Fernando Perlatto*

Para parte significativa do mundo ocidental, os anos 1990 foram atravessados por uma grande euforia, como se o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim tivessem representado o ingresso da ordem mundial em uma nova fase, marcada pelo andamento rumo ao progresso e por uma relativa calmaria, regida pela Pax Americana. O livro O Fim da História, do cientista político norte-americano, Francis Fukuyama, se consolidou como uma das publicações mais influentes do final do século XX a marcar este otimismo com o mundo que então se inaugurava, e que parecia inexoravelmente caminhar, impulsionado pela globalização, em direção à expansão do capitalismo e à consolidação das democracias liberais pelo mundo. Se desvios havia, eles haveriam de ser corrigidos, modulados, domesticados, sem que isso resultasse na necessidade de se recorrer a soluções dramáticas para resolvê-los. A utopia da revolução se esfarelava e aos diferentes países restava caminhar, gradativamente, para o único telos possível, a rota segura da economia de mercado e dos regimes liberais-representativos.

Porém, passados quase trintas anos da queda do Muro de Berlim, é possível constatar que não foi bem isso o que aconteceu. Pelo contrário. Da ameaça do bug do milênio, passando pelos atentados às Torres Gêmeas do Word Trade Center em 2001 e o recrudescimento do terrorismo, a crise econômica de 2008-2009, a eclosão da Primavera Árabe e de diversos movimentos de contestação social que explodiram pelas praças do mundo, a exemplo dos indignados da Espanha, do Occupy Wall Street e as mobilizações nas praças da Turquia, e chegando mais recentemente ao surgimento de grupos como o Estado Islâmico, à crise dos refugiados, ao fortalecimento cada vez mais significativo de uma extrema-direita e à vitória de Donald Trump nas eleições americanas, o que se viu foi que a calmaria imaginada nos anos 1990 era mera ilusão. O mundo explodiu em mil pedaços e, apesar de avanços importantes que ocorreram ao longo dos últimos anos, os sentimentos de desilusão e de perplexidade frente à rapidez das mudanças se impuseram diante de milhares de espectadores que vêm atarantados a ordem mundial aparentemente se esfarelar em mil pedaços.

Ainda que mais afeito às instabilidades e intempéries, o Brasil também seguiu ao longo das três últimas décadas, sob a égide da Constituição de 1988, em uma direção que parecia caminhar, sobretudo para os otimistas de plantão, em direção a uma espécie de Pax brasileira. A estabilidade monetária levada a cabo pelos governos FHC e as políticas de inclusão da era Lula, somadas ao aparente fortalecimento das instituições democráticas, levaram muitos analistas a pensar que o país estava a salvo de solavancos e mudanças bruscas, marchando pé-ante-pé – ainda que com a lentidão característica do nosso processo de modernização – no sentido do paulatino aprofundamento da democratização política e social do país. Vieram as manifestações de junho de 2013 e as tensões então recobertas sob esta aparente Pax explodiram e, de lá para cá, o país entrou em um curto-circuito, que vai da crise econômica e da ampliação do desemprego até o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, passando pela Operação Lava-Jato, pelo fortalecimento de uma “nova direita”, pelos 7×1 da seleção brasileira, pela tragédia das barragens de Mariana, pela explosão de casos de dengue, Zika, Chikungunya e febre amarela e, especialmente, pela desintegração do sistema político. O tempo presente no Brasil é atravessado por um travo amargo, como se algo que vinha se consolidando aos trancos e barrancos tivesse se despedaçado e o país caminhasse, em velocidade cada vez maior, rumo a uma crise aparentemente sem fim.

É precisamente este cenário de mudanças vertiginosas das décadas de 1990 e dos anos 2000, que cobre as transformações de uma era de expectativas para uma era de desilusões, de um momento de aparente calmaria para a iminência da catástrofe, que serve como pano de fundo da narrativa do novo livro de Daniel Galera, Meia-Noite e Vinte, lançado no final do ano passado pela Companhia das Letras. Partindo de um enredo aparentemente simples – após vinte anos sem se verem, três amigos se reencontram no enterro de um quarto colega, assassinado em Porto Alegre após uma tentativa de assalto enquanto corria –, em Meia-Noite e Vinte, Galera costura de forma minuciosa uma narrativa que arremessa o leitor para a reflexão de temas e questões candentes do tempo presente.

O amigo assassinado em torno do qual gira o eixo da narrativa é o escritor Andrei Dukelsky, o Duque, “um dos maiores talentos da literatura brasileira contemporânea” e seus três amigos que se reencontram no seu enterro são a bióloga Aurora, doutoranda em uma universidade de São Paulo, Antero, publicitário, e Emiliano, jornalista, o mais velho deles. Companheiros de uma mesma geração – “uma gurizada especial, pontas de lança de uma geração nova que aproveitariam a internet” (p.42) –, que publicou conjuntamente nos anos 1990 um fanzine eletrônico que circulava por e-mails, chamado “Orangotango”, cada um dos quatro seguiu uma trajetória diferente e, diante do trágico acontecimento que levou ao falecimento do amigo mais famoso e em meio às suas turbulências pessoais, Aurora, Antero e Emiliano são tragados para uma torrente de reflexões sobre suas vidas, escolhas, dilemas e questões. Construindo a narrativa dos três personagens na primeira pessoa com uma habilidade digna de nota, Galera aborda, a partir dos percursos e escolhas individuais, diversos temas contemporâneos, ainda pouco trabalhados na literatura brasileira, como homossexualidade, machismo, aborto e assédio moral.

E ao construir o retrato de uma geração de jovens no final dos anos 1990 e 2000, Galera o faz tendo como pano de fundo as diversas transformações digitais e tecnológicas que tiveram curso ao longo dos últimos anos, e que fizeram com que a internet se tornasse elemento inseparável da vida profissional e afetiva daqueles que amadureceram e se tornaram adultos nestas duas décadas. É como se as mudanças subjetivas vivenciadas por Andrei, Aurora, Antero e Emiliano, criadores de um fanzine eletrônico que circulava por e-mail nos anos 1990, fossem também elas acompanhadas por transformações objetivas, que fizeram com que esta geração –“que pegou o início da revolução da internet, antes do politicamente correto, da profissionalização da rede” (p.57) – contribuísse para impulsionar ao mesmo tempo em que foi impulsionada e levada de roldão pelas mudanças que ocorreram em tempos recentes na internet, que passou a ser cada vez mais um território dominado pelas grandes corporações.

Do deslumbramento e encanto inicial nos anos 1990 com os videoclipes, blogs e programas de conversa como o ICQ e as salas de chat do UOL, passa-se, nos anos 2000, em uma velocidade vertiginosa, para uma nova dinâmica, com uma internet dominada pelas redes sociais e pela expansão de programas e aplicativos vários, como Twitter, Facebook, Skype, Whatsapp, MySpace, Chaturbate, Formspring, Asfm, SprintEun, que aparecem, todos eles, de diferentes maneiras durante a narrativa de Meia-Noite e Vinte, a evidenciar o ritmo intenso de mudanças que ocorreram na rede ao longo dos últimos anos. Daniel Galera, ele mesmo pertencente a esta geração que se lançou neste redemoinho de mudanças, mostra uma notável sensibilidade ao captar os dilemas e conflitos entre liberdade e dominação, que este novo mundo traz, ao mesmo tempo em que mobiliza para a narrativa questões ainda não resolvidas nos “debates” concernentes à internet, a exemplo da privacidade dos arquivos e das contas das pessoas que morreram, em especial aquelas que receberam reconhecimento público, como é o caso do escritor Andrei Dukelsky.

Meia-Noite e Vinte pode não ter a mesma complexidade de Mãos de Cavalo (2006), o mesmo ritmo de Barba Ensopada de Sangue (2012) e, talvez, seus personagens não tenham a mesma complexidade daqueles que estão em Cordilheira (2008), os trabalhos anteriores do autor de maior circulação, mas o último livro publicado por Galera tem a qualidade principal de trazer ao leitor, sem quaisquer recursos de didatismo, o clima de fim de festa que se abateu sobre a geração dos anos 1990 e 2000, que cresceu e amadureceu no bojo da revolução da internet. Não que as esperanças tenham se esvaído por completo; é mais o sentimento de que algo que poderia ter sido, como potência, se despedaçou no meio do caminho e que o que virá pela frente será diferente daquilo que se construiu até o presente momento. Uma literatura da angústia é o que emerge das páginas de Meia-Noite e Vinte.

Não à toa, um acontecimento fundamental que perpassa a narrativa e que demarca esta mudança epocal é a eclosão das manifestações de junho de 2013. Estas se fazem fortemente presentes no livro de Galera: seus principais personagens, de uma forma ou de outra, se envolvem nas “jornadas” que tomaram as ruas do país naquele ano. Talvez o livro de Galera, e isso é importante ressaltar, seja um dos primeiros na ficção brasileira a captar com êxito as mudanças que vêem ocorrendo no país desde então, com suas expectativas e frustrações, avanços e retrocessos. Para o bem e para o mal, de junho de 2013 e suas manifestações catárticas para 2014, momento em que os personagens se encontram na história narrada em Meia-Noite e Vinte, é perceptível a emergência, aos trancos e atropelos, de um país diferente: o clima político mudou e as posições, sobretudo à direita, se radicalizaram, do que é exemplo evidente a postura do pai de Aurora, que de um “antipetismo festivo” se converteu, ao longo dos últimos meses, em “um direitista meio caricato” (p.131-2).

Para além das mudanças que ocorreram no país, Meia-Noite e Vinte se estrutura em torno de uma temática mais ampla, relacionada à ameaça do fim do mundo. O tom apocalíptico atravessa toda a narrativa e se manifesta nas referências a questões como o bug do milênio e as profecias de Nostradamus, mas, especialmente, nas reflexões da personagem Aurora e nas anotações e fragmentos de obras, artigos e notícias, que embasariam o livro que Duque pretendia escrever antes de ser assassinado. Temas como as mudanças climáticas e ambientais, as ameaças da inteligência artificial e dos ciborgues, o risco da radioatividade e da extinção em massa, aparecem com frequência ao longo de Meia-Noite e Vinte e provocam o leitor a pensar em um mundo no qual “os milagres científicos e tecnológicos”, exacerbados de forma intensa ao longo dos últimos anos, ao invés de trazerem a prometida liberdade, conduziram cada vez mais a crises de grandes proporções e a uma espécie de vazio existencial.

Nesse sentido, é possível dizer que o livro de Daniel Galera se associa a todo um imaginário produzido pelo cinema e pela literatura ao longo das últimas décadas, que flerta, de forma explícita ou implícita, com a temática do fim do mundo, assumindo tonalidades distópicas, quando não apocalípticas. De ficções científicas como 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, até chegar ao recente A Chegada, de Denis Villeneuve, passando por distopias como O Planeta dos Macacos (Franklin J. Schaffner), Matrix (Joel Silver), Mad Max (George Miller) e as séries The Walking Dead e Black Mirror, além dos filmes-catástrofes que se tornaram uma obsessão da cinematografia norte-americana – a exemplo de Independence Day (Roland Emmerich), Armageddon (Michael Bay) e Melancolia (Lars von Trier) –, o cinema tem sido invadido por toda uma produção de longas-metragens com perfis orientados nesta direção sombria. O mesmo se pode dizer em relação à literatura, que, pelo menos, desde Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, passando por clássicos que se converteram em filmes como Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, até chegar ao mais recente Submissão, de Michel Houellebecq, se constroem em torno de distopias que imaginam futuros perturbadores.

Não é coincidência o fato de que, em tempos de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, dois clássicos da literatura distópica – 1984, de George Orwell e Complô contra a América, de Phillip Roth – tenham voltado às posições de bestsellers nos Estados Unidos, a indicar o quanto esta forma de imaginação pode apontar para realidades aparentemente absurdas, mas que acabaram parcialmente se concretizando. E também não é coincidência que o mercado editorial venha sendo inundado nos últimos anos com várias publicações que procuram refletir sobre o futuro – a exemplo de um livro lançado no final do ano passado pela Companhia das Letras, do israelense Yuval Noah Harari, Homo Deus. Uma Breve História do Amanhã –, às vezes em uma chave mais ameaçadora, às vezes em uma perspectiva mais otimista. E não à toa, autores que pareciam ter sido relegados às análises sobre um passado aparentemente distante – a exemplo daqueles identificados com a chamada Escola de Frankfurt, como Horkheimer e Adorno –, têm retomado seu destaque em diversas publicações recentes, como se evidencia no livro de Stuart Jeffries, Grand Hotel Abyss. The Lives of Frankfurt School, lançado em 2016, que recebeu análise cuidadosa do colunista da The New Yorker, Alex Ross, em artigo intitulado “The Frankfurt School knew Trump was coming”, que aponta justamente para a atualidade de diagnósticos críticos sobre o futuro realizados pelos frankfurtianos e que permanecem atuais para a compreensão do mundo contemporâneo, sobretudo após a ascensão de Donald Trump ao poder.

Ainda que sem se identificar por completo com este imaginário distópico ou apocalíptico, Meia-Noite e Vinte pode ser pensado em diálogo com o sentimento mais geral que orienta algumas das obras anteriormente mencionadas. Porém, ao contrário de muitos desses filmes e livros, Galera tem o mérito de não recair em um pessimismo exacerbado ou em um niilismo destemperado, que não encontra qualquer saída para o futuro. Ainda que o sentimento de impotência esteja presente em algumas passagens e reflexões dos personagens, especialmente de Aurora, é possível dizer que o livro não se curva a um cenário desprovido de esperanças. Pode-se, e deve-se, objetar que as saídas encontradas pelos personagens são todas individuais e se dão nas esferas privadas, em seus respectivos cotidianos, conectando-se, nesse sentido, com diagnósticos e leituras dominantes nos novos tempos que colocaram por terra propostas de transformações mais estruturais, construídas em torno de projetos coletivos. Porém, ainda que seja imperativo criticar o rebaixamento do horizonte, é importante reconhecer que não se curvar passivamente ao ritmo inexorável dos fatos já é o passo inicial para a mudança.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: Chico Albuquerque. Site: <http://www.select.art.br/o-angulo-perfeito/&gt;. Acesso em: 14 fev. 2016.

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