Jorge Chaloub*

Regularmente espaçadas no tempo, as eleições democráticas carregam a ideia de rotina. Surgem os mesmos padrões de postulantes, repisam-se, com sutis diferenças, antigos temas, repetem-se os mesmos procedimentos. Alguns, mais otimistas, veem nessa continuidade um inconteste fortalecimento democrático, outros denunciam o insulamento do mundo político perante as mudanças. Não é este, entretanto, o cenário das atuais eleições municipais.

Desde 2012, ano do último pleito, não foram poucos os sobressaltos, de distintos tipos, a impedirem a repetição das rotinas institucionais brasileiras. Das icônicas manifestações de 2013 ao mais recente Golpe de Estado perpetrado contra a presidente Dilma Rousseff, passando por uma despótica e atabalhoada “reforma política” comandada por um personagem mais afeito às páginas policiais. As atuais eleições transcorreram, nesse sentido, sob o signo e a herança da crise, entendida como processo de desorganização e caducidade de velhos padrões. Se muito ocorreu em ritmo semelhante às antigas rotinas, como é natural, uma parte relevante dos resultados e, acima de tudo, da marcas do processo eleitoral não pode ser compreendida sem atenção às consequências desta conjuntura mais recente. Nesse breve balanço, a atenção se volta para os efeitos desses três eventos – o golpe, as Jornadas de Junho e a reforma política – no mais recente processo eleitoral e tenta, com base nos precários indícios do dia 3 de outubro, delinear alguns desdobramentos possíveis.

A narrativa hegemônica sobre o pleito vê como fato central a significativa derrota do Partido dos Trabalhadores. Alguns número são, de fato, eloquentes. Antes à frente de 638 prefeituras, o partido agora venceu em apenas 256, sendo que dentre as cidades com mais de 200.000 habitantes o partido ganhou apenas uma prefeitura, e disputa o segundo turno em 7, contra 15 vitórias no último pleito. A derrota em São Paulo tem um peso significativo, mas ainda é impressionante constatar a redução da votação majoritária petista, que recebera 17,2 milhões de votos na eleição e agora se restringiu a 6,8 milhões.  O revés não se limitou ao Executivo, pois também ocorreu significativa queda no número de vereadores, com redução de 44,8% do número de eleitos pelo partido. A redução, aliás, já era esperada em virtude da grande redução do número de candidaturas, quase a metade da última eleição, para o Executivo e o Legislativo[i]. Em contrapartida, o PSDB cresceu no computo geral de prefeituras e, principalmente, nas maiores cidades, onde venceu 12 no primeiro turno e disputa o segundo turno em 19, com enorme possibilidade de aumento ante as 18 de 2012, sem falar na simbólica vitória no primeiro turno em São Paulo.

Afastado da presidência por meio do golpe, o PT continua a sofrer, por um lado, com o discurso de ódio antipetista, construído ao longo do seu período à frente do poder. As marcas negativas atribuídas ao partido, da corrupção à ineficiência, por certo explicam em parte a perda de um eleitorado usualmente petista. O recrudescimento de um discurso de direita, tanto através do surgimento de novos atores quanto pela transformação de antigos, sem dúvida elegeu o petismo como grande inimigo a ser derrotado. Por outro lado, não se pode minorar os equívocos do PT, presentes não apenas na política econômica recessiva capitaneada pelo segundo governo Dilma, como pela excessiva burocratização do partido, que se mostrou incapaz de atrair novas lideranças e protagonizar pautas emergentes. A política econômica atinge velhas bases petistas, agora migrando pra outros candidatos ou aderindo ao voto nulo, como bem demonstra o caso paulista. O insulamento burocrático do partido, que perdeu sua tradicional abertura às novas expressões sociais, impede o diálogo com certa juventude, em parte beneficiada pelos seus acertos à frente do governo, como a expansão do acesso à Universidade e o reconhecimento de espaços institucionais de minorias. A dificuldade em lidar com as virtudes e vícios das Jornadas de Junho – perfeitamente expressas na inabilidade de um dos melhores quadros petistas, Fernando Haddad – cobra explicitamente seu preço agora.

Em texto anterior nesse espaço[ii], identifiquei três grandes heranças de Junho: a radicalização dos embates políticos, o fortalecimento de um discurso de descrença nas instituições e a valorização das performances públicas como parte central do jogo político. Se os três fenômenos não podem ser atribuídos exclusivamente às massivas manifestações de rua, eles certamente ganharam força a partir dos eventos.  Os três aspectos sem dúvida se sobressaíram nas atuais eleições municipais, à direita e à esquerda. Ganharam destaque, por um lado, atores amparados em imagem antipolítica, ansiosos por se distinguirem dos políticos “tradicionais”. São exemplares nesse sentido a vitoriosa candidatura de João Dória em São Paulo, vendido como gestor alheio à política, e a bem sucedida campanha de Alexandre Kalil em Belo Horizonte, pautada pelo slogan: “Não vote em político, vote em Kalil”. O fenômeno abre as portas para fenômenos semelhantes nas eleições de 2018, estimulando os partidos a escolherem candidatos com esta retórica.

A mesma ojeriza ao meio político se expressou por meio do significativo crescimento da taxa de abstenção e de votos brancos e nulos nas mais populosas capitais. Se nacionalmente não houve grande alteração no percentual, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro apresentaram um aumento expressivo, totalizando uma quantidade maior do que a acumulada pelos primeiros colocados. Texto de Carlos Machado, Danusa Marques e Luiz Augusto Campos sugere, em chave interessante, que a abstenção cresceu sobretudo sobre os votos da esquerda, marcados por crescente redução ante um percentual estável do sufrágio da direita[iii].

Sintomas da descrença nas instituições, esses fenômenos foram favorecidos não apenas pelos ares de Junho, mas também pela campanha de criminalização da política empreendida de forma articulada tanto por grande parte da mídia, quanto pelo Judiciário e Ministério Público. O comentado discurso do Procurador Dallagnol ilustra perfeitamente uma perspectiva intrinsecamente negativa frente a atividade política, que não nasceu agora, mas ganhou força significativa na opinião pública. Se o mundo político é habitado por seres corruptos, como pressupõe a narrativa, o mais adequado é procurar em outras plagas, como no mercado ou no Judiciário, a honestidade perdida.

A eleição de Dória reforça, por outro lado, a clara radicalização do embate político, com evidente fortalecimento de forças mais à direita – o que é mais evidente – mas também à esquerda do espectro político. Por um lado, a adesão explícita à direita do novo prefeito paulista vem acompanhada da eleição de políticos vinculados a movimentos fortalecidos durante as manifestações favoráveis ao golpe ou identificados à emergência de uma nova direita, como o Movimento Brasil Livre, responsável pela eleição de 7 vereadores e um prefeito, e Partido Novo, com quatro eleitos para o legislativo local. Por outro lado, o desempenho do PSOL nas grandes capitais mostra a emergência de outra face de Junho. A massiva votação de vereadores vinculados à movimentos sociais cuja principal pauta é a representatividade de minorias mostra como, no campo da esquerda, o partido se mostrou o ator mais hábil para canalizar certas vertentes das Jornadas. Legenda das mais atingidas pela criação da Rede, com perda de parlamentares e um Senador, o PSOL conseguiu aumentar o número de vereadores, alguns dos quais foram os mais votados em suas respectivas capitais: como Aurea Carolina em Belo Horizonte, Tarcísio Mottta e Marielle Franco no Rio de Janeiro, Hilton Coelho em Salvador e Fernanda Melchionna em Porto Alegre. Os socialistas também conseguiram emplacar dois prefeitos no segundo turno de grandes capitais, casos de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro e Edmilson Rodrigues em Belém.

As mudanças no processo eleitoral aprovadas na calada da noite por Eduardo Cunha merecem, por certo, estudos mais detalhados. Se, por um lado, as mudanças no tempo de campanha e no horário eleitoral tendem a favorecer os candidatos já consolidados, as mudanças no financiamento podem abrir possibilidades para a construção de candidaturas poucos evidentes em outros tempos, por mais que devam ser levadas em consideração as advertências sobre os possíveis impactos de formas de financiamento ilícitas, caso de Bruno Wanderley Reis[iv], e fortunas pessoais nos processos eleitorais.

Em tempos de crise, onde é difícil enxergar além do nevoeiro à frente, as eleições municipais fornecem indícios, mesmo que precários, para melhor compreender a conjuntura. A vitória de representantes comprometidos com a ampliação de direitos constitui dique fundamental, que logo mostrará seu valor, contra o processo de ataque à Constituição de 1988 inerente ao Golpe. Por outro lado, as massivas votações de figuras francamente refratárias a boa parte dos direitos previstos na Constituição, como o vereador mais votado no Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, mostram apoio popular a um movimento passível de destruir os consensos mínimos estabelecidos na redemocratização.

O cenário delineado sugere uma maior organização de grupos mais próximos de posições da extrema direita, com o surgimento de novos atores e uma radicalização de partidos, como o PSDB, que anteriormente recusavam a identificação com pautas conservadoras e reacionárias no campo da moral, da cultura e dos direitos individuais. Tal movimento foi hábil em criar, nesse cenário, um discurso fortemente articulado e bem divulgado, dentro e fora das redes sociais, de tom francamente antiesquerdista, requentando velhos motes, no campo da política e da cultura, que pareciam relegados ao ocaso. O desprezo pela posição diversa e a emergência de um discurso que vê na política um mal para a sociedade pode colocar em risco, a depender do cenário as eleições de 2018. A explícita adesão à exceção por meio do golpe pode, infelizmente, produzir novos frutos, mesmo que, no atual cenário, a candidatura de Geraldo Alckmin desponte como grande favorita.

Boa parte da esquerda ainda não consegue compreender corretamente o novo cenário de organização da direita, variando entre um desprezo pouco inteligente e uma polarização em termos nada produtivos. Conseguir entender e disputar com essa perspectiva é tarefa fundamental para uma reconstrução do campo progressista. Alguns passos promissores já foram dados nessas eleições, mas muito ainda precisa ser feito. É necessário um esforço de reencantamento da prática política, que consiga disputar os que migraram para a retórica do realismo complacente – pragmática apenas no discurso – e para a descrença nas virtudes do público. A tarefa não se restringirá a uma partido, qualquer que seja ele, mas demanda esforços maiores. O momento é de reconstrução.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

**Crédito da imagem: Acervo O Globo. Disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/voto-feminino-conquistado-nos-anos-30-mas-direito-do-analfabeto-sai-so-em-1985-14128281. Acesso em 03/10/2016.

[i] http://valterpomar.blogspot.com.br/2016/10/sobre-os-epitafios.html?m=1

[ii] https://revistaescuta.wordpress.com/2016/02/15/as-ressacas-de-junho/

[iii] http://grupo-demode.tumblr.com/post/151300334522/de-onde-veio-essa-absten%C3%A7%C3%A3o-toda

[iv] http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1819266-talvez-a-reforma-eleitoral-tenha-exagerado-na-dose-diz-cientista-politico.shtml

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