Wallace Andrioli Guedes*

A representação da escravidão tem papel de destaque na história do cinema norte-americano. Filmes fundamentais como O Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Griffith, e …E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming, abordaram o tema, ambos sob perspectivas racistas. Mas, enquanto o clássico romântico com Vivien Leigh e Clark Gable usa a escravidão e a Guerra de Secessão (1861-1865) como pano de fundo para contar uma grandiosa história de amor – ainda que adotando um olhar sulista para esse contexto, que apresenta os negros confortáveis em sua submissão e a guerra como um tormento causado por homens perversos –, o filme de Griffith assume um racismo mais exacerbado, violento.

O Nascimento de uma Nação acompanha duas famílias brancas, uma do sul outra do norte, que, amigas antes da guerra civil, passam a ocupar lados opostos durante o conflito. A primeira parte da narrativa foca na guerra em si e em outros acontecimentos históricos ligados a ela, como o assassinato de Abraham Lincoln. Até esse ponto, o racismo do filme de Griffith não está muito distante do de …E o Vento Levou, em sua apresentação dos escravos como adaptados à posição que ocupam na sociedade. Griffith vai além na representação racista ao optar pelo uso do black face, escalando atores brancos maquiados para interpretar personagens negros. Em sua segunda metade, no entanto, O Nascimento de uma Nação assume postura mais agressiva ao abordar o contexto pós-abolição: os agora ex-escravos surgem na tela como selvagens, violentos, estupradores cruéis que precisam ser contidos de alguma forma. A saída encontrada por um dos heróis do filme é fundar uma organização secreta formada por homens brancos que julga e pune, por conta própria, os negros criminosos protegidos por tribunais ineficientes e corruptos. Sim, Griffith glorifica, com seu filme, a Ku Klux Klan.

O racismo escancarado de O Nascimento de uma Nação, apesar de não ter sido exatamente esquecido, foi tratado como algo menor ao longo da história do cinema, diante da importância das inovações de linguagem trazidas por Griffith – assim como o racismo subterrâneo de …E o Vento Levou foi ofuscado pela força dos personagens Scarlett O’Hara e Rhett Butler e pela beleza das imagens criadas por Fleming (e pelos outros diretores que passaram pela produção). Daí ser muito emblemático que o cineasta negro Nate Parker batize seu filme sobre uma revolta de escravos na primeira metade do século XIX com o mesmo título usado por Griffith, como que forçando a lembrança da abominável mensagem contida no clássico de 1915. Mas o novo O Nascimento de uma Nação é uma declaração política fortíssima que vai além do simbolismo dessa escolha. Seu protagonista, Nat Turner (interpretado pelo próprio diretor), é um escravo profundamente religioso, que, num contexto de aumento da tensão entre negros e brancos, atua, a mando desses últimos, como pacificador dos primeiros, por meio de sermões cristãos que incentivam a obediência em troca da ida ao paraíso após a morte. Mas Nat trafega também, ao longo de sua trajetória, por práticas religiosas de origem africana, que o “sentenciam”, ainda na infância, a um destino de liderança de seu povo.

Parker mergulha seu filme nesse sincretismo, impregnando-o com os valores de ambas as matrizes religiosas. Turner, personagem real, surge então como um herói mítico e místico, que por vezes é registrado pelo diretor como sobre-humano. Lembra bastante o que Mel Gibson fez com William Wallace em Coração Valente (1995), ainda que acrescido de um elemento mágico ausente no filme sobre o líder da independência escocesa. Esse tipo de escolha, que extrapola o realismo cru de um 12 Anos de Escravidão (2013), por exemplo, é arriscada enquanto cinema, na medida que advêm dela algumas imagens presentes em O Nascimento de uma Nação que flertam com o cafona – sobretudo aquelas que envolvem uma figura angelical que aparece para o protagonista. Mas o olhar de Parker é tão apaixonado e ao mesmo tempo tão doloroso, já que proveniente de dentro do universo retratado e organizado de acordo com a lógica desse universo, que o flerte com um suposto mau gosto se torna orgânico, necessário para a força de seu filme. Ele é fundamental para fazer desse novo O Nascimento de uma Nação um contra-discurso ainda mais contundente em relação ao seu homônimo racista, já que representa a recusa a se alicerçar no realismo e na racionalidade ocidentais, tipicamente brancas.

Nate Parker não tem qualquer intenção de alcançar a importância estética do filme de Griffith, realizado num momento em que a linguagem do cinema narrativa ainda começava a se desenvolver. O diretor finca os pés mesmo na declaração política, e, nesse sentido, sua busca altamente pretensiosa pela analogia com um cânone é mais que justificável. Parker promove um movimento de desconstrução da história oficial americana e de reconstrução de uma nova versão dela, calcada na violência absoluta contra grupos minoritários e na luta desses grupos, por vezes também violenta, pela liberdade. O Nascimento de uma Nação se coloca, nesse sentido, ao lado de ao menos duas outras grandes obras que realizaram esforços semelhantes: O Portal do Paraíso (1980), de Michael Cimino, e Gangues de Nova York (2003), de Martin Scorsese. Não é gratuita, portanto, a referência de Parker, num momento em que opressores e oprimidos finalmente se enfrentam, a uma cena emblemática do poderoso filme de Scorsese.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.christianitytoday.com/ct/2016/august-web-only/conversation-with-nate-parker-about-birth-of-nation.html&gt;. Acesso em: 22 nov. 2016.

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