Rodrigo Prado Mudesto*

 “Quem é o Michel Temer perto do nosso povo? Ele não é ninguém. A gente está preocupado com o nosso futuro. Não vamos ocupar para fazer festinha de criança. Cada um aqui é importante e faz a diferença como todo. Se você for para casa dormir o seu futuro vai dormir junto.” Luciana, estudante secundarista, na ocupação da escola estadual Dom Silvério em Mariana, MG, postado nas redes sociais

Eleição norte-americana, segundo turno das eleições municipais, questões que envolvem religião e politica, Enem, Ocupações, Ana Julia, cortes de investimentos em saúde e educação – em uma semana com pautas tão acaloradas é absolutamente normal uma proliferação de colunas, entrevistas e postagens tentando criticar, comentar ou mesmo apontar rumos. Estamos todos procurando abrigo em meio ao tiroteio. Pessoalmente indicaria o texto de Marcos Nobre (Valor) e a entrevista de Carlos Gutierrez (Nexo). Mas meio como todo mundo, eu me sinto insatisfeito com o que leio. É tudo muito inteligente, mas tudo muito velho, muito batido, de Eliane Brum (El País) a Bolívar Lamounier (Estadão), passando pelos pitacos de estrangeiros ilustres como Mario Vargas Llosa (El País) e Toni Negri (El País). No fundo é apenas mais do mesmo, tudo meio mofado, como foi parte significativa das manifestações da última Anpocs[i], onde reinou o apelo a analogias anacrônicas, recurso que resta quando a avalanche de retrocesso deixa bestializado não ao povo, mas aos intelectuais.

Não, my friends, não estamos em 1964, não estamos em uma ditadura. Nem cabe dizer se é melhor ou pior. Comparar desastres é melodramático e pouco racional. Tampouco voltamos aos trilhos, a não ser que isso signifique deitar neles. O Estado Autoritário Brasileiro retornou para a mão de quem maneja com mais desembaraço o cassetete, porque tem menos vergonha de por sua mão grande na coisa pública. Saíram os masoquistas, entraram os sádicos. Os saudosistas dos coturnos não podem fazer o tempo recuar, nem como farsa, mas parado de todo, nos últimos trinta anos, o cassetete nunca ficou.

Coçando-me pra escrever algo, mas tão perdido como todos os demais, desconfiei de minha bolha e recorri a inspirações que não me são usuais. Foi o tarimbado colunista do El Pais, Xico Sá que tocou a bola, que me passou a senha: “O Novo sempre Vem”. Belchior tem a resposta.

É surreal ouvir o governo alegar que é mais viável dividir a aplicação das provas do Enem, com todos os custos, questionamentos metodológicos e incertezas que isso acarreta, do que realocar os locais de prova, o que pode não ser fácil, mas é factível. Principalmente se tivesse sido decidido na semana passada.  Certamente teria sido imensamente mais barato, seguro e justo. É um disparate tão grande, que pode indicar que o governo deseja a judicialização do problema, isso é,  o adiamento de todo o Enem pela canetada de algum juiz. Na pratica, é um desrespeito com o despertar da cidadania de nossos jovens. Obviamente, o governo não é obrigado a ceder (devia), mas é lamentável que insista em criminalizar o senso cívico da juventude, seu desejo de participar e o direito de se posicionarem sobre o próprio futuro. Afinal, será sobre a geração deles, mais que qualquer outra, que recairá os sacrifícios da PEC 241(55). De que serve um Enem quando a própria chance de cursar a Universidade está ameaçada, quando o horizonte é de redução de vagas, sucateamento, queda da qualidade e falta de financiamento?

Mas não importa. O governo já perdeu essa. Não adianta algemar, difamar, cercear o acesso aos estudos e a livre-manifestação, porque -como ensinou Pessoa- esse governo pode vender o nosso tempo, mas não pode comprá-lo de volta, e acrescenta Belquior, o novo sempre vem… Esses garotos e garotas dançarão sobre o túmulo da memória do Gabinete da Temeridade. Temer constrói sobre areia.

Mas é também lastimável ver o chamado campo progressista empenhado em deslegitimar o eleitor. Mais do que das direitas neocon, dos fundamentalistas religiosos, da mídia corporativa, hoje o grande obscurantismo vem da esquerda, que se recusa a aceitar o novo, apegada à crenças velhas de progressos inexoráveis, grandes marchas, grandes multidões.  Enredada em compromissos com o passado e presa a uma messiânica necessidade de encarnar o bem, a esquerda se nega a fazer o simples, a ouvir, a viver o tempo presente (com seus Jetsons e seus vizinhos Flintstones) e a colaborar na resistência por preservar um porvir em aberto.

A esquerda quer realizar profecias de velhos barbudos. Em 200 anos se afeiçoou a cada promessa que fez e não pode cumprir.  A esquerda se acredita pecadora, pois não cumpriu a ordens que lhes deram seus sacerdotes, mas esquece que o mais barbudo dos velhos, recusava os profetas, seu compromisso estava em afastar os augúrios, negar os destinos e dessa promover uma trajetória em aberto para cada cidadão: chances equivalentes, escolhas possíveis. “(…) caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear a noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico”, não conheço um único eleitor jovem de Crivella ou de Doria, não importando a classe ou a religião, que não possa votar nisso, se isso lhe for oferecido. Desconheço, aliás, em toda a filosofia uma citação que vista melhor nossos jovens. Sabe o que não veste nesses jovens? Lições de moral. Nem o mais apaixonado seguidor de Malafaia ou Macedo, tolera lições de moral, especialmente quando elas entram em conflito com sua sobrevivência e seu bem-estar. Não se enganem com os jovens secundaristas. Eles são fantásticos, mas não são mártires, ainda bem.

Ainda citando o velho baderneiro, no seu a Ideologia Alemã:

“os homens devem estar em condições de poder viver a fim de fazer história. Mas, para viver, é necessário antes de mais beber, comer, ter um teto onde se abrigar, vestir-se, etc. O primeiro fato histórico é a produção dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material; trata-se de um facto histórico, de condições fundamentais de toda história, que é necessário, tanto hoje como há milhares de anos, executar dia a dia, hora a hora, a fim de manter os homens vivos”

Sabe como a direita chama isso hoje em dia? Empreender. É um péssimo conceito, mas descreve um movimento que devia ser compreendido e não condenado pela esquerda: a emancipação pelo trabalho. Não foi como queriam nossos totens? Não veio com consciência de classe? Não veio com o fim apocalíptico da desigualdade? Não veio com uma ciranda? Mas é o que ‘vai estar tendo’. O fim do trabalho aparece claramente como categoria central para o entendimento do ponto em que nos encontramos. E sim, de certa forma, é obra (também) dos governos progressistas, afinal, de que adiantaria o discurso brega e enganador do empreendedor, se a desigualdade absoluta não estivesse minimamente relativizada? Sem o eleitor-consumidor?

Os partidos de esquerda perderam as últimas eleições municipais por uma goleada tão grande que nem o anti-petismo, a Lava Jato, a ‘corrupção’, ou a crise econômica servem como explicação. Não dá pra negar a parcela de incompetência do campo das esquerdas nesse fracasso. Com umas poucas exceções, de fato, a esquerda falhou em uma eleição que, sabia-se, seria fortemente reacionária. Os partidos viram a tempestade que viria, e não foram capazes de fechar as janelas. Nem mesmo o mínimo foi feito. A água entrou, e agora sentimos o cheiro do mofo (aquele que exala dos textos que citei no inicio).  A esquerda perdeu a eleição como quem perde o ônibus, porque dormiu no ponto. Quando virá o próximo? Melhor esperar de pé e se informar melhor. Pergunte ao secundarista ao seu lado, ele sabe o que está fazendo.

Noticia-se hoje que na Inglaterra o judiciário indicou que o voto popular que decidiu pelo Brexit não é soberano o bastante. Ele precisará ser ratificado pelo Parlamento.  Péssimo sinal, e infelizmente vindo de umas das democracias mais bem sucedidas do mundo. Por mais que as motivações dos eleitores sejam claramente conservadoras, também nesse caso cabe cuidar dos meios democráticos. Se abandonarmos os eleitores, estaremos apenas facilitando o trabalho do 1% que, com toda a desigualdade relativa que amealhou nas últimas décadas, não tem mais nada a Temer, a não ser o voto.

Mas o novo não vem em frentes amplas, tentando abarcar todas as pautas, todos os discursos, toda a “verdade”. O novo é dito no ouvido da menina pela menina, do transexual para o transexual, do negro para o negro, na comunidade para a comunidade. O novo colabora, tem afinidades com outro novo, vai estar lá quando for chamado do jeito certo, mas o novo não tem porta-voz, tem vozes. Acostumemos a dormir com essa dodecafonia.

* Rodrigo Prado Mudesto é Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e colabora com a Escuta.

Notas:

[i] Curiosamente Reinaldo Azevedo na Jovem Pã escolheu pra criticar a mesa mais interessante, em que tomaram parte Cicero Araújo, Crystian Lynch e Jorge Chaloub, mas é sempre prazeroso perceber o medo que Azevedo sente de sociólogos, é a mesma relação do vampiro com a luz do dia.

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