Joyce Louback*

Em “Consumidores e cidadãos”, Néstor García Canclini (2010) propõe uma discussão que relaciona consumo e cidadania, com o intuito de, entre outras coisas, ressignificar o mote da participação política em um novo cenário social, marcadamente heterogêneo e multicultural. Para o autor, a produção cultural desponta como uma das formas de se construir, no tipo de sociedade erigida a partir do final do século XX, um “senso de pertencimento e identidade”, organizado por “comunidades (….) desterritorizalizadas de consumidores” (GARCÍA CANCLINI, 2010:40). Este novo cidadão-consumidor fundamentalmente citadino, ligado à cultura da metrópole, é aquele que revigora as identidades, intimamente conectadas ao consumo cultural e as variadas formas de expressão da vida social.

As transformações no âmbito das classes populares no Brasil ao longo dos últimos 14 anos forjaram um novo padrão nas formas de consumo e de participação cidadã na esfera pública. Durante a gestão dos quatro governos de esquerda, a ascensão social dos mais pobres esteve no centro de um projeto político, cuja medida se dá pela inclusão desse grupo no mercado consumidor. As diferentes linguagens elaboradas no domínio de um campo popular tão dissemelhante resultaram em um giro importante na produção intelectual e cultural desta população. A diversificação dos espaços de construção coletiva nos contextos periféricos a partir do começo dos anos 2000 resultou no debate sobre as narrativas e uma estética que dialoga com os impactos dos processos macroestruturais, além de introduziram temas e preocupações originais.

O fim do ciclo de governos petistas, arrematado com o impedimento da presidenta Dilma Roussef há alguns meses, tem levantado questões interpretativas que vão desde o esgotamento do modelo Lulista desenvolvimento socioeconômico até à crise da esquerda no Brasil, cujo fracasso eleitoral no último pleito municipal exige, seguramente, alguma problematização. Dentre as incertezas quanto ao futuro e a desconfiança em relação às reformas e emendas constitucionais encaminhadas pelo novo governo, há uma preocupação proeminente, que diz respeito ao resguardo e garantia das transformações sociais oportunizadas na última década. A conquista de direitos importantes, a inclusão social e o aumento da renda e do crédito foram colocados em xeque no atual momento político nacional de intensa recessão econômica e aumento drástico do desemprego.

Entre a prosperidade e a crise, a euforia econômica e a austeridade, a breve experiência progressista viabilizada pelos governos Lula e Dilma foi traduzida pela cena cultural periférica, tanto como endosso, quanto como crítica latente aos traços perniciosos do acesso à cidadania combinado com o incentivo ao consumo. O cidadão- consumidor, com todos os limites que o termos impõe, despontou como um personagem crucial para o entendimento do novo Brasil desenhado pelas políticas sociais petistas.

Neste contexto, os Racionais MC’s, 28 anos após a sua fundação e estabelecidos como o maior nome do Rap nacional, são os principais vetores de uma leitura sobre a nova periferia brasileira, seus dilemas e transformações mais significativas. O presente ensaio pretende analisar, à luz de duas letras emblemáticas do grupo, as mudanças discursivas e conceituais elaboradas no curso dos governos petistas pelo jovem negro e periférico, personagem recorrente nas composições do grupo, e ator social alvo das políticas públicas dos governos do Partido dos Trabalhadores. Mais do que isso, o objetivo é mostrar de que maneira, no decurso de uma década e no intervalo entre dois álbuns, os Racionais exploraram eficazmente as principais manifestações dos processos macroestruturais brasileiros e seus influxos sobre a periferia. Escolhemos tratar aqui das letras de “Vida Loka II”, do álbum Nada como um dia após o outro dia (2002), e “Eu compro”, do álbum Cores e valores (2014). O início e o fim do ciclo Lulista estão descritos em letras que expõem as transformações peremptórias no que diz respeito à ascensão social, aos resultados da implementação de políticas sociais de combate à pobreza e, claro, às inúmeras mudanças identitárias e ideológicas entre os mais pobres.

“É questão que fartura alegra um sofredor”[1]

Nos anos de governo Lula e Dilma, o tema da prosperidade econômica esteve impreterivelmente atrelado à mudança na cultura do consumo nos meios populares, representada pelo acesso a bens e símbolos de luxo. Em contrapartida, a crítica anticapitalista se firmou frente a um tipo de comportamento que, supostamente, é contrário à emancipação das classes populares. O Rap, gênero musical comprometido com o cotidiano da vida na periferia brasileira, dedicou-se à problematização das duas faces daquela conjuntura. Ao longo dos 14 anos de Lulismo, nota-se claramente uma divisão importante na vida cultural periférica. Enquanto o Rap observou as nuances perversas da mudança no modo de consumir e, por suposto, na vida dos jovens, o Funk, gênero que cresceu consideravelmente neste período, firmou-se como o porta-voz destas transformações, ao eleger a relação entre consumo, status e prazer como o objeto de suas letras.

Em “Vida Loka II”, os Racionais MC’s abrem um diálogo importante, que certamente ainda reverbera junto ao ideário da nova periferia. A relação entre o acesso ao consumo e a felicidade desponta como um tema importante, na medida em que compõe uma possiblidade de saída de um mundo perpassado por racismo e pobreza estrutural. Na canção, embora haja o reforço constante de que a felicidade verdadeira é estar junto aos seus, (“O importante é nóis aqui junto ano que vem”), há o desejo imanente de ter dinheiro e o reforço da ideia de que “miséria traz tristeza e vice-versa”. As imagens de felicidade e satisfação para um jovem negro periférico simbolizam a da possibilidade de poder entrar em uma loja e comprar tudo o que há ali sem que sua cor ou seu lugar de origem sejam levados em conta (“Preto e dinheiro são palavras rivais?”),

Na letra de “Eu compro”, no entanto, o ator social que também aparece em “Vida loka II” vê-se em condição de comprar aquilo que deseja, “sem desconto”, quando quiser. Mesmo que o racismo ainda seja o mediador dos indivíduos no mercado (“pois o racismo é disfarçado há muitos séculos/ não aceitam seu status, nem sua cor”), o acesso às marcas e itens de luxo já não é mais um sonho distante. A alegria da nova condição social está em não mais utilizar os ganhos do trabalho apenas para suprir necessidades básicas. O dinheiro é o elemento que permite aos jovens periféricos estar em espaços antes destinados às classes médias e altas somente. O direito ao consumo é, para o letrista, sinônimo de inclusão e felicidade plena.

Em estudo recente, Carlos Antônio da Costa Ribeiro (2016) apresenta uma importante perspectiva a respeito das relações entre renda, consumo e bem-estar subjetivo. Segundo o autor, os elementos materiais, em especial, a renda, não são os únicos condicionantes para a felicidade. A definição de vida feliz é elaborada a partir da ideia e da importância dada aos relacionamentos pessoais. Ao analisarmos as letras, fica claro que a renda é um aspecto decisivo para a medida da felicidade individual. E, neste sentido, o poder de compra e o acesso ao consumo de bens e serviços estão atrelados aos conceitos de sucesso, triunfo, luxo, riqueza, entre outros. O que chama atenção nas letras analisadas, no entanto, é que são os elementos não-materiais os reais determinantes da vida dos protagonistas das canções. Se em “Vida Loka II” a amizade, a família, a preferência por uma vida simples e reta à ostentação como fruto da vida nos crime (“Viver pouco como um rei ou muito como um Zé?”) aparecem como valores genuínos a serem seguidos, em “Eu compro” é justamente a crítica às manifestações de racismo e a desigualdade flagrante que ainda desautoriza a presença dos jovens periféricos em certos espaços (“Olha só aquele shopping, que da hora!/ Uns moleques na frente pedindo esmola”) o mote da perspectiva do letrista. Impossível não fazer referência aos rolezinhos − encontros marcados por jovens nos shopping centers muito comuns entre os anos de 2013 e 2014 −, movimento que expôs os conflitos classistas e simbólicos nas grandes cidades. Ainda que a prosperidade material seja o grande tema que contorna as duas letras, certamente o dinheiro, a renda e o consumo por si só não são os aspectos mais relevantes para medir bem-estar e satisfação.

“Financiar o seu sonho e acreditar em você”[2]

Enriquecer e consumir, como vimos, são ideias vinculadas ao tema da felicidade e à noção de vida boa, mas carregam em seu significado elementos que extrapolam a concepção geral de prosperidade, por vezes, relacionada exclusivamente a aspectos materiais. Após descrever os signos da sua ambição material, que vão de várias marcas de carros e motos de luxo a joias e relógios, o letrista de “Eu compro” relata a posse do dinheiro como o meio pelo qual se chegará à realização de sonhos importantes e, curiosamente, elabora sua própria noção de emancipação. Quando assevera que “sem dinheiro cê não entra no game”, o autor adverte que o capital de que dispõe é o elemento que o torna competitivo, visível; é o que dá a ele a chance de transformar sua vida efetivamente. Ao dizer que “em São Paulo, Deus é uma nota de R$100”, Mano Brown, numa leitura simmeliana, entende o dinheiro como “a medida de todas as coisas” (SIMMEL, 2005:32), sinônimo de uma liberdade ilusória no domínio do mercado (“dinheiro é puta e abre as portas/dos castelos de areia que quiser”) e fator que nivela mercadorias e pessoas.

Para o letrista, portanto, “financiar o seu sonho e acreditar em você” é a máxima que traduz o desejo maior por independência e autonomia. Mais do que o usufruto e exibição das conquistas (“Ter helicóptero no iate, conquiste sua condição”), é iminente fazer planos e pensar na vida à longo prazo (“depois que aposentar não pode mais sofrer”). Percebemos aqui, mais uma vez, como certa noção de vida boa e feliz está mais ou menos próxima da posse do dinheiro e as possibilidades que uma renda maior apresenta. Na letra de “Eu compro”, as potencialidades da vida são consideradas aqui e agora, com todos os limites que ainda possam estar embutidas à condição social do indivíduo periférico. Mesmo que haja uma preocupação notável com o futuro, há um claro elogio ao prazer proporcionado pela experiência do consumo de luxo. Em “Vida Loka II”, porém, os desejos se dividem entre a vontade de possuir todos os símbolos de status consagrados pelas classes altas, e o ideal de vida modesta, quase escapista das armadilhas da metrópole (“Às vezes eu acho que todo preto como eu/Só quer um terreno no mato, só seu/Sem luxo, descalço, nadar num riacho/Sem fome, pegando as frutas no cacho”).

“Na crise vários pedra 90 esfarela”[3]

Mais de uma década separa as letras de “Vida Loka II” e “Eu compro”. Enquanto a primeira música foi lançada no mesmo mês que consagrou a primeira vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, a segunda canção integra o álbum de 2014, ano da segunda eleição de Dilma Roussef. Neste interregno, uma das principais discussões aventadas foi a do giro na discussão conceitual e política sobre a cidadania e as formas como as classes populares fazem política. A correspondência entre o acesso à cidadania e o consumo tornou visível a fragmentação de narrativas sobres as classes populares, seus modos de agir e pensar.

A narrativa construída pela obra dos Racionais MC’s é essencialmente democrática e cidadã. Ao apresentarem os impasses da vida periférica em dois momentos históricos distintos, os letristas lançam luz a certo tipo de mudança que dizem respeito às concepções de igualdade e bem-estar. O projeto levado a cabo nos anos analisados mostra o fortalecimento de uma perspectiva individualista, ainda que estivesse nos marcos de um governo de viés progressista, promotor de bem-estar social. As letras dos Racionais carregam, concomitantemente, crítica e elogio a um mesmo movimento, reforço e problematização da cidadania brasileira e seus caminhos ainda muito intrincados. O Funk Ostentação, estilo que atingiu popularidade inédita nos últimos anos, foi e ainda é constantemente questionado por adotar uma prática discursiva que exalta a autoestima do jovem periférico, construída exclusivamente através do consumo e na exibição dos símbolos de luxo. O que vimos nas letras de “Vida Loka II” e “Eu compro” é justamente a tensão constante entre o desejo de romper com uma trajetória de exclusão e invisibilidade, e a convicção de que o dinheiro não é suficiente para que se chegue à emancipação. A igualdade fictícia proporcionada pelo acesso a bens e posses se desfaz ainda no próprio jogo do mercado, que não mascara o racismo e o preconceito com aqueles oriundos das classes baixas. Mais do que poder desfrutar das marcas e grifes, as mudanças econômicas e sociais na periferia permitiram que houvesse uma aproximação ideológica, que fazem do poder de compra e consumo um modo de estar no mundo – e de atuar politicamente.

O ocaso do projeto Lulista coloca em xeque todas as conquistas sociais e as transformações no núcleo da classe trabalhadora brasileira. A breve inserção dos mais pobres em uma nova faixa de renda dá lugar a um processo de crise profunda de vários vieses, que expõe justamente as fragilidades da relação entre consumo e cidadania em um contexto como o brasileiro. São justamente os setores de menor renda e, agora, menor capacidade de consumir, aqueles que são aviltados em seus direitos fundamentais e que invariavelmente permanecem estagnados, sem perspectiva de um futuro confortável. A leitura dos Racionais MC’s para a trajetória do jovem negro, pobre e periférico no contexto do desenvolvimento econômico do país mostra exatamente como as noções de felicidade, igualdade e cidadania estão em constante disputa. O dinheiro, que na “mão de favelado é mó guela”, é ainda a medida dos vazios materiais e simbólicos que as classes populares têm que lidar.

Joyce Louback é Doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), além de colaboradora da Escuta.

** Imagem: Miojo Indie (http://miojoindie.com.br/disco-cores-e-valores-racionais-mcs/)

Referências bibliográficas

CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010.

COSTA RIBEIRO, Carlos Antônio. Renda, relações sociais e felicidade no Brasil. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 58, nº 1, pp. 37 a 78, 2015.

RACIONAIS MC´s. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Cosa Nostra Fonográfica. CD, 2002.

RACIONAIS MC’s. Cores e valores. São Paulo: Cosa Nostra Fonográfica/Boogie Naipe. CD, 2014.

 

SIMMEL, Georg. O dinheiro na cultura moderna. In: SOUZA, Jessé, OELZE, Berthold (Orgs.). Simmel e a modernidade. Brasília: Editora da UNB, 1998.

[1] “Vida loka II”. RACIONAIS MC’s. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Cosa Nostra Fonográfica. CD, 2002.

[2] “Eu compro”. RACIONAIS MC’s. Cores e valores. São Paulo: Cosa Nostra Fonográfica/Boogie Naipe. CD, 2014.

 

[3] “Vida loka II”. RACIONAIS MC’s. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Cosa Nostra Fonográfica. CD, 2002.

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