Pedro Luiz Lima*

Há que se duvidar sempre de afirmações meramente exclamativas sobre a efetividade dos efeitos emancipatórios das novas tecnologias de comunicação e das formas de sociabilidade que se desenvolveriam através de redes sociais. Feita a ressalva, parece fora de dúvida que a internet constitui meio propício para a divulgação de opiniões minoritárias e, além disso, para a crucial retificação dos abusos e das aberrações produzidas pela desfaçatez de classe característica da mídia oligopolizada tradicional. Neste quadro, ampliam-se as formas pelas quais a esquerda se faz ouvir na esfera pública e talvez valha retomar o velho debate sobre a legitimidade da intervenção nos canais midiáticos hegemônicos.

De que valem, por exemplo, as colunas semanais escritas por economistas, humoristas, filósofos e militantes de esquerda em um jornal alinhado como a Folha de São Paulo? Seriam eles os arautos da resistência, responsáveis por manter uma perspectiva contra-hegemônica em pleno olho do furacão? Ou, por outra, estariam apenas colaborando para a manutenção de um pluralismo editorial tão ostentado quanto falacioso? Será que os textos, compartilhando o espaço nobre da grande imprensa, conseguem persuadir eventuais leitores titubeantes em suas convicções? E, em caso afirmativo, será que isso se consegue em extensão que justifique a troca dos meios alternativos de difusão de conteúdo pela submissão aos mesmos veículos (às mesmas famílias) de sempre? Em outros termos, para pôr fim às questões preliminares: valeria pela demarcação de um território (algo que pudesse ser bradado como um “ainda existimos, ainda incomodamos”) ou estariam todos apenas consagrando a falsa diversidade de opiniões em meio a uma linha editorial de incontestável descaso com a democracia enquanto, claro, os indivíduos habilitados podem se vangloriar, no silêncio da egolatria, de terem sua relevância nacional atestada pela admissão nos jornalões?

As respostas podem variar de acordo com as circunstâncias e conforme os alvos da interrogação. Interessa, antes de tudo, reconhecer os traços gerais do problema para passarmos ao objetivo destas notas, que pretendem pontualmente tensionar os tênues limites entre a colaboração crítica e a crítica que colabora. O caso tratado a seguir, esclareça-se de partida, não foi escolhido por sua especial importância ou simplesmente por conta do emissor em questão. Pelo contrário, é da prosaica irrelevância deste caso específico que surge o interesse pelo seu conteúdo e pela forma que, banalizada, se torna espelho da prática corriqueira da grande mídia. Vamos a ele.

O filósofo Vladimir Safatle marca presença, desde há muito, em ambíguos espaços consagrados, menos pela audiência, e mais por serem dignos representantes do suposto pluralismo. Há poucos anos atrás ainda podíamos acompanhar semanalmente seus insights no “Jornal da Cultura”, principal programa de conteúdo jornalístico da TV Cultura, exibido ao vivo e em horário nobre. Ali era instado a tecer rápidos comentários sobre as notícias do momento, que podiam variar do aumento do preço da beterraba até um novo bombardeio das forças da paz em algum canto do Oriente Médio. Safatle também ostenta até os dias que correm uma coluna semanal na Folha, onde, longe do embaraço televisivo, parece livre para discorrer sobre o que bem quiser. Este sumariado histórico indica uma ativa preocupação em disputar os espaços da mídia tradicional, levando sua inquestionável perspectiva de esquerda para audiências que, eventualmente, não estariam acostumadas com essa forma de ver o mundo. Por esse ângulo, o filósofo se apresenta como legítimo intelectual público, disposto a romper com a torre de marfim, ultrapassar as limitações da especialização acadêmica, etc.

A ambientação nos espaços seletos da velha mídia pode gerar, contudo, hábitos pouco condizentes com a atividade intelectual, fazendo o tiro sair pela culatra – de modo que por vezes o intelectual público pode vir a apenas trocar um vazio, da especialização acadêmica, por outro, da produção midiática. Os imperativos da ligeireza, da brevidade e da contenção teórico-conceitual podem não apenas esvaziar de sentido a almejada colaboração crítica, como também chegam a domesticar de tal modo a fala que, quando menos se espera, se está a realizar o avesso do que se pretendia, legitimando a própria versão oficial com relação a qual se esperaria uma voz dissonante. Isso no melhor dos casos.

Pois bem, veja-se uma pequena entrevista concedida por Vladimir Safatle ao portal UOL no fatídico dia 14 de setembro de 2016 (http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/09/14/indiciamento-de-lula-e-uma-justica-eleitoralmente-interessada-diz-safatle.htm). A matéria foi publicada à noite, poucas horas depois do “espetáculo”, protagonizado pelos procuradores crédulos e tementes a Deus do Ministério Público Federal de Curitiba, no evento de apresentação da denúncia que envolve o ex-presidente Lula. Sob o título “Denúncia contra Lula é justa, mas tem interesse eleitoral, avalia Safatle”, a peça parece pretender convencer pela ponderação, apesar de adotar uma flagrante contradição como ponto de partida: se uma denúncia é justa, ela não pode se fundar em interesse eleitoral. Uma vez baseada em interesse eleitoral, ela extrapola as balizas da justiça. A conciliação entre justiça e interesses escusos é de impossível digestão, mas esse é o caminho da matéria, construída quase que exclusivamente de afirmações aspeadas do filósofo. Tudo se passa como se a empresa tivesse ido atrás de alguém da esquerda que pudesse chancelar a justiça da denúncia, e assim a voz da Razão se faria ouvir exatamente pela falsa ponderação e pelo comedimento que ela encerra. A denúncia seria justa, afinal, porque, no tatibitati das considerações veiculadas, “Lula fez suas escolhas e paga por elas”. Reitera-se, assim, o viés midiático que culpabiliza a priori o ex-presidente e, no passo seguinte, aponta-se para a seletividade da acusação. A justiça antecede o interesse eleitoral, que pode bem estar lá apenas como desnecessária coincidência. O efeito previsível desta dialética é que o leitor sacie seu desejo de criminalização de Lula, incorporando ao seu repertório o dado de que até a esquerda estaria convicta da justiça das denúncias. Esse é o efeito desejado; esse é o efeito que se alcança através da colaboração de Safatle.

A fala do filósofo, proferida de bate-pronto em cima dos acontecimentos, não chega a tangenciar a escandalosa partidarização do procedimento e do conteúdo da divulgação das denúncias. Tampouco menciona a acintosa desproporção entre os discursos acusatórios dos procuradores e a denúncia propriamente dita. Acima de tudo, o Safatle que aparece na peça do UOL parece preocupado em se firmar como portador de uma visão sobranceira à disputa política, proporcionando um momento, nem tão raro assim, em que a esquerda da esquerda se faz útil para as pretensões do poder constituído: “Aqueles que aplaudem a ação defendem que Lula fez a escolha de prática política e agora recebe as consequências pela complacência com o modo de governar baseado na corrupção. Já os que criticam apontam a ação como sendo eleitoralmente interessada. Mas ambos os lados têm razão”. Ser “eleitoralmente interessada” aparece quase como um componente exterior da ação do MPF, atributo secundário, como se o objetivo de impedir a candidatura do maior líder dos trabalhadores da história do Brasil fosse mero efeito colateral da devida condenação de Lula por sua “escolha de prática política”. Tornar a seletividade característica da Operação Lava-Jato um atributo acidental implica obscurecer seu elementar fundamento partidário: a razão de ser da denúncia passa assim ao segundo plano, e reproduz-se a desejada intuição de que apenas se opõem àquela inevitável condenação os mais exaltados membros da facção alvejada. Nenhuma palavra que contextualize o evento de 14 de setembro junto às outras práticas de perseguição política típicas dos movimentos do Partido da Justiça. Nenhuma ocorrência do incômodo “golpe”.

Neste perverso jogo de reciprocidade, em que o intelectual corre sempre o risco de estar trocando aquiescência por visibilidade, o aval à perspectiva midiática é reforçado pela forma com que a crítica termina por colaborar. Espera-se do filósofo que filosofe, ainda que nos estreitos limites do Portal UOL – e ele não falta à convocatória: “Como diz o velho Aristóteles, a boa política é formada por três princípios: equidade, proporcionalidade e reciprocidade. Mas não é algo que estamos vendo acontecer e isso é muito ruim”. Marcando presença, a filosofia, como é próprio dessas mastigações, resulta em meras platitudes edificantes e espremida pela necessidade de um rápido arremate chega a conclusões absolutamente infantis (“isso é muito ruim”). A crítica dilui-se em um lamento indeterminado, com o qual todos podem concordar, e assim aprimora-se a concepção média do público-alvo acerca da virtual condenação do ex-presidente. A partir de agora, a defesa da caça a Lula pode ser feita com doses de filosofia em meio aos brados enfurecidos dos ex-batedores de panelas.

Safatle é um intelectual de esquerda, que não teme dizer o seu nome, e portanto não poderia faltar uma consideração sobre o sentido histórico do processo para essa fração da sociedade brasileira. Incorporado por causa do valoroso epíteto que sempre o acompanha, ele tece um diagnóstico, devidamente destacado ao final da matéria, que bem poderia ter saído da pena de qualquer ideólogo da direita: “A principal lição para esquerda brasileira é a consequência de quando se abre mão do comprometimento político. Ela se rendeu à corrupção sistemática vista como condição para governabilidade”. Com o fecho de ouro, somos levados a crer que um dos porta-vozes da esquerda na trincheira do establishment endossa precisamente a acusação que norteou a pantomima dos procuradores curitibanos, segundo a qual Lula seria o comandante da “propinocracia”. Nem poderíamos pensar outra coisa, pelo que está exposto – e esse endosso veio a jato, no calor dos acontecimentos.

Concebamos, em nome do benefício da dúvida, a hipótese de que a matéria teria deturpado o real sentido das palavras do filósofo através de uma edição enviesada, enfatizando o que foi dito de passagem, apagando trechos menos afins à mensagem que a empresa desde sempre pretendia veicular. Fosse este o caso, não faltariam mecanismos para Safatle denunciar o modo como foi instrumentalizado pela má-fé da jornalista: teríamos visto manifestações de repúdio em suas páginas no Twitter e no Facebook acusando o viés do título da peça, o recorte das falas e o absurdo das citações em destaque. Poderíamos até, quem sabe, ver o uspiano declarar publicamente que a partir de então não mais emprestaria sua acuidade crítica à despudorada mediação do grupo Folha-UOL.

Mas o silêncio diz o contrário. Não há nada de errado com a peça divulgada, e o circuito das colaborações não pode parar. No fim das contas, bastante pior do que a ocasional ingenuidade de um exercício de relativização que, à revelia, termine adaptado à dinâmica de reprodução da ideologia dominante é a afinidade eletiva que se insinua, espontaneamente, entre o sentido da crítica e a razão pela qual a empresa precisa dela. De mãos dadas, os antagonistas celebrarão as virtudes da convivência tolerante e poderão, todos, dormir o sono dos justos e interessados.

* Pedro Luiz Lima é doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), além de colaborador da Escuta.

**Crédito da imagem: http://escoladacidade.org/bau/03-vladimir-safatle-01/ Acesso em 21/09/2016.

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