Fernando Perlatto*

“Machado & eu somos duas faces diferentes, impressas numa moeda ainda desprovida de valor simbólico. A escapada do passado em direção ao futuro, ou a viagem do futuro em busca do passado, transfigurará aos dois na cara duma moeda única chamada Literatura. Duas caras, uma só coroa” (Silviano Santigo, Machado, p.57).

Machado de Assis talvez seja o escritor brasileiro a quem mais análises de fôlego tenham sido dedicadas ao longo das últimas décadas. A potência da sua prosa, a riqueza da sua escrita, a crítica mordaz de sua pena, sua fina ironia, a capacidade imensa de desvendar aspectos variados da capital federal do país e de sua gente na passagem do XIX para o XX serviram de impulso para que estudiosos vários buscassem analisar de que maneira obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires abriram caminhos diversos para uma compreensão mais alargada da formação social do país e das contradições da modernização brasileira. A fortuna crítica da obra de Machado tem em seu panteão ensaios seminais, como aqueles escritos por autores como Raymundo Faoro – Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio –, Roberto Schwarz – que vão desde “As ideias fora do lugar”, publicado no final dos anos 1970 no livro Ao vencedor as batatas, até o mais recente “Leituras em competição” contido em Martinha versus Lucrécia –, Alfredo Bosi – Machado de Assis: o enigma do olhar –, José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana –, Sidney Chalhoub – Machado de Assis, historiador –, entre outros.

Machado de Assis nunca foi um autor estranho para um crítico literário do porte de Silviano Santigo. Pelo contrário. Pelo menos desde o final dos anos 1970, com ensaios importantes como “Retórica da verossimilhança”, publicado em Uma literatura nos trópicos, Santiago vem dedicando atenção especial aos escritos machadianos. No livro publicado no final de 2016 pela Companhia das Letras – Machado –, que pode ser considerado um romance-ensaio ou um ensaio-romance, Silviano retorna ao “bruxo do Cosme Velho” de forma intensa, apaixonada, em uma obra a ser considerada um clássico da literatura brasileira contemporânea por aquilo que se propõe a ser e pelo que cumpre em termos de erudição, capricho, inventividade e criatividade.

Não é possível afirmar de forma peremptória que Machado seja um romance, ainda que esteja escrito “romance” na capa e ainda que Silviano o reconheça como tal. O livro pode ser lido mais como um ensaio ou, na verdade, uma coletânea de ensaios nos quais Machado de Assis, sua obra e algumas de suas correspondências são analisadas de forma fina e sofisticada por um leitor atento aos detalhes do material coligido. Mas, também não é possível dizer de forma peremptória que Machado seja exclusivamente um livro de ensaios, podendo ser lido, antes, como um romance, uma vez que Silviano se vale da ficção para imaginar e criar situações, sentimentos e pensamentos de personagens vários que atravessam a obra. E esta dubiedade, esta característica de ser os dois ao mesmo tempo, um romance e um ensaio, é talvez, uma das forças maiores deste livro de Silviano Santiago. Como diz o próprio autor em determinada passagem: “Tudo só vivido seria monótono; tudo só imaginado seria cansativo” (p.51).

Este tipo de procedimento literário, que mistura romance e ensaio, e se constrói em torno de uma ficção sobre um determinado autor, não é, naturalmente, novo. Leyla Perrone-Moysés, em seu livro Mutações da Literatura no Século XXI destaca que este “subgênero romanesco”, tem crescido de forma destacada na literatura contemporânea desde, pelo menos, os anos 1980, mencionando como exemplos obras como as do escritor espanhol, Enrique Vila-Matas, com destaque especial para Bartebly e companhia. Muitos destes romances têm como personagem principal um “grande escritor” e, assim como no caso de Machado, de Silviano, entremeiam verdade e ficção em torno da narrativa de algum momento da vida deste “grande escritor”. Alguns deles, mais especificamente, concentram suas narrativas sobre este personagem em momento próximo à sua morte, como é o caso de obras como Os três últimos dias de Fernando Pesssoa, de Antonio Tabucchi, Le derniers jours de Charles Baudelaire, de Bernard-Henri Lévy, e A última estação: os momentos finais de Tolstói, de Jay Parini.

O próprio Silviano já utilizara procedimento literário semelhante ao abordar de forma ficcional, com toques de ensaio, a vida de escritores em dois outros romances – Em Liberdade e Viagem ao México –, nos quais se debruça, respectivamente, sobre os primeiros meses da vida de Graciliano Ramos após a experiência do cárcere, e na viagem de Antoine Artaud ao México, em 1936. Ressalte-se, nesse sentido, que Silviano é um autor talhado para este tipo de construção narrativa, uma vez que domina de forma esplendorosa os dois ofícios, tanto o do ensaísta – evidenciado em trabalhos como Uma literatura nos trópicos, As raízes e os labirintos da América Latina e Nas malhas da letra –, quanto o de um romancista refinado, que se mostra nos livros ficcionais acima mencionados e em outras obras como Mil rosas roubadas. É precisamente a combinação destas características que levam à elaboração de algo tão apurado como Machado.

A narrativa de Silviano tem como personagem central Machado de Assis e seu “lento desaparecimento” nos seus últimos anos de vida, entre 1905 e 1908, às voltas com a escrita de seu derradeiro romance, Memorial de Aires, concluído em 1907 e publicado pouco antes da sua morte em 1908. Machado é “o verdadeiro, legítimo e anônimo protagonista deste romance” (p.66). Apesar de centrar grande parte da narrativa sobre o mundo privado de Machado, com foco especial sobre sua vida cotidiana atravessada pela tristeza da viuvez da falecida Carolina e pelos problemas relacionados à epilepsia, Silviano articula esta dimensão com a vida pública de um Rio de Janeiro no começo do século XX, que testemunhava o início dos tempos republicanos e as reformas urbanas modernizadoras conduzidas pelo prefeito do Distrito Federal, o engenheiro Pereira Passos, sob a influência do barão Haussmann, que, se por um lado, levavam ao centro da cidade a água, o gás e a luz elétrica, por outro, produziam mudanças que acarretavam a especulação imobiliária e uma política de demolições (“bota abaixo”) e remoções, que expulsava para as margens, periferias e subúrbios, milhares de moradores da capital federal.

Nestes tempos convulsivos de profunda transformação, quando novos heróis, a exemplo engenheiros e médicos ganham protagonismo na cena pública como “capitães dos projetos de modernização da cidade e da nação”, Machado leva sua vida como presidente da Academia Brasileira de Letras, funcionário público dedicado e já consagrado escritor de renome internacional, em meio às sua melancolia, suas angústias e dilemas internos, circulando por sua biblioteca repleta dos clássicos da literatura nacional e internacional, com destaque para Stendhal e Flaubert, pelas ruas e praças do Rio de Janeiro da Primeira República – geografia esta explorada com esmero pelo autor –, assim como pelos corredores da burocracia pública, por ambientes literários como a própria Academia Brasileira de Letras e a livraria Garnier, e convivendo em meio a um cena intelectual repleta de embates, tensões e intrigas, do qual fizeram parte personagens diversos, como Olavo Bilac, Oliveira Lima, José de Alencar e Joaquim Nabuco. Silviano consegue articular com fineza a relação entre o mundo privado machadiano com o olhar mais amplo para as mudanças que tinham curso na capital federal e no país em um ritmo acelerado do processo de modernização.

Machado tem como eixo central da narrativa a troca de cartas que Machado de Assis estabelece com o filho do falecido José de Alencar, Mário de Alencar, eleito em outubro de 1905 para a cadeira número 21 da Academia Brasileira de Letras, então ocupada por José do Patrocínio. A missiva central que serve como gatilho da trama é uma carta que data de 26 de fevereiro de 1906, na qual Mário, pouco tempo depois de sua conturbada e criticada eleição, confessa a Machado que, assim com ele, também sofria de epilepsia. As correspondências trocadas pelos dois – que, a partir de então “tornam-se camaradas, confidentes e dependentes. Espelho um do outro. Dois corpos, uma única imagem” (p.116-7) –, para além de temáticas literárias, estão atravessadas especialmente por questões relacionadas à enfermidade comum que os acomete e por conselhos trocados por ambos sobre o tratamento, que passa a ser supervisionado em Mário, por recomendação de Machado, pelo médico clínico, dr. Miguel Couto, professor da Academia Nacional de Medicina. A troca de cartas entre os dois escritores, portadores da mesma inicial “M. de A” e a reflexão sobre a epilepsia dos dois personagens, abre possibilidades várias para que Silviano transcenda o foco sobre suas enfermidades particulares e envolva o leitor de forma minuciosa em análises sofisticadas sobre as relações entre arte, doença e criatividade – nas quais aparecem outros personagens, como Flaubert e Aleijadinho –, além de embates e discussões que dominaram o campo da medicina alopática e homeopática no Brasil no início do século XX.

Mobilizando sua vasta experiência como crítico literário, Silviano Santiago explora também com destreza os debates no campo literário no final do século XIX e início do XX, de modo a evidenciar de que maneira Machado se forma, se constrói, se aperfeiçoa e amadurece como escritor em meio às disputas travadas naquele contexto. E, mais especificamente, o autor analisa de que forma o romance machadiano rompe e supera as categorias, os gêneros e os cânones literários oitocentistas até então estabelecidos, tanto pelo romance realista, quanto pela literatura romântica, tanto pelo nacionalismo estético de José de Alencar, quanto pelo cosmopolitismo defendido pelo então crítico literário Joaquim Nabuco – embora tendesse mais a concordar com este último –, inaugurando algo realmente novo na ficção brasileira, que lhe insere, ainda que a partir dos trópicos, no panteão dos clássicos da literatura universal. Silviano tateia com cuidado os romances machadianos, identificando os “cinco elementos trademark do estilo” de Machado – safanão estilístico, tranco narrativo, corte, abertura e digressão – e passeia com o leitor pelas páginas de livros como Ressurreição, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, demonstrando a fineza da proposta artística machadiana, “convulsiva por natureza”, na quebra dos valores estabelecidos e nas simetrias reflexivas dominantes, no fracionamento e na desagregação, bem como seu poder crítico original na percepção das tensões e contradições da experiência social brasileira, atravessada por desigualdades e preconceitos vários.

Silviano impressiona pela sua erudição e pela construção estilística do texto que faz lembrar Borges na capacidade de, a partir de pequenos fragmentos, frases, ideias e imagens, a exemplo da tela Transfiguração, de Rafael, construir e adentrar em labirintos inesperados, que, por sua vez, abrem novos labirintos, que conduzem o leitor – em meio a fotografias, pinturas, charges, desenhos, receitas médicas, recortes de jornais e revistas da época, com notícias e análises variadas – a percursos inesperados que rompe, como o próprio autor admite, “a ordem cronológica com jogos temporais intempestivos” (p.61). É possível pensar, nesse sentido, em diálogo com as reflexões elaboradas por Carlo Ginzburg em Mitos, emblemas e sinais, que Silviano se comporta como um historiador-detetive ou um detetive-historiador, que parte de pequenas pistas, enigmas, alusões e retalhos retirados de cartas, apontamentos soltos e romances de Machado de Assis, assumindo-os como “paradigmas indiciários”, que lhe permitem investigar, interpretar e imaginar significações, situações, sensações e sentimentos experimentados pelo escritor morador do Cosme Velho.

O que garante ainda mais força e interesse a Machado é o fato de Silviano ser, ele também, um personagem da obra. Nessa perspectiva, além de romance e ensaio, o livro é, ao mesmo tempo, uma espécie de diário íntimo do autor, que intervém como narrador, em primeira pessoa, em diversas passagens da obra, assim como também o fazia o narrador Machado em seus romances. Silviano se expõe de forma mais evidente no Capítulo 2, intitulado, não à toa, “29 de setembro” como referência à coincidência do dia e do mês em que morreu Machado em 1908 e que nasceu o próprio Silviano em 1936. Neste capítulo, de forma sensível, como em um jogo de espelhos, o autor reconstrói o percurso que o levou a escrever o livro, que se inicia quando compra em uma manhã de junho de 2015, o quinto volume da correspondência de Machado de Assis, publicado pela Academia Brasileira de Letras, que abarcava o período final da vida do escritor, de 1905 a 1908. A partir de então, “para curar a intranquilidade que me assalta nos momentos duros da solidão derradeira, que desmorona o corpo e desmantela minha imaginação”, Silviano decide “domesticar” “a linguagem da viuvez e da velhice de Machado de Assis”, transformando-o “em companheiro e interlocutor” (p.15). As cartas escritas e recebidas por Machado “se interiorizam entranhas adentro em processo inédito de metamorfose”, o transfiguram e “encontram abrigo” nas asas de sua imaginação (p.49). Como destaca o próprio autor, “o protagonista Machado” e “o personagem Silviano”, “compagnons de route”, passam a ser “companheiros de caminhada, bras dessous bras dessus” (p.51).

Em meio a tantos títulos lançados semanalmente no mercado editorial, Machado é luxo. Enobrece o catálogo literário brasileiro. É uma obra necessária, na qual Silviano evidencia, como Machado já mostrara no final do século XIX e início do XX, a potência de uma prosa inscrita em terras brasileiras, mas que tem força universal.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Escuta.

** Imagem disponível em: <https://jornalggn.com.br/comment/221540&gt;. Acesso em: 02 fev. 2017.

 

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