Luiz Guilherme Burlamaqui*                   

                                                         “[…] as horas são difíceis, mas nós vamos superar”( José Trajano)

Em junho de 2016, uma jovem foi vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro.  Trinta homens violentaram uma mulher dopada e inconsciente, filmaram o ato e divulgaram nas redes sociais. De início, a grande imprensa ignorou o crime. Não obstante, a forte mobilização nas redes sociais, sobretudo de escritoras, blogueiras e grupos feministas, fizeram com que o crime ganhasse as páginas dos principais sites de notícia. A mobilização foi de tal natureza que o  então presidente interino se manifestou repudiando o episódio. Naquela semana, o humorista Danilo Gentile foi recebido no Programa Bate-Bola, da ESPN Brasil, que, às terças-feiras, recebe um convidado externo. Gentile é conhecido por suas postagens infelizes nas redes sociais, nas quais inferioriza mulheres em comentários depreciativos (em mais de uma ocasião Gentile se referiu às suas seguidoras como ‘arrombadas’), além de ter (também em mais de uma ocasião) elogiado homens. Desconectados na superfície, os episódios guardam relação semântica. E o jornalista José Trajano abriu o Linha de Passe, tradicional programa de debate da emissora, que ocorre às segundas e às sextas, ressaltando o óbvio.

“Eu ocupo aqui uma tribuna, às segundas e às sextas, onde eu tenho o direito de falar o que eu quiser. Às vezes me chamam a atenção de uma coisa ou de outra, mas, de forma geral, não sou censurado (…) Eu queria fazer um protesto. Em nome de um grupo da ESPN. Porque essa semana o canal abrigou um engraçadinho. (…) Um sujeito que faz apologia ao estrupo em nome do humor. (…) Estou enojado com a presença dele. (…) Esse grupo que foi convidado talvez por um descuido da produção. Uma produção alienada, que não tem compromisso com o que acontece no país.”

Menos de três meses depois do ocorrido, José Trajano acabou demitido. Talvez tenha sido vítima da censura, que Trajano negara ao vivo. “Já me chamaram algumas vezes dizendo que seria melhor não falar nada de política”, disse incrédulo logo após a demissão. Brizolista de carteirinha e admirador de Darcy Ribeiro, Trajano foi um entre tantos brasileiros que denunciaram a farsa jurídico-midiática do impeachment da presidenta Dilma Roussef. Passou a frequentar comícios, reuniões, passeatas em defesa da legalidade democrática. Mesmo afastado da televisão, Trajano segue sua luta política. Logo após ter recebido a notícia, Trajano pegou um avião e veio direto pro Rio fazer campanha para o candidato do PSOL, Marcelo Freixo. Foram vinte e um anos trabalhando na emissora, boa parte deles como Diretor de Jornalismo. Vinculada ao grupo Disney, a ESPN Brasil cresceu com a expansão da televisão a cabo. Mas havia algo de diferente na sua programação. Bastava assistir um minuto das irmãs latinas para perceber a singularidade do caso brasileiro. Era a mão de José Trajano. Ele chefiava a redação com “mão de ferro” — muitos o acusavam de ser um chefe “duro”, que implicava com as férias —, mas intensa criatividade.

A ESPN era uma espécie de escola do jornalismo, equivalente ao Jornal do Brasil nos anos 1960, onde Trajano começou a carreira. Trajano, por sua vez, parecia garimpar talentos como poucos. Quase todos os grandes jornalistas e narradores esportivos da atualidade passaram pelo canal: Luís Roberto, Milton Leite, Casagrande, Paulo Vinícius Coleho, entre outros, construíram uma reputação trabalhando na emissora. O ambiente parecia tão aberto à crítica e ao exercício do pensamento livre que o ex-jogador Tostão chegou a pedir para trabalhar no canal. “Ali era o meu lugar”, escreveu muitos anos depois em sua autobiografia.

A emissora se caracterizava pelo olhar crítico. Às vezes, a crítica era exagerada — quando criança me lembro de assistir aos programas após os jogos da seleção brasileira e perceber que o time nunca jogava bem. Mesmo quando vencemos a Copa do Mundo havia mais defeitos do que virtude na equipe. Outra vez, a mão de Trajano, com seu mau humor inconfundível, que se passa a apreciar com o passar dos anos. Além disso, a programação da ESPN Brasil era extremamente plural. Programas piloto como o Loucos por Futebol, destinado quase exclusivamente a discutir a história do esporte, ou o Pontapé Inicial, que misturava esporte, música e cultura popular. Havia também programas interessantíssimos, como o Segredos do Esporte, o Juca entrevista, e o Aventuras. A ESPN também financiou uma série de documentários — como o Memórias de Chumbo, de Lúcio de Castro, reconhecidos internacionalmente. Foi também la que, pela primeira vez, as mulheres ganharam algum protagonismo no jornalismo esportivo — Soninha se tornou apresentadora do Bate-Bola e construiu uma reputação sólida no meio. Tudo isso se perdeu com a ascensão de João Palomino à direção da emissora.

Ali, a presença de Trajano passou a fazer cada vez menos sentido. Depois que saiu da direção, a pasteurização da programação transformou a emissora. Se, antes, a programação era plural, passou a se assistir variações do mesmo programa em horários distintos. São nada menos do que quatro edições diárias do Bate Bola e três edições do Sportscenter. Sem Trajano, a ESPN Brasil se aproximou do modelo mais tradicional de jornalismo esportivo, mais parecida com as suas irmãs latinas: pouca criatividade, nenhuma crítica e muito entretenimento. Como sempre, o pretexto para mudanças ideológicas é econômico. A justificativa é via de regra a crise econômica e o aumento da concorrência no mercado esportivo. Ainda assim, sem a sua identidade crítica, será o canal capaz de criar um novo nicho de mercado para sobreviver frente à concorrência? A demissão de Trajano marca o fracasso de um projeto de emissora crítica no jornalismo esportivo brasileiro. E é sintomático que ela tenha se dado em um contexto tão duro para o pensamento crítico. De um jeito ou de outro, parece difícil de medir o legado de José Trajano nos índices de audiência.

*Luiz Guilherme Burlamaqui é flamenguista, faz doutorado em História na USP e colabora com a Escuta.

Imagem disponível em: http://www.editoraparalela.com.br/detalhe.php?codigo=88089

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