Wallace Andrioli Guedes*

La La Land é um filme feito para ser adorável. Talvez resida aí seu maior problema. Como Michel Hazanavicius em O Artista, outro exemplar recente de cinema escrachadamente pós-moderno, Damien Chazelle busca emular a linguagem de clássicos de uma era de ouro vista hoje com nostalgia, citando-os repetidamente (estão presentes Jacques Demy, Fred Astaire e Ginger Rogers, Gene Kelly, entre outros), mas com uma roupagem moderna, palatável para um público que não costuma gostar de musicais, sobretudo dos mais antigos. Daí, por exemplo, a belíssima sequência final de La La Land, claramente inspirada nos longos números que encerram Sinfonia de Paris e Cantando na Chuva, não durar tanto quanto esses últimos. Daí também Chazelle abrir seu filme com uma (ótima) cena de canto e dança que remete a Glee e High School Musical, exemplares jovens e mais recentes do gênero.

A questão é que, para o diretor, construir La La Land sobre filmes amados por tantos deveria ser suficiente para torná-lo também amado, irresistível. Esse pressuposto acaba levando-o, por exemplo, a abrir mão de um desenvolvimento mais cuidadoso de seu casal de protagonistas e do arco dramático deles: Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) são seres pelos quais o espectador deve ser apaixonado a priori (afinal, eles são os personagens principais de um musical apaixonante!) e o amor que surge entre eles deve convencer por si só. O problema é que não convence, ao menos não totalmente. Tanto o envolvimento do casal quanto a posterior crise que abala seu relacionamento são repentinos, parecendo ocorrer simplesmente para atender a uma demanda de roteiro. Isso faz com que o segundo ato de La La Land represente uma queda abrupta na qualidade da narrativa: é quando Chazelle praticamente suspende o musical do filme, para se dedicar a um conflito, nunca devidamente desenvolvido, entre os sonhos profissionais do casal e sua vida pessoal. Nesse sentido, a cena em que os dois brigam durante um jantar sintetiza perfeitamente a perda de força de La La Land, já que cheia de diálogos ruins e metáforas visuais óbvias (o disco que para de tocar, a comida que passa do ponto).

Vale lembrar Apenas uma Vez, pequeno filme dirigido por John Carney, também protagonizado por um casal de artistas que se apaixonam enquanto buscam seus lugares no mundo. Carney, no entanto, segue caminho oposto ao de Chazelle, construindo, diante do espectador, o encantamento com o amor dos personagens, que nasce, na tela, a partir de pequenos gestos, olhares, sorrisos, conversas, e, claro, apresentações musicais. Em Apenas uma Vez, gasta-se tempo com o que em La La Land é resumido a breves clipes com cenas do casal “fazendo coisas”, assim mesmo, genericamente. Chazelle até cria, é verdade, alguns momentos dedicados a Sebastian e Mia se encantando um pelo outro, mas isso se dá menos por conta da interação dos personagens e mais em razão das situações em que eles se encontram: assistindo Juventude Transviada numa velha sala de cinema ou cantando e dançando em números brilhantemente escritos e filmados pelo diretor. São os casos da sequência do sapateado com Los Angeles ao fundo e da que traz o casal no planetário.

É que o maior mérito de La La Land está mesmo em sua construção como musical pós-moderno. Chazelle costura de forma fluida na narrativa de seu filme as muitas referências a clássicos do gênero – a aproximação, no epílogo, da melancolia de Os Guarda-Chuvas do Amor, de Demy, é especialmente inspirada –, ao mesmo tempo que, repetindo o que fez em Whiplash, demonstra conhecimento da linguagem cinematográfica na direção dos números musicais, imprimindo diferentes ritmos às imagens de acordo com o que é tocado e cantado na tela – e, no caso de La La Land, também com o tipo de cinema evocado por cada cena. Enquanto os momentos mais jazzísticos são, como em Whiplash, cheios de cortes, dialogando com a velocidade e a energia desse gênero musical, o referido número de sapateado com a vista da cidade como cenário, por exemplo, é filmado sempre com planos abertos, o que, claro, permite a performance de corpo inteiro dos atores, mas também remete aos filmes protagonizados por Fred Astaire e Ginger Rogers – sobretudo a O Picolino, inclusive na letra da canção “A lovely night”, cantada por Gosling e Stone. Quando se esquece de tentar dar alguma densidade dramática a La La Land (não que não caiba densidade dramática num filme como esse, mas aqui as tentativas são pífias nesse sentido) e abraça a identidade cinematográfica pós-moderna, Chazelle consegue enfim provocar o encantamento pretendido. Não à toa, é ao voltar a ser plenamente um musical, a partir da ótima cena da audição, que La La Land dá novo salto de qualidade, mantido, sem nenhum sobressalto, até seu poderoso final.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Imagem disponível em: <https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/la-la-land-1/?key=114882&gt;. Acesso em: 07 fev. 2017.

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