Maro Lara Martins*

Chegamos ao último mês do ano, o aproximar das confraternizações familiares, universo do privado por excelência, com as abundantes ceias de Natal, de olho nas peripécias que o mundo político ainda há de trazer. Difícil estabelecer previsões ou tirar conclusões. Nada parece se estabelecer de forma definitiva no campo da interpretação. Talvez decorra daí certa dificuldade das famosas análises de conjuntura, vindas das ciências sociais, com a sua força interpretativa de atuação no mundo público. O contemporâneo, temporalidade a pregar peças em todos nós. Entre messianismos da profissão ou mesmo certa fé no ofício, entre a crença nas ciências sociais e na sua predileção que nos poderia guiar rumo a águas calmas, ou mesmo esperança de que a interpretação seja necessária e urgente. Nada disso parece se confirmar nesta onda de imprevisibilidade.

Sem dúvida tal processo de ausência de previsibilidade no mundo da vida deita raízes no processo de destituição da presidenta eleita e nas manobras obscuras de personagens do mundo político, na atuação da grande mídia, no papel do judiciário, no empresariado fiesp, em parcela da classe média, que contribuíram para a anatomia do processo de desestabilização da previsibilidade dos acontecimentos. O ano de 2016, conhecido como o ano que não se queria findar, página de roteiro de filme ruim, ou o repositório necrológico de figuras como David Bowie, Leonard Cohen, Prince, Cauby Peixoto, Ferreira Gullar e ainda Fidel Castro e Paulo Evaristo Arns. O roteiro, cuja página, o ano desgostoso não acabara de compor, foi muito narrado por diferentes personagens em fontes diversas e de diferentes matizes. Desde a reflexão sobre a separação entre forma e conteúdo, passando pelo pêndulo desproporcional entre ação/punição, o hiperativismo do Judiciário, a seletividade e desrespeito às regras, até as análises que elevam os personagens centrais desta trama, Lula, Dilma, Temer, Cunha, Moro, a reencenar a composição historiográfica dos grandes heróis e do oficialismo passado.

Aí mesmo a denúncia, nada pueril do golpe de Estado, ao enunciar as suas frentes parlamentares, jurídicas, midiáticas, e, porque não dizer, civis. Falta-lhe uma nomeação: um golpe parlamentar-jurídico-midiático-civil? Tantos são os envolvidos. Tamanha orquestração. E que cronologia de eventos e simultaneidade de ações destes personagens! Tantos outros já fizeram e vem fazendo trabalho minucioso de reflexão sobre os motivos do golpe. Aqui, talvez, um pequeno sopro que não consegue fazer barquinho à vela andar.

De todo modo, estas interpretações tenderiam a desempenhar papel importante na agenda pública do país, pelo menos do ponto de vista do debate republicano. Procedimentalismos à parte, certa desilusão com o sufrágio, vontade popular, consistentes com os últimos acontecimentos, fazem tremer a ideia liberal da representação. Extrapolar, ainda que pelo trágico, o andamento das instituições, que sempre foram, mesmo sob condições democráticas dos últimos anos, espumas do mar. Não é propriamente anti-institucionalismo. Afinal, é necessária alguma arquitetura institucional do Estado. Ainda que a Carta de 1988 tenha legado, durante as últimas três décadas, o funcionamento institucional do Estado, sua abertura e flexibilidade deveriam ser utilizadas. Sob o ponto de vista democrático, obviedade repensar profundamente a organização do Estado. Se a democracia é mais que mero procedimento formalista de apertar botões na urna eletrônica de tempos em tempos, sua efervescência societal parece ter cedido lugar a composições heterogêneas do papel do ativismo político na democracia. Forçar o encontro da democratização social com a democracia política.

Entretanto, tal encontro, necessita de instituições que revigorem tanto a forma quanto o conteúdo da democracia tropical. A começar pelo fundamento de todas as instituições: rotina. Rotina, meus caros. Nada mais cotidiano do que rotina. Sem previsibilidade a rotina se torna algo destituído de seu conteúdo. Não que a vida deva ser convenientemente ordenada por padrões de repetição. Certas rupturas são necessárias a oxigenar a vida. Mas no olho do furacão, ainda não avistamos certa serenidade factual no horizonte a dotar de conteúdo o mundo vazio dos eventos que ainda não se ordenaram.

O Natal se aproxima, nem a previsibilidade de ouvirmos a composição de Cláudio Rabello na voz de Simone, teremos mais. A festa cristã do mundo familiar. Nascimento de Cristo e montagem do presépio, da árvore de Natal, sincretismos que todo ano se repetem, mas que não causam estranheza. Nenhuma estranheza de se combinar elementos tão diversos, quase fantasiosos alguns, por demais místicos outros. Mas, o fato é que o pavê de outrora, ou a ave principal da ceia, desposarão sua atenção a outros enredos. Delatores e delações, arapongagens, gravações ilegais, divulgações à margem da legislação. Todos personagens bem conhecidos da história política do país. Como são bem conhecidos os golpes de Estado entre nós. Como são conhecidos as incapacidades de respeito à rotina democrática. E como são duras as dificuldades enfrentadas a partir das dualidades básicas já anunciadas pelos nossos clássicos. Público e privado, razão e sentimento, interesse e virtude (título de minha tese de doutorado), campo e cidade, rural e urbano, moderno e atraso.

Postos sob a ótica de uma procura pelos meandros que engendrariam o caminhar do tempo histórico do país, essas dualidades conformariam o que há de mais original e perverso na nossa Revolução Passiva. Esta tradição fincada desde o momento inicial do Estado-Nação parece sempre nos conduzir e nos lembrar de que nosso caminho é no fio da navalha. Mas Papai Noel é barbudo. Ademais, olhar em direção a esta tradição, e claro, a seus intelectuais, atores fundamentais para a organização da cultura, lança luz sobre a natureza deste transformismo que a tudo corrói. Nada mais justo do que “tudo que é sólido se desmancha no ar” mesmo as impossibilidades e insucessos. Talvez, mesmo o pessimismo mais profundo pode ser contraposto a motivos bem compreendidos, em uma valorização dialética de todo empenho dirigido a converter a engrenagem do tempo desenvolvendo uma perspectiva crítica que finque as condições para uma guerra de posições capaz de desorganizar e substituir a hegemonia dominante.  Caminharmos na certeza de quem somos, para sermos outro. Então é Natal, piadas grosseiras e sem nenhuma pista de por onde anda a Simone e a sua “Então é Natal, a festa cristã, do velho e do novo”.

*Maro Lara Martins é doutor em Sociologia (IESP/Uerj), professor da Universidade Federal do Espírito Santo, e colaborador da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <http://virgula.uol.com.br/inacreditavel/fotos-antigas-de-papais-noeis-podem-ser-bem-sinistras-da-uma-olhada-nesta-galeria-aqui/#img=1&galleryId=893667&gt;. Acesso em: 15 dez 2016.

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