade de operar alguma espécie de mediação entre uma realidade transcendente e a nossa realidade cotidiana, cá embaixo, o mundo particular de cada um. No caso da astrologia, essa mediação entre o transcendente e o humano pretende-se equilibrada numa linha tênue entre espiritualidade e cientificidade. A despeito do recurso à astronomia e matemática, a astrologia não consiste no estudo das interações causais entre os astros e a psique humana. No entanto, astrólogos profissionais frequentemente escrevem como se tal causalidade fosse um fato dado, e entusiastas leem os seus diagnósticos sem notar essa contradição – o que, é claro, só atesta a força persuasiva do sagrado.

O sagrado, por definição, está para além de qualquer demonstração. Como em qualquer doutrina religiosa, o que a astrologia solicita aos indivíduos é um salto de fé: ou você acredita que há alguma correlação entre a posição dos astros e os humores e tendências dos seres humanos aqui na Terra, ou não acredita. Há sempre um cardápio de evidências que podem ser evocadas para angariar a adesão do indivíduo a qualquer conjunto de crenças religiosas – “veja só o Antigo Testamento, considere aqueles relatos todos… Estariam todos alucinando a mesma coisa, inventando a mesma história?” Mas, no fim das contas, esse tipo de adesão se dá por um movimento de fé, não pela aceitação racional de certas premissas que podem ser lá meio bambas, mas “fazem algum sentido”. Acreditar que a astrologia “faz sentido” pressupõe não a compreensão racional de suas justificativas, mas a adesão em alguma medida dogmática ao conjunto de crenças que dizem respeito à relação entre astros e seres humanos.

Contudo, ao contrário das religiões tradicionais, a astrologia não supõe, cria ou exige um vínculo social. Durkheim novamente: “se a religião engendrou tudo o que há de essencial na sociedade, é que a ideia da sociedade é a alma da religião”. As grandes religiões monoteístas assumem a forma de vínculos sociais; mais do que um conjunto de crenças partilhadas, são formas de pertencimento a um “nós” claramente delineado. Mas não há pertencimento grupal que venha sem sacrifícios e exigências, e nesse sentido a astrologia tem a vantagem de estar sintonizada com o espírito de nosso tempo – um tempo em que o indivíduo, cada vez mais individualista, prefere a maleabilidade das identificações do que a fixidez das identidades. A astrologia inclui o indivíduo sem consultá-lo, pois que não há necessidade de qualquer tipo de iniciação (batismo, por exemplo). O problema do confinamento a uma moldura identitária rígida ou exclusiva não se coloca para o entusiasta; ele ou ela pode experimentar sua fé nos astros de forma totalmente particular. Basta acessar um site, digitar dia/hora/local de nascimento, e começar a se relacionar com a astrologia do modo que bem entender (estou assumindo que absolutamente ninguém leva horóscopo de jornal a sério). A pessoa pode fazer seu mapa astral com um profissional qualificado, conversar ativamente sobre o assunto com amigos, ou mesmo tomar parte em algum grupo de estudo. Mas nada disso é uma condição necessária ao engajamento com a astrologia, ou um efeito inescapável desse engajamento.

A astrologia é um sistema totalizante de explicação do real. Está estruturada de maneira a permitir um número infindável de combinações, capazes de acomodar qualquer leitura que lhe seja pedida. Pequena historinha do antropólogo Evans- Pritchard, em seu estudo sobre a magia entre os Azande, para ilustrar esse ponto. Num dia qualquer, cai uma viga de madeira de um galpão na cabeça de um nativo, ferindo-o. O motivo? “Bruxaria!”, dizem os Azande. “Mas vocês não viram que os cupins roeram a madeira toda?”, reage o antropólogo. Ao que lhe respondem: “Ora, até uma criança de 5 anos sabe que a madeira caiu por causa dos cupins… Mas por que caiu na cabeça daquela pessoa, não de outra? Bruxaria!”. Na cosmovisão dos Azande, nada pode em princípio ficar sem explicação, porque não há lugar para o acaso ou o aleatório em seu interior; tudo o que acontece, acontece por um motivo[6].

Algo semelhante atravessa a astrologia. Pelo que pude compreender, há os planetas (que indicam dimensões específicas da experiência), os signos (que indicam qualidades específicas da experiência), as casas (que indicam campos específicos da experiência dentro dos quais as energias dos planetas e dos signos operam) e os aspectos (ou a relação angular entre os planetas, que revelam como as várias dimensões da experiência são integradas dentro do indivíduo). Mas o principal está na infinidade de cruzamentos e combinações que podem ser feitas entre planetas, signos, casas e aspectos. Tomados isoladamente, esses elementos não dizem muita coisa; precisam ser observados desde uma perspectiva relacional para que possam ser levados a falar. E é justamente essa perspectiva relacional que garante a elasticidade necessária à tarefa de tentar dar conta da vastidão de contradições e paradoxos da experiência humana. O sujeito tem algum traço de personalidade que não se enquadra nem no signo, nem no ascendente? Problema nenhum: há sempre uma miríade de luas e astros que podem ser evocados em auxílio de uma explicação, ou pelo menos uma hipótese. Mais ainda, há os trânsitos, os movimentos, os eclipses: se tudo é fluxo, se os astros estão sempre em movimento, é porque a fixidez e a imobilidade retirariam justamente essa qualidade de abertura, a imprecisão difusa que assegura a acomodação de qualquer explicação dentro do sistema astrológico.

Dito de outro modo, para conservar seu poder de atração, a astrologia precisa operar no terreno do indecidível. Sendo um sistema em aberto, a astrologia lança mão de um expediente, por sinal bastante comum em certas ortodoxias acadêmicas, que reforça e garante tal abertura – o “calma que ainda não acabou”. Se a leitura dos astros indicam a tendência de que você venha a se casar com uma estrangeira, mas no ano seguinte calhou você de juntar as escovas de dente com uma colega de trabalho, bem, calma que ainda não acabou: há sempre a possibilidade de que, depois de se separar, você faça uma viagem para desanuviar a mente e o coração, e aí talvez…  Esse apelo a uma possibilidade futura que não admite demarcação definitiva funciona tão bem porque, afinal, pode ser adiado indefinidamente; a rigor, só perde sua eficácia quando o sujeito morre.

Ao mesmo tempo em que é constituída por essa abertura, a astrologia opera um fechamento. Não deixa de ser paradoxal que, numa época em que a luta pela desconstrução de estereótipos consagrou-se como um imperativo ético, definindo aliás boa parte do horizonte das lutas políticas de nosso tempo, as pessoas se mostrem dispostas a abraçar um sistema de crenças que, ao classificar os indivíduos em 12 categorias específicas, dificulta que sejam observados e compreendidos em suas singularidades. Quanto maior for o grau de adesão do fiel à perspectiva astrológica, maior será a força da imagem pré-concebida dentro da qual ele amarrará sua compreensão das pessoas com as quais convive.

No tom provocativo que o caracteriza, o filósofo esloveno Slavoj Zizek certa vez afirmou que a famosa frase “Se Deus está morto, então tudo é permitido” (Dostoievski) estaria equivocada. Justo o oposto, diz Zizek: se Deus está morto, então nada é permitido. Então não é Deus o todo poderoso e, por isso mesmo, misericordioso? Aquele que pode nos absolver de todos os pecados? Ora, se Deus está morto, então os homens perdem a segurança de saber que, quando a hora chegar, um Ser divino estará lá para lhes perdoar, assim garantindo sua salvação. Isso gera uma insegurança metafísica imensa, o que só revela, por contraste, o quanto as religiões são também um saber prático, um conjunto de procedimentos que ajudam a equacionar a angústia de não saber, a suportar a incerteza constante de ter que conviver com o caos, o aleatório, o imponderável.

A astrologia oferece, a seu modo, uma instância divina, supra-humana, de absolvição. A diferença é que esta absolvição é dada não aos atos, mas ao substrato psicológico que está na origem deles. Fulano foi vingativo? Nossa, mas isso é tão escorpião! Beltrano é teimoso a ponto de arruinar suas relações mais próximas? Taurino, ué. Cicrana é vaidosa e arrogante até dizer chega? Leonina das boas. Percebam o quanto essa operação é próxima do “foi Deus quem quis”, típico da religiosidade de extração mais popular. As características marcantes de signos e ascendentes são frequentemente utilizadas como uma espécie de salvo-conduto para defeitos ou traços indesejáveis de personalidade, o que facilita ao sujeito reconciliar-se consigo mesmo – como o alcoólatra violento que descobre, numa igreja pentecostal do bairro, que na verdade não era ele o responsável por suas ações, mas o demônio que o acossava. Por que investir tanto dinheiro e tempo em psicanálise, por exemplo, se posso aprender a me aceitar melhor somente ao tomar consciência da natureza determinada dos aspectos negativos do meu ser? Foi o cosmos que quis…[7]

Suponho que esta última observação irá desagradar a bastante gente. Ao sugerir que os devotos da astrologia adotam, sem saber, a mesma forma de pensamento mágico que fiéis religiosos, estou chacoalhando um dos alicerces fundamentais de sua autoimagem: a suposta diferenciação que a astrologia sinalizaria em relação à religiosidade popular. Se Bourdieu está correto, e me parece que ele está, os extratos mais ricos da sociedade buscarão sempre diferenciar-se dos mais pobres. Essa operação de diferenciação não se dá apenas em bases materiais (os símbolos do luxo que o dinheiro pode comprar), mas também e sobretudo simbólicas. Em bom português: para boa parte das classes média e alta carioca, ser “crente” é coisa de pobre. A astrologia resolve então o problema da necessidade de manter alguma relação com o transcendente, sem no entanto parecer popularesco ao fazê-lo. Como não aparece aos olhos do próprio fiel como uma religião, mas sim como um conjunto de conhecimentos muito complexos – que por sinal requerem um intérprete qualificado para traduzi-los adequadamente: o astrólogo profissional não é o equivalente secular de padres, pastores e rabinos? –, a astrologia pode dar o conforto espiritual requisitado e, ao mesmo tempo, a certeza de que isso nada tem a ver com o tipo de estreiteza intelectual ou existencial que os mais ricos supõem ser a marca característica da religiosidade popular.

Os astros, como os deuses, falam exatamente aquilo que os grupos sociais precisam ouvir. Nem mais, nem menos.

* Antonio Engelke é Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2014) e pós-doutorando em ciência política na UERJ.

** Crédito da imagem: Signos da Zueira <https://www.facebook.com/signoszueiras/photos/a.1302519129824720.1073741881.217448591665118/1302519833157983/?type=3&theater&gt;. Acesso em: 15 fev. 2016.

Notas:

* Agradeço aos amigos Fabrini Viguier, Jonas Lana, Marcello Sorrentino e Rodrigo Mudesto pelas críticas e sugestões, que ajudaram a refinar diversos argumentos aqui expostos. As eventuais barbaridades são de minha inteira responsabilidade, naturalmente.

[1] Estou ciente de que a astrologia em seu sentido amplo, isto é, como estudo dos movimentos dos astros e suas relações com eventos humanos, data de pelo menos dois mil anos antes de Cristo, e que assumiu diversas formas desde então, variando de acordo com a cultura na qual era entretida. Neste artigo, no entanto, refiro-me apenas à astrologia ocidental praticada atualmente.

[2] Homeopatia, por exemplo. Todos os estudos científicos de que dispomos até aqui afirmam que não possui poder curativo algum. Racionalmente, tenho consciência disso. Mas basta o primeiro sinal de crise alérgica que eu encomendo papelotes de Sulphur 1mfc. Funcionam para mim, uma maravilha, não importa o que diga a literatura científica.

[3] Por essa razão, não vou me ater aqui às críticas de base cientificista à astrologia.

[4] GAUCHET, Marcel, citado em DUPUY, Jean-Pierre. “A traição da opulência ou o colapso da utopia econômica”. In: NOVAES, Adauto (org). O novo espírito utópico. São Paulo, edições SESC, 2016.

[5] DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

[6] EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

[7] Pode acontecer também da crença nas características de signos e ascendentes funcionarem como uma espécie de profecia que se auto-cumpre (por saber-se do signo de Leão, a pessoa passa a se comportar de maneira tipicamente leonina).

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