Mayra Goulart*

Este ano não tem sido fácil para nós, analistas políticos, sociólogos, politólogos, jornalistas, enfim para aqueles que têm a ingrata tarefa de tentar esboçar diagnósticos e prognósticos, com base em modelos históricos, institucionais e racionais. Toda nossa racionalidade, fé nas instituições, na previsibilidade das escolhas, tudo que aprendemos e ensinamos têm se mostrado inócuo diante das frustrações, do desconforto, do ódio, e dos sentimentos erráticos dos cidadãos comuns.

Os diagnósticos, todavia, até que não têm nos causado muitos problemas. Há um certo consenso sobre as causas: a financeirização do sistema capitalista drena recursos da economia real, reforçando a tendência de concentração de renda que o caracteriza. A década passada foi um breve interregno nesse processo, pois a entrada dos chineses no mercado consumidor serviu como uma nova fronteira, ainda não contaminada pelo horizonte de estagnação que se espraia sobre as economias médias e grandes. Ao se encerrar este ciclo, no qual a inclusão de pessoas no mercado consumidor na Ásia, mas, também, na América Latina, serviu de catalizador para a economia global, o que se têm visto é um cenário de crise econômica, cujas consequências políticas e sociais têm tomado de assalto aqueles que deveriam antecipá-las e compreendê-las. De modo geral se observa um recrudescimento generalizado do conservadorismo, um movimento restaurador[1] que se traduz em uma ojeriza a tudo que se aproxime das ideias de igualdade, liberdade e fraternidade que outrora acreditávamos constituir o horizonte normativo dos povos ocidentais. Estávamos errados.

Quanto aos prognósticos, aqui no Brasil temos errado todos. Achávamos que a população manteria seu apoio a um governo que melhorou suas condições de vida de uma forma inédita na história recente: erramos. Achávamos que o empresariado nacional se manteria fiel a um governo que lhe concedeu inúmeros benefícios (lícitos e ilícitos): erramos[2]. Achávamos que nossas instituições seriam capazes de canalizar os conflitos, mantendo a coesão entre Legislativo e Executivo que até então sobressaia como elemento constitutivo da nossa tradição política: erramos. Achavámos que jamais um professor seria perseguido por discutir questões de gênero em sala de aula e que propostas como a Escola sem partido[3] não encontrariam encontrariam lugar no século XXI: Erramos.

Hoje percebemos que não estamos sós. A vitória de Donald Trump veio para desmoralizar aqueles que nos ensinaram esses mesmos modelos, essas mesmas teorias que pouco nos orientam neste horizonte em que prevalece o obscurantismo, o ódio de classe, de gênero e de raça. Enfim, o ano de 2016 veio para nos ensinar que estamos todos errados. Ou, nas palavras de Paul Krugman, para demonstrar que pessoas como nós “leitores do New York Times, não entendem de fato o país em que vivem. Achavámos que a maioria dos americanos valorizava a democracia e o estado de direito. Estávamos errados. Há um grande número de pessoas … que não compartilham a mesma ideia de América. Para eles se trata de sangue e solo, do tradicional patriarcado e da hierarquia racial.[4]

Os embates entre Republicanos e Democratas, embora encontrem pouca correspondência nas categorias que estruturam o imaginário político latino-americano, costumam ser objeto de uma particular expectativa neste subcontinente, cuja posição periférica e particularmente vulnerável às empreitadas do hegemon regional aumentam as preocupações acerca dos impactos de eventuais mudanças no cenário político estadunidense.

A este respeito, primeiramente, é interessante destacar que as eleições de 2016 tornaram ainda mais turvas as linhas que delineavam o bipartidarismo norteamericano deixando confusos até mesmo eleitores cativos de ambos partidos que têm nos surpreendido com posicionamentos inusitados. Me refiro aqui às recentes afirmações de Slavoj Žižek – intelectual renomado e guia espiritual de uma parte da esquerda em favor de Trump, por definição o candidato da direita –  ou a declaração de Susan Sarandon, parte do elenco hollywoodiano progressista em termos de liberdades civis tradicionalmente escalado como cabo eleitoral do Partido Democrata, indicando o voto no Partido Verde.

Sendo assim, nesse esforço sempre impreciso de tradução, os Democratas têm sido entendidos como um partido à esquerda no cenário partidário norte-americano, tendo em vista uma postura relativamente welfarista que se definiria pela defesa dos gastos sociais – ainda que tímida, quando comparada com os discursos apresentados por candidatos de esquerda (e mesmo de direita) na América Latina. Tais gastos, por conseguinte seriam viabilizados por uma elevação dos impostos, apresentada em termos relativamente progressistas e redistributivos e por cortes nos orçamentos militares. Em termos de política externa, por conseguinte, os democratas se definiriam por uma postura menos beligerante, porém não necessariamente menos intervencionista, posto que se traduz em uma aposta no fortalecimento de instituições internacionais multilaterais e regimes de governança global, passíveis de serem caracterizados pelo conceito de cooperação assimétrica e liberal (NYE & KEOHANE).

O Partido Republicano, sob este prisma, era devidamente situado à direita, por ser mais cioso dos “valores tradicionais” (misóginos, belicistas, racistas e homofóbicos) e por adotar diretrizes macroeconômicas voltadas à maximizar a rentabilidade dos investimentos, o que se traduz na redução de impostos (aos mais ricos) e dos gastos sociais. Tal orientação, por sua vez, era historicamente contrabalançada por uma postura beligerante cuja resultante é a elevação nos orçamentos militares e na defesa das Forças Armadas, enquanto instrumento a serviço de um ideário sintetizado no slogan Make America Great Again, que por décadas pavimentou o horizonte normativo do partido.

Deste modo, é possível observar, nos discursos apresentados durante o pleito de 2016, um relativo afastamento dessas diretrizes – abafadas, ainda que não apagadas, pela defesa do pragmatismo econômico, que subjaz como elemento central aos programas de ambos os partidos. No que diz respeito à política externa, tal pragmatismo se traduziu em um inequívoco direcionamento aos países asiáticos, em particular, à China. Este elemento comum, entretanto, dá origem a diferenciações entre os concorrentes. A candidata Democrata apresentou uma posição favorável ao aumento da parceria com os chineses, mediante a contrapartida de que fossem aceitos um conjunto de determinações concernentes aos direitos humanos. Com isso, foi possível entrever que, a despeito da retórica de campanha, Clinton não estaria disposta a abdicar do perfil intervencionista liberal que caracteriza sua trajetória política particular, assim como a própria história do Partido .

O candidato vitorioso, por sua vez, apresentou-se como um contraponto a este perfil, se posicionando de maneira contrária a qualquer empreitada orientada normativamente à disseminação dos valores liberais, sinalizando que em seu governo os EUA não farão qualquer esforço visando a implementação de “regimes favoráveis em regiões hostis”. Tal crítica, todavia, é conciliada a uma forte defesa das Forças Armadas, cujas funções, todavia, deveriam ser limitadas à promoção da estabilidade regional e ao combate ao terrorismo. Discursando sobre política externa Trump  retomou um slogan apresentado na década de 1940, resumido na expressão: America First, que ora se aproxima de um nativismo neoisolacionista (nativist neolisolationism) ora de um nacionalismo conservador (conservative nacionalism).

No que diz respeito as suas manifestações acerca da China, que ocupam boa parte de seus discursos, Trump ora a apresenta como principal mercado a ser disputado, ora defende a necessidade de puni-la por práticas de comércio injustas (unfair trade). Nesta medida, seus discursos deixam entrever que o objetivo central do seu governo será a recuperação da economia americana, sendo o protecionismo uma das estratégias para a persecução dessa meta.

Tal perspectiva, pode ser considerada um obstáculo às relações comerciais com os o Brasil e com os demais países latino-americanos que, mesmo tendo diversificado seus mercados na última década, ainda têm nos EUA um parceiro importante. Porém, esta é apenas uma visão parcial dos impactos da eleição estadunidense na região, que embora relegada às margens dos discursos de ambos candidatos também permite vislumbrar algumas diferenças entre eles.

Primeiramente no tocante ao maior traquejo diplomático de Hillary Clinton, que quando questionada, demonstra interesse e conhecimento acerca das temáticas latino-americanas. Tal interesse, entretanto, não deve ser interpretado como algo necessariamente positivo, posto que ele muitas vezes serviu de base para intervenções veladas na política doméstica dos países da região. Trump, que sequer sabia quem era Dilma Rousseff, neste tocante se mostra menos disposto se imiscuir em nossas comezinhas contendas para apoiar os supostos baluartes do liberalismo, como é prática comum da Secretaria de Estado norte-americana.

Essa negligência salutar do então candidato republicano, entretanto, finda no que diz respeito à imigração. Nesse tocante, o discurso de Clinton apresenta elementos mais positivos para os latinos, mediante a defesa de alterações na legislação vigente para que esta contemple a cidadania como objetivo possível[5], assim como o propósito de manter programas existentes como o Deferred Action for Childhood Arivals (DACA), que protege crianças imigrantes não documentadas da deportação.

O candidato Republicano, por sua vez, adotou desde o início da campanha um discurso fortemente anti-imigração, defendendo inclusive a construção de um muro na fronteira com o México a ser custeado pelos mexicanos.

A terceira questão, suscitada durante a campanha, que nos permite vislumbrar as possíveis consequências de um governo Trump para a América Latina diz respeito ao reestabelecimento das relações com Cuba. Quanto a esta temática cabe ressaltar a posição favorável de Trump, que acredita na possibilidade de estreitamento das relações, em particular através entrada dos investidores americanos no mercado imobiliário cubano. Esse ponto é interessante, pois pode ser um indício de que a xenofobia que marcou os discursos do candidato, possa ceder lugar ao pragmatismo e à ênfase na dinâmica econômica.

No entanto, é fundamental destacar que o pragmatismo de Trump é estruturado por um entendimento binário que destoa do ideário liberal, no qual o livre comércio é apresentado como uma win-win situation e não como jogo de soma zero. É esse binarismo que sustenta as críticas de Trump aos acordos de livre comércio e ameaça os principais logros da política comercial da administração Obama: o recém estabelecido TTP (Tratado TransPacífico), que envolve os principais mercados asiáticos com exceção da China e alguns países da América Latina (Chile, Peru e México), e o Tratado Transatlântico (TTIP), que visa ao estabelecimento de uma área de livre comércio entre EUA e UE.

Esse talvez seja o elemento mais importante quando estamos considerando o impacto das eleições norte-americanas para nossa região. E ele não é tão ruim quanto parece. Isto porque ambos tratados podem ser considerados uma ameaça potencial para os países que, deixados de fora, terão mais dificuldades em competir em mercados cruciais, nomeadamente Ásia e Europa. Por outro lado, para além do âmbito comercial, tais acordos podem prejudicar os projetos de integração entre os povos latinoamericanos, aumentando as divisões entre os países da região e dificultando a tomada de decisões coletivas.

Clinton, por sua vez é oficialmente contrária ao TTP, ainda que o tenha apoiado no passado. Em um discurso recente ao comentar o Tratado Transpacífico ela afirmou ser avessa a qualquer mecanismo que ameace os “empregos dos cidadãos americanos”, apresentando um argumento passível de ser extendido aos tratados de livre comércio de maneira geral, o que na Europa foi interpretado como uma sinalização contrária ao TTIP. Não obstante, durante seu período como secretária de Estado (2009-2013), a candidata manifestou um apoio generalizado a tratados de livre comércio, mas, também, a uma postura hostil no tocante aos processos políticos decorridos em Venezuela e Honduras. Em 2009, Clinton manifestou-se publicamente contra a decisão da ONU de condenar o golpe militar em Honduras e questionou, em email vazado pelo Wikileaks, porque a entidade estaria preocupada com Honduras, e não com a Venezuela: “Ok – mas eles [as Nações Unidas] alguma vez já condenaram a Venezuela por negar a liberdade de imprensa?” escreveu ela para um funcionário[6].

Sendo assim, é possível especular que caso vitoriosa, Clinton teria se afastado do perfil pragmático esboçado na campanha, adotando um comportamento mais compatível com sua trajetória. Isso não significa que sua derrota deva ser comemorada.

Sobre Trump, é preciso salientar que suas perfomances discursivas têm sido traduzidas e simplificadas a partir do conceito de populismo, que se apresenta como panacéia intelectual para tipificar pejorativamente as lideranças políticas que não contam com a nossa aprovação. A este respeito é preciso salientar que se utilizarmos o conceito com alguma propriedade, como o fez Ernesto Laclau em A Razão Populista (2005), podemos utilizá-lo como uma ferramenta interessante para a análise dos contextos políticos. Em sua definição, o que caracteriza uma performance discursiva populista seria a evocação dos oprimidos como sujeito político a ser empoderado. Deste modo, é possível vislumbrar uma ambiguidade nos discursos de Trump que ora se apresenta como um defensor do cidadão comum, ora assume-se como um iconoclasta em sua crítica às funções redistributivas do Estado.

Não obstante, diferentemente do populismo, cuja aplicação ao contexto estadunidense revela a ambiguidade do candidato vitorioso, o mesmo não pode ser dito da dicotomia entre direita e esquerda. Trump está claramente à direita de Clinton, assim como o governo Temer está à direita do governo Dilma e como de modo geral estão cada vez mais à direita os eleitores das Américas e da Europa. Aqueles que evocam o absenteísmo reverberando a crença de que são todos iguais e de que os conceitos de direita e esquerda perderam o sentido no mundo atual irão em breve perceber as consequências desse equívoco. Aqui no Brasil eles já estão sendo sentidos[7].

* Mayra Goulart é Professora de Teoria Política e Política Internacional da UFRRJ, além de colaboradora da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://veja.abril.com.br/mundo/trump-adota-tom-amigavel-em-discurso-da-vitoria/&gt;. Acesso em: 10 nov. 2016.

Notas:

[1] O termo aqui evoca o período da Restauração Francesa, situado entre 1814 e 1830 e caracterizado pela rejeição dos valores que pavimentaram a revolução de 1789.

[2] Sobre o tema ver: http://www.revistaescuta.wordpress.com/2016/06/13/identidade-estrategia-e-hegemonia-hipoteses-sobre-a-crise-politica-no-governo-dilma-rousseff/

[3] O Escola sem Partido surge como um movimento contra “a doutrinação política e ideológica em sala de aula, e de outro, a usurpação do direito dos pais dos alunos sobre a educação moral e religiosa dos seus filhos”, explica Miguel Nagib, advogado e coordenador da organização. Ver: http://www.programaescolasempartido.org.

[4] http://www.nytimes.com/interactive/projects/cp/opinion/election-night-2016/the-unknown-country?action=click&pgtype=Homepage&clickSource=story-heading&module=span-abc-region&region=span-abc-region&WT.nav=span-abc-region

[5] No original: “ a comprehensive immigration reform with a pathway to citizenship”. Ver: https://www.hillaryclinton.com/issues/immigration-reform/

[6] No site do Wikileaks é possível encontrar inúmeras referências da então Secretária de Estado  relativas aos países latino-americanos, em particular, à Venezuela. Ver: https://wikileaks.org/clinton-emails/?q=Venezuela&mfrom=&mto=&title=&notitle=&date_from=&date_to=&nofrom=&noto=&count=50&sort=0#searchresult

https://wikileaks.org/clinton-emails/?q=Honduras&mfrom=&mto=&title=&notitle=&date_from=&date_to=&nofrom=&noto=&count=50&sort=0#searchresult

[7] Em 26 de outubro a Câmara dos Deputados  aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 241 que estabelece um limite pelos gastos públicos federais pelos próximos 20 anos.

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