Fernando Perlatto*

Aqueles leitores que admiram Primo Levi tiveram, em tempos recentes, boas notícias no mercado editorial brasileiro com a reedição neste ano de um dos seus livros mais fundamentais – Os Afogados e os Sobreviventes (Paz & Terra, 2016) – e a tradução de três coletâneas contendo importantes textos do autor – Assim Foi Auschwitz (Companhia das Letras, 2015), A Assimetria e a Vida (Editora Unesp, 2016) e O Ofício Alheio (Editora Unesp, 2016). Estas obras vieram a se somar a outros trabalhos de Levi já publicados no Brasil – É isso um Homem? (Rocco, 1988), Se não Agora, Quando? (Companhia das Letras, 1999), O Último Natal de Guerra (Berlendis e Vertecchia Editores, 2002), 71 Contos de Primo Levi (Companhia das Letras, 2005), A Chave da Estrela (Companhia das Letras, 2009) e A Trégua (2010) –, que, vistos em conjunto, apresentam um panorama amplo e diversificado da produção não-ficcional e ficcional deste enorme escritor italiano de origem judaica, sobrevivente de Auschwitz, testemunha potente e sensível de uma das maiores barbáries do século XX.

Dos quatro livros recentemente publicados no Brasil, três deles se aproximam mais tematicamente por se constituírem de testemunhos e reflexões de Levi sobre sua experiência nos campos de concentração nazistas – Os Afogados e os Sobreviventes, Assim Foi Auschwitz e A Assimetria e a Vida –, ao passo que O Ofício Alheio consiste em uma coletânea de ensaios diversos do autor, nos quais a condição de testemunha dos campos de concentração, salvo alguns raros momentos, é secundarizada e passa quase que despercebida pelo leitor. Neste último livro, Levi, em mais de cinquenta artigos publicados em jornais, especialmente no La Stampa, apresenta, nas palavras de Italo Calvino em texto que abre a obra, “sua vocação de enciclopedista das curiosidades vivazes e minuciosas”. Químico de formação, em O Ofício Alheio, Levi reflete não apenas sobre seu próprio ofício – em textos como “Ex-químico”, “A língua dos químicos”, “Estável/Instável” e “O sinal do químico” –, mas sobre temáticas e objetos que dizem respeito a ofícios alheios, se portando ora como um filólogo ou um gramático na análise de palavras e expressões (“O ar congestionado”, “O inspetor Silhouette”, “As palavras fósseis”), ora como um biólogo nas reflexões que constrói sobre os animais (“Contra a dor”, “Romances ditados pelos grilos”, “O esquilo”, “O salto da pulga”, “As borboletas”, “Pavor de aranhas”, “Os besouros”).

No ensaio “As palavras fósseis”, Levi explicita a sua “fraqueza” em se “ocupar nas horas vagas de coisas que eu não entendo, não para construir uma cultura orgânica, mas por puro divertimento; o vício não contaminado dos viciados” (p.232). Movido por esta curiosidade, em O Ofício Alheio, o autor italiano escreve sobre si – a exemplo do texto “Minha casa”, que abre a coletânea, e que é dedicado à descrição sentimental da residência onde permaneceu durante toda a sua vida – e se vale de acontecimentos da conjuntura em que escrevia – como a chegada do homem à lua e a proliferação de armas nucleares – para elaborar reflexões de mais largo alcance sobre temáticas diversas. Além disso, Levi se apresenta como um notável crítico literário nas análises que constrói sobre autores como Aldous Huxley, François Rabelais, Alessandro Manzoni e Raymond Queneau, e reflete sobre a sua própria condição de escritor, em textos como “Por que se escreve?”, “Da escrita obscura”, “Escrever um romance”, “O escriba” e “A um jovem leitor”.

Estes últimos ensaios são particularmente interessantes por abrirem caminhos para uma compreensão mais acurada sobre a escrita de Primo Levi, não apenas nos textos que compõem O Ofício Alheio, mas também nos ensaios de Assim Foi Auschwitz, A Assimetria e a Vida e Os Afogados e os Sobreviventes. Estas três obras são compostas por documentos diversos, como ensaios, artigos de jornal, relatórios, depoimentos em processos, prefácios, entrevistas, conferências. Alguns dos textos têm uma linguagem mais fria, opaca, objetiva, como nos relatórios e depoimentos reunidos em Assim foi Auschwitz, que procuram descrever com dados, detalhes e minúcias as privações, os sofrimentos e as condições desumanas dos campos de concentração. Outros textos, sobretudo aqueles produzidos para a publicação em jornais, a exemplo dos que estão em A Assimetria e a Vida – escritos de “intenção imediata”, nas palavras de Fabio Levi e Domenico Scarpa, organizadores de Assim foi Auschwitz – têm um tom mais solto, livre, com uma retórica voltada para a sensibilização dos leitores em torno de temáticas conjunturais relacionadas com a experiência dos campos de concentração. Já os capítulos de Os Afogados e os Sobreviventes, escritos na maturidade do autor, revelam uma narrativa mais analítica, que, sem perder a paixão e a intensidade, busca desenvolver reflexões mais profundas sobre os significados da barbárie do experimento nazifascista.

Apesar das particularidades de cada um dos textos que compõem estes livros, em todos estes ensaios a prosa de Levi evidencia uma fluidez ímpar, atravessada por notável erudição e pela mobilização de conhecimentos vários, sem ser maçante. A despeito de estar abordando a barbárie na sua mais absoluta manifestação, Levi não cede ao sentimentalismo, à pieguice, e não escreve para emocionar ou comover o leitor; pelo contrário, ele o provoca a refletir, a pensar; faz com que questione a si e questione de forma crítica a humanidade, suas potencialidades, seus vícios e seus riscos. Daí, seus escritos não se preocuparem apenas com a narrativa do passado, mas se constituírem em um inquirir permanente sobre as continuidades daquela experiência no tempo presente: é uma escrita em ato, viva, que não se cansa de indagar aquele que embarca na leitura de seus textos.

A prosa de Levi – como bem destacado por Renato Lessa, em um belo ensaio intitulado “O silêncio e sua representação” –, sobretudo aquela apresentada em É isto um homem?, tem como uma de suas principais características o fato de que ela “procede por fragmentos”; isto é, mais do que buscar explicações totalizantes, sua escrita procura os detalhes, as particularidades, as singularidades, recusando grandes generalizações e sistematizações pré-definidas. É possível, nesse sentido, relacionar sua reflexão aos escritos de Adorno e Horkheimer, em A Dialética do Esclarecimento, ou aos diferentes ensaios de Walter Benjamin, que contra a metafísica totalizante do mundo administrado, burocratizado e racionalizado do nazifascismo, constroem suas prosas em fragmentos, em excursos, em frestas, procurando, via prosa, romper com a razão simétrica totalitária, na busca das assimetrias da vida. Porém, ainda que esta escrita de Levi em fragmentos não busque explicações sistemáticas, ela quer perguntar, deseja inquirir, intenciona questionar por quais razões e de que maneira o homem sucumbiu ao mal na sua mais profunda manifestação.

A partir de sua experiência em Auschwitz – que deixou como marca permanente em seu braço o número 174517, de sua inscrição nos campos –, seu intuito é indagar pelos rastros, pelos indícios, pelos caminhos tortos que levaram a homens como nós, de carne e osso, com as mesmas propriedades e características que as nossas, a se curvarem à tentação de produzirem uma experiência marcada pela crueldade inútil, pela violência desmedida, como os Lager, o sistema concentracionário nazista. Sistema este que, como se depreende das análises de Levi, conduziu todos aqueles a ele submetidos à completa desumanização pela fome, pela exposição da nudez, pela raspagem dos cabelos, pela vestimenta de farrapos e sapatos apertados, pela violação do pudor, pela humilhação constante, pela falta de uma colher, pela completa e absoluta inexistência das condições de existência. Trata-se, como destacado pelo autor em Os Afogados e os Sobreviventes, de “um regime desumano que difunde e estende sua desumanidade em todas as direções” (p.91). O campo de concentração “permanece ainda um unicum, em termos quantitativos e qualitativos: (…) jamais tantas vidas humanas foram eliminadas num tempo tão breve e com uma tão lúcida combinação de engenho tecnológico, de fanatismo e de crueldade” (p.15). “Se compreender é impossível”, diz Primo Levi no “Prefácio a Auschwitz, de L. Poliakov”, publicado em Assimetria e a Vida, “conhecer é preciso” (p.47).

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O que transborda das páginas de Assim Foi Auschwitz, A Assimetria e a Vida e Os Afogados e os Sobreviventes é a necessidade e a urgência de falar e questionar sobre a experiência do “buraco negro de Auschwitz”, como ele define os campos de concentração em A Assimetria e a Vida, “buraco negro” este destinado “a homens, mulheres e crianças cuja única culpa era de serem judeus” (p.157). Se, como destaca Renato Lessa no ensaio anteriormente mencionado, Auschwitz, com sua política deliberada de aniquilamento e de transformação do homo sapiens em homo lager, pode ser compreendido como “um experimento de vitória total do silêncio e como supressão definitiva das vozes humanas”, Levi, ao falar, procura se colocar contra esse movimento rumo ao silenciamento; se o campo de concentração representa um mundo marcado pela impossibilidade de se perguntar “por quê?” – como diz um guarda do Lager, em É isto um homem? –, os textos de Levi são um perguntar constante, um questionar permanente sobre as razões e o significado daquela violência gratuita, mesmo quando as explicações racionais parecem ser incapazes de dar conta da brutalidade daquela experiência.

A necessidade de contar o que ocorreu nos campos de concentração se impõe como uma obrigação para o sobrevivente daquela barbárie, que “se sente depositário de uma experiência fundamental, inserido no mundo, testemunha por direito e por dever, frustrado se seu testemunho não for solicitado e acolhido” (p.162). Como destaca Levi no texto “Itinerário de um escritor judeu”, publicado em A Assimetria e a Vida, “não era viver e contar, mas viver para contar” (p.258, grifos do autor). “Cada um de nós sobreviventes”, diz Levi em outro artigo deste mesmo livro (“Nota à versão dramatúrgica de É isto um homem?”), “assim que voltou para casa, transformou-se num narrador incansável, irrefreável, maníaco” (p.40). Os acontecimentos associados ao nazifascismo, afirma Levi em “Testemunho para Eichmann” (Assim foi Auschwitz) “foram demasiado indicativos, entreviram-se os sintomas de uma doença muito grave para que seja lícito calar sobre eles” (p.66). No texto, “Deportados. Aniversário”, publicado dez anos após a libertação, e contido em A Assimetria e a Vida, Levi afirma: “Não é lícito esquecer, não é lícito calar. Se calarmos, quem falará? (…) Se faltar nosso testemunho, num futuro nada distante os feitos da bestialidade nazista, exatamente por sua enormidade, poderão ser relegados ao rol das lendas. Falar, portanto, é preciso” (p.4).

Falar era um imperativo, uma “obrigação moral e civil, necessidade básica e libertadora” (p.161), principalmente por ser – como destacado no artigo “Assim foi Auschwitz”, contido no livro de mesmo nome – “um dever com os companheiros que não voltaram e é uma tarefa que confere um sentido à nossa sobrevivência” (p.135). Por essa razão, Levi sustenta em diferentes momentos, como no artigo “À nossa geração…” – publicado tanto em A Assimetria e a Vida, quanto em Assim foi Auschwitz – que seus textos, apesar de serem por ele assinados individualmente, devam ser lidos “como obras coletivas, como uma voz a representar outras vozes” (p.163). Reconhece em várias passagens que sobreviveu enquanto esteve no campo de concentração de Monowitz (Auschwitz) de 26 de fevereiro de 1944 a 27 de janeiro de 1945 pela combinação de algumas circunstâncias fortuitas – por sorte, não ficou doente, a não ser já próximo à libertação dos campos pelos soviéticos; conhecia um pouco de alemão, fundamental para sobreviver naquela babel caótica; pela sua condição de químico pode, nos últimos meses, trabalhar num laboratório, poupando-se da neve e de trabalhos forçados – e esta sobrevivência lhe coloca uma obrigação moral em relação àqueles que pereceram nas barbáries do Holocausto, que é a de dar o seu testemunho.

Destaca, em diferentes momentos, que sua voz, assim como a dos demais sobreviventes, é apenas uma versão do que ocorreu nos Lager, não se constituindo, portanto, em uma “autêntica testemunha”. A verdadeira história dos “horrores do sistema concentracionário”, diz Levi em Os Afogados e os Sobreviventes, o testemunho válido do “aviltamento e degradação” dos campos de concentração, apenas poderia ser narrado por aqueles que, diferentemente dele, não sobreviveram, aqueles que não voltaram para contar ou voltaram mudos, aqueles que tocaram o fundo, aqueles “que submergiram – são eles as testemunhas integrais, cujo depoimento teria um significado geral. Eles são a regra, nós [os sobreviventes], a exceção” (p.66). O verdadeiro testemunho somente poderia vir daqueles que pereceram frente à barbárie absoluta. Porém, ainda que a sua narrativa seja reconhecidamente parcial, ela, assim como a dos demais sobreviventes, é necessária, imprescindível, pois somente a partir destas vozes que testemunharam, ainda que parcialmente, as manifestações do horror dos campos é que é possível conhecer o que, de fato, foi do Holocausto.

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A escrita de Levi é movida pelo pavor da repetição. Daí, querer ser ouvido principalmente pelos jovens, pelas novas gerações que não testemunharam o genocídio da Shoá; teme que seu discurso caia no vazio, não tenha ressonância, seja encarado com ceticismo. No texto “Aquele trem para Auschwitz”, contido em Assim foi Auschwitz, Levi diz que seu testemunho objetiva precisamente “que nada semelhante volte a acontecer” (p.153). Por isso, a batalha constante que trava contra o esquecimento. Embora, para muitos, possa ser desagradável, indelicado, constrangedor ouvir sobre aquele passado – havendo, inclusive, aqueles que preferem apagar a história e olhar para o futuro –, Levi, ainda que sob o risco de ser acusado de “vitimização ou de amor gratuito ao macabro”, insiste, persevera, persiste em quebrar o silêncio. “O silêncio, nesse caso”, ressalta Levi, é “um erro, quase um crime”, na medida em que pode “adiar e evitar o juízo histórico” sobre aqueles que cometeram as barbaridades e, mais grave ainda, impede que se reflita sobre as “reservas de perversidade que jazem no fundo do espírito humano e os perigos que ameaçam, tanto hoje como ontem, nossa civilização” (Assim foi Auschwitz, p.74-5).

Levi tem plena consciência de que muito do esforço no sentido de silenciar e tentar jogar uma pá de cal sobre o passado se relaciona com o sentimento de vergonha que muitos ainda sentem, mesmo aqueles não diretamente envolvidos com a barbárie perpetrada nos campos de concentração. A vergonha vem, sobretudo, da percepção de que todos nós pertencemos “à mesma família humana a que pertenceram nossos carrascos” (A Assimetria e a Vida, p.4). Mas, ressalta, é precisamente por saber que foram os próprios homens, “filhos dessa Europa”, que carregam em si “reservas de perversidade e de loucura”, que produziram Auschwitz, que legitimaram o código racial e as câmaras de gás, que produziram esta “obra demoníaca”, é que é preciso falar, que é necessário estar permanentemente em vigília, lembrando sempre daquela trágica experiência. Justamente pelo fato de terem sido os homens, de carne e osso, a criarem Auschwitz, esta experiência pode voltar a ocorrer. Pergunta Levi provocativamente ao leitor: “Quem pode se dizer seguro de estar imune à infecção?” (Assim foi Auschwitz, p.67).

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Para quebrar o silêncio sobre o passado, é preciso disputar a memória sobre seu significado e, sobretudo, combater qualquer tipo de interpretação revisionista, que busque negar ou até mesmo relativizar o que foi o Holocausto e o que foram os campos de concentração. Como destaca Levi no artigo “Nós estávamos lá”, em A Assimetria e Vida, para aqueles que porventura tenham quaisquer dúvidas sobre a existência da barbárie, basta que consultem os documentos, interroguem os sobreviventes, ouçam deles “o que significou ver companheiros morrendo, um a um, sentir-se morrer dia a dia durante um, dois anos, viver sem esperança à sombra das chaminés dos crematórios, voltar (quem voltou) e encontrar a família destruída” (p.88). Se ainda permanecerem em dúvida, necessitam encontrar alguma explicação plausível para a redução de 17 milhões de judeus em 1939 para 11 milhões em 1945, além de precisarem desmentir cada um dos sobreviventes e as “centenas de milhares de viúvas e órfãos” (Idem). Levi não apenas critica aqueles que adotam este tipo de interpretação negacionista sobre o passado, mas o silêncio daqueles que se calam ao ouvir argumentos deste tipo. Ao criticar um professor francês revisionista, que pregava “balelas a alunos desinformados”, negando o Holocausto, Levi questiona: “Nenhum deles [alunos] levantou a mão para protestar? E o que fizeram as autoridades escolares e judiciais na França? Toleraram que o senhor, negando os mortos, os matasse pela segunda vez?” (Idem).

Nesta disputa em torno da memória do passado, Levi não se contrapõe, a priori, à produção de filmes, séries, documentários, exposições e à construção de monumentos que façam referência à Shoá. Como bem analisado por Andreas Huyssen, em seu livro Seduzidos pela Memória, na discussão sobre a memória do Holocausto, há um embate entre, de um lado, aqueles que defendem que materiais imagéticos como estes, sobretudo aqueles produzidos pela indústria cultural, tendem a fossilizar o passado ou a criar determinados estereótipos perversos; e, de outro, aqueles que vislumbram potencialidades na mobilização destes mesmos materiais nas batalhas pela memória. A depreender da leitura dos textos que compõem as coletâneas aqui analisadas, é possível dizer que Levi se encontra no segundo grupo. Reconhece que apenas as palavras não são suficientes para descrever o que significou o Holocausto, até mesmo pelo fato de as palavras que utilizamos cotidianamente para abordar “as coisas de todos os dias” não serem úteis para falar daquela experiência que era, de fato, de “outro mundo” e que, por conseguinte, requereria “uma linguagem ‘do outro mundo’”. Ademais, as palavras apenas não bastam para falar da experiência da barbárie, pois “vivemos na civilização da imagem gravada, multiplicada e teletransmitida, e o público, em especial, o jovem, está cada vez menos propenso a fruir a informação escrita” (A Assimetria e a Vida, p.137).

Nesse sentido, ao comentar, a série Holocausto, em texto intitulado “Para que não se repitam os holocaustos de ontem (matanças nazistas, multidões e TV)”, publicado em A Assimetria e a Vida, Levi diz que programas televisivos como este podem contribuir “para divulgar fatos silenciados durante tempo demais (atendendo a interesses) e para dar a conhecer uma tragédia inigualável até então”. Em outra ocasião, ao abordar a “Exposição da Deportação”, em Turim, no artigo “Milagre em Turim”, contido em Assim foi Auschwitz, Levi também valoriza seu sucesso como um movimento importante no sentido de chamar a atenção para os horrores do Holocausto. Em outro momento, defende a construção de um monumento em homenagem a Auschwitz, destacando a importância de se erguer um monumento-advertência “para que sirva de testemunho, para que repita uma mensagem não nova na história, mas esquecida com demasiada frequência: que o homem é e deve ser sagrado para o homem, em qualquer lugar e sempre” (A Assimetria e a Vida, p.10).

Porém, ainda que reconheça a importância de séries, exposições e monumentos para recordar os horrores da Shoá, Levi não se mostra alheio aos riscos envolvidos na mobilização destes materiais imagéticos na batalha da memória sobre o passado, em especial aqueles produzidos pela indústria cultural. Diz o autor no texto sobre a série Holocausto: “não há como reprimir um calafrio quando se pensa no que poderia acontecer caso o tema escolhido fosse diferente ou oposto, num país onde a televisão fosse voz exclusiva do Estado, não submetida a controles democráticos nem acessível à crítica dos espectadores” (p.97-8). Ou seja, da mesma forma que estes meios, quando mobilizados por setores democráticos, podem contribuir para a reflexão crítica sobre a experiência do Holocausto e de outras catástrofes provocadas pela humanidade, eles também podem, caso empregados por grupos com interesses autoritários, serem utilizados para a relativização dessas mesmas barbáries. Daí a importância – para dialogar com Huyssen – de não se reduzir a importância da indústria cultural nas batalhas de memória, apropriando-se criticamente dela para a conscientização sobre os horrores ocorridos no passado e para o fortalecimento de uma vigilância política de sorte a impedir que eles voltem a ocorrer.

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Para além dos aspectos da reflexão de Levi acima mencionados, há ainda a se destacar nos livros recentemente publicados no Brasil dois aspectos que se articulam, mas não se esgotam e que merecem ser mais bem analisados, a saber: sua percepção quanto à participação de setores da sociedade civil no Holocausto e sua análise sofisticada da complexidade da experiência nazifascista, em especial dos campos de concentração, a partir do conceito de “zona cinzenta”. Em relação ao primeiro aspecto, é importante destacar que ao longo dos últimos anos diversas pesquisas – a exemplo daquelas que compõem os três volumes organizados por Denise Rollemberg e Samantha Quadrat, A Construção Social dos Regimes Autoritários (Civilização Brasileira, 2010) – vêm buscando chamar a atenção para o fato de que não é possível compreender regimes autoritários, a exemplo do nazifascismo, como se funcionassem a partir de uma rígida dicotomia entre, de um lado, um Estado repressor e, de outro, uma sociedade civil que apenas seria vítima passiva das opressões conduzidas pelos agentes governamentais. Estas interpretações têm como substrato a crítica à ideia de que o mal e suas manifestações várias estariam concentrados apenas naquelas lideranças que conduziram o Estado repressor, apontando, em contrapartida, para o fato de que setores da sociedade civil participaram direta ou indiretamente, de forma explícita ou implícita, daquela barbárie.

Se, a despeito das suas particularidades, esta ideia já estava, de alguma forma, presente nas reflexões de Adorno em A personalidade autoritária, e de Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém, assim como no próprio Primo Levi de É isto um homem? – ao destacar que o mal que se manifestava nos campos de concentração era exercido não por homens “diferentes”, “especiais”, mas por pessoas comuns, feitos da mesma substância que nós –, esta reflexão, aparece novamente, a partir de prismas diversos, em vários dos artigos que compõem as obras aqui analisadas. O mal, nesse sentido, não se encerrava somente nas lideranças nazistas, nas figuras de maior destaque na administração do Terceiro Reich e nos soldados SS que conduziam as atrocidades e a violência desmedida no interior dos Lager, mas ele também se manifestava no apoio aberto ou no silêncio cúmplice de diversos setores da sociedade civil que sustentaram deliberadamente ou decidiram se calar diante do horror.

No “Prefácio” de Os Afogados e os Sobreviventes, Levi chama a atenção para o fato de que ninguém jamais conseguirá saber ao certo quantos “não podiam deixar de saber das atrocidades espantosas que eram cometidas; quantos sabiam alguma coisa, mas podiam fingir ignorância; quantos, ainda, tinham a possibilidade de saber tudo, mas escolheram o caminho mais prudente de tapar olhos e ouvidos (e, sobretudo, a boca)” (p.10, grifos do autor). A vileza teria se tornado hábito, “tão profunda que impedia os maridos de contar às mulheres, os pais aos filhos; sem a qual não se teriam chegado aos maiores excessos, e a Europa e o mundo hoje, seriam diferentes” (Idem). Em diferentes textos das coletâneas aqui analisadas, Levi se preocupa em destacar o apoio da indústria bélica alemã, de empresas agrícolas, de fábricas de armamentos, que obtinham lucro da mão de obra fornecida pelos campos de concentração, e sem as quais não teria sido possível ações diversas, como o transporte dos prisioneiros para os campos, a construção de fornos crematórios e a utilização de gases venenosos em volume exorbitante nas câmaras de gás. As dúvidas geradas com os pedidos realizados a estas fábricas pelos diretores dos Lager – e é provável que elas não tenham sido poucas – “foram sufocadas”, segundo Levi, “pelo medo, pela avidez de lucro, pela cegueira e estupidez voluntária que mencionamos e, em alguns casos (provavelmente poucos) pela fanática obediência nazista” (p.11). Diz Levi no texto “Testemunho para Eichmann”, de Assim foi Auschwitz:

“Um gás originalmente destinado a exterminar porões de navios, que o exército da SS encomenda em quantidades exorbitantes à IG Farben. Essa indústria despacha diligentemente os pedidos, recebe as faturas e não se preocupa com mais nada. Estará em curso uma invasão de ratos? Melhor não perguntar para não saber: os industriais alemães salvam a consciência e lucram com o veneno. A empresa Topf & Söhne, de Erfurt, especializada em construções com ferro (…) aceita a encomenda de um crematório capaz de destruir mil cadáveres por hora (…): a demonstração despudorada da facilidade com que o mal prevalece” (p.88).

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Levi procura refletir precisamente sobre a “facilidade com que o mal prevalece”, mal este que não se evidencia apenas nos vínculos do nazifascismo com as grandes corporações, mas também no silêncio cúmplice de homens comuns, que preferiram se calar frente ao genocídio em curso. Há a percepção – e esta é uma questão fundamental na obra de Levi – de um “contágio do mal”, como ele destaca no “Prefácio a A Noite dos Girondinos, de J. Presser”, publicado em A Assimetria e a Vida. O mal, nessa perspectiva, tal como a peste no romance de Albert Camus, uma vez não controlado, contagia, se alastra, se expande: o mal, dirá Levi, “desumaniza os outros, cada crime se irradia, se transplanta em torno de si mesmo, corrompe as consciências, e se cerca de cúmplices subtraído ao campo adversário por meio do medo ou da sedução” (p.60). E o que é mais perverso é que o mal não contagia apenas algozes e repressores, mas também as próprias vítimas da barbárie. O interior dos Lager se transforma, todo ele, em um microcosmo da manifestação do mal, espelhando fielmente, como diz no texto “Assim foi Auschwitz”, “o tecido social do Estado totalitário, onde (pelo menos em teoria) a Ordem reina soberana”, uma “ordem sem direito” (p.138).

Em texto intitulado “A Europa dos campos de concentração”, publicado em Assim foi Auschwitz, Levi afirma que “mesmo a fraternidade e a solidariedade, última força e esperança dos oprimidos, desaparecem nos campos de concentração. É uma luta de todos contra todos”; “a lei do campo o transformou num lobo: e você mesmo precisa lutar para continuar homem” (p.133). “Não há prisioneiro que não se recorde”, afirma Levi em Os Afogados e os Sobreviventes, que “as primeiras ameaças, os primeiros insultos, os primeiros golpes não vinham dos SS, mas de outros prisioneiros, de ‘colegas’, daqueles misteriosos personagens que também vestiam o mesmo uniforme de listras recém-vestido pelos novatos” (p.15). Nos diversos relatos de sobreviventes dos Lager, o que aparece, segundo Levi, é que o primeiro choque contra a realidade concentracionária coincidia precisamente “com a agressão, não prevista e não compreendida, por parte de um inimigo novo e estranho, o prisioneiro-funcionário, que, ao invés de lhe pegar a mão, tranquilizá-lo, ensinar-lhe o caminho, se arroja sobre você gritando numa língua desconhecida e lhe golpeia o rosto”. Este novo inimigo “quer domá-lo, quer apagar a centelha de dignidade que você talvez ainda conserve e que ele perdeu impossibilidade de resistência” (p.31). Nessa perspectiva, não há como ver o interior dos campos de concentração apenas como espaços de repressão de SS contra prisioneiros passivos: ele se constituía antes, como mencionado anteriormente, em “um microcosmo intrincado e estratificado; a ‘zona cinzenta’”, “aquela dos prisioneiros que, em alguma medida, talvez com boa intenção, colaboraram com a autoridade” (“Assim foi Auschwitz”, p.138).

Em um primoroso capítulo de Os Afogados e os Sobreviventes, Levi aprofunda sua reflexão sobre a “zona cinzenta” e aquelas vítimas que colaboraram, de uma forma ou de outra, com a violência no interior do Lager. Ao criticar “a história tal como é tradicionalmente ensinada nas escolas”, Levi problematiza a “tendência maniqueísta” que se tem de pensar a história em termos dicotômicos, simplistas, evitando-se “os meios tons e a complexidade”; tende-se, sempre, “a reduzir a torrente dos acontecimentos humanos aos conflitos, e os conflitos a duelos, nós e eles, o atenienses e os espartanos, os romanos e os cartaginenses” (p.27). Ainda que o “desejo de simplificação” seja justificado, “a simplificação nem sempre o é”, na medida em que “a maior parte dos fenômenos históricos e naturais não é simples ou, pelo menos, não tem a simplicidade que nos agradaria” (p.28, grifos do autor). Sobretudo neste “abismo de maldade” que é o campo de concentração, esta questão se torna ainda mais complexa: a rede das relações humanas no interior dos Lager não pode ser reduzida, segundo Levi, “a dois blocos, o das vítimas e o dos opressores”, “o bem e o mal”, “aqui os justos, lá os réprobos”. O mundo dos campos de concentração é o mundo do “indecifrável”, não se conforma a “nenhum modelo, o inimigo estava ao redor, mas também dentro”; neste espaço de violência desmedida, “o ‘nós’ perdia seus limites, os contendores não eram dois, não se distinguia uma fronteira, mas muitas e confusas, talvez inúmeras, separando cada um do outro”. O que havia, de fato, eram “mil mônadas impermeáveis e, entre elas, uma luta desesperada, oculta e contínua” pela sobrevivência (p.28).

A “zona cinzenta” é, precisamente, o território da colaboração, a jurisdição moral marcada por “contornos mal definidos”, que ao mesmo tempo separam e unem “o campo dos senhores e dos escravos” (p.32), no qual a figura do Kapo, o judeu que colabora cometendo “contra seus subordinados as piores atrocidades a título de punição para qualquer transgressão, ou mesmo sem motivo algum”, ganha proeminência. As vítimas colaboram com os algozes por razões várias: “terror, engodo ideológico, imitação barata do vencedor, ânsia míope por um poder qualquer, mesmo que ridicularmente circunscrito no espaço e no tempo, covardia, e até lúcido cálculo dirigido para escapar das regras e da ordem imposta” (p.33); mas, o que se pretende, ao fim e ao cabo, é conquistar e preservar um privilégio, ainda que ele seja provisório, efêmero, passageiro, e se ancore em uma ordem na qual o privilegiado nunca supera, de fato, sua condição, sendo objeto permanente da repressão que ele ajuda a perpetuar.

Em diferentes passagens, Levi busca refletir sobre as complexidades do Lager e da impossibilidade de analisar as relações que lá se constroem a partir de dicotomias simplistas. Em um trecho forte de Os Afogados e os Sobreviventes, Levi analisa a condição abominável daqueles que pertenciam aos “Esquadrões especiais”, o Sonderkommando, que eram grupos compostos por judeus responsáveis pelo trabalho nas câmaras de gás e nos fornos crematórios, “escravos embrutecidos pelo álcool e pelo extermínio cotidiano”. “Ter concebido e organizado” estes esquadrões, ter possibilitado a existência destes “corvos do forno crematório”, afirma Levi, “foi o delito mais demoníaco do nacional-socialismo”, pois buscava-se, a partir deles, “transferir para outrem, e precisamente para as vítimas, o peso do crime, de tal sorte que para o consolo delas não ficasse nem a consciência de ser inocente”.

E é ao abordar os Esquadrões Especiais, que Levi reflete sobre o episódio de uma menina de dezesseis anos que, milagrosamente, sobrevive à câmara de gás. Tendo se dirigido para recolher os milhares de corpos, como rotineiramente procediam, estes homens, completamente despidos da humanidade que lhes foi retirada pelo Lager, se deparam com a sobrevivente e não sabem o que fazer, como se comportar; ao verem aquela cena, eles se transformam: “diante deles”, diz Levi, “não há mais a massa anônima, a torrente de pessoas espantadas, atônitas, que desce dos vagões: há uma pessoa” (p.43). Diante daquela vítima, os membros do Esquadrão, assim como um dos SS responsável pela supervisão daquela barbárie, ficam paralisados. A menina, que era apenas mais uma em meio à multidão, ganhou corpo, carne, se transformou em indivíduo, em pessoa; o abstrato ganhou concretude, colocando dilemas morais para aquelas pessoas que pareciam estar completamente embrutecidas moralmente, completamente despidas de qualquer humanidade e sentimento de piedade.

Para Levi, episódios trágicos como estes da menina sobrevivente espantam pela razão de contrariarem “a imagem que abrigamos em nós do homem concorde consigo mesmo, coerente, monolítico”. Porém, “não deveria espantar, porque o homem não é assim”: “piedade e brutalidade”, diz ele, “podem coexistir no mesmo indivíduo e no mesmo momento, contra toda a lógica; de resto, a própria piedade foge à lógica” (p.43). Para Levi, “não existe proporção entre a piedade que experimentamos e a dor que suscita e piedade: uma só Anne Frank gera mais comoção do que uma infinidade que sofreu como ela, mas cuja imagem permaneceu na sombra” (p.44). Mas, talvez, reflete Levi, seja esta a única piedade possível para o ser humano real, de “carne e sangue”, aquela que está ao alcance imediato de nós: “se devêssemos e pudéssemos sofrer os sofrimentos de todos, não poderíamos viver”, sendo, que somente “aos santos seja concedido o terrível dom da piedade por muitos” (Idem).

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O que Levi procura fazer ao aprofundar as reflexões acima mencionadas é justamente chamar a atenção para as dificuldades que se colocam para todos aqueles que desejam julgar o outro. Em Os Afogados e os Sobreviventes, ressalta a importância de “estar em guarda contra os juízos a posteriori e os estereótipos”, evitando “o erro que consiste em julgar épocas e lugares distantes com o metro que prevalece aqui e agora: erro tão mais difícil de evitar quanto maior for a distância no espaço e no tempo” (p.134). É necessário que se medite com “piedade e rigor” sobre as complexidades das relações que se constroem em um regime autoritário e dentro de um campo de concentração. “Uma ordem infernal, como o nacional-socialismo”, dirá Levi, em Os Afogados e os Sobreviventes, “exerce um espantoso poder de corrupção, do qual é difícil escapar. Degrada suas vítimas e torna-as semelhantes a si, porque são necessárias cumplicidades, grandes e pequenas” (p.53). “É próprio aos regimes despóticos”, afirma no “Prefácio a Uomani ad Aschwitz, de H. Langbein”, publicado em A Assimetria e a Vida, “restringir a liberdade de escolha dos indivíduos, tornando ambíguos seus atos e paralisando nossa faculdade de julgamento” (p.135).

Nesse sentido, antes de emitir um juízo moral definitivo sobre o outro, sobre aqueles que colaboraram ou que se beneficiaram de alguma forma do regime e no interior do Lager, intimamente, devemos nos perguntar: “como se comportaria cada um de nós se fossemos premidos pela necessidade e, ao mesmo tempo, atraídos pela sedução?” (Os Afogados e os Sobreviventes, p.53). Não se trata aqui, por suposto, de reduzir ou relativizar as responsabilidades daqueles indivíduos que promoveram as atrocidades nos campos de concentração ou que colaboraram implícita ou explicitamente com o regime nazifascista, colocando-se a culpa apenas sobre o sistema e a estrutura do Estado autoritário: “a condição de vítima não exclui a culpa, e esta com frequência é objetivamente grave”. A necessidade da responsabilização destes indivíduos é um dos motes que atravessam diferentes textos escritos pelo autor, assim como sua participação como testemunha em diversos julgamentos voltados para a punição daqueles que participaram da barbárie também é prova cabal do compromisso do escritor italiano com a necessidade de se punir os culpados do Holocausto. Porém, a questão aqui é mais profunda. Trata-se de fazer pensar sobre “a quem cabe a culpa do mal cometido (ou o que se permitiu que fosse cometido)?”. Deve-se responsabilizar o indivíduo “que se deixou convencer ou ao regime que o convenceu?”. Responde, Levi: tanto ao indivíduo, quanto ao regime. Porém, “em que medida é algo que deve ser julgado com extrema cautela e caso a caso; e isso exatamente porque nós não somos totalitários, e as rotulagens genéricas, de que os regimes totalitários tanto gostam, é coisa que nos repugna” (A Assimetria e a Vida, p.135).

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Em meio à complexidade da heterogeneidade de comportamentos possíveis nos campos de concentração, Levi reflete também sobre o tema da não resistência e da resistência. Quanto à não resistência, em Os Afogados e os Sobreviventes, o autor coloca entre as explicações possíveis para este tipo de postura “a desnutrição, a privação e outros sofrimentos físicos”, que, “antes de destruir, paralisam; ainda mais quando são precedidos por anos de segregação, humilhação, maus-tratos, migrações forçadas, dilaceramento dos laços familiares, ruptura dos contatos com o resto do mundo” (p.61). Nesse sentido, a não resistência é o comportamento mais esperado destas massas amorfas, não havendo, portanto, como criticar aqueles que se comportaram desta maneira. Porém, diz Levi, ainda que “no plano racional” não haja “muito do que se envergonhar”, a vergonha acaba por pesar sobre os ombros daqueles que não resistiram: “conscientemente ou não”, aquele que não o fez, “sente-se acusado e julgado, forçado a justificar-se e a defender-se”, ou, o que é mais comum, tende à “autoacusação, ou a acusação, de ter falhado no aspecto de solidariedade humana” (p.61). Como se não bastassem todas as violências sofridas no interior do Lager, ainda resta ao sobrevivente dos campos o fardo desta injusta cobrança, o peso desta culpa, que se soma à vergonha e ao permanente perguntar-se sobre as razões de, em meio a tantos mortos, ter ele sobrevivido.

Tendo refletido de forma sensível sobre o tema da não resistência, Levi dedica várias páginas no sentido de valorizar a postura daqueles que resistiram e que tentaram se sublevar contra o sistema concentracionário, a exemplo do que ocorreu nos guetos poloneses, feito este, ressalte-se, facilitado principalmente nos campos nos quais os presos políticos eram mais numerosos. Em artigo intitulado “A resistência nos campos de concentração”, publicado em A Assimetria e a Vida, Levi valoriza “o fato de nessa situação desumana, em meio a um amontoado humano discrepante e incoeso, esgotado pelo cansaço e pelos massacres periódicos, também ter brotado a semente da resistência europeia ao fascismo” (p.28). Esta resistência, para o autor, “deve ser incluída no rol das maiores vitórias do espírito sobre a carne, das façanhas mais heroicas da história humana, que são as mais desesperadas, aqueles em que se luta sem nenhum respaldo, em que nenhuma esperança de vitória sustenta os combatentes e renova sua força” (Idem). Além de conferir destaque especial ao “mais importante episódio de rebelião ativa contra o poder nazista nos campos de extermínio”, que foi a insurreição dos Sonderkommando de Auschwitz-Birkenau, em outubro de 1944, que, apesar de massacrada, teve o mérito de demonstrar “que os alemães não eram invencíveis” (p.33), Levi valoriza as resistências cotidianas, aquelas aparentemente mais comezinhas que se davam no dia a dia do Lager. Os diferentes episódios de resistência contra os regimes nazifascistas, dentro e fora dos campos, demonstram, como destaca Levi no texto “Os temerários do Gueto”, contido em A Assimetria e a Vida, “que, mesmo onde tudo está perdido, ao ser humano é concedida a possibilidade de salvar sua dignidade e, com ela, a das gerações vindouras” (p.126, grifo meu).

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A obsessão de Levi pela necessidade de falar e de conscientizar seus leitores sobre a experiência nazifascista é que conduz à possibilidade de classificá-lo como um moralista – no melhor sentido do termo –, a exemplo do que faz Italo Calvino no texto de apresentação de O Ofício Alheio. Sua prosa moralista está atravessada, em alguns momentos, pela retórica bíblica messiânica – assim como outros escritores de origem judaica, como Ernst Bloch e Walter Benjamin –, fazendo referências a temas como condenação, recaída, resgate, retorno trágico e libertação, como ele mesmo reconhece no ensaio “Itinerário de um escritor judeu” (1982), em Assimetria e a Vida, ao relembrar a escrita do ensaio É isto um homem?. Mas, ainda que ancorada na tradição religiosa, trata-se de uma prosa moralista laica. E, diferentemente do marxismo sombrio de autores como Adorno e Horkheimer, a moral de Levi não é pessimista, sendo marcada, nessa perspectiva, por um “otimismo moral”. Como destaca James Wood, em texto intitulado “The art of witness” – publicado na The New Yorker, quando da publicação dos trabalhos completos do autor nos Estados Unidos (The Complete Works of Primo Levi, 2015) –, se, em alguns aspectos, a visão de Levi é pessimista, lembrando-nos, a partir da experiência dos campos de concentração, o quão cruel pode ser o homem, de outra parte, Levi não é um “teólogo trágico”; há certo “otimismo moral” que subjaz a sua reflexão, ancorado, especialmente, em uma crença profunda na dignidade humana.

Para além de todas as qualidades e potencialidades reflexivas dos textos de Primo Levi, é precisamente a duplicidade que ancora suas análises – duplicidade assentada de um lado, na percepção da presença constante do mal e da possibilidade de sua repetição; e de outro, na sua crença na dignidade humana – que o torna um escritor ainda tão atual para a compreensão e o enfrentamento dos enormes desafios colocados no tempo presente. Como fazem crer episódios vários – a exemplo do fortalecimento da extrema-direita pelo mundo e a passividade com que se assiste à tragédia dos milhares de refugiados da Síria –, o que vemos é a reiteração do mal em seus mais variados matizes. Adverte Levi, em artigo intitulado “Um passado que acreditávamos não mais voltar”, publicado em Assimetria e a Vida: “Cada época tem seu fascismo: seus sinais premonitórios são notados onde quer que a concentração de poder negue ao cidadão a possibilidade e a capacidade de expressar e realizar sua vontade” (p.56). Ao fascismo se chega “de muitos modos, não necessariamente com terror e intimidação policial, mas também negando ou distorcendo informações, corrompendo a justiça, paralisando a educação, divulgando de muitas maneiras sutis a saudade de um mundo no qual a ordem reinava soberana e a segurança dos poucos privilegiados se baseava no trabalho forçado e no silêncio forçado da maioria” (Idem).

Para se contrapor às diversas formas de retorno ao fascismo é preciso, mais que nunca, resistir, lutar no terreno democrático para que ele não ganhe força, não conquiste novas pessoas, novos corações e mentes, não se manifeste em palavras e atos, não resulte em novos processos de opressão; é imperativo combater para que, em qualquer fresta, em qualquer abertura na qual o fascismo manifeste, ainda que timidamente, sua face, sua voz, a ele sejam contrapostos os valores associados à dignidade humana, que devem se sobrepor e ganhar proeminência. A batalha contra o fascismo se faz no dia a dia, cotidianamente. A pergunta que Primo Levi formula em “Assim foi Auschwitz”, em 1975, permanece, mais do que nunca, atual para os dias de hoje, e deveria nos servir como um alerta permanente: “É pedir demais que nos oponhamos a ele [fascismo] desde o início?” (p.138).

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.boundary2.org/wp-content/uploads/2016/01/Primo-Levi.jpg&gt;. Acesso em: 21 dez 2016.

 

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