Fernando Perlatto*

O historiador Tony Judt foi um tipo de intelectual característico do século XX que nosso tempo, marcado pela crescente especialização, provavelmente, não fabrica mais. Nascido em Londres em 1958, filho de uma família de judeus emigrados, com formação clássica e diversificada, no King’s College de Cambridge e na École Normal Superieure, de Paris, Judt se destacou como um historiador que soube aliar com fineza sua enorme erudição interdisciplinar com uma capacidade analítica poderosa.

Tendo lecionado em diversas instituições como Cambridge, Oxford, Berkeley e New York University, Judt faleceu em 2010, aos 62 anos, deixando uma vasta produção concentrada principalmente em livros voltados para a análise do século XX, com destaque para o monumental Pós-Guerra. Uma História da Europa desde 1945 e para sua autobiografia O Chalé da Memória, além de outras obras como O Mal Ronda a Terra e Pensando o Século XX, este último uma reunião de conversas entre Judt e seu amigo, o também historiador Timothy Snyder. Além disso, Judt desenvolveu trabalhos refinados de história intelectual, do que é prova evidente seu belo livro O Peso da Responsabilidade, no qual, a partir da análise de três escritores – Albert Camus, Raymond Aron e León Blum – constrói um panorama sofisticado do cenário intelectual francês entre 1944 e 1956.

Uma das características principais da reflexão de Tony Judt foi a exitosa combinação entre a vasta produção acadêmica com uma intervenção permanente na esfera pública, mediante a publicação de ensaios em diferentes jornais e revistas literárias, com destaque para o New York Times, a New Republic, a New York Review of Books, o Times Literary Supplement e a London Review of Books. Nestes periódicos, a partir de prismas e perspectivas diferenciadas, Judt abordava temáticas diversas relacionadas a mudanças do tempo presente. Nesta verve ensaística pública, seguia a tradição de intelectuais que tanto admirava como Isaiah Berlin, George Orwell, Raymond Aron, Hannah Arendt e Albert Camus.

E são justamente os textos oriundos destas suas intervenções públicas que foram compilados por sua viúva, a historiadora Jennifer Homans, no livro Quando os Fatos Mudam, publicado este ano pela editora Objetiva, reunindo ensaios de Judt que vieram à luz entre 1995 e 2010.[1] Divididos em cinco partes – “1989: A nossa era”; “Israel, o Holocausto e os judeus”; “O Onze de Setembro e a nova ordem mundial”; “O modo como vivemos agora” e “A longo prazo, todos estaremos mortos” –, os textos que compõem esta coletânea são exemplares bem acabados da face pública da escrita de Judt, voltada para a análise de transformações que tiveram curso no mundo ao longo das últimas décadas.

Para além de críticas densas e minuciosas de diferentes livros – muitos dos ensaios aqui reunidos são resenhas sobre obras diversas, destacando-se, nesse sentido, as belas análises produzidas sobre A Era dos Extremos. O breve século XX, 1914-1991, de Eric Hobsbawm, e A Peste, de Albert Camus – e de artigos sobre temas plurais – a exemplo de dois ensaios inéditos sobre as ferrovias e de textos sobre autores como François Furet –, os aspectos que mais sobressaem dos diferentes ensaios que compõe esta coletânea é, por um lado, a sua preocupação com o futuro da Europa na nova ordem mundial inaugurada com o fim da Guerra Fria; e, por outro, a elaboração de uma crítica cáustica dirigida a três alvos principais: o “lobby” de Israel, a política externa norte-americana nos anos de George W. Bush após os atentados terroristas de 11 de setembro e o avanço do neoliberalismo.

Ainda que os ensaios de Judt sejam, em certo sentido, datados, seus insights e prognósticos têm o frescor do tempo presente, pois embora os fatos tenham mudado, para dialogar com o título do livro, e ainda estejam mudando em uma velocidade desconcertante, as preocupações por ele levantadas se atualizam e permanecem como espécies de fios condutores a auxiliarem a compreensão de um mundo que parece, a cada dia, se desfazer em mil pedaços. Não se trata, naturalmente, de buscar nos ensaios de Judt respostas para os dilemas e impasses do tempo presente, mas de destacar sua notável capacidade de diagnosticar processos em curso cujos desdobramentos dramáticos se manifestam em potência na conjuntura atual.

A contemporaneidade dos ensaios de Judt contribui para a reflexão sobre os desafios colocados para o mundo europeu, sobretudo neste momento mais grave marcado pelo recrudescimento e exacerbação dos nacionalismos no continente, evidenciados, por exemplo, no chamado “Brexit”, com a saída do Reino Unido da União Europeia. Em artigo publicado em meados dos anos 1990, intitulado “Europa: a magnífica ilusão”, Judt já apontava para os riscos existentes no sentido de o bloco europeu oferecer sonhos e perspectivas apenas para os “vencedores” da globalização, relegando a um segundo plano os setores marginalizados, que encontrariam em soluções nacionalistas, ofertadas principalmente pela extrema-direita xenófoba, a panaceia para a resolução de seus respectivos problemas. A busca pela integração europeia não poderia, segundo Judt, se esvair na retórica do cosmopolitismo e no abandono da preocupação de questões atinentes às realidades nacionais. “Se olharmos para a União Europeia como uma solução milagrosa, entoando ‘Europa’ como um mantra e fazendo tremular a bandeira da ‘Europa’ diante de nacionalistas heréticos recalcitrantes”, assevera Judt, “podemos acordar um belo dia e descobrir que longe de ajudar a resolver os problemas do nosso continente, o mito da ‘Europa’ tornou-se um obstáculo para que possamos reconhecê-los” (p.55).

Os ecos dos ensaios de Judt também se fazem presentes hoje, quando se observa as duras críticas apresentadas pelo autor à política israelense direcionada à Palestina, sobretudo no início dos anos 2000 sob a condução de Ariel Sharon e do establishment político israelense, contando com o beneplácito da intelectualidade liberal do país e, especialmente, com o cheque branco dado por Washington, críticas fortes estas que, ressalte-se, nada tinham de antissemitismo, sobretudo pelo fato de serem proferidas por alguém como Judt, que assumia a identidade judaica “sem nenhuma ambiguidade”, como destaca Jennifer Homans na introdução do livro. Na atual conjuntura, liderados pelo atual chefe do partido conservador Likud e primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, Israel vem esticando a corda e caminhando no sentido da ampliação da política de assentamentos ilegais, distanciando-se cada vez mais da possibilidade de se encontrar soluções pactuadas e dialogadas, como desejava Judt em seus diferentes escritos.

Em tempos de vitória do histriônico Donald Trump, com sua retórica de terra arrasada em relação aos rumos da política externa dos Estados Unidos, é indicado também visitar vários dos ensaios de Judt coligidos em Quando os fatos mudam, alicerçados na crítica feroz e mordaz aos desastrosos direcionamentos da política externa norte-americana no período do pós-Guerra Fria, com destaque especial para a era de George W. Bush, marcada pela sua fatídica decisão de invadir o Iraque. Orientados, em grande medida, por “considerações insulares”, preocupados em agradar “os piores instintos de suas plateias internas”, os últimos presidentes norte-americanos – valendo-se de “retórica bombástica”, da criação da ideia de uma guerra permanente contra um inimigo estereotipado e de decisões unilaterais – teriam contribuído para levar o mundo ao caos, secundarizando os pilares da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial e os compromissos transnacionais referendados por agências multilaterais, como a ONU. A condução desastrosa da política externa por presidentes como Bush teria levado a grande parte dos desastres e impasses em que se encontram a geopolítica atual.

Um dos pontos altos da coletânea Quando os fatos mudam é o ensaio “O que está vivo e o que está morto na social-democracia?”, que corresponde à última palestra proferida por Tony Judt, em 2009, na New York University, antes de seu falecimento. Este texto de Judt é interessante não apenas pela análise fina que constrói do pensamento liberal, situando-o historicamente – ao demonstrar, por exemplo, que os cinco pensadores principais do cânone liberal, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Joseph Schumpeter, Karl Popper e Peter Drucker, desenvolveram suas reflexões críticas ao Estado regulador em um contexto muito específico de colapso da sociedade liberal no entreguerras, quando a esquerda foi responsabilizada pela tragédia que se abatia na Europa –, mas também por mostrar os limites da agenda privatista neoliberal para o mundo atual e defender, em diálogo direto com a noção de “incerteza” presente no pensamento de Keynes, a importância de uma agenda social-democrata, que conferisse papel central ao Estado como regulador da política econômica e como instrumento da ampliação das políticas sociais, sobretudo em um contexto como o do tempo presente marcado pelo medo e por aquilo que chama de “nova era insegurança”.

É sempre possível objetar algumas das formulações de Judt por seu olhar direcionado ao mundo a partir de uma geografia bem específica e que avalia a geopolítica global tendo em vista os dilemas e impasses do mundo europeu e norte-americano, secundarizando outros territórios em suas análises do tempo presente, a exemplo da América Latina, da Ásia e da África. O eurocentrismo que atravessa determinados ensaios, contudo, que, ainda que turve algumas de suas reflexões, não o impede de lançar um olhar mais amplo, complexo e refinado sobre os desafios colocados para o mundo contemporâneo. Ainda que os ensaios que compõem Quando os fatos mudam não ofereçam soluções – e não é esta a intenção que anima a organizadora da obra –, não restam dúvidas de que eles contribuem, nos tempos difíceis atuais, para construir uma nova bússola analítica, que ajude, em meio às tormentas, a encontrar caminhos que nos levem a sair da tempestade que o mundo se encontra para navegar em mares um pouco mais tranquilos.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.nybooks.com/wp-content/uploads/2012/03/homans_1-032212.jpg&gt;. Acesso em: 11 nov.2016.

 

[1] Há que se ressaltar, nesse sentido, que um dos méritos principais de Quando os Fatos Mudam é a disponibilização, ao final do livro, em ordem cronológica dos ensaios e resenhas publicados por Tony Judt entre 1975 e 2011.

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