Rafael Betencourt*

“Compreendendo toda a distância que havia entre si, as montanhas e o céu, toda a vastidão das montanhas, e sentindo toda infinitude dessa beleza, assustou-se como se fosse uma visão, um sonho(…) Talvez eu ame nela a natureza , a personificação de toda a bela natureza; mas não me sinto livre, há alguma força espontânea que a ama através de mim; todo esse mundo de Deus, toda a natureza insufla esse amor em minha alma e diz: ame.”

O trecho acima é sobre Oliênin, um personagem autobiográfico do livro “Os cossacos” de Liev Tolstoi. Sua trajetória no livro transita do profundo descrédito da civilização ocidental para a idealização de uma redenção moral na vida com a natureza, Oliênin então abandona Moscou e se junta ao exército russo na região dos cossacos, um povo guerreiro que cultiva na sua história um grande apreço pelo autogoverno e pela vida no campo nas montanhas do Cáucaso. No começo de sua jornada, o olhar de Oliênin ainda enfrenta uma natureza redentora, estática, na qual os cossacos sempre lhe parecem  parte da paisagem, divinos e inacessíveis. A mudança de percepção vem da paixão por Marianka, um sentimento que torna real, e ao mesmo tempo impossível, a vivência da ruptura de dois mundos, sociedade e natureza. Para o jovem russo o mundo natural cumpre seus desígnios divinos nas relações comunitárias dos cossacos, apesar da realidade que presencia sua idealização segue o mantendo distante.

A reflexão sobre a relação entre homem e natureza sempre esteve presente  no imaginário ocidental, seja na literatura idealizando utopias românticas e críticas à civilização industrial ou em debates políticos acirrados sobre modelos de desenvolvimento econômico. Em tempos de alerta vermelho para as consequências das transformações climáticas no planeta, falar sobre preservação ou sustentabilidade nunca  nos pareceu de uma só vez tão necessário e vazio. A urgência nos joga contra as nossas próprias limitações civilizacionais de conhecimento do mundo e nos condena a dois caminhos nesta relação com a natureza: exploração dos seus recursos sob a tutela da ideologia do progresso ou a idealização de um caminho preservacionista onde homem e natureza são irreconciliáveis. Nos dois casos nota-se o mesmo ponto de partida: o divórcio entre homem e natureza. Tal reflexão nos evidencia que o problema da sustentabilidade é um questão, sobretudo ,epistemológica. Somos herdeiros de uma matriz de pensamento onde natureza e homem se exteriorizaram, tanto na servilidade cristã da natureza em relação ao homem, ou na concepção de um individuo auto-suficiente em sua capacidade de prosperar materialmente.

No Ocidente delineou-se historicamente a percepção de que a principal distinção entre o homem e o mundo natural é a cultura. Tal oposição expressa uma ideia determinista e estática sobre a natureza, enquanto a cultura seria a detentora de toda potência humana, das possibilidades reais de transformação e evolução, da história. O professor inglês Terry Eagleton nos ensina que a oposição em questão entre cultura e natureza  pode ser também vista como entre liberdade e determinismo, e se estabelece de modo dialético, resultado de uma visão epistemológica que naturaliza tal separação. Ironicamente, a palavra “cultura” vem da ideia de cultivo agrícola, do trabalho no campo.

Os navegadores  europeus trouxeram o Ocidente ao “novo mundo”, a oposição entre civilizados e homens da natureza justificaram grandes atrocidades modernas, colonialismos e escravidão tornaram-se regra.  Os iluministas do século XVIII nos trouxeram a ideia de progresso, indicando que tudo o que se aproximasse do mundo natural seria primitivo e caótico, o futuro era o da ciência e da indústria, num movimento linear na história. O Estado de Hobbes se contrapõe a um estado de natureza de guerra de todos contra todos, a paisagem urbana se sobrepõe a um passado primitivo no campo e a cultura ganha nova roupagem, agora é percebida como civilização.

Nossas crises e contradições apontam a necessidade da reflexão crítica sobre a forma de conhecermos e percebemos a natureza e nós mesmos na relação com ela. Tal reflexão se movimenta por toda nossa carga histórica e cultural, traduzindo aspectos intrínsecos da nossa modernidade e desestabilizando as antinomias em nossa estrutura social e política. Não se trata em negar a modernidade, ou como Tolstoi faz magistralmente, em idealizar um lugar fora do mundo onde toda potencialidade humana possa de fato existir. Nosso caminho pode ser um de realinhamento a novas percepções do mundo, onde uma nova biologia e  uma nova sociologia produzam uma novo olhar sistêmico sobre o mundo.

Nesse sentido, o movimento da agrofloresta ( agricultura sintrôpica, SAFs) é uma das restruturações possíveis da nossa  tradicional  relação com o mundo,  ele questiona não só o método da agricultura tradicional, mas a própria autopercepção do homem no sistema natural. A agrofloresta, por definição, consiste em sistemas onde se realiza o consórcio produtivo entre árvores, arbustos e culturas agrícolas. Seu manejo é feito sob a orientação da sucessão natural , da luminosidade e das relações ecológicas. O olhar sistêmico potencializa a produtividade e a biodiversidade sem prejuízos aos componentes do sistema, se copia os processos geradores de vida da floresta entendendo-os como parte de um movimento maior, cíclico e autorregulável.

A logica da agrofloresta não é criar artificialmente sistemas agroecológicos, mas sim reproduzir os processos naturais através do manejo dos seus sistemas. Dessa forma, pragas e doenças de cultivo são controladas por serem justamente sintomas de sistemas e solos desequilibrados e, com a saúde dos solos preservada, os ecossistemas são estabilizados e a biodiversidade potencializada. O aquecimento global  que nos aterroriza acontece em grande parte devido ao grande aumento de gás carbônico na atmosfera, decorrente de diversos processos humanos, a capacidade de regeneração das florestas e do mar não dão conta da enorme demanda. A agrofloresta impulsiona a níveis consideráveis a fixação de carbono no solo, contribuindo diretamente para a regeneração do sistema natural. Um dos expoentes desse movimento, o suíço Ernest Gotsch, nos fala da necessidade de apostarmos em uma agricultura sintrópica, contrapondo em parte a noção de entropia( conceito termodinâmico que expressa uma desordem irreversível de um sistema), que nesse caso seria resultado das praticas tradicionais do cultivo de monoculturas. Segundo Gotsch, a urgência que nos aflige é do alinhamento das práticas humanas com os processos naturais, tendo em mente a abundância de recursos em todas as fronteiras de um sistema produtivo.

A agrofloresta   possibilita uma redefinição metodológica de cultivo  e projeta uma  uma longa herança na reflexão teórica sobre a relação entre homem e natureza. James Lovelock, nos anos 1960, idealizou o conceito de “Gaia” ao perceber que a vida no planeta estabelece uma relação autorreguladora com o ambiente ,  funcionando como um único ser orgânico vivo. Décadas mais tarde Fritoj Capra articularia a ideia de “teia”  para indicar que há de fato uma cooperação geral nas relações de vida no planeta, através das quais  trocas de matéria e energia são realizadas de acordo com mecanismos de comunicação e partilha. Torna-se evidente  que há uma disputa pela narrativa em curso, tanto no campo das ciências biológicas quanto na antropologia. O historiador William Irwin Thompson nos lembra que as narrativas científicas são também resultado das formas narrativas de uma determinava cultura. História, arte e ciência, são campos de leitura do mundo conectados diretamente a processos inconscientes da cognição humana.

O que está em questão para o ponto aqui defendido é uma transição de percepções, estabelecer um olhar crítico sobre nossa trajetória cultural, perceber que o homem moderno é constituído pelo sentido de ser mestre do mundo, discursa sobre uma universalidade uniforme,  e advoga pela necessidade do controle e da ordem. Para isso, o divórcio entre homem e natureza foi necessário, pois lá habita o seu oposto, uma multiplicidade de ordens e processos  que expõem a simbiose em que o contraditório pode existir. Uma lição importante ao homem, que tanto pela esquerda quanto pela direita aposta suas fichas na ruptura entre economia e o mundo natural.  O caminho de desenvolver uma olhar sistêmico sobre o mundo e nos percebemos de maneira distinta ecologicamente pressupõe uma redefinição mais ampla de nossa existência, dos nossos modelos de cidadania, de Estado e de democracia. A reflexão sobre o meio ambiente também necessita de organicidade, de ser política. Pensar em sustentabilidade é pensar em novos modelos produtivos, novas formas de trabalho, discutir reforma agrária e agricultura familiar, redefinir o papel das cidades… Revisitemos os cossacos!

* Rafael Betencourt é mestre em História Moderna e Contemporanea pelo ISCTE de Lisboa e doutorando em História Social pela UERJ. Além de colaborador da Escuta.

Crédito da imagem: Foto de Gregory Colbert, integrante do projeto “Ashes and Snow”.

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