Gustavo Bezerra*

No discurso de final de mandato de Barack Obama houve certo grau de melancolia, como de um tempo que se encerra. “Yes, we did”, o moto de campanha “Yes, we can” adaptado para o encerramento de dois mandatos, é um reflexo desse momento: o passado como horizonte e o medo de falar sobre o futuro.“Medo” e “Passado” tornaram-se as duas chaves para a compreensão do mundo contemporâneo: o primeiro como catalisador das reações e o segundo como parâmetro de planejamento do porvir. Nessa chave, resta pouco espaço para a Política: a negociação de agendas e projetos para a coletividade social.

O medo enquanto sentimento disseminado impede o desenvolvimento da política a partir do momento em que rompe com o clássico pacto social liberal baseado no senso de pertencimento e de confiança coletiva. No ambiente do medo existem apenas iniciativas de sobrevivência individual. Não há tempo para negociar soluções, porque não há tempo. As respostas devem ser imediatas sob risco de consequências gravíssimas e impactos inimagináveis. No ambiente de medo as decisões são tomadas em gabinetes e fundadas em informações sigilosas de sistemas de segurança com acesso ilimitado à informação das pessoas, mas com esparsa, se alguma, estrutura de prestação de contas

Em suma, o medo justifica ações arbitrárias para proteger um discurso de sociedade livre e democrática. Mas é um discurso forçado, um contrassenso, a liberdade e a Democracia não sobrevivem ao medo. A “pós-verdade” mostra que nem os fatos sobrevivem ao medo.

O referencial do medo faz buscar comparativos históricos, não mais referenciais. Trump e seu discurso de ódio são corriqueiramente relacionados ao nazismo alemão, ao passo que o recente assassinato de Andrei Karlov, embaixador russo na Turquia, lembrou muitos da morte de Francisco Ferdinando, Arque- Duque da Áustria, que iniciou a I Guerra Mundial em 1914. O passado como eventos históricos selecionados oportunamente e desprovidos de uma narrativa que os embase torna-se apenas passado e deixa de ser História. Um arcabouço muito fecundo para justificar discursos de ódio, factoides e a pós-verdade, histriônica forma de argumentação que se tornou corriqueira.

O Brasil viveu em 2016 uma mudança brusca de horizonte temporal. Se a exploração do petróleo do Pré Sal trouxe consigo a criação de um fundo soberano com a finalidade de ser investido em educação, ao tempo em que se reivindicava o investimento de até 10% do Produto Interno Bruto nessa rubrica, o ano que passou viu o fim do futuro com o congelamento de investimentos em saúde e educação por 20 anos. Trata-se de cinco mandatos presidenciais definidos pelo passado. O documento “Perspectivas da População Mundial: revisão 2015” da ONU prevê que até 2030, a partir da população do país em 2015, serão 20,8 milhões de habitantes a mais no país, com o mesmo orçamento para saúde e educação que existe atualmente. Isso é mais que uma alteração de planejamento, é a tentativa de ruptura com o tempo, de não planejar mais o futuro, mas firmar pé no presente mesmo quando este se tornar passado. O planejamento tornou-se manutenção e ficamos sem projeto de país.

A bem da verdade é difícil encontrar projetos políticos que polarizem o mundo. Nisso somos órfãos da Guerra Fria e de um “pensar o mundo” em blocos. O ambiente de imprevisibilidade mundial passa um pouco por termos que analisar cada país autonomamente, com reduzidos constrangimentos que os blocos lhes colocavam até o final da década de 1980. Assim, quando Obama distensiona a relação com Cuba e acirra a competição com a Rússia – seja na Síria, Europa ou nos próprios Estados Unidos com a suposta intervenção na eleição presidencial – o que está posto é o mundo pensado como geografia, como trânsito de pessoas e de produtos. Pensar em blocos políticos e no compartilhamento de ideais e projetos comuns perde espaço para o voluntarismo de lideranças políticas muitas vezes agressivas. Rodrigo Duterte e a recente mudança no alinhamento das Filipinas com a China rompendo com os EUA desvela não apenas a virulência das transformações e seu impacto, mas como são decisões tomadas sem constrangimento de alinhamentos à superpotências.

A competição ideológica abriu espaço para disputas de poder duras e simples e essa competição hierarquizou mais do que diluiu as fronteiras herdadas da política mundial dividida em primeiro, segundo e terceiro mundos. O próprio debate sobre unipolaridade ou multipolaridade (ou mesmo uni-multipolaridade) mostra que não há certeza sobre como interpretar as decisões de política internacional. Não se questiona a hierarquia, mas a forma como ela está organizada. O mundo sem ideologias de bloco turva a hierarquia, mas alguns indícios claros são mantidos: guerras disruptivas da Ordem no Norte da África e no Oriente Médio ainda são iniciadas pelos países europeus e pelos EUA, e no aspecto imagético, a recente eleição de António Guterres para Secretário-Geral da ONU aponta na mesma direção: o mundo, e não apenas o Brasil, é comandado por homens, majoritariamente brancos e indubitavelmente conservadores. A ascensão da China sugere que haverá maior diversidade étnica entre os tomadores de decisão, mas nada aponta sobre o conservadorismo dos decisores. A nova hierarquia não se compara à disputa ideológica do Pós-Guerra. Não são percepções de mundo e discursos sobre justiça e ética que se confrontam, são aspectos culturais ou mesmo fenotípicos que definem, muitas das vezes, o trânsito ou as possibilidades que os indivíduos possuem.

Nesse ambiente de racismo a violência não fica restrita aos conflitos internacionais iniciados pelos EUA e países europeus. O documentário “The Act of Killing”, de 2013, mostra como o racismo institucionalizou-se – com violência – na Indonésia principalmente a partir da década de 1960. A eleição de Rodrigo Duterte, ano passado, nas Filipinas mostra a legitimação de uma liderança de grupo de extermínio na presidência de um dos países mais importantes para as rotas comerciais do Sudeste Asiático. Os dois casos colocam o mundo no modelo de democracia ocidental em xeque. Que tipo de democracia se pode esperar onde milícias privadas são responsáveis pela ordem nas cidades? Que tipo de democracia se pode esperar quando o presidente assume publicamente ter participado de extermínios e afirma: “Eu não me importo com os Direitos Humanos, acredite em mim.”? Talvez não muito, não mais do que o formalismo do procedimentalismo da eleição. Os processos de inclusão das minorias e de operar mecanismos de expansão de direitos e ampliação de acesso a instrumentos mínimos de bem-estar social podem, desta forma, indicar enfraquecimento da democracia tão pungente quanto eventual cancelamento de eleições. Ou eventuais articulações para deposição de presidentes.

Na Geopolítica as Filipinas têm tido destaque também pelo papel de pivô da polarização entre China e Estados Unidos. Duterte e sua postura abertamente contrária a Obama – inclusive ofendendo o ex-presidente estadunidense – não apenas afasta o país dos EUA e aproxima-o cada vez mais da China, mas representa uma mudança importante de um país que historicamente foi um entreposto comercial entre o Ocidente e o Oriente. Os tweets de política externa de Trump indicam que essa polarização entre EUA e China tendem a aumentar dado que a postura do novo presidente na Casa Branca não parece ser conciliatória a não ser com o Kremlin. Declarações sobre a possibilidade de os EUA intervirem no expansionismo de Pequim no mar da China molda um cenário de tensionamento, que parece substituir a tensão havida entre EUA e Rússia durante a presidência de Obama. Duterte como elemento de instabilidade no Sudeste asiático soma ao medo da sucessão de Obama e alimenta a visão de um eventual conflito entre grandes potências.

Esse pendor da balança para um alinhamento maior entre Putin e Trump que opõe Trump e Xi Jinping gera instabilidade não só por estabelecer um novo antagonista de primeira hora para os EUA – antagonista com projeções ascendetes, não descentes como o caso da Rússia – como sugere um ambiente internacional desenhado pelo Kremilin, não pela Casa Branca. Um ineditismo que gera insegurança. Medo pouco antecipado. Medo com poucos paralelos na história. Medo pelo medo. Medo sem passado.

As eleições de Duterte e de Trump sugerem governos que proporcionarão o enfraquecimento da coesão social em países nos quais as instituições políticas podem encastelar-se, sem contato com parcelas da população, tornando-se formais, sem diálogo ou abertura. Recep Erdogan seria um exemplo desse processo: eleito democraticamente, o presidente da Turquia, joga com a janela de oportunidade que o tecido social esgarçado lhe proporciona e avança com a concentração de poder. Erdogan mimetiza Vladimir Putin que transformou a Rússia em uma democracia formal que avança em legislações homofóbicas e de restrição de direitos. De todos os casos de enfraquecimento democrático e de governos que aprofundam as polarizações sociais, o governo de Michel Temer, no Brasil, merece destaque pela forma como decorreu de uma ruptura institucional orquestrada pelo vice-presidente com o apoio do Legislativo e do Judiciário, que consistiu na deposição de uma presidenta da República.

Essa configuração de poderes estatais concentrados com a sombra das eleições, na França e na Alemanha, que antecipam o fortalecimento de partidos no extremo da direita do espectro político torna turvo o futuro. Gera medo, o futuro não está mais no horizonte. É sintomático dessa falta de horizonte que o discurso de despedida de Obama seja o ponto no qual se identifica tanta melancolia. Um presidente carismático, mas com um legado tão frágil e tão discutível – haja vista o Nobel da Paz que recebeu na expectativa de pôr fim às guerras do Iraque e do Afeganistão, países que oito anos depois continuam conflagrados – pode se colocar como arauto do “mundo livre” em suspensão.

De tudo isso, resta a questão: é possível uma narrativa que dê conta de todas esses processos? Haveria semelhanças nos processos que levaram às eleições de Trump e João Doria para além de serem empresários e autoproclamados apolíticos? É possível identificar na crise da Petrobrás alguma similaridade com a devassa anticorrupção que está sendo levada à cabo pela Coreia do Sul na Samsung? Ou tratam-se exclusivamente de coincidências?

Como possível resposta a esse questionamento existe a hipótese do esgotamento de uma onda democrática supostamente universal após o fim da Guerra Fria. O tensionamento entre democracias e o mercado tal como o conhecemos hoje pode ter se tornado insustentável em um ambiente de reduzido crescimento econômico pós- crise de 2008 gerando a ruptura que se identifica nos casos acima. Em um mundo no qual vigora o discurso de capitalismo como sistema vitorioso, para o qual não haveria alternativas, romper com as instituições democráticas e adotar outras formas de governo parece ser mais plausível que questionar a estrutura de distribuição de renda. Por essa hipótese, vivemos ainda as consequências da ruptura do mundo bipolar, somos órfãos de uma alternativa na forma de um bloco hegemônico e não conseguimos organizar-nos autonomamente, organicamente, para resistir ao crescimento do poder dos Estados.

Cabe perguntar – talvez em outro texto –: é possível resistir? É possível uma alternativa que surja organicamente, autonomamente, e não institucionalizado como o Estado na estrutura que o conhecemos hoje? Pode ser que seja. A Revolução Russa, que em última instância tornou possível a polarização da Guerra Fria, foi um movimento popular que conseguiu transformar a Rússia e criar a União Soviética.

De toda forma, é possível perceber como a questão do conflito distributivo de renda é central para percebermos o esgarçamento dos tecidos sociais e a própria ruptura do pacto social como em alguns casos. O relatório da Oxfam apresentado no Fórum Econômico Mundial, em janeiro, em Davos, indica que oito pessoas detém a mesma fortuna que metade da população humana. Este dado torna mais difícil atribuir a escalada de conflitos e tensões a diversidades étnicas e culturais: estas sempre existiram, mas pela primeira vez identifica-se uma concentração de renda tão aviltante em escala global. Concentração agravada ainda pelo desenvolvimento de um modelo econômico estruturalmente excludente, que não nos comporta a todos. A política institucional que temos hoje não dá conta dos desafios contemporâneos. Gera-se crise. A crise causa o medo. O medo retira nosso horizonte de futuro, porque não vemos alternativa política. Ficamos com mais medo num ciclo vicioso que só pode ser rompido com a percepção de que a resposta a esses desafios é o aprofundamento da política. Talvez não nos moldes como temos hoje, talvez menos institucionalizada, talvez com menos representatividade e mais participação, talvez através de aparelhos eletrônicos. Enfim, as possíveis respostas são muitas e a resposta é dada com a construção de alternativas na prática política.

Os diferentes ambientes políticos e institucionais de Filipinas, Brasil, Rússia, Turquia e EUA têm em comum a inserção em uma economia que aprofunda desigualdades, onera – ao mesmo tempo em que enfraquece – o Estado e fomenta ações individualistas. Nesse ambiente agressivo é que concepções abstratas de coletividade a partir de nacionalismos, religiões e etnicidades tornam-se o esteio da ideia de pertencimento. Esse mundo constrói o pertencimento pela separação e agrava os discursos de ódio.

Estamos no meio da construção de sociedades individualistas, agressivas e com passado – não história – , ou seja, marcadas por narrativas superficiais e não concatenadas de eventos antigos.

A construção do futuro passa pela possibilidade de enxergar um projeto de futuro, passa por nos comprometermos com a política e recusarmos o discurso do medo usado à larga. Se nos rendermos ao medo e ao passado sem história, recaímos na melancolia do discurso de despedida de Obama, aceitamos mesmo a possibilidade de ver em Obama o construtor de um grande legado.

* Gustavo Bezerra é  doutorando (PUC-RIO) em Relações Internacionais e servidor público do TCE-RJ, além de colaborador da Escuta.

**Imagem disponível em http://people.com/tv/mtv-movie-awards-2016-president-obama-appears-in-video-for-youth-initiative/ Acesso em 01/01/2017.

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