Maria Abreu*

A morte de Marisa Letícia, companheira de Lula durante 43 anos, no último dia 3 de fevereiro, causou grande comoção. De um lado, uma empatia com os sentimentos de Lula, que culminou em uma presença massiva de seus admiradores no velório realizado no dia seguinte, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. De outro, manifestações de ódio, comemorações de sua morte e do sofrimento de Lula, violações da ética médica mais básica, impensável em um hospital que, além de sua qualidade, se notabilizou por ser aquele escolhido por diversos políticos e outras pessoas de reconhecimento público. Pessoas de todas as profissões e origens se viram legítimas para definir qual seria a conduta correta de Lula.

Para além das manifestações insanas daqueles que vivem mais a vida dos outros do que as próprias, seja daqueles que odeiam tanto – tentando controlar e normatizar a vida dos outros com regras às quais nem mesmo eles estão submetidos – ou daqueles que são exageradamente empáticos – manifestando uma solidariedade com as dores do outro em uma forma mais intensa e desproporcional do que pode justificar qualquer relação de proximidade, afeto, ou até mesmo paixão -, a morte de Marisa trouxe à tona sua figura política que, acredito, poucos conheciam.

A presença de Marisa Letícia na vida pública de Lula, desde suas candidaturas para presidente, foi marcada pela discrição. Ela pouco ou nada falava para a mídia. Não foi dada a ostentações de consumo, nem à promoção, como primeira-dama, de eventos e cerimônias. Seu nome apareceu quando, em 2004, surgiram nos jardins da Granja do Torto e do Palácio da Alvorada estrelas vermelhas formadas por sálvias em uma obra de jardinagem. Neste caso, não se sabe se a ordem de mudar a jardinagem das residências presidenciais partiu mesmo dela ou não. Marisa não foi ouvida. Sua responsabilidade foi simplesmente atribuída.

Marisa Letícia foi também muito citada no depoimento de Lula dado, em 4 de março de 2016, à Polícia Federal, após a espetacular condução coercitiva determinada pelo juiz Sérgio Moro. De acordo com o narrado no depoimento, ela seria quem poderia responder por todas as reformas nos imóveis frequentados por Lula e sua família.

Tirando estas e outras raras aparições e menções, ela era vista como a companheira de Lula. No filme “Lula, filho do Brasil”, de 2009, dirigido por Fábio Barreto, foi dada importância ao momento em que se conheceram e a outros momentos sem grande destaque. Nos documentários “Peões”, de Eduardo Coutinho, e “Entreatos”, de João Moreira Salles, ambos de 2004, também sua presença não é marcante, sendo dada atenção ao Lula sindicalista, no primeiro e, no segundo, aos encontros de Lula com seus assessores mais próximos e com políticos, sendo a sua maioria homens.

Pois, com a sua morte, veio à tona uma outra Marisa Letícia. Fotos suas não muito conhecidas ao lado de Lula em momentos domésticos, de lazer e de vida pública inundaram as redes sociais. Emergiu um lindo casal, com uma vida intensa e com um profundo companheirismo, tanto na vida familiar quanto na afinidade de suas posições políticas. Foram repetidas muitas vezes as informações de que ela havia costurado a primeira bandeira do PT, de que tinha organizado passeatas contra a prisão de sindicalistas durante o período da ditadura militar e de que sua vida fora marcada, também, por uma militância sindical reconhecida no afeto e no respeito que outras mulheres, colegas de luta, lhe tinham.

À medida que as imagens e informações eram publicadas, foi se tornando difícil não ficar contagiada por aquela comoção. Uma personagem política estava falecendo, e só naquele momento muitos percebiam a sua grandeza. A parceria profunda que unia Lula a Marisa tomou uma dimensão afetiva que se confundiu com a popularidade política de Lula. Era como se cada um, manifestando o seu afeto, quisesse dar um pedacinho do amparo afetivo que Marisa lhe dava e, assim, com tanta gente solidária, a sua perda pudesse ser, ao menos em um rápido momento, de alguma forma compensada.

O amor e a política são dimensões da vida aparentemente díspares entre si. Amores profundos manifestam-se, geralmente, em segredo, ou em pequena escala. A grande política – aquela praticada por quem não visa apenas as vantagens pessoais, mas a realização de algum propósito coletivo ou comum – se manifesta publicamente, ou em larga escala. Mas as duas esferas são as que permitem ao ser humano sair de si. No amor, a vida do outro passa a ser tão, ou quase tão, importante quanto a nossa. Na política, o objetivo de alguns agentes em realizar algo que transforme seu mundo ao redor faz com que se preocupem com as necessidades e, principalmente, com os desejos e as expectativas das pessoas com quem compartilham o mundo.

Lula tem vivido, há muito tempo, intensamente as duas dimensões. Mais cedo do que se esperava, sua principal interlocutora, companheira e esteio emocional se foi. Diante de tamanho afeto perdido, somente o afeto de muitas outras pessoas poderia amparar a sua dor. Lula é uma figura política amada. E este sentimento foi nutrido por longos anos, e nenhuma tentativa de condená-lo conseguiu apagar o afeto que muitas pessoas têm por ele. Talvez hoje seja menos respeitado como político do que um dia o foi, mas a carga afetiva – de todo tipo – que mobiliza é sempre surpreendente. Seus atos são aplaudidos ou criticados como os de ninguém, no Brasil, são.

Como contrapartida ao carinho de seus simpatizantes, vários, muitos reprovaram a atitude de Lula ao escolher como local em que o corpo de Marisa seria velado o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, instituição e lugar onde a vida de Lula se estruturou. De acordo com os inúmeros especializados em liturgia de velórios, ele teria transformado o momento solene da morte de sua companheira em um comício. Mas que foi a vida de Marisa junto com Lula, se não uma parceria que envolveu parte considerável da população brasileira? Aqueles que o criticaram não conseguiram compreender o que estava acontecendo: seja porque desprezam a política, seja porque não amaram profundamente. Essa incapacidade se traduziu em uma normatização perversa de um de nossos direitos elementares: o de chorar e cortejar nossos mortos em paz. Esta pode significar chorar em silêncio ou gritar em público, expondo toda a nossa dor. Cada um tem sua maneira de tornar a dor suportável. A de Lula foi aceitar o afeto que muitas pessoas lhe ofereceram, naquele momento. Lula não as convocou. Elas foram até lá, porque queriam mostrar o quanto ele e Marisa eram amados. E a reação a tanto afeto foi a disposição incansável, movida pelo ódio, que muitos brasileiros têm demonstrado de não deixar Lula em paz.

A disposição incansável que só o desespero garante – o desespero de uma vida miserável.

* Maria Abreu é cientista política, professora do IPPUR/UFRJ e colaboradora da Escuta.

** Crédito da imagem:<https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/02/02/ex-primeira-dama-marisa-leticia-tem-morte-cerebral-em-sp-apos-avc.htm&gt;. Acesso em: 12 fev. 2016.

 

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