Alessandra Maia*

O Rio não é um lugar fácil de se viver, muito menos de se entender. Nem por isso é dos lugares menos amados, talvez essa a fonte de seu charme que conquista corações e mentes.

Os leitores dos meus textos para a Revista Escuta sabem que invariavelmente o assunto passa por questões da cidade. Cidade essa onde sou pesquisadora e professora, e lá nos idos de 2009, em pleno governo Eduardo Paes, pesquisas e números já indicavam que era possível prever novas forças políticas – tímidas ainda – a se formar na cidade.

Sim, o segundo turno da eleição para prefeitura do Rio em 2016 será rememorado como uma campanha histórica. Não apenas porque pela primeira vez em décadas o PMDB foi derrotado no primeiro turno eleitoral na cidade e não está com o candidato principal (até porque nesse momento ele está, e agora apoia o Marcelo Crivella), mas o principal marco – o sintoma positivo desse pleito, se prenunciou em perene processo de organização dos jovens, primeiros a indicar no tempo para onde a bússola política da cidade se dirigiria.

Quem acompanha a política no Rio sabe que a grande maioria dos jovens já “fechou com Freixo”, processo que se expandiu desde 2012 e que o tornou o deputado estadual mais votado do país com 350 mil votos em 2014.

Por isso mesmo, a disputa agora se dá entre conquistar corações mais antigos, calejados e descrentes da política. São histórias que na universidade escuto a cada dia, de moços e moças que se articulam para conquistar apoios de pais, tios e desconhecidos para dar chance a uma proposta política diferente, que não esteja conectada com tudo o que se critica na cidade, com as obras fraudulentas, os desvios de recursos, os grandes carteis, os grupos criminosos.

O curioso é que um dos pontos criticados no candidato do PSOL – o fato de sua trajetória ser via Legislativo, o protagonismo na ALERJ, talvez seja, pelo contrário – seu maior mérito. Em um país onde o presidencialismo de coalizão se estende a todos os recantos da sociedade, às cidades, às empresas e impregna por toda parte as relações público-privadas e articulações de interesses, nada como um deputado acostumado a atuar como minoria em ambiente hostil, que conseguiu travar lutas históricas para nossa cidade, para entender que o caciquismo é o que há de mais velho e espúrio na nossa política.

É com apoio significativo do Legislativo e dos vereadores que um prefeito pode governar. A sociedade do Rio parece pouco a pouco perceber isso – não apenas levou Marcelo Freixo ao segundo turno, mas dobrou a bancada do seu partido na Câmara de Vereadores – o que é um fator fundamental para que um futuro mandato como prefeito possa ter chances de ser bem-sucedido.

Outro ponto difícil de se lidar é que a cidade foi falida pelas Olimpíadas, por Sérgio Cabral, Eduardo Cunha e Eduardo Paes. Hoje relembrar e renomear seus nomes e atos é relembrar como os crimes de muitos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro se expandem para o centro da política no país. Eduardo Paes como um adversário esperto se adiantou e percebeu a derrota, e não hesitou em tentar surfar a marola que se prenuncia como uma onda de virada no segundo turno da cidade (como demonstram fotos que pediu para tirar com eleitores de Freixo, e as últimas pesquisas do Ibope[1]). Marcelo Freixo reagiu com a tranquilidade natural de quem tem a biografia a seu favor[2] – sempre criticou e se posicionou contrariamente ao ex-prefeito.

O Rio hoje tem a oportunidade de realizar essa virada política, o voto de cada um pode dar essa chance para a nossa cidade. Nada melhor do que o hábito e a habilidade cultivados ao longo de toda a trajetória política de Marcelo Freixo em denunciar e apurar fraudes na cidade e no Estado para poder enfrentar e desvendar os nós que nos mantém acorrentados nessa política antiga, cínica, que falseia a representação e desacredita a democracia.

Qualquer que seja o novo prefeito terá que lidar com uma crise inédita no passado, com o estado falido, com a própria crise do país. E tudo isso na cidade dos extremos, da desigualdade que perpetua a exclusão e a violência, do sumiço das vigas, das escolas e hospitais precários. Esse mesmo lugar da linha reta de metrô, que não é enraizada pelo seu território urbano, mas apenas “cuida” de alguns bairros – escolhidos a dedo pela elite política que sempre flanou tranquila no modelo de cidade partida. Lugares onde alguns querem barrar ônibus no verão para que outros moradores da mesma cidade – mas que possuem CEP diferente – não cheguem às praias.

Não é verdade que no Rio só existem corruptos como alguns meios de comunicação insistem em repetir e alardear para que a sociedade acredite. Essa argumentação é tão falha quanto a que espera um salvador-cuidador. Afirmar que na política todos são “farinha do mesmo saco” é o primeiro passo para garantir que os mesmos grupos econômicos continuem a perpetuar no poder governantes que lhes atendem e reforçam apenas os seus interesses.

Há formas diferentes de fazer política. De pensar a cidade para aquelas pessoas que vivem na cidade. De respeitar religiões, opiniões e promover a humanidade e a dignidade. Isso também significa pensar a cidade de forma pragmática – considerar a grande maioria numérica da sua população que trabalha ou busca todo dia um trabalho digno pelo qual se sustentar, que ama a cidade, que não quer “deixá-la pra ir viver em Miami”, mas defendê-la, ocupar suas praças, suas escolas, dar-lhe vida.

Muitos que partilham à sua maneira do valor comum de que só teremos um país melhor quando não seja natural presenciar uma criança desamparada e desabrigada na rua. Lugar de criança é na escola, e fortalecer essa tradição é contribuir para o sentido de pertencimento ao lugar onde se vive. O julgamento político, a perspectiva humana se forma quando há garantias para expansão da empatia pela dignidade em si e alheia, ou nas palavras dos antigos é fundamental que a política promova valores como philia (amizade) e dike (justiça).[3] Estes os caminhos mais seguros para prevenir conflitos em sociedade. Uma República se forma, a política ensina desde Protágoras, Platão, Aristóteles ou mesmo Maquiavel, pelo exercício cotidiano no qual as cidades formam, educam e preparam sua juventude.

Na cidade cujo governador foi notório em maltratar, agredir e vilipendiar os professores, não há resposta melhor para esse tipo de desrespeito aos cidadãos e cidadãs do que eleger um professor prefeito. Quem sabe a gente escuta a juventude. Sim, pode ser desse jeito.

* Alessandra Maia é Socióloga formada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mestre e doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professora na mesma instituição e colabora com a Escuta.

Notas:

[1]   Pelos últimos números Crivella está com 61%, e Freixo com 39% dos votos válidos. Isso significa um movimento significativo em dez dias, onde Crivella caiu 6 pontos percentuais e Freixo subiu 6 pontos percentuais. A diferença concreta caiu em 12 pontos. Considerando os votos totais o Ibope traz Crivella com 46% (e queda de 5 p.p.), enquanto Freixo está com 29% (em ascenção de 4 p.p.). Nos votos totais a diferença era de 26 pontos e agora caiu para 17. Fonte : http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1824778-crivella-mantem-lideranca-com-vantagem-menor-diz-ibope.shtml

[2]Claramente foi um momento de descontração do prefeito durante uma feira de cerveja.

Arriscaria dizer que, apesar das nossas profundas divergências, Paes sabe do perigo que representa uma possível vitória do Crivella e seu grupo político para o Rio de Janeiro”.

Fonte: http://extra.globo.com/noticias/rio/eduardo-paes-tira-fotos-com-adesivos-de-marcelo-freixo-em-festival-de-cerveja-20298405.html#ixzz4Nifl021g

[3] FINLEY, Moses. Democracia antiga e moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 40.

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