Em homenagem a Ricardo Benzaquen de Araújo, a Revista Escuta reproduz alguns textos escritos por Renato Lessa, João Marcelo Ehlert Maia, Robert Wegner e Fred Coelho que foram pulicados em diferentes lugares nos últimos dias sobre este grande intelectual e professor.

Ricardo publicou dois livros fundamentais para o campo da história intelectual no Brasil –Totalitarismo e Revolução – O Integralismo de Plínio Salgado (1988) e Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e A Obra de Gilberto Freyre Nos Anos 30 (1994), além de vários artigos e capítulos de livros sobre temáticas diversas, com destaque para textos primorosos, a exemplo de “Romeu e Julieta e a origem do Estado”, publicado em Arte e Sociedade (organizado pelo Gilberto Velho), “O mundo como moinho. Prudência e tragédia na obra de Paulinho da Viola”, do livro Decantando a República” (editado por José Eisenberg, Heloisa Starling e Berenice Cavalcanti), “A cidade secreta: intensidade, fragmentação e horror em Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, na coletânea Uma sociologia indignada: diálogos com Luiz Werneck Vianna (organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto)

Um dos aspectos que mais impressionava nos trabalhos de Ricardo Benzaquen sobre autores diversos como Gilberto Freyre, Plínio Salgado, Joaquim Nabuco, Mario de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, era sua capacidade de partir daquilo que era aparentemente corriqueiro e banal para lançar novos olhares sobre obras e autores vários.

Para além da erudição e da imensa potência imaginativa, uma característica que marcou a trajetória e a obra de Ricardo Benzaquen se relacionava com a sua vocação interdisciplinar. Tratava-se de um estudioso interdisciplinar por excelência, que transitava com desenvoltura não apenas pela História e Sociologia – campos aos quais esteve diretamente ligado a programas de pós-graduação em seus últimos anos de vida –, mas também pela Antropologia (área de seu Mestrado e Doutorado) e pela Literatura. Em tempos de especialização e fragmentação disciplinar crescente das nossas universidades, Benzaquen era um exemplar raro e notável daquilo que podemos chamar de um pesquisador das humanidades.

De modo singelo, nós, editores da Escuta, prestamos a nossa homenagem.

Ricardo Benzaquen de Araújo (1952-2017)*

Renato Lessa**

Ricardo Benzaquen de Araújo faleceu no dia 1o de fevereiro de 2017, no Rio de Janeiro. Além de suas filhas, Alice e Carolina, esposa Carmem, deixa uma legião entristecida de amigos, colegas e ex-alunos, construída ao longo de uma trajetória acadêmica e existencial que bem merece o uso do termo “gloriosa”.

Por todos os lugares por onde passou, Ricardo invariavelmente exerceu suas artes de encantamento e fertilização intelectual, sempre a perseguir e sugerir agendas inovadoras, sem descurar da necessária atenção aos clássicos que constituíram o campo das Humanidades. Dotado de erudição e generosidade intelectual incomuns, Ricardo caracterizou-se, ainda, pela singular combinação entre firmeza em suas convicções e urbanidade e delicadeza, na relação com seus pares, no trato de questões de natureza institucional, por vezes bastante árduas. Seu comportamento institucional, neste sentido, é um exemplo para todos nós.

Desde 1975 Ricardo Benzaquen tem sido professor do Departamento de História, da PUC/RJ, instituição na qual se graduou em História, em 1974. Em 1980, obteve o título de Mestre em Antropologia Social, pelo Museu Nacional, orientado por Gilberto Velho, com um notável e pioneiro ensaio sobre o futebol brasileiro, intitulado “Os Gênios da Pelota: um estudo do futebol como profissão”, que bem merece ser publicado. Já em seu trabalho de mestrado emergiram características que o acompanharam por toda a vida: o humor – presente na menção aos Irmãos Marx, no título da dissertação -, a cultura futebolística – no tema e na paixão vascaína – e a originalidade de suas sínteses intelectuais.

De 1977 a 1987, Ricardo foi pesquisador do CPDOC, integrando a equipe coordenada por Lucia Lippi de Oliveira, voltada à pesquisa sobre pensamento social e político brasileiro. De seu trabalho no CPDOC, Ricardo brindou-nos com um belo ensaio sobre o Integralismo brasileiro: “Totalitarismo e Revolução: O integralismo de Plínio Salgado”, publicado em 1988, pela editora Jorge Zahar, um recorte inovador na análise daquele movimento, revelando sua dimensão especificamente conservadora, mais do que fascista.

Durante muitos anos, Ricardo debruçou-se sobre a obra de Gilberto Freyre, com especial atenção ao livro “Casa Grande e Senzala”. Disto – além de artigos, conferências e inúmeras sugestões de orientação – resultou o seu principal livro, “Guerra e Paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30 (São Paulo: Editora 34, 1994), detentor do Premio Jabuti de melhor ensaio em 1995. O livro fora originalmente elaborado como tese de doutoramento, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional (UFRJ), em 1993, sob orientação de Otávio Velho. Mais do que uma interpretação da obra específica de Gilberto Freyre, o livro abriu perspectivas importantes para o estudo do pensamento social brasileiro. Ricardo, na verdade, foi um dos principais responsáveis pela consolidação deste campo, no âmbito das Ciências Sociais brasileiras. Durante anos seguidos, seus seminários semanais de Pensamento Social Brasileiro, no antigo Iuperj foram seguidos por inúmeros colegas e alunos. Muitas dissertações, teses e artigos foram favorecidos pela experiência desses seminários.

De 1987 a 2010, Ricardo Benzaquen foi pesquisador e professor do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, cujas atividades foram encerradas em 2010. Ali, Ricardo obteve, em 2000, sua titulariedade e, ao lado de atividades de docência e pesquisa, ocupou papel importante no plano institucional, como Diretor de Seminários e Publicações, de 1989 a 1991, e como Diretor de Ensino, de 1995 a 1997.

Além de professor e pesquisador, Ricardo dedicou parte de seu tempo ao campo da divulgação científica. Exerceu papel importante na criação da Revista de História da Biblioteca Nacional, na qual integrou seu Conselho Editorial constituído por alguns dos maiores historiadores brasileiros, sob a direção de Alberto da Costa e Silva. Foi, ainda, Editor de Ciências Humanas, da Revista “Ciência Hoje”, publicada pelo Instituto Ciência Hoje.

Mais do que o Professor, o que se perde com a partida de Ricardo é a sua singularidade como intelectual, advinda de uma formação diversa, anárquica e rica. Graduado em História e Pós-Graduado em Antropologia, Ricardo dedicou-se militantemente ao ensino e à reflexão sobre História Intelectual, Teoria Sociológica e sobre Pensamento Social Brasileiro. O amálgama que criou acabou por ser único e irreplicável: ao conhecimento invulgar dos textos e autores pertinentes aos campos sobre os quais trabalhou, Ricardo sempre acrescentou temperos pessoais, advindos da literatura, do cinema, da tradição judaica, da observação fina sobre o mundo da vida. Impossível defini-lo por sua inscrição disciplinar: Ricardo foi o resultado de uma curiosidade intelectual omnívora, pela qual nada que sugerisse a presença da inteligência lhe foi estranha. Historiador, Sociólogo, Antropólogo? Todas essas agendas, de algum modo, estavam em Ricardo, mas sua identidade intelectual foi maior do que a soma das partes, e a ele cabia a posse do segredo do amálgama.

Mas, Ricardo não nos deixa apenas o vazio de sua ausência inapelável. Sua presença subsiste nas dezenas de mestres e doutores que formou, na legião de estudantes que tiveram o privilégio de usufruir de suas artes de docência e no patrimônio que cada um de seus amigos acabou por construir e guardar, graças a suas reservas inesgotáveis de carinho, humor e inteligência. Ricardo sobreviverá em cada um de nós.

* Texto publicado no site da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), no dia 03/02/2017. Link para acesso ao texto: http://www.sbsociologia.com.br/home/index.php?formulario=noticias&metodo=0&id=84

** Professor Titular Aposentado de Teoria Política, da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Ricardinho*

João Marcelo Ehlert Maia**

Pode-se dizer muita coisa das ciências sociais. Há quem as elogie pelas virtudes críticas e emancipadoras, enquanto outros criticam-nas por sua dimensão instrumental e pragmáticaPorém, dificilmente alguém diz que a sociologia e as ciências sociais são belas. Mas, é exatamente esse adjetivo que me vem à mente ao recordar as aulas e as intervenções do querido colega Ricardo Benzaquen, falecido na última quarta-feira.

A beleza poderia surgir de várias maneiras. Poderia ser na análise de um trecho específico de um autor, a que Ricardinho dedicava longas digressões que costuravam uma verdadeira Biblioteca de Alexandria de autores, conceitos, livros e teorias.  Os alunos se encantavam com as portas que se abriam e com as conexões que eram feitas, e a sociologia deixava de ser um árido discurso científico para se tornar uma tapeçaria do pensamento. Poderia se dar também nos comentários que Ricardinho fazia em bancas e seminários, quando jogava uma luz totalmente nova e intensa sobre objetos ou interpretações já um pouco gastas de tanto uso. Finalmente, a beleza também surgia da sua própria forma de falar: bem-humorada, algo sacana, um pouco atropelada e sempre finalizada com um riso arfante, tinha uma graça que compunha perfeitamente com o personagem.

Entre 2000 e 2006 estudei no IUPERJ e pude testemunhar essa feitiçaria. Lembro-me especialmente da disciplina “Escola Sociológica Francesa”, que assisti no ínicio do meu mestrado, em que líamos os clássicos do pensamento sociológico daquele país, de Durkheim até Levi-Strauss, passando por Mauss e Granet. Espantei-me tanto com a coerência com que ele ligava os autores e analisava os desdobramentos teórico sucessivos, como com o seu estilo de docência. Ricardo sentava na frente dos estudantes, abria o texto e lia o primeiro parágrafo. As coisas que ele extraía em apenas UM PARÁGRAFO eram inacreditáveis. Mais espantoso ainda: Ricardo frequentemente dormia no meio da aula (que se iniciava às 19:00), mas acordava de repente e recomeçava a tecer sua tapeçaria de erudição.

Logo percebi que havia uma expressão usada por Ricardinho que operava como espécie de senha de acesso para a imaginação. Quando queria interpretar um dado trecho, ele falava “Tudo se passa como se…” e o que era para ser uma simples paráfrase de ideias do autor se tornava uma reescritura quase poética, em que os argumentos, o timbre e a emoção do texto analisado eram recriados, ganhando novas cores e associações, ou mesmo uma linguagem nova. Era bonito de ver.

Nós alunos o víamos como um erudito à antiga, espécie de Auerbach tropical e vascaíno. Os óculos de aro grosso contribuíam para essa mitologia, especialmente quando ele os retirava para colocar os livros quase colados à face, acompanhando as linhas com movimentos de cabeça. Não à toa, Ricardinho era dos professores mais imitados por estudantes nos bares e nas festas, e alguns realmente se notabilizavam na capacidade de emular os trejeitos físicos e as frases típicas, particularmente aquele “Enfim!” que era usado quase como vírgula.

Depois desse período, tornei-me seu colega na área de pensamento social, e nos cruzamos por aí em conferências e seminários. Porém, enquanto buscava imagens de Ricardinho na cabeça ao assistir o seu sepultamento na última quinta-feira, só conseguia recordar de cenas em que ele era professor, e eu aluno. A razão me parece simples: ele era um professor excepcional, e eu sinto falta de ser seu aluno. Não fui um dos seus estudantes mais próximos, mas não importava. A beleza ali era democraticamente distribuída e tudo se passava como se fosse fácil voar naquele tapete.

* Texto publicado no site A Vida Pública da Sociologia, no dia 03/02/2017. Link para acesso ao texto: https://avidapublicadasociologia.wordpress.com/

** Professor Adjunto do CPDOC/FGV-RJ.

Ricardo Benzaquen de Araújo – 1952-2017*

Robert Wegner**

Ricardo Benzaquen de Araújo nos deixou neste 1o de fevereiro, após meses lutando contra um câncer no fígado.

Recebi a notícia com tristeza, pois embora soubesse da seriedade do seu estado de saúde, não podia acreditar que a morte chegaria cedo, antes de completar 65 anos.

Mas então minhas lembranças me levaram para um dia de 1994, em que, junto a uma escrivaninha alocada em frente a uma janela de seu apartamento no Jardim Botânico, Ricardo expunha, a partir de páginas artesanalmente revisadas, sua avaliação sobre a primeira versão do projeto de doutorado de um jovem aluno pretensioso que tentava impressionar seu professor erudito.

Não apenas não o enganei, como foi a partir daí que comecei a levar à sério o processo de escrita e a ter consciência que não existe bom texto sem trabalho. Aprendi a escrever com Ricardo.

É difícil falar dele sem se referir a estes lances de memória que

remetem a uma relação pessoal. Mesmo as orientações se transformavam em amizade e isto não significava uma diminuição de rigor, antes, pelo contrário.

Amizade não significava condescendência e os diálogos densos se davam entre amigos. Sua contribuição como professor, orientador, colega e, recobrindo a todas essas categorias, amigo, é enorme e deixa marcas profundas na vida e na carreira daqueles que compartilharam da sua companhia. Muitos desses casos, certamente, serão lembrados e contados, geralmente, penso eu, em casos que remetem ao seu bom humor e fina ironia. Mas quero evitar, neste momento, um depoimento de ordem pessoal para me ater à sua contribuição escrita para as Ciências Sociais e a História.

Não é exagero dizer que, com Guerra e Paz, publicado em 1994 pela Editora 34, Ricardo Benzaquen de Araújo contribuiu para modificar o rígido plano de discussão então estabelecido acerca da obra de Gilberto Freyre.

Se o autor pernambucano era reconhecido fora do Brasil, aqui, desde os anos 1960, era execrado e sua obra produzida na década de 1930 era pouco citada e, muito menos, lida. Quando citada, quase sem exceção, era para ser denunciada como uma obra encobridora dos conflitos e mesmo constituinte e defensora de um passado colonial quase idílico, marcado pela democracia racial. E

Em seu livro, Ricardo Benzaquen chama a atenção para o fato de que tanto Casa Grande & Senzala quanto Sobrados & Mucambos merecem ser compreendidos num contexto em que, não apenas no Brasil, eram muito mais amplos e intensos os diálogos entre as ciências sociais e movimentos estéticos, estes marcados pelas experiências de vanguarda que buscavam dar atenção e valorizar experiências culturais diferentes das européias e que não fossem destituídas de ambivalências e paradoxos.

Por esse caminho, Ricardo veio mostrar, por um lado, que Casa Grande & Senzala é um livro marcado por uma sucessão de antagonismos em equilíbrio, desenhando uma experiência de proximidade entre senhores e escravos, marcada tanto pela violência quanto pela confraternização.

Ao mesmo tempo, apontou para o fato de que o termo raça, presente no livro, adquire no decorrer do argumento um sentido fluido e mesmo próximo ao que pouco tempo mais tarde se consubstanciou no conceito de cultura.

Nesse sentido, Guerra e Paz demonstra que a obra de Gilberto Freyre dos anos 1930 não possui uma matriz explicativa racial e nem apresenta um passado colonial idílico.

Ao mesmo tempo em que propõe uma leitura mais detida da obra de Gilberto Freyre, faz-nos intuir o anacronismo que permeava aquelas leituras apressadas que projetavam no Gilberto Freyre da década de 1930 o mesmo autor que, na década de 1950, daria, com sua teoria lusotropicalista, sustentação à política colonialista do ditador português Salazar e, na década seguinte, apoiaria o regime militar instaurado no Brasil.

Aliando sua formação em História e em Antropologia, Ricardo Benzaquen realizou o esforço de compreender a obra de Gilberto Freyre a partir de seus próprios termos e contexto, evitando o pecado que o historiador mais deve evitar, o do anacronismo.

Guerra e Paz: Casa-Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30, que ganhou sua segunda edição em 2005, recebeu dois prêmios: o Jabuti, na categoria ensaio, e o Prêmio Fundação Joaquim Nabuco.

O livro resultou da tese de doutorado de Ricardo, defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia do Museu Nacional, em 1993, sob orientação de Otávio Velho, e, na verdade, já era, por assim dizer, a sedimentação de uma carreira docente e de pesquisador de quase 20 anos, pois, em 1975, assim que concluiu sua graduação em História na PUC do Rio de Janeiro, ingressou no quadro docente da Universidade.

E sua lista de publicações foi inaugurada quando ainda jovem professor e mestrando em Antropologia pelo Museu Nacional – curso em que ingressou também em 1975 –, com o artigo “Romeu e Julieta e a origem do Estado”, publicado em 1977 em Arte e Sociedade, livro organizado por Gilberto Velho.

Neste artigo, escrito a quatro mãos com seu então colega Eduardo Viveiros de Castro, Ricardo empreendeu, a partir de uma leitura da peça shakespeariana Romeu e Julieta, um diálogo com a obra do antropólogo francês Louis Dumont, que em comparações entre a sociedade indiana e a ocidental vinha apontando que, nesta, a idéia de indivíduo havia sido naturalizada e até mesmo incorporada no próprio arcabouço conceitual da Antropologia – como manifesta na oposição entre indivíduo e pessoa, como se o primeiro pólo apontasse para uma identidade estabelecida fora da sociedade e o segundo remetesse a papéis sociais.

O artigo argumenta que a peça Romeu e Julieta pode ser lida como um mito de origem do amor, tanto por ser uma das obras que, por assim dizer, mais marcaram o imaginário ocidental em torno do tema, mas principalmente no sentido de que, na peça mesma, o amor entre Romeu e Julieta os descola dos seus nomes de famílias, rivais, transformando-os em indivíduos descolados de injunções sociais.

A leitura da peça é complementada com a do livro de Maquiavel, O Príncipe, que, por sua vez, inaugura a reflexão sobre o Estado a partir de relação entre o soberano e seus súditos, tratados como indivíduos. No caso da tragédia de Shakespeare, a morte dos amantes acaba por apaziguar a luta de famílias e a consolidar o poder do príncipe e a unidade do reino.

Nesse sentido, temos, ao mesmo tempo, um mito de origem do indivíduo, do amor e do Estado. E, no mesmo movimento, a transformação, no decorrer da peça, do dualismo simétrico da divisão do reino em duas famílias em um dualismo “concêntrico”, marcado pela relação entre príncipe e súditos, agora indivíduos antes que membros de facções.

Em 1980, sob orientação de Gilberto Velho, Ricardo Benzaquen concluiu seu mestrado com a Dissertação sobre “Os Gênios da Pelota: Um estudo do futebol como profissão”.

Embora, aparentemente, o resultado do mestrado não tenha a ver com sua graduação em História e, diante dele, o artigo comentado há pouco soe como certo devaneio, em “Gênios da Pelota” a História Social e seu interesse no cotidiano aliaram-se a Antropologia das sociedades complexas e sua articulação com a discussão sobre a concepção de indivíduo, a partir da obra do sociólogo alemão Georg Simmel e a de Dumont.

Em certo sentido, o jogador de futebol é quase a radicalização da afirmação do indivíduo na sociedade moderna, pois, conforme o argumento desenvolvido na dissertação, é portador de um talento inato e de uma personalidade singular – aliás, a noção de personalidade, com uma dimensão tanto psicológica quanto corporal, é um elemento fundamental para a noção de indivíduo no Ocidente, conforme Benzaquen havia apontado em seu diálogo anterior com Dumont.

Desse modo, o jogador deveria cultivar este talento e personalidade sem, contudo, levá-lo ao excesso, demonstrando, portanto, humildade, porém não abatimento, sangue frio, mas não indiferença ao jogo, raça, e não violência.

E, finalmente, ao jogador de futebol pode ser associada a idéia de gênio: nem deus, nem um homem comum, o jogador de futebol está acima dos outros indivíduos. Contudo, este lugar está sempre sobre ameaça, pois qualquer malogro em um lance decisivo pode obscurecer as diversas batalhas anteriormente vencidas. Assim, é preciso combater o tempo todo, não se entregar nunca.

Após o mestrado, entre 1980 e 1985, Benzaquen se dedica às aulas no Departamento de História da PUC-Rio e à pesquisa no Centro de Documentação e Pesquisa (CPDOC-FGV), que vinha se tornando um núcleo de pesquisa em Pensamento Social Brasileiro, especialmente em torno do pensamento conservador dos anos 1920 e 1930.

Aí desenvolve suas pesquisas em torno do pensamento de Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Miguel Reale, resultando em seu primeiro livro, Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio Salgado, publicado em 1988. Neste, já então um exercício para compreender um autor polêmico e facilmente rotulado, Benzaquen procura demonstrar os limites de pensá-lo a partir da categoria conservador.

Se Plínio Salgado poderia ser qualificado como um conservador na medida em que tecia uma crítica ao liberalismo e à sociedade dos indivíduos, a solução proposta pelo movimento por ele liderado na década de 1930 não visava manter uma totalidade fundada em uma hierarquia, mas remetia a uma igualdade pensada como uniformização e o ideal de transformar todos os indivíduos em cidadãos.

Mais do que isso, visava a criação de uma sociedade de militantes constantemente mobilizados na participação política, que, na verdade, diria respeito a todas esferas da vida.

Desse modo, a noção de totalitarismo daria mais conta do pensamento de Plínio Salgado do que a de conservadorismo, pois sua proposta não apenas não é elitista, como também é revolucionária, visando criar uma nova totalidade.

Pouco antes da publicação de Totalitarismo e Revolução, em 1985, Ricardo Benzaquen ingressou no Doutorado em Antropologia do Museu Nacional, e, em 1987, passou a fazer parte do corpo docente do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ).

Nesse contexto desenvolveu sua tese de doutorado sobre a obra de Gilberto Freyre nos anos 1930, tema de pesquisa desenhado a partir de sua experiência com o Pensamento Social Brasileiro adquirida no CPDOC.

Desde fim dos anos 1980, portanto, Ricardo Benzaquen desenvolveu suas atividades docentes, ao mesmo tempo, na área de Teoria da História na PUC-Rio e em Teoria Sociológica no IUPERJ, articulando essas experiências no desenvolvimento de pesquisas acerca de autores brasileiros como, além dos já citados, Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco e Alceu de Amoroso Lima.

Desse modo, por exemplo, publicou, na revista Estudos Históricos, em 1988, “Ronda Noturna: narrativa, crítica e verdade em Capistrano de Abreu”; e, em 2004, na Revista Brasileira de Ciências Sociais, “Através do Espelho: subjetividade em Minha Formação, de Joaquim Nabuco”.

Não é possível encerrar esta nota sem fazer uma referência sobre a carreira docente de Ricardo Benzaquen. Afinal foram mais de 40 anos de presença ininterrupta em sala de aula e mais de 25 anos na orientação de mestrandos e doutorandos, tendo tido um papel fundamental na formação de mais de uma geração de pesquisadores e professores.

Na PUC-Rio, Ricardo foi responsável pelas disciplinas de Teoria da História e História da Historiografia, tanto na Pós-Graduação quanto na Graduação, onde lecionou também História Antiga e Medieval. Enquanto no IUPERJ lecionou seguidamente disciplinas de Teoria Sociológica, lidando com clássicos como Durkheim, Weber e Simmel.

Em primeiro lugar, vale salientar que estas atividades exercidas em instituições e disciplinas diferentes não foram desenvolvidas de forma desarticulada, pois os cursos de Ricardo Benzaquen costumam privilegiar o diálogo entre a História e a Sociologia, e, também, a Antropologia.

Além disso, seus cursos podiam ainda promover outros diálogos. E, aqui, como deixo de comentar textos escritos e publicados, tomo a liberdade de retornar a recordações pessoais.

O primeiro curso ministrado por Ricardo Benzaquen que frequentei tratava das relações entre a Ciências Sociais e movimentos estéticos nas primeiras décadas do século XX.

Desse modo, líamos não apenas clássicos da Sociologia, como Max Weber, e intérpretes do Brasil, como Paulo Prado, como também autores mais frequentados em cursos de Filosofia, como Nietzsche, além de textos literários, como Morte em Veneza, de Thomas Mann.

Permito-me estender estas lembranças. Quando frequentei este curso, em 1992, Ricardo estava em processo de redação de sua tese de doutorado. Neste contexto, sua aula sempre tinha um preâmbulo – em torno de cinco minutos – em que narrava as dificuldades do momento e explicava porque não havia preparado a aula como gostaria.

Eu – e acredito que os outros colegas – me preparava para ouvir comentários esparsos sobre o texto marcado para leitura. Qual não era a nossa surpresa ao ouvir, durante as três horas seguintes, uma aula surpreendentemente encadeada e rica, na qual o professor se amparava apenas no texto marcado e não usava uma anotação sequer.

Contudo a aula seguia pari e passu o texto, ao mesmo tempo em que este servia de plataforma para inesperadas relações com outros autores, de Ciências Sociais ou História, ou mesmo com filmes de cinema. Nenhuma de nossas intervenções caía no vazio, antes eram incorporadas à arquitetura da aula.

Em anos seguintes voltei a cursar disciplinas com Ricardo, e o preâmbulo às aulas, que julguei estar relacionado à redação da tese, sempre se repetiu.

E as aulas, cuidadosamente preparadas e surpreendentes, também se sucediam. Isto se tornou um enigma. Hoje sei que o preâmbulo nada mais era do que um recurso para demonstrar humildade, como aquela necessária para dosar a genialidade do grande jogador de futebol.

* Texto publicado no site A Vida Pública da Sociologia, no dia 03/02/2017. Link para acesso ao texto: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/ricardo-augusto-benzaquen-de-araujo-1952-2017/

** Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

Anônimos e eternos*

Fred Coelho**

O trabalho intelectual é silencioso. Ele é feito, quase sempre, face a face. Um corpo a corpo de quem se olha — seja em uma sala, em uma conversa de orientação, em um papo no bar depois das aulas ou em outros momentos de encontro entre as pessoas. É uma tarefa que nunca para. Não há corte no pensamento. Não há cartão batido que desligue a cabeça cismada com um problema, uma hipótese, uma raiva que move, um amor que mesmeriza uma pesquisa. Quando um professor e pensador morre, só quem esteve perto dele sabe o que um país perde. E, na última semana, um dos grandes de sua geração se foi.

Ricardo Benzaquen de Araújo era parte de um grupo de pesquisadores que, hoje, são cada vez mais raros dentre as novas gerações. Talvez tenha sido a última leva de pensadores do século XX que ainda colocaram o Brasil e seus problemas profundos no centro de suas preocupações e delírios. A tradição dos “intérpretes” vem desde o fim do século XIX, mas, nos últimos tempos, perdeu força — não como produção, ainda robusta, mas como pauta central de pesquisadores cujas transversalidades contemporâneas do mundo em rede deslocaram radicalmente o tema do nacional em prol de ideias mais ligadas ao sujeito e suas rupturas com as grandes narrativas hierarquizantes do Ocidente. Estudar o Brasil, sua história, suas derrotas, suas esperanças e suas frustrações era a especialidade de Benzaquen.

Esta coluna não deseja ser um necrológio ou uma apresentação infelizmente póstuma sobre uma carreira acadêmica exitosa e brilhante. Poderia gastar todos os caracteres para apresentar apenas alguns dos livros e trabalhos de Ricardo. Mesmo sem nunca ter sido próximo ou íntimo, eu repetiria o que pessoas muito mais preparadas do que eu já fizeram e farão. Quero justamente falar com quem nunca conheceu Ricardo Benzaquen. É porque não conhecemos aqueles que, em salas de aula, escrevem com as palavras e os gestos um saber abstrato, que não fica para além de quem ouve. No final das contas, não são os livros e artigos que sobrevivem ao corpo que se vai, mas sim o que afetou de alguma forma uma série de vidas ao seu redor. Ser professor, orientador, palestrante, participante de bancas é ser, enfim, uma fala constante sobre temas que atravessam escutas em diferentes momentos da vida. Professores são passagens, um momento em que algo a mais se inscreve na formação alheia. Alguns, claro, permanecem entre nós para além de um único momento de aula ou escrita.

Quando um professor morre, o que lemos como homenagens e lembranças são as marcas que ele deixou nas pessoas, e não seus feitos individuais. Um intelectual, um escritor, um professor, no fundo, não “faz” nada. Ele não faz matéria, não faz coisa ou objetos de consumo. Como o poeta, ele funda mundos invisíveis, porém de alto impacto comunitário. Abre sendas no escuro dos dias. Sua utilidade, ao contrário do que equivocados de escolas sem partido pensam, é justamente o dissenso. Pensar. PENSAR. E não passar mecanicamente conteúdos pré-definidos, seja de que matriz ideológica for. Nenhum professor que realmente seja importante na trajetória de um aluno ou de um colega de profissão se torna importante por suas ideologias. Eles ficam para além da vida porque transcendem o particular em prol de um encontro amplo e geral com as ideias. O professor “desencaminha” porque é muito fácil escolher caminhos que já estão preconcebidos. E, mesmo para escolhê-los, vale sempre saber o porquê de suas opções.

Ricardo Benzaquen ficará — como muitos outros que, infelizmente, nos deixaram tão jovens. E isso corre a despeito de seu trabalho silencioso e sua dedicação quase anônima. O trabalho de pesquisa é solitário e anônimo. Escrever — um artigo, uma dissertação, uma tese, um livro — é solitário. Às vezes, muitos nessa posição se ressentem disso durante o processo, mas no fim entendem que (talvez) aquela solidão silenciosa seja um dos poucos momentos na vida em que você teve de lidar frente a frente com você mesmo, suas conquistas e seus limites. O pesquisador, o pensador dos problemas públicos, o interessado nas ideias que circulam e nos formam, está nesse momento existindo aos milhares: mal pagos, dedicados, mal vistos, empenhados, mal lidos, insistentes. Sempre há, porém, a sala de aula, o momento em que a solidão se encontra com as outras solidões e todos se tornam uma única grande solidão povoada.

Homenageio aqui Ricardo Benzaquen, na certeza de que muitos, talvez a amplíssima maioria dos leitores, não saiba de quem estou falando. Assim, homenageio todos os professores, pesquisadores, alunos e pessoas que optaram por viver na troca diária e anônima de ideias e desejos ao redor de uma aula. O mais trágico de tudo é que o país que ele tanto estudou não tem ideia do que perdeu com sua morte. E, em tempos em que perdemos tanto, a dor cava desse registro anônimo só pode servir de sol para que iluminemos todos que, como Ricardo, vivem em prol do ensino e da pesquisa. Obrigado a todos.

* Texto publicado no jornal O Globo, no dia 08/02/2017. Link para acesso ao texto: http://oglobo.globo.com/cultura/anonimos-eternos-20888531

** Professordo Departamento de Letras da PUC-Rio.

 

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