Eduardo Freitas*

Último dia na belíssima Belém. Nosso táxi para o aeroporto chegaria às 10:50h e pontualmente nesse horário lá um Celta branco não tão novo não tão velho está a nos esperar. Duas mochilas, uma mala pequena e um isopor com a garantia do tempero paraense por mais alguns dias era nossa bagagem depois de treze dias por Belém, Alter do Chão e novamente Belém.

Uma das grandes, dentre tantas alegrias de ter encontrado a Mariana em meu-nosso caminho, foi ter essa intermediação notável do Pará. Já estive por lá duas vezes esse ano, e seria capaz de voltar na próxima quinta. Mariana viveu lá dos três anos até seus vinte e um anos, e ainda tem hoje sua família residindo por lá. Belém e o Pará talvez seja o Brasil que mais amei. De gente simples, de rua batida, de cores e sabores infinitos, de autoestima alta, de amor bruto.

Dentro do táxi o ar condicionado é condição sine qua non para a brea de belém. Por lá os graus centígrados parecem não poder se mover para baixo dos vinte e seis graus, seja a hora que for. No rádio, uma música qualquer embala nosso passar pelo trânsito engarrafado, enquanto observo a mistura de casarios antigos, grades ,  muitas grades, e a peculiar cor cinza-verde-marrom do povo paraense.

Mariana e eu trocamos alguma ideia sobre um prognóstico climático no Rio, nosso destino. Nossa vontade é que a temperatura esteja em vinte e um graus, para que depois de treze dias possamos escolher água quente como opção de banho. Versadas algumas palavras sobre esse tema quase compulsório nas corridas de táxi, Augusto, o motorista do táxi, pede licença para dizer que o sonho da vida dele era conhecer o Rio de Janeiro. Confesso que até ali não tive muita surpresa, talvez denunciando meu lugar arrogante de morador de um Sudeste desrespeitoso com o Norte/Nordeste do país. A partir daí as surpresas se sucederiam.

Augusto, com voz mansa e cantada, emenda a seguinte frase para justificar sua predileção pelo rio: “Eu sou apaixonado pelo Botafogo! Eu amo o Botafogo! Quero conhecer muito o Rio de Janeiro e o Botafogo” ao mesmo tempo que com a mão esquerda puxa o chaveiro da estrela solitária, pendurado na chave do carro que dirige, e com a direita já abre o porta luva pegando uma toalha com o mesmo tema. Para comprovar sua paixão, Augusto larga o volante, mas é verdade que o trânsito não andava.

Mariana, que já acusara rapidamente minha paixão para augusto, me observava incrédula naquela coincidência. Calado, falo pouco, minha vontade de ouvir aquela história é imensa. Augusto repete umas oito vezes em cerca de dois minutos que era apaixonado pelo Botafogo e então resolvo perguntar qual motivo de tanta devoção ao clube que dista mais de 3.100 quilômetros dali.

Seu avô era torcedor do Botafogo e, segundo Augusto, fez toda uma família amara as tradições e glórias da estrela solitária, tendo apenas um primo desgarrado — palavras dele mesmo — que escolhera o Vasco como clube. Augusto conta que, até ano passado, só trabalhava no táxi vestindo roupas do Glorioso de General Severiano, mas que seguindo os apelos de sua filha hoje passou a trajar roupas comuns para sua atividade diária.

Lembro que o Botafogo jogara em Belém no ano de 2015 por conta do tortuoso caminho que trilhamos na segunda divisão. Pergunto a ele, que nesse momento já se desvencilhara dos engarrafamentos mais encruados, se ele havia presenciado aquele gol de Pimpão no segundo tempo após o cruzamento de Carleto. Ele me conta que não havia ido ao jogo, pois estava recém-separado, havia vivido a vida toda para família e segundo sua narrativa, sua esposa disse em um dia, sem a mínima aparente razão, que iria se separar. Duro golpe. Uma grande dor de amor o impedia de acompanhar sua outra paixão. Uma poesia trágica no táxi em belém. Que cidade apaixonante.

Augusto continua e me conta que em sua casa tem pratos, relógios, toalhas, itens diversos do clube de Garrincha, Didi e Nilton Santos. Diz que possui um grande número de camisas que já ganhou, mas confessa que algumas nunca dessas ele nunca usou, tem pena de gastá-las. De tempos em tempos retira uma a uma de cada saco, tira a poeira, lava com comfort e estica para secar na sombra, para inquietação das filhas.

Augusto, que já havia falado de forma salteada sobre sua separação de seu grande amor uma série de vezes, revelava agora outras queixas. A primeira em tom de lamento, uma antiga cliente da praça havia prometido comprar uma passagem de avião para o Rio de Janeiro, sabendo do seu sonho, mas esta nobre mulher havia morrido em uma batida de trânsito, deixando assim a promessa e o sonho em aberto. Outro breve lamento é por conta do seu ex-vizinho, Charles Guerreiro, que desde a época que jogou no Flamengo prometera uma camisa oficial do Botafogo a ele, sem nunca ter cumprido. Hoje não pode nem mais cobrá-lo, pois o celular em estava salvo o contato do ex-volante, e aparentemente, ex-amigo, foi roubado.

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De volta aos bons relatos, já chegando no aeroporto, conta que ainda rema no Tuna-Luso, clube de 113 anos e que foi campeão brasileiro de futebol da terceira divisão em 1992, e faz questão de mostrar fotos no seu celular portando a camisa tricolor, e conta orgulhoso que recentemente seus amigos já mais jovens, que vieram para o rio, o levaram de presente uma regata do remo do Botafogo. O tuna detêm 38 títulos estaduais, enquanto o botafogo possui apenas 7. Supremacia paraense.

Na véspera de nosso encontro pelas ruas históricas de Belém, o Remo jogava no Mangueirão contra o América do Rio Grande do Norte, uma partida que poderia garantir sua permanência na disputa da terceira divisão, para que pudesse concluir o objetivo dessa temporada: o ascenso à segunda divisão, para depois de muito tempo disputar o mesmo campeonato nacional com seu maior rival — o Paysandu. A partida terminou em 0 x 0 num final épico com chances desperdiçadas por ambos os times. Fim de jogo, e os foguetes em Belém começavam. O fracasso azulino era comemorado efusivamente pela metade bicolor da cidade.

O amor das tuas torcidas é visível em qualquer parte da cidade. Mais cedo em uma visita no mágico ver-o-peso a torcida remista portava suas camisas e bandeiras a espera do jogo. Juntamente com a cerveja e pirarucu que eu saboreava com Mariana e meu sogro, um torcedor do Paysandu vestido dos pés a cabeça. Torcedores trajam seus orgulhos por toda Belém a qualquer dia e qualquer momento. Nessa supremacia azul, que varia apenas em sua intensidade, algo que chama atenção é o amor dos belenenses pelo Flamengo. Em minhas duas idas para aquelas bandas havia reclamado de ver a toda hora as camisas rubro-negras, onde quer que fosse. Meu amor pela cidade era empoeirado apenas pela estética opressora do rival.

As locadoras de carro já nos cercavam, sinal que nossa corrida com Augusto estava chegando ao fim. Imbuído de nutrir aquele amor alvinegro, pego os seus contatos e endereço para que possa enviar algum presente. Pergunto a ele qual camisa ele gostaria de ter e que ainda não tem e conta que antigamente tinha uma loja em Belém do Botafogo, e que ia lá toda semana, atrás de um short oficial, mas nunca teve sucesso nessa busca. A ideia está concretizada. Augusto em breve receberá um short e outros possíveis mimos.

A corrida que já havia sido paga por um valor fechado chega ao fim, Augusto estaciona o carro, e peço inibido que ele mostre aquela toalha de novo para que faça esse registro fotográfico. Nos despedimos e peço um abraço. Um abraço nos meus — de amor alvinegro, de amor e agradecimento ao povo belenense, de amor aos homens que amam e sofrem por amor, de amor a poesia numa manhã de segunda. Grande abraço, Augusto. Sobrevoo Belém retornando para o rio com a certeza da interminável capacidade de amor que existe por lá.

*Eduardo Freitas é alvinegro, técnico de assuntos educacionais da UFF – Campus de Volta Redonda -, mestre em Ciências Sociais (UFJF), e colabora com a Revista Escuta.

Crédito das imagens: Eduardo Freitas (acervo pessoal).

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