João Pedro Pádua*

“Se formas de governo podem ser comparadas a sistemas operacionais, as atuais variantes da democracia são como versão iniciais e primitivas do Windows. Elas não são nem otimamente funcionais nem fáceis de usar – elas são cheias de bugs, suscetíveis a malware e não tem as funcionalidades desejadas˜.

Se eu dissesse que isso é o início de um texto sobre a vitória do Trump, ou sobre como a vitória do Trump finaliza simbolicamente um ano recheado de malogros democráticos — mas protagonizados por instituições democráticas – todo/as acreditariam em mim. Mas não é. É o primeiro parágrafo de um texto de três analistas políticos intitulado “Rebooting Democracy” e publicado em março de 2015 na revista Foreign Policy[i].

Nesse texto, os autores advogam uma mudança radical nas instituições democráticas. Mantendo a metáfora computacional, eles apontam que a democracia tradicional, sem atenção para o bem-estar local das populações que vivem sob esse regime democrático, pode ser ˜como uma versão corrompida do Windows, que exibe uma área de trabalho estática, mas não roda qualquer programa”.

Lido hoje, um ano e meio depois, é muito difícil não ver o texto – especialmente no seu diagnóstico – como uma profecia.

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Em 2007, Drew Westen, professor de psicologia clínica da Universidade Emory, nos EUA, escreveu um livro chamado “The Political Brain: The Role of Emotion in Deciding the Fate of the Nation”[ii]. Já na introdução, o autor fez uma curiosa dedicatória – ou algo como uma: “Esse livro provavelmente vai ser de particular interesse para os 50 milhões de eleitores democratas que não conseguem entender por que o seu partido perdeu tantas eleições, apesar das pesquisas mostrando que o eleitor médio concorda com as posições democratas na maioria das questões políticas [policy issues], da proteção ao planeta à justiça [fairness] para os pagadores de impostos de classe média que não querem nada mais que uma vida melhor para os seus filhos”.

Mais uma vez, e especialmente quanto à eleição de Donald Trump, profético.

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O livro de Westen é muito interessante, citando referências que vão desde insights de Freud até recentes pesquisas em psicologia social e neurociência cognitiva, passando pela linguística cognitiva e pela teoria da narrativa.

Mas a tese principal é apresentada logo na introdução, pouco depois do trecho que citei acima. “A tese central desse livro é que a visão de mente que capturou a imaginação de filósofos, cientistas cognitivos, economistas e cientistas políticos desde o século XVIII – uma mente desapaixonada que toma decisões ponderando a evidência e raciocinando sobre as conclusões mais válidas – não tem relação com como a mente e o cérebro realmente funcionam”, escreveu Westen. E arrematou: “Quando estrategistas de campanha começam com essa visão de mente, seus candidatos normalmente perdem”.

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“Esse é um dos livros mais interessantes e informativos sobre política que eu li em anos… As sugestões de Westen sobre o que candidatos devem dizer – e deveriam ter dito – devem ser lidas e estudadas por qualquer um que quer entender a Política Americana moderna”, diz o elogio estampado na capa do livro, logo abaixo do nome do autor. O autor do elogio – que escreveu um bem maior dentro do livro – é Bill Clinton.

Aparentemente, sua mulher não seguiu o seu conselho.

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A vitória de Trump nos EUA não foi o único evento democraticamente chocante do ano. Na verdade, ele foi um de pelos menos três deles. Cronologicamente, o primeiro foi a vitória do Brexit. O segundo foi a rejeição do acordo de paz entre Governo Colombiano e as FARC. E o terceiro foi a vitória de Trump[iii].

Eles têm algumas coisas incríveis em comum. Todos foram resultados do mais simbolicamente democrático dos instrumentos: o voto universal, direto e secreto[iv]. Pelo menos Trump e Brexit foram resultados contrários à maior parte das pesquisas, mesmo metapesqusisas em modelos conservadores[v]. E todos são resultados que, avaliados racionalmente, não têm possibilidade de ser defendidos com o que melhor atenderia ao interesse do povo que os escolheu.

O que os diferencia é, na verdade, um argumento a mais para a universalidade do fenômeno que subjaz a eles: o fato de que tais resultados foram obtidos em três (sub)continentes diferentes, sendo que pelo menos um deles (Colômbia) de cultura e história políticas bastante distintas.

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Ainda vamos ler, ouvir e debater muito sobre essas decisões. Mas algo me parece claro: o mesmo problema que Westen apontou para a estratégia de campanha do Partido Democrata vale para os pressupostos teóricos da democracia representativa como construção política.

Os mesmos “filósofos, cientistas cognitivos, economistas e cientistas políticos” que criaram as bases de uma visão incompleta da mente humana foram os que criaram a teoria política moderna de onde tiramos a democracia representativa.

O.k., talvez não os cientistas cognitivos.

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Uma das coisas mais impressionantes na vitória de Trump foi como ele fez de tudo para perder – ao menos, segundo qualquer avaliação razoável da campanha eleitoral por lá. Ele insultou mulheres. Ele insultou heróis de guerra. Ele insultou grandes figuras do Partido Republicano (o partido dele!). Ele insultou ex-presidentes, a ex-Secretária de Estado do Governo Bush-Filho, um juiz federal e até uma Juíza da Suprema Corte. Ele foi acusado de agredir mulheres e foi flagrado conversando com um amigo sobre como ele, recém-casado, apalpou as partes íntimas de uma mulher também casada e sobre como ele, por ser rico, poderia se safar de qualquer coisa.

Em um dos debates entre os candidatos na primária republicana, Jeb Bush disse a ele algo do tipo ˜you cannot insult your way to the presidency[vi].

Agora que ele ganhou, não só a primária republicana, mas a eleição geral, possivelmente ele vai mandar uma carta para Jeb Bush: Yes, we can.

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Outra coisa impressionante que a eleição de Trump demonstrou é como a criação de figuras políticas improváveis parece blindar essas mesmas figuras de uma avaliação de identidade social que vale para o/a oponente.

O.k., essa frase ficou muito intelectual (leia-se: confusa). O que quero dizer é que candidatos como Hillary Clinton ou, talvez, Marcelo Freixo, são avaliados de acordo com as filiações sociais que criam as suas identidades. Clinton era uma candidata associada ao establishment branco rico americano, ao establishment político, ao establishment social da elite. Apesar de mulher, ela era branca, milionária, ex-senadora e ex-primeira dama[vii]. Até aqui, nada demais.

O surpreendente é que essa mesma atribuição de identidade não valeu para Trump. Ele é branco, filho de milionário que se tornou bilionário, playboy, cheio de processos por fraudes e falências. Ele sempre esteve em volta de políticos preemenintes e de festas luxuosas. Ele brigou com a revista Forbes para ser considerado mais rico do que a revista lhe reconhecia. E ainda é homem. Certamente, ele é muito mais establishment que Hillary Clinton jamais imaginou ser.

E, mesmo assim, de alguma forma, ele virou o candidato dos brancos pobres, oprimidos pelo sistema. Ele virou o candidato da “mudança”. A atribuição de identidade social que valeu para ela, não valeu para ele.

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Como eu disse acima, ainda teremos muito que analisar, estudar, pesquisar sobre os fenômenos eleitorais desse ano.

A minha modesta contribuição, no entanto, é que temos de mudar os esquemas analíticos, mais do que os dados que analisamos.

Na Revista Escuta, isso, de certa forma, foi indicado por Mayra Goulart. Ela concorda que os prognósticos dos analistas políticos têm sido radicalmente errados. Mas ela diz que “os diagnósticos […] até que não nos têm causado muitos problemas”[viii].

Eu, no entanto, considero que os diagnósticos é que tem se mostrado insuficientes ou mesmo errados. Prognósticos costumam ser errados de qualquer jeito[ix]. Nossos diagnósticos poderiam estar mais certos, se usássemos esquemas analíticos melhores. Para isso, talvez tenhamos de nos libertar da teoria política moderna e reconhecer que as bases racionalistas dos criadores da democracia representativa estavam faticamente erradas – embora tenham tido importância histórica.

Precisamos, nos nossos modelos analíticos, de dar conta de um “novo” indivíduo, cuja agência impacta a estrutura de maneiras imprevisíveis, irracionais e irrazoáveis.

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Rosana Pinheiro-Machado já indicou um começo para esse caminho. Ela argumenta que e esquerda tem de se libertar dos esquemas analíticos marxistas e passar a simplesmente ouvir o que o povo tem a dizer. “Falta sair da universidade e das redes sociais e conversar com as pessoas, não para doutriná-las, mas para uma única vez na vida escutá-las. Falta entender que a micro política está pulsante nas camadas populares – ela está na fé e no consumo – mas que ela não se cabe nas caixinhas dos manuais de política revolucionária do século XIX”[x].

Não acho que isso seja uma necessidade apenas para a esquerda ou para militantes políticos. A busca de ouvir as pessoas, de resgatar a agência, de abandonar modelos teóricos fortes com inspiração em pressupostos incorretos sobre o ser humanos e a construção social, tudo isso entra em jogo também para o analista político, se ele não quiser perder a sua voz, o seu lugar de fala.

Talvez seja isso – tudo isso – o que Trump e quejandos nos ensinaram esse ano.

 

*João Pedro Pádua é Mestre em Direito Constitucional e Teoria do Estado e Doutor em Estudos da Linguagem pela PUC-RIO, Professor da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da UFF e Advogado, além de colaborador da Escuta.

Crédito da imagem: @msnbcphoto/Instagram. Fotógrafo @markpetersonpixs . Disponível em: http://www.readingthepictures.org/2016/08/trump-meltdown/

[i] BOIK, J.; FIORAMONTI, L. e MILANTE, G. Rebooting democracy: Traditional institutions are failing. It’s time for an upgrade. Foreign Policy. Disponível na Internet: http://foreignpolicy.com/2015/03/16/rebooting-democracy-participatory-reform-capitalism/. Acesso em 13 nov. 2016.

[ii] Traduzido livremente: “O Cérebro Político: O Papel das Emoções em decidir o Destino da Nação”. Referência completa: WESTEN, D. The Political Brain: The Role of Emotion in Deciding the Fate of the Nation. New York: Public Affairs, 2007. (Kindle® Edition).

[iii] Em escala menor de importância política global, a eleição de Marcelo Crivella para Prefeito do Rio de Janeiro parece guardar semelhanças com esses fenômenos também.

[iv] Por isso, principalmente, não incluo o impeachment de Dilma nesse meio. Também não quero polarizar esse texto inutilmente. Procuro dar algumas ideias sobre o que me parece um fenômeno político relevante, não tomar posições políticas marcadas.

[v] Cf., p. ex., o modelo do site americano 538 (www.fivethirtyeight.com), que, mesmo mais conservador que seus concorrentes, chegou a dar uma probabilidade de quase 80% de vitória de Hillary Clinton no início da apuração dos votos.

[vi] Frase de difícil tradução, mas algo como ˜você não pode pavimentar seu caminho para a presidência com insultos”.

[vii] Marcelo Freixo também era morador da Zona Sul, vivia uma vida de elite e tinha posições ideológicas de esquerda socialista enquanto disfrutava dos confortos que o capitalismo proporciona para suas elites. Notem que não estou dizendo se isso é bom ou mal; apenas que é uma atribuição de identidade social válida.

[viii] GOULART, M. O ano do capiroto: As eleições estadunidenses observadas do Brasil. Revisa Escuta. Disponível na internet: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/11/10/o-ano-do-capiroto-as-eleicoes-estadunidenses-observadas-do-brasil/. Acesso em 13 nov. 2016.

[ix] Cf. TETLOCK, P. Expert political judgment: How good is it? How can we know?. Princeton University Press, 2005.

[x] PINHEIRO-MACHADO, R. O que a vitória de Trump pode ensinar à esquerda global? Carta Capital. Disponível na internet: http://www.cartacapital.com.br/internacional/o-que-a-vitoria-de-donald-trump-pode-ensinar-a-esquerda-global. Acesso em 13 nov. 2016.

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