Jorge Chaloub*

O segundo turno carioca não representa apenas um novidade em relação às últimas eleições, com a interrupção de uma série de vitórias do PMDB para os governos municipal e estadual. O embate entre Freixo e Crivella também é a primeira oportunidade, desde o ocaso do Brizolismo, onde uma eleição local do Rio assume contornos claramente nacionais. Depois de uma série de pleitos onde predominou uma retórica tecnocrática, refratária à questões mais amplas, a tradição local de reproduzir em outra escala embates nacionais volta à cena.

Os péssimos resultados do PT nas eleições municipais e, principalmente, o cenário de crise da esquerda, impulsionado pelo Golpe e pelo fortalecimento da direita, tornam a candidatura psolista uma possível boa notícia em tempos sombrios para as forças progressistas. Marcelo Crivella, por outro lado, representa a consolidação do crescimento de certa elite política evangélica, em franco destaque com o Golpe conduzido na Câmara e a condução de inúmeras pautas contrárias a direitos individuais ao centro do debate público. Deve-se ressaltar que, nesse caso, a adesão religiosa, perfeitamente legítima, não surge como crença individual, mas enquanto projeto político explícito, que traz a confissão ao centro da cena política.

O Rio de Janeiro, por sua outrora condição de capital, costumava ter uma política local de forte caráter nacional. Eram corriqueiros os personagens – como Leonel Brizola, Afonso Arinos de Melo Franco, Aliomar Baleeiro, dentre outros –  que já estabelecidos em suas respectivas cenas locais vinham ao Rio para se candidatarem a postos aqui situados. Brizola já fora Governador do Rio Grande do Sul e Prefeito de Porto Alegre quando decide se concorrer, em 1962, a deputado federal pela localidade. Após a mudança da capital pra Brasília, Marly Motta vê, todavia, a cidade dividida entre a aspiração de permanecer como grande palco do país e a preocupação com questões locais mais prementes. Lacerda seria o grande personagem desse olhar nacional dos cariocas, ao passo que Chagas Freitas, também jornalista, dono do jornal “O Dia’, e líder local da Guanabara e do futuro estado do Rio, do qual seria Governador, representaria a hegemonia dos interesses locais.

A própria Marly Motta ressalta, todavia, a forte presença de uma retórica da “gestão”, quando da eleição e do governo de Carlos Lacerda à frente da Guanabara. O conhecido tribuno oposicionista adere vigorosamente à defesa de uma “administração eficiente”, pautada em critérios “técnicos e impessoais”. Lacerda, nesse sentido, cultiva duas almas: uma eminentemente política, a defender da ideia do Rio como eterna e verdadeira capital, outra afeta à retórica da gestão técnica e crítica da nacionalização do debate. O último discurso foi fundamental para sua vitória na eleição de 1960, contra o petebista Sérgio Magalhaes, que construiu sua campanha atento apenas a temas nacionais. Não sem razão, uma vez vitorioso nas eleições municipais de 1992, o ex-brizolista Cesar Maia – fundados de uma nova linhagem de “prefeitos-gestores” no Rio de Janeiro, como Luiz Paulo Conde e Eduardo Paes – apontou Lacerda como grande inspiração para o seu mandato.

A vitória de Cesar Maia representa o fim do cenário político da redemocratização no Rio de Janeiro, onde a retórica nacional, identificada à figura de Brizola, predominava sobre a retórica local, marcada sobretudo pela tradição chaguista, identifica à herança do ex-governador Chagas Freitas. A surpreendente eleição de Brizola, em 1982, contra o chaguista Miro Teixeira, posteriormente filiado ao PDT, deu início a uma série de vitórias em eleições municipais e estaduais. O próprio Brizola, outra vez, assim como os prefeitos Marcelo Allencar e Saturnino Braga seriam vencedores, interrompida a sequência apenas com a vitória de Moreira Franco no pleito estadual de 1986. A política carioca vivia então sob o signo do Brizolismo, entendido por João Trajano Sento Sé como o “campo de disputa de significados sobre Brizola e aquilo que ele representou”, incluindo tanto os discursos apologéticos do político gaúcho quanto aqueles empenhados em atacá-lo.

O ocaso da figura de Brizola à época, marcada por um incessante ataque midiático e uma crescente impopularidade, sobretudo dentre as classes médias, não foi ocupado por outro político de perspectiva semelhante, mas pela emergência do prefeito-gestor e “fazedor de obras”. O marco, como já dito, é a ausência da brizolista Cidinha Campos do segundo turno, que consagraria, por meio da recuperação de Lacerda, Cesar Maia. A vitória dos outrora brizolistas Marcello Alencar e Garotinho em eleições ao governo do estado não vieram vinculadas ao velho político, mas a despeito das suas antigas relações.

O “prefeito-gestor” se encontra, na figura de Eduardo Paes, com o fortalecimento da máquina peemedebista, formada tanto por resquícios do chaguismo, remanescentes do antigo MDB do estado do Rio de Janeiro, quanto por novos personagens. Enquanto o aparato político opera nos bastidores, garantindo a estabilidade e dificultando a alternância de poder, a imagem pública aponta para símbolos de eficiência e imparcialidade.

Atacado por seus malfeitos e vínculos com os descaminhos peemedebistas, Pedro Paulo, candidato de Eduardo Paes, acabou fora do segundo turno. O discurso de gestão não perdeu, entretanto, sua força. Em tempos de fortalecimento nacional de certa retórica liberal, marcada por pobres paralelos entre a economia pública e a doméstica, seria, aliás, surpreendente se decaísse por estas plagas.  Constantemente presente nas falas de Crivella sobre seu caráter de engenheiro e “fazedor de coisas”, o tema teve até mesmo que ser abraçado por Marcelo Freixo, que acaba de assinar um compromisso de responsabilidade orçamentária.

O discurso local se mostrava perfeitamente consonante com o cenário político mais amplo. A composição entre o crescente predomínio de PSDB e PT nas eleições nacionais e sua relativa fragilidade no cenário carioca – ofuscados, respectivamente, pelas tradições peemedebista e brizolista – abre as portas para o lugar secundário do estado nos arranjos nacionais. Exemplar nesse sentido foi a intervenção nacional no diretório petista do Rio, com o objetivo de mudar a decisão local de lançar Vladimir Palmeira como candidato ao Governo do Estado e impor, em troca da chapa à Presidência, o apoio a Anthony Garotinho. Em momentos posteriores, a imposição não se faria mais necessária, ante a plena desarticulação do partido no estado.

As novas perspectivas do pós-Golpe, nem um pouco benfazejas, abrem, todavia, “novos” campos para a política carioca, outra vez à frente das querelas nacionais. Há, primeiramente, que se investigar se estamos diante de uma mudança de clima mais estável, ou apenas frente a mais uma das corriqueiras “chuvas de verão”, tão comuns no Rio de Janeiro. Mais relevante, contudo, é ter clareza sobre as implicações mais amplas da atual eleição. Já que mesmo próximas em suas repercussões, que por certo ultrapassam os horizontes do balneário, as candidaturas apontam para projetos de país profundamente distintos.

*Jorge Chaloub é eleitor de Marcelo Freixo e um dos editores da Escuta.

**Crédito de imagem: Leonel de Moura Brizola – Foto reprodução blog do Memorial do RS. Disponível em http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2014/03/17/ditadura-esquadrinhou-patrimonio-de-brizola-e-concluiu-ele-era-honesto/ Acesso em 23/10/2016

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