Maria Abreu*

A literatura sobre eleições aponta que, em sistemas majoritários de dois turnos, candidatos de partidos de centro tendem a levar vantagem, pois sua rejeição é menor e, no segundo turno, o eleitorado tende a convergir com mais facilidade para suas candidaturas. No entanto, no primeiro turno das eleições municipais do Rio de Janeiro, neste ano, havia diversos candidatos muito próximos no espectro ideológico: pode-se dizer que Pedro Paulo (PMDB); Índio da Costa (PSD) e Carlos Osório (PSDB) tinham uma visão de governo muito próxima, apenas divergindo na avaliação das últimas gestões de Eduardo Paes. Pedro Paulo, o candidato a sucessão; Índio havia indicado o Secretário de Habitação e Osório havia sido Secretário de Transportes. A candidatura de Pedro Paulo, embora contasse com os benefícios do maior tempo de TV e da estrutura administrativa do município e do estado, foi prejudicada pelo seu despreparo, e também pelas denúncias, levadas a conhecimento do público durante a campanha, de que ele havia agredido sua esposa. “Pedro Paulo bate em mulher” foi o slogan utilizado recorrentemente pelos demais candidatos e seus respectivos eleitores[i].

A diversidade de candidaturas ideologicamente parecidas permitiu que fossem ao segundo turno dois candidatos que podem ser considerados, sob muitos aspectos, antípodas no espectro ideológico. Crivella, do PRB, atualmente com mandato de Senador, defende pautas retrógradas do ponto de vista dos costumes e, embora tenha sido Ministro da Pesca no governo Dilma e feito parte da base governista no Senado, votou a favor do impeachment e tem se posicionado de acordo a atender os interesses do governo golpista. Freixo, do PSOL, conseguiu, com uma diferença apertada em relação ao terceiro colocado, Pedro Paulo, passar ao segundo turno e deixar de fora o PMDB. Freixo é conhecido pela sua pauta de defesa dos direitos humanos na Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, pelas suas posições de defesa de uma igualdade distributiva e da melhoria dos serviços públicos para toda a população. Acima de tudo isso, Freixo defende uma política transparente e participativa, sendo pouco afeito às concessões que não sejam em torno de um mesmo projeto programático. Sua agenda para a cidade é tão inclusiva que não faria sentido conchavos políticos, a não ser que fossem para defender interesses minoritários.

A candidatura de Crivella corresponde a um modo anacrônico de fazer política, em que discursos podem ser modificados ao sabor do momento – como se as redes sociais não registrassem cada passo das figuras públicas -, e a intolerância e o paternalismo podem ser usados como bandeiras simultâneas. A de Freixo, ao contrário, representa uma nova forma de fazer política, que nada tem a ver com a proteção de interesses corporativos travestidos de interesses de classe, nem com lealdades incondicionais que estejam acima de um programa de governo em direção a uma cidade mais democrática, justa e ocupada e vivenciada por todos e todas. Sua agenda é a da convivência, da cooperação e do respeito.

O segundo turno das eleições para prefeito do Rio de Janeiro, neste ano, vem num grau crescente de acusações e agressividade nos questionamentos para e entre os candidatos, bem como entre seus eleitores. Esse tom destoa da relação amistosa que marcou os dois candidatos, Crivella e Freixo, no primeiro turno e no início do segundo turno. No primeiro turno, os dois candidatos miraram sua artilharia em Pedro Paulo, pois Crivella disparou na frente das preferências do eleitorado e, ao longo de toda a campanha do primeiro turno, sua presença foi considerada certa no segundo turno. Dessa forma, Pedro Paulo era o candidato a ser derrotado por Freixo e, ao mesmo tempo, era o candidato que apresentava maiores fragilidades, em decorrência do seu histórico de agressão à sua esposa, e também do seu despreparo, que foi se revelando a cada debate ou declaração pública. Por sua vez, Crivella deu mostras de preferir Freixo como adversário no segundo turno, por considerá-lo um candidato bem menos competitivo, tanto por estar fora da estrutura administrativa, quanto por sua posição de esquerda, que já havia sido fragorosamente derrotada no primeiro turno em outras cidades importantes do país e carregaria, portanto, uma grande rejeição.

O pacto de civilidade se rompeu quando a campanha virtual – por meio de facebook e, principalmente, do whatsapp – de Crivella passou a disseminar boatos a respeito de seu adversário[ii], embebidos na mobilização do medo do eleitor: Freixo, se eleito, instauraria o socialismo no Rio de Janeiro, descriminalizaria o aborto e o uso de drogas e, para coroar, acabaria com a polícia militar.

Boa parte da campanha de Freixo, em seu início, foi voltada a apresentar o candidato para a população, pois muitos eleitores ainda não o conheciam. Com dez minutos de propaganda eleitoral, em face dos onze segundos do primeiro turno, a expectativa era a de que Freixo teria tempo para divulgar suas propostas, apresentar sua trajetória de vida e seus apoios.

Nesses programas e também no primeiro debate, realizado na Band, Freixo teve a possibilidade de demonstrar que conhecia melhor os problemas e as demandas da população do Rio de Janeiro. No segundo debate, realizado na Rede TV, em que a agressividade do debate foi bem mais intensa do que no primeiro, Crivella terminou suas respostas antes de o tempo se esgotar em todas as perguntas que lhe foram feitas. Isto, associado à lentidão da fala do candidato, foi um indício de que ele não tinha muito o que falar sobre cada tema; e, em várias ocasiões, chegou a desviar do assunto perguntado, mesmo quando se tratava de perguntas de telespectadores.

Para um espectador imparcial, provavelmente não restou dúvidas de que Freixo é o candidato mais preparado para administrar o município do Rio de Janeiro. O que impediu, então, que ele decolasse na preferência do eleitorado?

Em primeiro lugar, o fato de ser um candidato ainda pouco conhecido e estigmatizado como se fosse uma “esquerda mais radical” que o PT. Este estigma é curioso, porque não se sabe exatamente o que significa a expressão “mais radical”. Freixo já sofreu críticas da esquerda por rejeitar apoio de outros partidos, bem como o de propagandear que seu secretariado seria formado de técnicos e não constituiria moeda de troca em alianças políticas espúrias. Muitos desses críticos acusaram Freixo de estar sendo anti ou apolítico. Mas será isso mesmo? E, se for, em que exatamente ele seria mais radical que o PT? Os apoios de Jandira Feghali (PCdoB) e Alessandro Molon (REDE) no segundo turno não importaram negociação de cargos.

Crivella, por sua vez, no segundo turno, recebeu apoio aberto de Bolsonaro e Índio da Costa. O PSDB, inicialmente, não apoiou qualquer dos candidatos, mas recomendou que seus filiados não votassem em Freixo. Posteriormente, o partido oficializou seu apoio e Osório chegou a posar em fotos ao lado de Crivella. O PMDB não declarou apoio do partido, mas vários de seus quadros manifestaram apoio pessoal a Crivella. Eduardo Paes e Pedro Paulo se mantiveram neutros. Paes, inclusive, tem se manifestado nas redes sociais criticando os dois candidatos. Crivella, embora tente descolar a sua imagem da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), certamente não dispensa a capilaridade que ela lhe permite no alcance de vários setores do eleitorado. Tal facilidade de acesso, inclusive, foi propagandeada em reunião com expoentes políticos na zona sul da cidade, em que ele garantiu que a zona sul seria a vitrine de sua gestão e a proximidade com as camadas de mais baixa renda lhe daria legitimidade para uma atuação que privilegiasse a região que já é a mais privilegiada do Rio de Janeiro[iii].

Certamente, com tantos apoios, o secretariado de Crivella não será eminentemente técnico. Tudo indica, inclusive, que ele pouco fará para desconstituir a atuação das milícias que, segundo ele, são as maiores inimigas do tráfico e, portanto, aliadas no combate a este, o maior mal do Rio de Janeiro. Suas falas acenam para uma acentuação da “guerra às drogas” e a população que mais sofrerá com isso certamente não será a da planície da zona sul, mas a que habita os morros e favelas.

Quanto a Freixo, sua política vem se praticando de forma bastante descentralizada, desde que começou a mobilização intitulada “Se a cidade fosse nossa”. De acordo com a organização, mais de cinco mil pessoas participaram de discussões que deram origem ao programa de governo de Freixo, bem mais completo e articulado que o de seu adversário. O fato de o programa ser implementado por técnicos, sem dúvida, não significará menos política, mas mais política, no sentido de que, em todos os setores da administração, a proposta é de que a população seja ouvida e os diferentes territórios sejam levados em consideração no cumprimento dos compromissos de campanha.

A defesa de uma administração técnica, por Freixo, nada tem a ver com uma visão elitista ou mesmo autoritária de que técnicos são melhores que leigos para saber dos interesses da população. Ao contrário, técnicos e pesquisadores de um determinado tema serão aqueles que saberão fazer as perguntas corretas e ouvir o público-alvo de cada política e estarão mais preocupados com o êxito das políticas do que com a viabilidade de seu futuro eleitoral.

Neste sentido, a política proposta por Freixo, amparada absolutamente na legalidade – não é sugerida pelo candidato qualquer subversão à ordem legal -, pode ser considerada radical somente no sentido de que ela será voltada principalmente para o atendimento da população, e os cidadãos e cidadãs cariocas terão seus direitos e suas vidas colocadas em primeiro lugar. Freixo tem uma proposta radical de democracia, não de democracia direta, mas a de poder compartilhado, em que os segmentos interessados da população poderão opinar sobre e interferir nos rumos da política municipal. Será realizável essa radicalidade? Só saberemos se alguém tentar colocá-la em prática. E temos cada vez mais pessoas apostando nisso. O sectarismo não tem lugar na formulação generosa e abrangente empreendida por todos aqueles que vêm apoiando a candidatura de Marcelo Freixo.

Neste último sentido, sem dúvida, Freixo e Crivella se encontram em extremos opostos. Enquanto o primeiro aposta na generosidade, na tolerância, na política como entrega, na medida em que envolve uma busca incessante de ouvir e considerar cada vez mais pessoas, o segundo aposta em dogmas, em preconceitos, em chavões e em uma perspectiva de que as pessoas precisam ser cuidadas. Paternalismo disfarçando intolerância, imposição de modos corretos de vida, de padrões de costumes e resignação diante das desigualdades indecentes que assolam o espaço urbano do Rio de Janeiro. O primeiro acredita no Estado como promotor de melhorias na vida dos cidadãos e como estrutura que deve ser fiscalizada para que seus excessos sejam evitados. O segundo vê o Estado principalmente como órgão repressor e normalizador, cuja principal função é apenas garantir aos cidadãos segurança e alguma oportunidade de empreender.

Qualquer dos candidatos que vencer no domingo encontrará uma Câmara de Vereadores bastante fragmentada, do ponto de vista partidário, e terá dificuldades de compor maiorias. Os 51 vereadores eleitos do legislativo carioca são de 19 partidos, com a seguinte distribuição:

– PMDB, com 10 cadeiras;

– PSOL, com 6 cadeiras;

– DEM, com 4 cadeiras;

– PRB, PSC, PSDB e PTB, com 3 cadeiras cada;

– PDT, PHS, PMN, PP, PSD, PT e SD, com 2 cadeiras cada; e

– NOVO, PEN, PROS, PTdoB e PTN, com 1 cadeira cada.

 

Crivella já vem sofrendo ataques contínuos tanto do jornal quanto da TV Globo, em uma guerra entre proprietários de veículos de comunicação de massa. Os demais veículos impressos também têm intensificado o bombardeio de denúncias contra o candidato do PRB/IURD. Os ataques, provavelmente, não cessarão após sua eventual vitória. O objetivo é conter a expansão do poder político da IURD, cujo projeto vem sendo incessantemente trazido a público[iv].

No caso de Freixo, os ataques têm vindo muito mais de boatos do que de veículos oficiais de notícias. Mas é de se esperar que tanto na Câmara quanto na relação com os meios de comunicação, sua administração seja bastante atravancada e a aprovação de suas políticas bastante trabalhosa. No entanto, ainda que Freixo não consiga implementar seu programa de governo, ele terá trazido uma nova forma de fazer política, que busca envolver os cidadãos, mas que, acima de tudo, reconhece a importância do Estado no seu papel de corrigir desigualdades sociais, como também é bastante consciente dos exageros que o mesmo Estado pode cometer contra os seus cidadãos.

Um dos candidatos quer que os cidadãos se apoderem do Estado, sem, contudo, diminuir sua responsabilidade pela gestão. O outro, religioso, quer se apoderar do Estado para utilizá-lo como instrumento de controle, disciplina e, em suas próprias palavras, evangelização.

Que, no dia 30 de outubro, nós, cidadãos cariocas, saibamos nos proteger da sanha de controle, para ter, quem sabe, a alegria do compartilhamento de poder e de espaço, em todas as acepções dessas palavras.

* Maria Abreu é cientista política, professora do IPPUR/UFRJ e colaboradora da Escuta.

** Crédito da imagem: <http://eleicoes.uol.com.br/2016/noticias/2016/10/18/debate-crivella-freixo-rio-de-janeiro.htm&gt;. Acesso em: 26 out. 2016.

 Notas

[i] Esta foto foi emblemática da imagem associada a Pedro Paulo como opressor e agressor de sua esposa: https://www.google.com.br/search?q=pedro+paulo+esposa&biw=1920&bih=974&tbm=isch&imgil=yoaVSvELRvHpNM%253A%253B1-2JpfYmTBvldM%253Bhttp%25253A%25252F%25252Fveja.abril.com.br%25252Fpolitica%25252Fperito-fala-em-lesao-de-boxeador-na-ex-mulher-de-pedro-paulo%25252F&source=iu&pf=m&fir=yoaVSvELRvHpNM%253A%252C1-2JpfYmTBvldM%252C_&usg=__jOmUE7WQPU5n37cYAuFsPiDUakE%3D&ved=0ahUKEwiS4tOy4vnPAhUC1mMKHV9AAWYQyjcIgQE&ei=sk8RWJLBHIKsjwPfgIWwBg#imgrc=yoaVSvELRvHpNM%3A

[ii] Ver, por exemplo, esta notícia, dois dias após as eleições do primeiro turno: http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-10-05/freixo-decide-acionar-justica-eleitoral-e-policia-contra-difamacoes-na-internet.html

[iii] O vídeo foi produzido pela Mídia Ninja e noticiado pelo jornal Estado de S.Paulo.

[iv] Sobre os projetos imperialistas da IURD ver: https://noticias.gospelmais.com.br/evangelicos-elegerao-presidente-republica-marcelo-crivella-86340.html

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