Theófilo Rodrigues*

Desde sua fundação em 16 de janeiro de 2014, o Podemos passou a ser o queridinho de analistas políticos e ativistas sociais entusiastas de sua “nova cultura política”. Em apenas dois anos de existência, o partido logrou ser a terceira maior força espanhola capaz, inclusive, de paralisar o processo decisório no país.

Contudo, nos últimos meses, suas divisões internas assumiram mais protagonismo nas mídias do que seu projeto político propriamente dito. E o sinal de alerta acendeu na militância.

Poucos comentam, mas o fato é que o Podemos não é homogêneo e hoje está dividido em pelo menos três grandes correntes: os pablistas, liderados pelo secretário geral, Pablo Iglesias; os errejonistas, ligados ao segundo do partido, o secretário político Íñigo Errejón; e os Anticapitalistas, cujos nomes mais expressivos são os eurodeputados Miguel Urbán e Teresa Rodriguez.

Programaticamente, os Anticapitalistas representam a força mais à esquerda no espectro político interno, enquanto os errejonistas constam como os mais moderados. Entre essas duas correntes estão os pablistas, mais próximos dos Anticapitalistas.

Ainda que as razões possam ser mais antigas, um importante marco para a divisão entre essas correntes foi certamente a demissão do Secretário de Organização do Podemos, Sergio Pascual, em 15 de março de 2016. Braço direito de Errejón, Pascual foi demitido sumariamente por Iglesias sem muitos debates. Em seu lugar – o terceiro posto mais importante do partido -, assumiu Pablo Echenique, propínquo a Iglesias. (1)

Em outubro, as provocações entre os dois líderes entraram no campo da pilhéria. Em seu Twitter, rede social de frases curtas, Iglesias criticou o fato do gesto símbolo dos errejonistas ser o V da vitória. “Todos os símbolos têm memória e, como o futuro, o seu coração é antigo. Só os medíocres pensam que a história nasceu con eles”, postou Iglesias em seu Twitter junto de uma foto em que o conservador primeiro ministro britânico Winston Churchill fazia o mesmo gesto. Ainda na postagem, a foto da comunista e feminista Angela Davis com os punhos fechados, gesto utilizado por Iglesias. (2)

Em novembro deste ano, o conflito entre os três setores tomou ares mais dramáticos com a disputa pela liderança do partido nas primárias regionais de Madrid e da Andaluzia.

Ramon Espinar, candidato pablista, conquistou o apoio dos anticapitalistas e assim se tornou o novo secretário geral do partido em Madrid, com 50,8% dos votos, contra 43.75% da candidata errejonista, Rita Maestre. Na direção do partido em Madrid – chamada de Conselho Cidadão de Madrid – composta por 34 nomes, 27 vieram da chapa Junt@ Podemos, liderada por Espinar, e apenas 7 da Adelante Podemos de Maestre. (3)

Na Andaluzia, a derrota dos errejonistas também foi evidente. A anticapitalista Teresa Rodriguez foi reeleita com 75,64% dos votos contra Carmen Lizárraga e Begona Gutiérrez. Errejón tentou, sem sucesso, uma aliança entre as duas últimas em uma única chapa. Mas, mesmo se tivesse conseguido a unidade, como se vê, isto não teria sido suficiente para derrotar Teresa Rodriguez. Dos 34 nomes eleitos para o Conselho Cidadão de Andaluzia, 27 vieram da chapa de Rodriguez, 4 de Lizárraga e 3 de Gutiérrez. (4)

Esses resultados, em particular o de Madrid, foram cruciais para Iglesias, pois reafirmaram sua força para a Assembleia nacional do partido que será realizada no início de 2017.

Ontem, dia 12 de dezembro, a disputa tornou-se ainda mais pública com uma troca de mensagens pela imprensa entre as duas principais lideranças. A segunda-feira amanheceu com uma carta de Pablo Iglesias para Errejón que foi publicada no diário 20 Minutos. “Quero um Podemos onde suas ideias e seus projetos tenham espaço, assim como os de Miguel e Teresa. Quero um Podemos em que você, um dos mais talentosos e brilhantes que já conheci, possa trabalhar ao meu lado e não contra mim”, atestou Iglesias. (5)

A resposta de Errejón veio logo em seguida em seu Facebook: “Encontramo-nos no debate, companheiro, irmão, amigo. Sem abrir mão de nada. Juntos multiplicamos. Você sabe que continuarei caminhando com você, porque devemos a nosso povo, mas principalmente porque é uma honra”, finalizou Errejón.

O tom cordial das cartas não esconde, entretanto, que a Assembleia nacional do partido a ocorrer no início de 2017, será palco de fortes embates. Para os meros espectadores, a temporada 2017 da novela Podemos promete. Já para os entusiastas da nova política que pretende mudar a Espanha e ser exemplo para movimentos e partidos de outros países, nem tanto.

* Theófilo Rodrigues é mestre em ciência política pela UFF e doutorando em ciências sociais pela PUC-Rio. Colabora com a Escuta.

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